quinta-feira, 15 de setembro de 2016

MACHICO E SETÚBAL NA CADEIA DO LIMOEIRO


Admirável Mundo Novo! – o grito de espasmo e de espanto  sai-nos da boca quando diante dos nossos olhos se abrem os prodígios da tecnologia presente e futura. Mas hoje, 15 de Setembro, o título proclamatório de Aldous Huxley volta-se-me  ao contrário e expande-se, iluminado, por sobre  a  paisagem do passado. Mais precisamente na grande passagem de nível entre o século XVIII e o Século XIX. Alguém, porventura, expirará um enfadonho bocejo: “Que mau gosto esse de estagnar nas charnecas do antigo”… Pura engano, digo eu. Romper por entre as brumas do tempo esquecido, como quem desbrava uma floresta espessa e intransponível, para ao fim descobrir mundos e personagens tão iguais  às  nossas, com a mesma “ânsia de subir e maior cobiça de transpor”, diria Goethe, - é uma aventura magnífica, dolorosa na sua marcha mas infinitamente compensadora.
A lâmpada acesa desta introdução tem a ver com o encerramento das comemorações do 250º aniversário do  nascimento desse fulgurante talento sadino que dá pelo nome de Manuel Maria Barbosa du Bocage  (1765-1805) efeméride solenemente assinalada em Setúbal, sua cidade natal, durante o ano inteiro. A esta luz convido-vos a rasgar as trevas de quase três séculos de história. Chamo-lhes trevas porque, de verdade, muitas foram as legiões de zombies agoirentos que quiseram estrangular a memória gloriosa de um dos maiores poetas de Portugal e enterrá-lo definitivamente  nas masmorras  de onde não mais se via o sol.
Estou a falar do grande poeta sadino, talentoso sonetista, na esteira de Camões, o qual a uma cultura pós-clássica de fino quilate aliava a polivalência criativa reservada aos espíritos superiores. Bocage juntava, com a mesma elegância e mestria, o lirismo pré-romântico e a azagaia satírica, verrinosa, contra o Ancien Régime da época da Inquisição ao serviço da prepotência monárquica. Por isso, tanto o malsinaram e apedrejaram, tendo de sofrer por várias vezes as algemas da cadeia do Limoeiro, em Lisboa. E de cada vez que saía, sobrava-lhe mais coragem para impetuosamente assestar as farpas da crítica contra os ditadores de então. Quiseram destruir a sua obra, mas o que apenas conseguiram foi catalogá-lo como um vulgar arruaceiro, contador de anedóticas obscenidades. Mas hoje, ei-lo  reincarnado e redivivo no seu fulgor original. Pena que não o conheçamos no seu verdadeiro esplendor.
Mas para nós, gentes de Machico, Bocage não se confina às margens do rio Sado que banha Setúbal. Ele passa por aqui, pela nossa baía. Mas como? – estacarão os que consideram o passado um fóssil sem nome. Aí está o “admirável mundo novo” essa aventura de redescobrir-nos a nós próprios na evocação dos nossos maiores. É que Barbosa du Bocage, oriundo embora da burguesia francesa, cruzou-se com um jovem de Machico, de origens humildes, chamado Francisco Álvares de Nóbrega. (1773-1806).  A antonomásia por que é conhecido – “Camões Pequeno” – esconde (e, ao mesmo tempo, desvenda) o enorme pensador, filósofo, tradutor, satírico e, acima de tudo, o exímio cultor do soneto, género em que mais se notabilizou. Álvares de Nóbrega, também ele, aqui na ilha, precursor e bandeirante dos ideais da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – coube-lhe seguir as mesmas pisadas de Bocage, arrastando nos pés os grilhões das masmorras do Limoeiro. Aí conheceram-se, companheiros da mesma cela insalubre, “esta estância abjecta”, como ele próprio escreve.  Aí tornaram-se amigos e, mais tarde, fora da prisão trocaram dedicatórias que ainda hoje perduram. Deixarei para a semana do “30 de Novembro” a reevocação do “Nosso Camões”.
Hoje, quero relembrar um acontecimento notável ocorrido em 30 de Maio de 2007, na própria cadeia do Limoeiro, (actualmente sede do CEJ,  Centro de Estudos Judiciários) onde foi selada, de forma condigna e bem merecida, a geminação entre a  nossa “EFAN – Estudos Nobricenses” e a “Associação Bocageana de Setúbal”. Foi uma data inesquecível, plena de poesia, canto e imagens: de Setúbal, veio uma distinta representação de músicos, professores e historiadores, chefiada pelo abalizado investigador, Dr. Daniel Pires. Da Madeira, lá estivemos muitos amigos e cultores do nosso poeta, uns cá de Machico e outros, muitos outros madeirenses residentes em Lisboa. Recordo a especial participação do grande admirador e declamador, o amigo Alexandre Aveiro, que  emprestou a voz e a expressiva interpretação aos sonetos de Francisco Álvares de Nóbrega, enquanto os setubalenses se encarregaram da idêntica tarefa em relação a  Barbosa du Bocage. A foto assinala a assinatura do Protocolo de Geminação na mesmas instalações da cadeia do Limoeiro: Daniel Pires, pela Associação Bocageana e, pela “EFAN”, Martins Júnior.
 Seria impossível ver passar este 15 de Setembro sem abrir as janelas do espírito e deixar entrar no SENSO&CONSENSO  o abraço luminoso desses dois astros da literatura incarnada na acção e na luta por um mundo melhor, esse almejado “Admirável  Mundo Novo” que nos incumbe hoje construir, com o mesmo afã e a mesma resistência que eles investiram no seu tempo. Termino com um dos sonetos que Francisco Álvares de Nóbrega dedicou ao companheiro de desditosa cela, Manuel Maria Barbosa du Bocage.

