terça-feira, 15 de março de 2016

FOTOSSÍNTESE DA VIAGEM FINAL

Poucas horas faltarão para crer o incrível. Sei do quanto conversávamos sobre a morte. Acompanhá-lo-emos,  desde o necrotério - “já lá vão quatro dias(Jo, 11,17) – até ao átrio do  optado holocausto da cremação, enquanto vou soletrando esta fraterna homenagem para o Ângelo e, se possível, perene bálsamo para a Ana.


                                                                                   
Mais doze pancadas
No mostrador daquela porta
A que chamam câmara morta
E sairão mudas geladas
Canções poemas gargalhadas
Da véspera
Das vésperas  de outrora

Agora
Outra porta te reclama
Onde o gelo se faz chama

E sairão
Aladas crepitantes
Cinzas que dão
Fumo branco
Volutas diamantes
A quem fica nesta margem

Estranha fotossíntese da última viagem:
Contigo vão o moinho a lenha e as ossadas
Connosco deixas
O canto livre das estradas
O voo astral da tua Ideia
A manhã clara das tuas gargalhadas

Que a nossa mão semeará
Até que chegue aquela badalada
De levarmos no saco da bagagem 
As cinzas que nos vestem

De novo o mesmo fumo branco sairá
Na derradeira torre de menagem
Hoje tua – amanhã nossa

Oh portentosa
Estranha fotossíntese da última viagem  

15.Mar.16

Martins Júnior

domingo, 13 de março de 2016

DOMINGO CLARO-ESCURO EM MÊS DE PRIMAVERA - (fragmentos de um diário)



        Domingo, 13, Faltam oito dias para ouvir-se no calendário sonoro das horas o repique a primavera. Está chegando a manhã clara.
Mas antes, atravesso o túnel sombrio que leva à cama do hospital. Fui vê-la, aquela mulher que, mesmo doente, era a saúde e a luz do homem que a amava. Quanto ele a amava! Todos os dias subia à montanha para  alentar os pés doridos da resignada sofredora. E todas as noites esperava-a em casa, entre quatro paredes onde faltava o  sol e sobrava a esperança de vê-la a seu lado.
Breve foi a visita. Mais breves foram as palavras. Da sua boca, o desabafo apertado: ”Ainda não creio  que seja verdade… Como é que eu hei-de entrar naquela casa?”...
A verdade é que o seu homem já não estava naquela casa. Tinham-no levado, cadáver, para a morgue. O coração em vigília que sempre a esperava nas nocturnas paredes  do quarto desértico, afinal dera imprevistamente o sinal derradeiro. Acabara-se o tempo de espera.
E o domingo 13, claro prenúncio da primavera à porta, tornou-se escuro, como a noite da véspera que levou o companheiro da alegria e  da coragem… O escuro fez-se então negritude de um universal inverno ao ver, à luz de  relâmpago fugaz, que naquela cama de hospital estavam milhares e milhões de enxergas com gente dentro, esmagada pelo desgosto de não ter mais à sua espera  quem  sempre a esperara.
…............................................

No texto bíblico de domingo 13, uma estrela cadente descia diante dos meus olhos:
O Senhor abriu estradas através do mar
Veredas por entre as torrentes bravias…
Eis o que diz o Senhor:
Farei brotar água  no deserto
Rios na terra árida
Para matar a sede ao Meu Povo  ( Isaías, 43, 16-21)
Só penso numa coisa.
Olhar e lançar-me em frente
Continuar a correr até alcançar a meta (Paulo aos Filip, 3, 8-15)
………................................

Foi então que a estrela cadente transfigurou-se em voo ascendente.
Olhei-a de novo, a face da mulher, como que sintonizada com o pensamento íntimo que me penetrara até aos ossos. Era ela a efígie serena de uma heroína vencedora no términus da batalha. Interiorizei bem fundo de mim a resposta afirmativa que imaginei ler-lhe nos olhos nimbados de um estranho brilho: “ O adeus final de quem amamos será o chão fértil  para alcançar a meta que sonhamos?”
E o Domingo 13,  de claro-escuro passou ao alto esplendor de um Dia Novo!

