sexta-feira, 13 de maio de 2016

A VENDA DE LEMBRANÇAS E PRESENTES ATINGE 30 MILHÕES… UM QUARTO, POR UMA NOITE, 300 EUROS… HOTEIS ESGOTADOS EM 2017…

                                                       


Hoje Portugal veste-se de treze. Logo hoje, sexta-feira. dia treze – a data “fatídica” que aterrorizava Frei Dinis, das Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. O dia em que o tão poderoso quanto supersticioso “Rei” Roberto Carlos nunca sobe a um palco para cantar. Per fas et nefas (”seja como for”) o certo é que, em chegando a Maio, crente que reze e turista que se preze envergam o nº13 de uniforme. Agitadas as campânulas dos corações, todos de longe ou de perto acorrem ao Santuário que tomou por toponímia o nome da filha de Maomé, “Fatuma”, de seu muçulmano baptizo.
Pisando o chão da Cova da Iria ninguém ouse pisar a crença de cada qual. Mora no mais secreto e indizível Tabor a sua fé, fonte de todos os gestos e expressões. É nesta postura, de sentinela em sentido, que me perfilo, todas as vezes que por lá passo.
Nem sempre é esse, porém, o retrato que nos devolvem os comunicadores, os propagandistas, os que vestem 13, só para fora. Dou por (mau) exemplo, os títulos jornalísticos que transcrevi  em epígrafe:   “Fátima, o maior centro europeu de turismo religioso… 30 milhões são negociados em presentes, imagens, terços, medalhinhas. Até a garrafinha de água, 14cm, vende-se por 5,50€…  Para o próximo ano, o do centenário, já estão esgotados os hotéis num perímetro de 50 KM. Cada quarto, por uma noite, custa 300 euros.
   Entre os muitos jogos infantis,  vem também o velho “jogo da glória”  que mistura dados de póker e pastorinhos a andar, a andar, até chegar a um desenho pintado de coração vermelho no meio de um  cartão e a que dão o pomposo cognome de “Coração de Jesus”.
Isto já me está a causar urticária no cérebro, só de  tragar as gordas parangonas dos jornais. Para cúmulo, caem-me os olhos e cai-me a fé quando vejo numa revista hebdomadária um anúncio, tipo descoberta das ondas gravitacionais, que reza assim, ou mais do que assim: Marcelo Rebelo de Sousa, Soares dos Santos,   Mota Engil e oum empresário obcecado  deram as mãos para produzir proximamente um filme de animação  ( um filme de milhões) sobre o Papa, os pastorinhos e Nossa Senhora, com vozes de artistas em fundo.
Nesta enorme redoma de um sol rolante, de várias cores ( como a que fez manchete em determinado jornal do incrível) já não se sabe onde pára Nossa Senhora, a da Azinheira. Onde a mensagem de Maria de Nazaré? Onde a estreita vereda que nos leva até junto de Seu Filho?
Permitam-me expressar o repúdio visceral que me assoma  quando vejo acontecimentos distintos, sublimes iniciativas culturais, a arte, a música e a poesia, os livros,  ficarem reduzidos a maços de cifras de  vendas e cheques bancários. Revolta-me até a distorção do próprio desporto, o futebol por ex., transformar o talento atlético, o rectângulo, a baliza, o relvado, os árbitros, a cabeça e os pés,  embrulhados e mensurados pelo cobertor de notas dos empresários agiotas!
Mas insuportável, nauseabundo mesmo, é que isto se passe no Altar do Mundo ou em qualquer altar de aldeia, onde deve imperar a transparência do sagrado, o intimismo inacessível de  alma  que conduz  à  mais pura espiritualidade. Não suporto. Abomino. Fujo a sete léguas deste sacrílego incesto, vergonhosamente praticado diante do Altar para  espectáculo mundano. Não vou, nunca irei por aí!
 Se não incomodar seja quem for, atrevo-me a confessar que  não me revejo em certas devoções exibicionistas, algumas delas marcadas de um doentio masoquismo e, depois,  marteladas pela imagem dos áudio. visuais que nos  chegam a casa. Sinto ressoar aos meus ouvidos o doce rebate do Nazareno: Quando jejuares e fizeres penitência, não desfigures a face como os fariseus hipócritas para serem vistos. Pelo contrário, lava o teu rosto, perfuma a tua cabeça… e o teu Pai, que vê no oculto, dar-te-á a recompensa . (Mt.6,17). E ainda: O bem que fez a tua  mão direita, que o não saiba a tua mão esquerda. (Mt.6,3)
Quero ficar hoje despido da camisola 13. Prefiro revestir-me da  transparente beleza daquela mensagem que meditei com os crentes  no primeiro acto da manhã.  O nosso J:Cristo respondia assim  a quem lhe trouxera um  recado da “Tua Mãe e dos Teus irmãos que querem falar contigo”:  Quem é minha Mãe e quem são os meus Irmãos? --- São os que fazem a vontade do Meu Pai. (Lc.8,21).   
O resto é paisagem.