“Versos que produzi, Cantor do Sado,
Ao tenir do grilhão áspero e duro,
Em cadafalso infame, hórrido, escuro,
A diversas paixões abandonado,

Vão, como os teus, em tempo desgraçado,
Ministrar novo pasto ao Zoilo impuro,
Com o fito mais no apoio do futuro,
Que no abrigo no presente às Musas dado.

De aparatoso adorno vão mendigos,
A mais alto remonto não se atrevem,
Macerados de aspérrimos castigos.

Dá que também teu nome exímio levem:
         Os génios hábeis da razão amigos
         Esta homenagem uns aos outros devem”.
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15.Set.16
Martins Júnior



terça-feira, 13 de setembro de 2016

DESDE 1992, UMA VOZ NA MADEIRA PARA TODO O PAÍS, EM DEFESA DO PODER LOCAL



         Não uma voz qualquer. Mas um grito de alerta, corajoso e vibrante, com o peso do Catedrático de Direito e a Autoridade suprema da Casa das Leis. Essa voz continua viva, ecoando nos areópagos do Poder Central, nas assembleias dos Poderes  Regionais e nos gabinetes de todos os Executivos.  Numa altura em que tanto se fala das competências dos poderes locais a propósito das escolas, da saúde, do ordenamento florestal para fazer face à praga dos incêndios, é urgente voltar a escutar o que decididamente defendeu o Prof. Barbosa de Melo no VII Congresso da Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP) em 1992.
         Deixou este país há oito dias. Têm-no exaltado as figuras gradas da política e da intelectualidade, realçando-lhe os mais altos  predicados no domínio da ciência jurídica, do Direito Administrativo, da robustez cívica  e moral. Tudo merece o Prof. Barbosa de Melo. Da minha parte, sublinharia o trato gentil e coloquial com que me recebeu em sua casa, em Coimbra, deliciando-me com a  “a satisfação de estar – assim dizia -  com o irmão do   meu querido e ilustre colega,  o Prof. Dr. João Manuel Martins”, nessa altura Juiz presidente do Supremo Tribunal Administrativo de Moçambique.
         É meu dever, porém, ascender a um patamar mais alto e aí revelar e relevar o sonho do Mestre  Jurista. Mais que sonho, era a sua paixão, uma espécie de desígnio gémeo da própria vida: o Poder Local. Não por mero acaso, mas pelo “saber de experiência feito” no difícil terreno das autarquias. O Prof. Barbosa de Melo tinha sido autarca no seu concelho, Penafiel. E muitas vezes lhe ouvia dizer com insistência aquele normativo que outros depois dele adoptaram: “Nenhum político dos Poderes Central ou Regional devia ocupar tais lugares sem primeiro ter passado pela experiência autárquica”.
         Mas ainda não é esta a pedra de toque legada pelo Professor ao país. É outra, que passo a enunciar:
         Realizava-se no Funchal o VII Congresso da ANMP, entre 7 e 9 de Maio de 1992, no qual tomei parte como presidente do Município de Machico. Sensatas e ricas de pensamento dinâmico,  duramente reivindicativo, foram as intervenções dos muitos autarcas de todo o Portugal ali presentes, em defesa da autonomia do Poder Local, pondo em aceso debate a dialéctica sempre inconclusa entre o centralismo teórico da governação e a especificidade vivencial de quem está próximo da população, o poder autárquico: assembleias, câmaras, juntas de freguesia. Na Madeira, essa questão ardia em lume vivo. Muito timidamente alguns autarcas madeirenses lá iam desfilando contidas e dissimuladas  lamúrias  sobre a forma como o governo regional tratava assuntos que  jurisdicionalmente lhes pertenciam.  Era o tempo em que o Governo Regional foi coagido a pagar coercivamente as dívidas contraídas junto do Governo Central, então chefiado por Cavaco Silva. Daí nasceu o horroroso Protocolo de Reequilíbrio Financeiro, por força do qual o presidente do GR obrigou as câmaras, mesmo as do seu partido,  a pagar tais dívidas. Concretamente, os municípios foram privados de  grande parte das verbas a que tinham direito do OE, só para pagar as obras inauguradas pelo presidente madeirenses. Esse e outros abusos fizeram-me subir à tribuna e, desassombradamente, denunciar: “Na Madeira só há uma única autarquia: a que está sediada na Quinta Vigia. O resto são meras dependências  dela”.
         Mas a que propósito vem aqui o Prof. Barbosa de Melo?
         Já o digo. Para a sessão de encerramento, fora convidado o Presidente da Assembleia da República. Quem? Precisamente Barbosa de Melo. Era enorme a expectativa de todos os participantes, aguardando ansiosamente a posição  da segunda figura do Estado Português sobre a matéria conflituante governo-autarquias, uma questão particularmente delicada em solo madeirense.
         E eis que surge o Mestre do Direito Administrativo e Presidente da AR. Depois ter delineado os contornos jurídico-constitucionais do problema posto, desata energicamente na defesa da autonomia do Poder Local, critica eventuais intromissões dos poderes centralistas na jurisdição das autarquias e remata com esta proclamação gigante, que despoletou um turbilhão de aplausos em todo o recinto: “Nenhuma decisão deverá ser tomada pelos Governos nem nenhuma obra realizada  na área do concelho sem o  conhecimento e a prévia apreciação da autarquia respectiva”.
         Foi, sem dúvida, o melhor troféu oferecido aos autarcas portugueses pelo presidente da Assembleia da República. Era o tempo em que não havia regras para a concessão de apoios financeiros aos municípios. Recordo o anátema do Autarca-Mor da Vigia quando sentenciava. “Para Machico nem um tostão”. Era o tempo em que não me doía a voz denunciando, até em Bruxelas, que no Comité  Europeu das Regiões e Municípios, a Madeira fosse representada por uma só pessoa, o presidente da Região, precisamente o maior adversário das autonomias municipais.
         É esta a imagem soberana que guardo do Grande Mestre. A sua dignidade, o seu rigor e, absolutamente, a sua coerência. Outros guardarão memórias diversas, mas esta constitui o legado mais decisivo numa terra tão escassa de território e tão desmedida de tiques centralizadores que ameaçam trazer à tona cadáveres há muito naufragados.