13.Mar.16
Martins Júnior

sexta-feira, 11 de março de 2016

CARTA FORA DO BARALHO? OU TALVEZ NÃO!



Sei que hoje, sexta-feira, arrisco-me a ser carta fora do baralho. Deste baralho bailado do quotidiano. Hoje,  não me detenho em nenhum trunfo,  nenhum  “tiro”  jornalístico por mais vistosos que se apresentem. É verdade que alguém tem de publicitar, outrem terá de comentar, os leitores/espectadores precisam de quem lhes dê sinais de trânsito na encruzilhada dos acontecimentos para saber interpretá-los e direccioná-los.
Mas hoje, não. Deixo a casuística de lado, volto as costas ao foguetório das notícias fugazes e entro na galáxia dos tempos. E sinto-me outro, siderado, espraiado num mundo outro, o qual, sendo nosso, chega a  parecer estranho. É o que acontece a quem viaja: não tem lugar onde colocar o televisor, não tem tempo para assentar o olhar na almofada do papel escrito. É um andar sem parar, a não ser quando se espera pela saída do avião ou o atraso do comboio. E é aí que outros ares podem refrescar o nosso entendimento, repousar a vista e a mente. E é aí, também, que vêm à tona do quotidiano os estados de alma.
         Peço e agradeço  a paciência de partilhar comigo o estado de alma de quem, aguardando o toque horário, entrou numa dessas bibliotecas de circunstância a que chamam feira de livros, informal e aberta todo o ano, ali mesmo, à mão-de-semear. Primeiro, timidamente, quase que assustado perante a vastidão do recinto e depois, seduzido como um adolescente pelo rosto aliciante de cada título, o seguinte mais persuasivo que o anterior. Entra-se na galáxia de novos sóis e novos séculos. Apercebemo-nos de miríades de estrelas, gente que povoa a amplidão do universo a que pertencemos, de quem nunca nos foi apresentado mas está ali convidando-nos a entrar em sua casa, no seu pensamento, no seu coração. Uns são poetas de antiquíssimas civilizações, outros dramaturgos, outros cientistas e recriadores da vida. A ansiedade cresce - uma ansiedade positiva que tem um misto de êxtase e nostalgia por não termos hipótese de aceitar-lhes o convite, de nos sentarmos à sua mesa e beber, beber até à exaustão os rios da inspiração, a história de outras vidas que, mesmo distantes, se cruzam com as nossas. Ali se sente na pele a lógica do velho aforismo, retomado por Goethe, no seu “Fausto”: Ars longa, vita brevis – “a tarefa é imensa, mas a vida é tão breve”. Só de imaginar que os anos passam e nunca teremos oportunidade de entrar em contacto com os que outrora, ontem e hoje, nos escreveram  e ainda permanecem, aperta-nos um travo de culpa e de mágoa por não termos tido o bom apetite ou o tempo disponível para saborearmos o maná garantido que nos foi legado, ali na palma da nossa mão. Vamo-nos perdendo pelas esquinas do quotidiano, baralhados entre notícias frouxas, ocasionalmente fascinantes dos casos do dia, mas que rapidamente se esfumam na vertigem das horas. Seria preciso um nutricionista do espírito para nos ensinar a preferir os produtos psico-biológicos que alimentam a personalidade e nos fazem descodificar a sinalética das  encruzilhadas da vida.     
         Apetece ficar todo o tempo neste imenso rectângulo, até perder o comboio. Apetece trazer num braçado festivo a herança viva dos companheiros de estrada que nos precederam e assimilar as mensagens que ao nosso telemóvel projectam os viajantes da nossa era.
É certo que não nos podemos alhear do que se passa à nossa volta. Certo é, também,  pesquisar  noticiaristas, opinadores, intérpretes do actual momento histórico.  Incontornável a consulta de e-books, ipads, net e afins. Mas é deplorável a opção do descartável que domina a cultura,  até nos programas escolares que menosprezam os mestres da nossa “Pátria – a Língua Portuguesa”. Em contrapartida, quanto nos conforta e mobiliza ver jovens (e não são tão poucos) frequentadores estudiosos, aprofundando o conhecimento nas salas de biblioteca!
         Não era minha intenção moralizar, mas tão-só alargar um “estado-de-alma”  que voltou a dominar-me na feira corrente da estação ferroviária. Para ser coerente comigo mesmo, seria preferível propor a leitura de um livro essencial, em vez da folha volante destes “dias ímpares”… Fique, ao menos, a mensagem estruturante aqui entregue.