13.Mai.16

Martins Júnior

quarta-feira, 11 de maio de 2016

BATALHÃO DE CRIANÇAS FARDADAS DE AMARELO

             


Por hoje, vou ficar-me pela mera factualidade do quotidiano, prescindindo de palpites, conjecturas ou ideologias. Embora tudo isto seja indissociável da interpretação factual, deixarei os seus conteúdos para análise futura. Sobretudo, porque, no caso em apreço, do que mais se tem falado é de ideologias colaterais em vez de constatar os factos reais.
Refiro-me ao tumulto que se levantou no país inteiro depois que o Ministro da Educação propôs – ainda sem decisão legislativa – acerca do magno problema da bifurcação do ensino em Portugal: o público e o privado. Que caminho a seguir perante duas soluções para um mesmo problema: deverá  o Estado subsidiar escolas privadas na freguesia ou no sítio onde tem a seu cargo escolas públicas?
Vamos aos factos. Aqui em Machico-Freguesia, a partir das zonas exteriores ao perímetro urbano, mais precisamente, Piquinho, Caramanchão, Preces, Maroços,  Ribeira Grande, Ribeira Seca, Poço do Gil. Em toda esta área, funciona uma escola privada e duas públicas. A escola privada possui 146 alunos. Das públicas, uma tem  67 alunos e a outra 73. Feitas as contas, a escola privada ultrapassa o total das duas escolas públicas. No entanto, estas têm capacidade (falo da escola da Ribeira Seca, com oito salas) para receber o dobro dos discentes. Aliás, este estabelecimento foi construído após lutas resistentes da população contra a inércia do governo. É dotada de parques de recreio e desporto, cantina e demais anexos inerentes à função educativa. Mais gravosa é a condição do confortável estabelecimento escolar do Caramanchão-Preces que se encontra encerrado.
E logo sai a primeira pergunta: será legítimo que o Estado deixe ao abandono instalações e equipamentos modelares e vá subsidiar uma – só uma! – escola privada dentro da mesma circunscrição geográfica?... Poderá o Estado atirar ao entulho da  degradação  um imóvel construído com os impostos da população?... Deixa vazias as suas escolas para abarrotar de gente uma – só uma” – escola privada!
Daqui saem aos pulos sérias perguntas, reflexões, futuras  conclusões. Limito-me a transcrever o comentário de uma docente: “As nossas escolas públicas ficam sem alunos porque estes são desviados para aquela escola privada”.
Neste entendimento, deixo  à consideração de quem me lê uma serena, mas imperativa incógnita: “Não estará este caloiro governo regional  a destruir propositadamente a escola pública?... Que interesses estão em jogo nesta contraditória política da educação”?!
         Estamos, pois,  perante duas concepções de ensino: uma do governo da República, outra do governo da Madeira.
Enquanto se esperam respostas, transcrevo episódios que toda a gente viu na TV,  desenfreadas manif´’s  contra  a defesa da escola pública, proposta  pelo Ministério da Educação.   Logo à cabeça, uns exemplares de gente adulta, docentes em evidência, vestidos de amarelo, empunhando valentes cartazes. Gente que até há pouco tempo amaldiçoava  e fugia a tudo o que cheirasse ao suor dos trabalhadores em manifestações públicas!  Na retina ficou-me a imagem daquele homem graúdo, bigode farto à D. Carlos e olhar fulo à moda do Hitler, diante do batalhão de miúdos: “Contra os canhões, marchar, marchar”.
         O mais “enternecedor”, porém, foram os cordões (des)humanos de crianças à chuva e ao vento – e à força – ditando para  as câmaras frases (argumentos!) como este: “Quero estudar nesta escola (particular) porque foi aqui que a minha mãe andou”. Para completar esta “força forçada” dos aprendizes manifestantes, só faltava o toque da massificação mais absurda e inimaginável:  fardar as crianças todas de amarelo, um amarelo esgotado nos armazéns da feira. O anafado  ditador comunista da Coreia do Norte não teria feito melhor às suas tropas acéfalas em parada.
         Perante os factos, cada qual tirará as suas conclusões.
Terei a oportunidade (o direito e o dever) de fazê-lo mais adiante.


11.Mai.16

Martins Júnior

segunda-feira, 9 de maio de 2016

EUROPA CELESTE E EUROPA TERRESTRE – IGREJA INCLUSIVA E IGREJA EXCLUSIVA: descubra as semelhanças

                                                


Duas datas históricas: 9 de Maio/1986 8-9 de Maio/2010. Qual delas nos toca mais de perto ? Tudo relativo. Depende da conjuntura em que cada pessoa e cada terra se envolvem numa ou noutra data.
Começo pelos 30 anos da entrada de Portugal na CE. O que pareceu um sonho dourado está a poluir-se de treva e hipocrisia. A aparente generosidade dos países ricos em  emprestar dinheiro tornou-se numa mafiosa armadilha em que caíram os países pobres. As pontes entre uns e outros não são feitas do cimento da união, mas tão-só da mais fria e calculista exploração. Satânica bondade: emprestam, mas com a condição de criar mais pobreza e mais dependência!  Neste conluio maquiavélico todos lavam as mãos na “bacia de Pilatos” e atingem os requintes do velho farisaísmo.
Foi o que sucedeu na última sexta-feira, 6 de Maio, em Roma quando “os principais dirigentes da EU se dirigiram em procissão ao Papa Francisco para lhe entregarem o alto galardão ‘Le Prix Charlemagne’ – um gesto de merecida  recompensa ao actual Unificador da Europa, mas que, no fundo, reflecte a situação trágica em que se enredaram os  representantes europeus, ou seja, a incapacidade de resolver as crises do Velho Continente: migrações, desemprego, exclusão”.
A citação é do editorial de Le Monde que, numa tirada  de humor corrosivo, observa: “Incapazes (por sua culpa) de construir a Europa terrestre, refugiam-se na Europa celeste”. E sublinha: ”O Papa, pelo contrário, recém-vindo da ilha grega de Lesbos, onde condenou a indiferença global face aos refugiados, não se remeteu à Europa celeste. Diante dos próprios denunciou vigorosamente: Que foi que te aconteceu, Oh Europa humanista, Paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade?...longe de gerar  valores, condenas os nossos povos à mais cruel pobreza, que é a exclusão!... Peço-vos que devolvam à Europa o renascimento de um novo Humanismo…
Que vigor, que estatura, que grandeza de liderança dos valores humanos, em luta pela “Europa terrestre”, sem a qual não haverá a “Europa celeste” , onde supostamente e, ainda mais, hipocritamente pretendem camuflar-se os líderes europeus!
Pesemos bem a máxima de Francisco Papa: A pobreza mais cruel é a exclusão! E tanto chega para alcançar-se a mensagem do Pastor Supremo para a “União Europeia”, com 30 anos de idade em Portugal.
      
                                                       
Volto à outra data: 8-9 de Maio/2010. Passaram-se 6 anos. Até hoje!  O enunciado é tão simples quanto estarrecedor: A Imagem da Virgem Peregrina, que visitou todas as paróquias da Madeira, chegou à Ribeira Seca, parou no início do adro… mas os responsáveis da Diocese não a deixaram entrar, frustrando as naturais (e prometidas) expectativas da multidão que durante várias horas aguardou pacientemente a simbólica visita. E mais não conto.
EXCLUSÃO!... Nem a Senhora escapou. Nem os seus filhos e admiradores. Que dirá Francisco Papa?...
O povo, na sua inspiração directa e sem rodeios, ao estilo do Papa, compôs várias quadras que vêm inseridas no “Cancioneiro Breve”, cantado no CD “A Igreja é do Povo e o Povo é de Deus”. Recorto apenas duas:

Usam a religião
Para nos fazer sofrer,
Mas será que o Papa sabe
O que está a acontecer?