11.Mar.16
Martins Júnior

quarta-feira, 9 de março de 2016

NO DIA DE PRESIDENTES: PRESÍDIOS E PRECEDENTES


Passeasse hoje o monóculo do nosso Eça pela baixa da capital e, de novo, sentenciaria: Afinal continuamos como no século XIX, “Portugal é Lisboa, o resto é paisagem”. Nunca foi tão adejada e badalada a estreia de um Presidente da República, a sua entrada triunfal e triunfalista - com manga franciscana de poupadinha e sem jantares de gala, anunciava o anfitrião - mas  quem contasse as viagens e ajudas de custo que as centenas de convidados especiais custaram aos erários públicos de origem, a vulgarização do evento (extensão ao vulgo) e sua proletarização (concertos grátis à plebe na Praça do Município) ver-se-ia que a factura do arraial não foi assim tão modesta. Será talvez a nova imagem de marca: substituir os salões palacianos pela calçadinha das ruas e praças públicas. Em 10 de Junho, já está na agenda, Portugal será Paris e o resto paisagem.
         Presidência nova, sem dúvida, mas sempre Presidência. Não será rábula o que proponho fazer, mas anda por aí perto: desfibrar o tecido de sempre, chamado Presidente e Presidência. Tem algum interesse e não menos piada.
         Presidente (do latim praesidere=estar sentado à frente) significará aquele que agarrou a poltrona do poder e ali fica, extático, majestático, como o Filho que não se cansa “de estar sempre sentado à direita de Deus-Pai” ou como o conselheiro Acácio que lhe basta estender o braço lento para provar o seu presidencialismo autoritário. Temo-los por tudo quanto é  canto. Curtidos, anafados, guturais e ocos como latas vazias que crescem na mesma proporção do vácuo do seu cérebro. Então se têm dons clericais ou afins, mais alargados e pesados se tornam com a mitra de presidentes canónicos. Todos por junto, são os que nascem deitados para presidir sentados.
         Mas outros há que se cansam do sofá e põem-se num alvoroço de parafuso eléctrico, saltando, gesticulando, perorando, ora na aldeia, ora na capital, ora no estrangeiro, não há quem os pare, pulam num ápice da inauguração da bomba de gasóleo para os urinóis do balneário do clube e, daí, em arroubos de exaltação febril, correm ao concerto para criancinhas desfavorecidas. “Barco parado não ganha frete”, isto é, não ganha votos, comenta-lhes o povo nas traseiras presidenciais. Estes são iguais aos primeiros: presidentes automáticos que com o ruído escondem o vazio de ideias.
         Nascidos na mesma ninhada dos “eléctricos” surgem os que, elidindo o id, em vez de presidentes, tornam-se presentes. Em tudo. Ubíquos, pidescos, temerários nos juízos, nada deixam escapar ao cutelo do poder. Como zombies artesanais ou drones de fábrica, seduzem, controlam, ameaçam. E matam. Ou seja, vingam-se, saneiam quem lhes atravessa no atalho.
         Nem tudo, porém, lhes corre de vento em popa. Porque no mesmo signo etimológico de praesidens (presidente) está uma armadilha chamada praesidium (prisão). Não foi por acaso que o estreante inquilino de Belém teve necessidade de, na ultima lectio, dizer aos alunos de Direito: “A mágoa que levo é a perda da minha liberdade”. Com maior ou menor autenticidade, o facto é que o meio ecológico de um presidente é um presídio. Prisão, onde as grades são as responsabilidades, por onde entra o ar puro do interesse público, aquele  bem-estar  que lá fora espera  a população constituinte, autora do seu mandato. Por isso, todo o verdadeiro presidente deveria aspirar àquele horizonte de que falava Gilbert Cesbron: “A minha prisão é um reino”. Se assim não for, aguarda-o uma outra prisão, essa humilhante, como se tem visto nalguns casos bem conhecidos.