Ninguém cala a nossa voz
Digo ao mundo e a vocês
Com imagem ou sem ela
Nós somos filhos de Deus


Europa terrestre e Europa celeste! Igreja que exclui e Igreja que inclui: dois mundos, cujas semelhanças e diferenças são uma evidência, à luz do pensamento  do Bispo de Roma.


09.Mai.16
Martins Júnior


sábado, 7 de maio de 2016

“PADRE MADEIRENSE DETIDO EM COIMBRA ‘POR CAUSA’ DO PAPA JOÃO PAULO II”

                                                           

                                                  O local do “crime”

 Hoje vamos desopilar um pouco. Faz bem no intervalo destes jogos de “fortuna e azar” – mais de azar que de fortuna – com que nos confrontamos nos noticiários da cada hora. Faz bem ainda porque, já é toque antigo, o arco sempre tenso perde a elasticidade. Então lá vai.  E podia começar como começam todas as estórias, sobretudo as do anedotário quotidiano; “Era uma vez”…
Sim, era uma vez… um ilhéu, quarentão, curioso do saber, que foi preso no Largo da Universidade de Coimbra, aí pelos idos de 82 do século passado, “por causa” do Papa. Qual o crime? – é a pergunta que salta logo da boca e dos olhos do leitor.
Vou contá-la em termos que desejaria tão breves quanto não vou conseguir. Para satisfazer o apetite de quem pergunta, direi de imediato que esse homem ilhéu é o subscritor destas linhas. Deslocara-me a Coimbra para fazer o exame de uma das cadeiras, de Direito Internacional Público, suponho. Ao aproximar-me da “Porta Férrea” (quem lá estudou pode recordá-la) deparei-me com toda uma azáfama na construção de um enorme palco sob a velha torre: Intrigou-me a circunstância anómala de avistar oficiais de Exército, talvez engenheiros coronéis, a dirigir a delicada operação. Os galões dourados nos ombros dos ditos, faiscavam à luz daquele meio-dia de maio solarengo. O palco, parcialmente alcatifado de um vermelho quase arrogante,  destinava-se à recepção do então Papa João Paulo II, marcada para dia 14, na sequência da sua visita a Portugal. Puxei de uma máquina fotográfica, daquelas de descartar, e piquei uma meia-dúzia de vezes. Achei graça ver o altar pontifício, arquitectado e dirigido sob a égide dos oficiais militares.
Passemos ao II Acto da peça “herói-cómica”. Ao dobrar a “Porta Férrea” rumo a um restaurante próximo, vejo um VWagen branco, de um ovo perfeito. “Está detido para averiguações, acompanhe-nos à Esquadra”. Os dois homens, à civil, exibiram a credencial da PSP. Podia replicar com o meu cartão de deputado regional. Mas como nunca o usava, que remédio, lá tive de entrar na clara do ovo rolante, enquanto o Bedel da Faculdade e outros elementos da secretaria, de passagem para o almoço, tentavam explicar aos dois agentes quem eu era. Em vão. Fiquei toda a tarde na Esquadra da cidade. Após as  declarações da ordem, apercebi-me do embaraço dos inquiridores, novas perguntas, telefonemas do gabinete para a Madeira, mormente Assembleia Regional, mais tempo de espera, até que fizeram a gentileza de me “mandar em liberdade”.
No dia seguinte, a comunicação social do continente  escorria, em largas parangonas, títulos como este: “Padre madeirense detido por tentar assassinar o Papa”… Na diocese do Funchal, os oficiantes e os oficiosos    espojavam-se com o meu nome aos trambolhões. O PSD/Machico completou a “gesta” publicitária em termos inenarráveis. E lá fiquei eu com mais este “medalhão de guerra” no meu currículo público.
Mas, perguntareis, havia proibição alguma de fotografar? Não. E então?… Então, eu desvendo:
Na solene celebração de Fátima, do dia 12 para dia 13, em pleno pontifical, um sacerdote espanhol, o Padre Juan Fernandez Krohn, da congregação ulta-conservadora liderada pelo Arcebispo Lefèbre, aproximou-se do Papa João Paulo II, empunhou afrontosamente um punhal que trazia escondido sob a batina e apontou-o à figura do Pontífice, sem que o pudesse atingir. Foi o pânico total. O caso abalou o país e o estrangeiro.
Dito isto, por aqui fica desfeito o enigma: de carambola com o eventual padre assassino, na forma tentada, lá foi este curioso e incauto eclesiástico madeirense atirado às feras da maledicência de rua, após uma detenção que tem tanto de patético como de caricato.
O porquê desta comédia a-talho-de-foice tem a ver com uma notícia fresca desta semana, largamente difundida em Portugal e no estrangeiro: “Um diplomata português foi detido em Bruxelas por estar a fotografar no seu tablet o edifício da Comissão Europeia”. Ali até se compreende a actuação da rigorosa vigilância pública, dado o ambiente de desconfiança recentemente criado pelos bombistas suicidas.
Mas a principal conclusão – esta, mais séria – tem a ver com os muitos conteúdos veiculados pela comunicação social dos nossos dias, apresentando como verdade aquilo que não passa de falácia e embuste vil. O boato e a charlatanice grosseira de certos jornais e centros de difusão áudio-visual só merecem o desprezo, quando não o implacável anátema condenatório por parte do público consumidor.
Acabou-se o filme. Só não acabou a reminiscência que até hoje me diverte, todas vezes que passo pelo “local do crime” no Largo da Faculdade Direito, sob a sombra tutelar da velha torre da Academia.   