         Poderia encerrar esta digressão pela galeria de presidentes, aproximando a popular expressão precedente, a qual, parecendo uma corruptela de linguagem, acaba por encerrar um sério aviso a quem alcança o patamar superior da governação, seja local, regional ou nacional. Na sua raiz originária, preceder, ao mesmo tempo que indica prioridade, significa também ceder o lugar (cedere, do latim) afastar-se. Sem mais delongas, o aviso aos presidentes é aquele a que já me referi em  circunstâncias idênticas - a canção do “SG gigante” (Sérgio Godinho, como o cognominou o Prof. Arnaldo Saraiva): “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”. Da tua vida de presidente. Queira ou não queira, o senhor precedente terá, um dia, de dar o lugar a outro.
09.Mar.16
Martins Júnior

segunda-feira, 7 de março de 2016

AS MULHERES NA TRAGÉDIA MAIOR DE JERUSALÉM – ANO XXXIII


É da praxe, hoje e  amanhã, pintar de feminino as páginas e os portais de tudo quanto é editorial. Porque estamos na envolvência do  artificioso Dia da Mulher. Chamo “oficioso”, interpelando-me, a mim  e ao mundo,  se todos os dias e todas as horas não lhe pertencessem, a ela, princípio activo da Vida! Vou, pois, trazê-la para a nossa tertúlia afectiva desta passagem de nível de 7  para 8 de Março.
Mas não é só – nem tanto – por isso. É também pelo mesmo impulso de entrar, com olhos de ver, no Processo de Jesus,  continuando a exposição do dia  25 de Fevereiro. Tentarei perceber qual o papel da Mulher em toda essa tramitação. Não serei, certamente, coincidente com as interpretações mórbidas da devoção  à deprimida “via-sacra” com que a tradição  trata as pegadas do Caminho da Cruz. Porque o que me atrai é a análise objectiva dos factos , no seu concreto e rigoroso contexto histórico-social.  
Por esta pista, penso alcançar a visão exacta da Mulher: uma personalidade firme,  coerente, inquebrantável, a que o pulsar do coração imprime aquela razão de que “o amor é mais forte que a morte”.  Para aí chegar, situei-me numa das colinas da Jerusalém do ano XXXIII, olhei  a paisagem sócio-político-religiosa da época em que a ditadura do Templo ombreava, senão mesmo, suplantava a ditadura do Império. O nazareno “Filho do carpinteiro” mestre José, além de servente de oficina, um proletário portanto, era tido aos olhos dos dois poderes como um perigoso agitador público. Não tinha exército, não tinha púlpito,  não tinha banca. Nem o  traje o diferenciava da “arraia-miuda” do seu tempo. Por isso, tinha contra si a omnipresente vigilância do estado romano e do estado judaico, eram marcados os seus fãs e só não o liquidaram mais cedo porque o seu escudo estava na multidão crescente que dia-a-dia o acompanhava. Ao mínimo sinal de dispersão, caíam-lhe em cima. Ontem como hoje, os ditadores temem o Povo unido!
É aqui mesmo que entram as mulheres de Jerusalém. Quantas delas se não deixaram fascinar pelo olhar meigo e vigoroso do Nazareno, pela sua  palavra penetrante e aconchegada?!... No emocionante texto d’O Processo de Jesus, Diego Fabri revela um dos mais convincentes libelos  acusatórios, o que foi atirado por Caifás “Esse homem é um sedutor das multidões”. Mas na hora das trevas, desde aquela noite trágica em que  traiçoeiramente foi denunciado e entregue às garras do poder, todos os “amigos do peito”  dispersaram, um deles até, transido de medo,  jurou que não o conhecia. Quem ficou? Quem o acompanhou até ao patíbulo?...  As mulheres. Primeiro a Mãe, que deu com ele numa das empoeiradas ruas da velha cidade, abandonado aos jagunços contratados pelo poder. Os dois olhares, que dolorosamente se cruzaram, foram como dois rios que, em vez de correr para a foz do desânimo, ganharam força hercúlea para subir à nascente, às fontes do monte  Calvário.
Depois, veio a “Verónica”, designação que passou a identificar aquela mulher anónima que teve a suprema ousadia de romper o pelotão dos soldados e carrascos afim de limpar a face irreconhecível daquele que sempre o conheceu, de porte atraente e afável, compreensivo e bondoso para todos. Não consigo passar adiante sem demorar-me nesta sexta estação: aquela mulher, coração de gigante, não consentiu no que via,  furou a muralha de ferro bruto que esmagava o condenado e apresentou a arma que a todos deixou estarrecidos: uma toalha de linho puro a restituir-lhe o rosto de outrora. Eu faço ideia dos empurrões, dos insultos e palavrões de caserna, vociferados contra ela e o seu Mestre. Mas não hesitou. Vejo nela uma Joana d’Arc, uma Maria da Fonte, uma Catarina Eufémia! Mulheres de luta e de coragem!
Outras mulheres, nos quintais e nas portas entreabertas das suas casas, com medo das retaliações dos olheiros do poder, ou acompanhando na retaguarda o lúgubre cortejo, enxugavam furtivas lágrimas de compungida indignação. A essas o Mestre, em agradecimento,  ditou-lhes a palavra de ordem que até hoje nos é dirigida: “Não choreis por mim, mas pelos vossos filhos” (Lc.23,28), o mesmo que dissesse: “Por  mim e do que me fazem, ninguém pene, ninguém se indigne. Indignai-vos, antes, pelo que os poderosos vos fazem a vós e pior farão ao vosso Povo”. Mais que as choronas "devotas", o nosso J. Cristo, quere-as, as mulheres, intrépidas e lutadoras.  
Até ao último suspiro, como se fossem estátuas vivas da Dor, lá estavam elas, sempre as mulheres: “Sua Mãe, a irmã dela, Maria de Cléofas, e Maria Madalena” (Jo, 19, 25). Dos homens, dos Doze, nem sombra. Todos se acobardaram, excepto o mais  jovem, João, filho adoptivo de Maria. E, para recebê-lo nos braços, já morto, sempre uma mulher, a Mãe, líder inspiradora e silenciosa da luta do seu Filho!
Por isso, mereceram as mulheres erguer, como pioneiras bandeirantes, a grande mensagem da Vitória na manhã da Páscoa do Ano XXXIII.
Mulheres que vêem e entendem. Mulheres que lutam e libertam.
Mulheres de ontem!
Mulheres de hoje!
Mulheres de sempre!

07.Mar.16

Martins Júnior

sábado, 5 de março de 2016

FUTEBOL E … futebóis --- HUMANIZAR O DESPORTO!