 07.Mai.16
Martins Júnior

quinta-feira, 5 de maio de 2016

ÚLTIMO PAINEL DO TRÍPTICO DE TODOS OS ABRIS --- o “Depois”


Tão depressa soltou-se do calendário a folha de Abril para dar  caminho à sucessão interminável dos dias e dos meses. Mas Abril não morre nunca. Abril, como o Natal, “é quando o Homem quiser”. Se bem se lembram os benévolos acompanhantes desta viagem falada e escrita, dia sim-dia não, iniciei em 21 de Abril uma espécie de tríptico sobre a fenomenologia dos Abris de todos os tempos, subdividindo-o no Antes, Durante e Depois. Reflectidos que foram os dois primeiros painéis, debruço-me sobre o terceiro – o Depois – pretendendo com isto responder à questão que a todos se nos põe: Por que razão se repetem as revoluções, que estranho pendor tem a sociedade de lutar por outro Abril, novo, doloroso e fulminante como o que lhe precedeu?
Eis o cerne da História, de todas as histórias:  as de outrora, as de hoje e as de amanhã. O tema é vasto, mas tentarei sintetizá-lo, a partir dos três períodos revolucionários, anteriormente citados, da historiografia portuguesa
Após a grande vitória sobre a crise de 1383-1385, Portugal abriu-se a novos mundos, à ciência e ao fulgor quinhentistas. Parecia o “EL Dourado” sem termo. Mas a porta de entrada das riquezas das Índias foi também o portão da pompa e desmesurada ambição que vitimou a coroa portuguesa em Alcácer-Quibir, de onde resultou o aproveitamento sem escrúpulos do domínio de Espanha sobre o nosso território, com a conivência de cortesãos lusos traidores à pátria. Foi preciso luta e foi preciso sangue para restaurar a dignidade perdida.
Novo ciclo começa, alçando-se até ao fastígio joanino, com o elitismo do Quinto Império, enobrecido pelo ouro do Brasil. De novo a “moleza” toma conta do Reino e faz surgir o “despotismo iluminado” de um Conde de Oeiras, Marquês de Pombal, seguindo-se-lhe o depauperamento dos centros de decisão e, daí até  à disputa do território por franceses e ingleses, foi um ápice. Para salvar a pátria  dividida e denegrida, foi preciso de novo o massacre do general Gomes Freire de Andrade às mãos do absolutismo recalcitrante de então, odisseia esta imortalizada por Luis de Stautt Monteiro em Felizmente Há Luar.  A população amordaçada e submissa cedeu o lugar a sucessivas e encarniçadas revoltas que culminaram no assassinato do Rei e na proclamação da República.
Conquistada a República, repetidas ameaças originaram confrontos terríveis, devastadores da unidade nacional, consequência de um Povo que nunca antes aprendera nem exercera a influência directa da sua força na condução dos destinos do seu país.. E por via disso, anseia um “salvador da pátria” , um “caudillo”, um ditador, personificado no “homem predestinado por Deus – assim proclamava a Igreja pela voz do Cardeal Cerejeira – para salvar Portugal”: Oliveira Salazar. Redobrados tormentos amontoou o Povo sobre as costas, o Povo miúdo, que deixou prender e matar aqueles que o queriam libertar da nova ditadura do fascismo galopante. Quase 50 anos de repressão e “pacífica” ditadura! Voltáramos a 1383, explorados e espoliados pelo “senhorio” da casa pátria. Até que, em plena madrugada de 25 de Abril de 1974, “Portugal entrou de novo no clarão do Novo Dia”: assim cantaram, domingo passado, os jovens de Machico no Largo da Restauração, Funchal.
E agora?... Quando é que será preciso fazer um outro “25 de Abril”?
A palavra é nossa. Como nossa é a resposta. Não basta uma vitória temporal para assegurar um Bem-Estar estrutural. Olhando em retrospectiva, a conclusão é límpida e inquietante: sempre que um Povo se embriaga com o sumo da Vitória e, depois, se acomoda inerte e paradoxalmente “feliz” com o embalo sonolento dos que lhe anestesiam a mente e o corpo, aí começa a degradação, aí  mergulha na antiga servidão. E quando tenta sacudir o pesado cobertor em que o envolveram durante décadas e décadas, já é tarde, porque perdeu a sensibilidade de olhar e reagir. Outra vez, serão roladas cabeças de inocentes vítimas +elo único crime  de lutar  para reacender a chama libertadora de outrora.
Conclusão: É urgente manter-se em alerta máximo perante os detractores do “25 de Abril”. Porque a porta por onde entraram os libertadores é a mesma onde espreitam os coveiros da Liberdade que preparam na sombra o mafioso regresso. Não precisamos sair de casa para sabermos disso: o nosso mais recente passado fez  da Madeira  o laboratório perfeito de quem se serviu do “25 de Abril” para reimplantar  regime castradores, mascarado de autonomia.  
A Democracia não é produto que se guarde ciosamente no congelador. É um corpo vivo que, tal como a amizade, exige um assistente, um cuidador, uma sentinela. No trabalho, na escola, no campo, na oficina, na igreja. E há tanta gente que, por um prato de lentilhas comido às escondidas, entrega a casa e o castelo aos invasores, predadores do Bem-Estar Social de todo um Povo. A Democracia ou se rejuvenesce ou apodrece, não há meio termo. Correndo o risco de ferir a sensibilidade de quem não se situa neste patamar de análise (o que igualmente respeito), aproveito este 5 de Maio para trazer à mesa o princípio dinamizador do filósofo e sociólogo Karl Marx, nascido precisamente em 5 de Maio de 1818, o qual, na esteira do compatriota Friedrich Hegel, interpretava a História à luz do método científico da “análise, antítese e síntese”, isto é, da dialéctica – o crescimento numa espiral cíclica. A sociedade move-se num constante curso dialéctico.
Ou então, na mesma linha, repetirei o pré-aviso do Mestre da Galileia: “Estai vigilantes”!

05.Mai.16

Martins Júnior   

terça-feira, 3 de maio de 2016

MISSA PROFANA … OU TERRA DE ALTAR? – Onde os pregadores foram Régio, Vinícius e Drummond de Andrade!