Quem diria que hoje seria capaz de equipar-me de farda sabatina e luvas domingueiras para celebrar, não os futebóis, mas o Futebol?! Nem sequer para agitar bandeiras em furação nesta noite entre os dois vizinhos da segunda circular. Muito pelo contrário.
Por isso, distingo entre Futebol e futebóis. Destes, no plural minúsculo, já me ocupei o suficiente noutra altura. Considero um atentado às teclas do meu computador obrigá-las a gemer sob os pitões dos novos gladiadores do século XXI para enaltecer os malefícios marginais dos futebóis, a corrupção que escondem nas chuteiras-carteiras dos dirigentes, os canais arbitrários por onde circulam dinheiros sujos, os correios de droga onde acabam, como infelizes vítimas de um suicídio-a-prazo ,  grandes “heróis” dos estádios, enfim e sobretudo, o tráfego de pernas e braços e cabeças que, lá por serem de ouro milionário, não deixam de ser tráfego legalizado de seres humanos. “Vamos vender o fulano de tal, vamos comprar o beltrano, trocar o sicrano” – uma linguagem aviltante, inferior à dos mais baixos contrabandistas de feira!
Hoje levanto o estandarte do humanismo do Futebol-Desporto-Crescimento sustentado da personalidade humana. E faço-o convictamente contra os mercados do descarte em que caíram tantos jovens às mãos de empresas futebolísticas, gigantescas ventosas de sugar nervos e ossos, triturando-os em máquinas de fazer fortuna e, depois, atirando-os para o caixote dos resíduos mal cheirosos. Quem conhece os carburadores destas máquinas sabe de muitos e tantos, outrora levados aos ombros e depois arrumados nas prateleiras do mais desumano esquecimento.
Por isso rendo hoje a mais justa homenagem aos dirigentes do clube que teve a honra de contar no seu plantel com o grande atleta VICENTE LUCAS. Foi ele uma das glórias da formação do Restelo. Os “ecrãs” e as impressoras  não lhes deram a notoriedade que mereciam, tanto ao defesa central, como ao clube e seus dirigentes. A notícia é tão lacónica quanto eloquente: “Vicente Lucas, 80 anos,  moçambicano, irmão do famoso Matateu e, como este, ao serviço do FCB, vencedor da Taça de Portugal 59/60, internacional vinte vezes, ficando memorável a vitória contra o Brasil (1-0) em que foi mundialmente conhecido como “o homem que meteu Pelé no bolso”  -    pois, Vicente  foi vítima de gangrena e, por isso, teve que ser-lhe amputado o pé esquerdo.  A direcção do clube tem-lhe dedicado toda a atenção ao longo deste percurso crítico   e,  porque o único filho vivo está a centenas de quilómetros de Lisboa, já escolheu um lar confortável para o seu inesquecível defesa central”.
Vicente Lucas deu imensas alegrias aos Belenenses e ao país desportivo.. Aquele pé, agora amputado,  já foi um pé-de-ouro. Hoje, para muitos que enchem os estádios não passa de uma múmia e menos que isso. Mas houve alguém que resistiu ao mercado descartável de gente humana e bradou: “Vicente és nosso… estás vivo… o teu pé inexistente ainda é uma memória vitoriosa para os verdadeiros amantes do Futebol, em especial para a massa associativa da Cruz de Belém”!  
É esta a exaltação dos indestrutíveis valores humanos do Futebol e de todo o verdadeiro Desporto. É esta a voz que sobressai  do gesto da direcção e dos amigos do CFB. Mesmo sonegada da grande e falaciosa comunicação social, essa silenciosa mensagem, em vida do atleta, fala mais alto que a paranóia ululante  de muitos caldeirões dos futebóis.
Bem hajam os seus promotores!

05.Mar.16

Martins Júnior    

quinta-feira, 3 de março de 2016

Na hora dos lenços brancos – FATIMA, MAOMÉ, ISLÃO E “ESTA GERAÇÃO”