           Este é mesmo um momento de pura fruição poética, pensamento onírico que me transporta para além do emaranhado nebulento da oficialidade dos protocolos! Se a todos não interessar, deixem passar, ao menos hoje, a luz fugaz de um arco-íris que eu vi, trazendo à terra uma nesga do alto.
         Aconteceu no 1º de Maio – da Mãe e do Trabalhador. Sobre a ara coberta de linho bordado de uvas e espigas pela mão das mulheres rurais, abre-se o livro da Mãe Natura: os frutos, a enxada, a corda de amarrar a erva tenra, o martelo, a pá de joeirar e amassar , a foice das ceifas estivais. Para dar tom aos instrumentos do trabalho humano, a amostra dos cordofones da tuna local, portadores da “arte dos deuses”. Tudo sobre o altar aberto, largo e livre. A coroar a tela ao vivo, três “cerejas em flor”: a mão de cravos, o livro de Francisco Papa “Laudato Si” e o tríplice coração de Mãe.
         É verdade que o mundo exterior toma a cor dos olhos que o vêm. Por isso, o cenário em fundo aceita a coloração e a interpretação que cada um lhe quiser emprestar. Desde os mais amplos olhares que voam num optimismo espiritualista até aos que, na fé que lhes ensinaram, prefeririam varrer do altar essas coisas tão prosaicas, as ferramentas cheirando a terra e à poeira da oficina. Não obstante as mais variadas emoções, paira no recanto da mente como nas paredes do templo esta interrogativa: Como haverá pão nas âmbulas da comunhão e vinho no cálice se não houver farinha e uvas da terra? E como as uvas e a farinha, sem parreiras nem espigas?... E, em suma, como tudo, isso se não houver a enxada, a foice, a corda de enfeixar?... E onde o templo e o altar se não houver a pá, a madeira, o cimento,  o martelo, a colher, o fio de prumo?... Não é mais nobre a hóstia do que o grão de trigo que lhe deu o ser, não é mais bento o vinho do que o bago de uva que se deixou esmagar em seu favor! Não é menos amoroso o filho do que a mãe que o deu à luz!... Laudato Si : Louvado seja! Bendito panteísmo que nos faz ver o Criador na mais frágil criatura!
         Embalado nestas volutas de incenso místico e após a leitura dos textos bíblicos, entendi prescindir da palavra e dá-la aos pregadores livres, os poetas, que vêem mais além que os formatados homiliários litúrgicos. E porque era Dia da Mãe e Dia do Trabalhador, logo subiram à tribuna sacra mestres na dicção e na emoção que emprestaram o coração e a boca a José Régio, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Morais, este na majestosa, fulgurante e revolucionária ode, em redondilha maior, ao “Operário em Construção”. Coube a uma camponesa da Ribeira Seca, ela já septuagenária, mãe e avó, encerrar esta sessão de amor e acção com as quadras populares da sua autoria em homenagem a todas as Mães do mundo!
         A quem me ler, peço licença para responder à pergunta formulada em título. O que vimos e ouvimos não foi Missa profana, foi a Terra erguida em Altar. Foi a entrega, em espécie e não em correspondente, do ouro mais precioso que é o contrato intemporal entre o Humano e o Divino, entre a nossa fragilidade aparente e a suprema omnipotência do Infinito. Neste “1º de Maio” as armas do Trabalho ocuparam, de direito próprio, a Mesa do Pão e da Paz.  

 03.Mai.16

         Martins Júnior

domingo, 1 de maio de 2016

ENIGMA DA MULHER-MÃE E PROTO-OPERÁRIO – No Dia do Trabalhador e Dia da Mãe

                                                    


Hoje
Eu hei-de achar um escultor
Que me defina e trace
O Monumento ao Trabalhador

Mas quero-lhe a face
E o seio criador
De um corpo de Mulher
Mulher-Mãe de cada hora
A precursora
Dos mundos que houve e dos que houver

Antes que a obra nasça e o sol desponte
Ela constrói o nascituro
Operário do futuro

Dentro do ventre solitário e mudo
Ela  é  a ponte
Entre o nada e o tudo

Das insondáveis miríades de linhas
De um invisível projecto
Sai-lhe o arquitecto
Do coração fio-de-mel
Salta-lhe o malho brilha o cinzel
E de um amor carnal de fogo tanto
Surge um poeta ergue-se um santo

Oh genesíaca evidência:
Mulher-Mãe  e  Proto-Operário

Nas entranhas do oceano-ovário
Mora o segredo planetário
Do mundo em construção

Até chegar a madrugada
Vou caminhar
Mendigo errante pela estrada
Até achar o escultor
Seja quem for
De onde vier
E faça de um corpo de Mulher
O mais belo Monumento
Ao Dia Trabalhador

1.Mai.16
Martins Júnior