 Imagino-me no meio da multidão, cujos lenços brancos assinalam à Imagem a hora de sair  -  não apenas esta multidão e esta Senhora mas às treze multidões que fazem o mesmo às treze iguaizinhas imagens que andam por essas terras além  - e, por um momento, dou comigo a pensar  que as imensas gerações de muçulmanos, desde o século VIII até ao presente, fizeram ou seriam capazes de fazer o mesmo, repetindo com lágrimas nos olhos “Oh Fátima, adeus”, mas pensando noutra Fátima, a que estará na origem da toponímia que deu título àquela sediada na Cova da Iria, concelho de Ourém.
         Sem surpresa, ouço muita gente a interpelar-me: ”Mas que salada russa é essa de misturar no mesmo prato  a Imagem Peregrina com Maomé e a religião muçulmana?... É o que tentarei resumir em poucas palavras.
         Se muita gente pergunta é sinal que pouca gente conhece que FÁTIMA é  o nome que o fundador do Islão deu à filha, fruto da união com  Cadija, uma das suas nove mulheres. Esta Fátima casou mais tarde com Ali, tendo então iniciado a grande dinastia dos Fatimidas, o único ramo que, após sucessivas denominações (duodecímanos, septimanos) são considerados pelos xiitas como  o único e legítimo califado  descendente de  Maomé. Consultando os manuais da especialidade ( Maomé, a Palavra de Alá, de Anne-Marie Delcambre, O Islamismo, de John Alden Williams, Grande Enciclopédia, entre outros)  lê-se que “Aquando da Reconquista Cristã aos árabes ocupantes do território, uma princesa moura, de nome Fátima, fora aprisionada  pelo exército  cristão  e dada depois em casamento ao Conde de Ourém”,  permanecendo a designação original dada  àquelas terras, em homenagem aos antepassados da princesa  homónima.
         Com esta breve incursão pela história que até nós chegou, ficarão muitos devotos irremediavelmente desiludidos ao saber que Fátima ( cuja devoção começou há cem anos)  não é nome nem sobrenome de Maria, Mãe de Jesus, mas tão-só o nome de uma terra dedicada ou consagrada, desde há séculos,  à filha de Maomé, fundador da religião muçulmana. Por isso que é lícito concluir que antes de nós, os  cristãos, já os muros ou muçulmanos teriam entoado loas e cânticos à sua “Santa Fátima”, a mãe dos primeiros fundadores do Império Fatimida, seus sherifes e scígidas.
As voltas que o mundo dá!  Tal como com a colina do Vaticano onde Nero mandou queimar, vivos, os cristãos – e hoje é o mesmo  Vaticano a magnificente e soberana sede do Cristianismo católico! Tal como as  dioceses cristãs do Norte de África, Cartago, Antioquia,  Hipona, Damasco, outrora florescentes e hoje entregues à religião e ao terror islâmicos!
De onde se conclui que são os homens que fazem as religiões, isto é, a forma como interpretam a crença, o invisível, numa palavra, o sagrado. São as pessoas que sacralizam - ou demonizam! - os ambientes, a uns tornando-os santuários e a outros transformando-os em infernos. L’enfer sont les autres, acode-me à mente Jean Paul Sartre. E acrescento eu: L’enfer sommes nous.
De onde também se impõe o corolário lógico: se as treze imagens, feitas por José Tedim, o autor da Peregrina, são mais valiosas que as outras, mais modestas,  que temos nos nossos templos ou nas nossas casas, então caímos  na mais perniciosa  idolatria! E não podemos parar no raciocínio: se a  Senhora faz mais graças e  milagres a quem vai à Cova da Iria e não os faz  a um pobre ou doente que não tem  hipótese de lá ir, então está a dizer-se que Ela não é Boa Mãe nem Boa Mulher. É essencial purificar a nossa crença. Se a levamos ao fio ardente da insensata emotividade,  cuidado, porque há outras liturgias ou outras seitas que sabem explorar muito melhor o filão do sensacionalismo incontrolado. E aí arrastam muito mais! É o que se tem visto: o crescimento de certos estilos marginais, não reconhecidos pela Igreja, mesmo à nossa beira, mesmo nas barbas do palácio da diocese!
Aos que se aproveitam dos momentos de alucinação colectiva na mira de uma imagem supostamente milagrosa, seria preciso bradar à sua consciência a imprecação do nosso J.Cristo aos fariseus e aos sumos-sacerdotes que o desafiavam na arena do sensacionalismo: “Que geração é esta, má e adúltera, que me pede um sinal, um milagre!  (Mt. 12, 39; Lc. 11, 29-30). E, mais veemente, em Mc8, 12.: “Por que me pede esta geração um sinal dos céus? Então sou eu que vos asseguro, para vós não haverá sinal nenhum”!
 Levem a Imagem, mas deixem a Senhora.
Mesmo que não me faça nenhum milagre, gosto muito dela!


03.Mar.16
Martins Júnior