13.Set.16

Martins Júnior  

domingo, 11 de setembro de 2016

CUMPRIU-SE A HISTÓRIA: Ano CCCXXIV – Povos pequenos com histórias grandes

Considerem uma vulgar crónica do quotidiano aquilo que vou contar. Mas para quem penetra o invólucro das coisas banais encontrará mais do que o linguajar do quotidiano. Pelo contrário, descobrirá raízes centenares   que  ultrapassam todos os circunstancialismos aparentes e tocará com os seus dedos a vastidão do passado e a lonjura do futuro. É o que me proponho fazer.
Não tenho melhor introdução que o subtítulo em epígrafe. Todo o Povo tem a sua história. Longa ou breve, todos a têm. E quantas vezes é um Povo pequeno (ou o que o mundo assim considera) quem tem uma história maior!  O que há – copiando Fernando Pessoa no paralelismo que fez da Vénus de Milo e do binómio de Newton – o que há é pouca gente que dê por isso. E isso, para mal de todos, é o que corre na praça. Particularmente nas festas populares, em que se esgota o ritual na vulgaridade, no estouro ululante  a afrontar as orelhas dos mortais  e as nuvens quietas, enfim, a alienação suave como droga leve que não mata mas anestesia as multidões.
Na mensagem anterior anunciei um dos momentos altos de um Povo que o mundo ignaro considera povo baixo. A anunciação da Festa neste rincão suburbano de Machico contou com milhares de olhos - e oxalá tivesse penetrado na mente de quem dela teve notícia.
Cumpriu-se a História – com maiúscula! – a  deste Povo rural que  há 324 anos viu alevantar-se o seu monumento mais apelativo, na altura polo aglutinador de uma comunidade de “servos da gleba” curvados ao jugo dos senhorios: foi a vetusta Capela da Senhora do Amparo, mandada construir por Francisco Dias Franco nos idos de 1692. Diante do alçado frontal do pequeno templo, foi exaltado o património cultual da população da Ribeira Seca que, por ser tricentenário, está acima da  pré-centenária  Cova da Iria e das bicentenárias Senhora de Lourdes, em França, e   Senhor dos Milagres, em Machico. Não é, portanto, a gordura das superstições ou a manipulação das gentes que torna grande um Povo, no seu significado mais íntimo e num passado comum, como direi no final deste texto.
Mas a Festa cumpriu-se. Com descontracção e júbilo, mas também com conhecimento. No discurso da celebração litúrgica, o  Padre Mário Tavares Figueira,  historiou o lugar do Homem na visão holística do mundo, a partir da sensibilidade universalista  do “Guardador de Rebanhos”. No palco, também se cumpriu a História, no espectáculo de  crianças, jovens e adultos  desfilando as cantigas e bailados originais, evocativos dos passos mais marcantes da vida deste Povo.
         Mas não se ficou por aqui o guião existencial dos habitantes da  Ribeira Seca. Recordou-se a época de Quinhentos, nos alvores do povoamento, quando neste vale, incrustado no grande vale de Machico, se desenvolveu o cultivo da matéria prima para colorir os tecidos. É então aqui  que surge o nome de um famoso comerciante italiano, Paulo da Noia,  que fez proliferar as plantas produtoras do pastel,  afim de proporcionar matéria-prima para a indústria tintureira. Era produto de luxo e tão próspero  o negócio que  o próprio Rei D: Manuel I  incidiu tributos avultados, por parte de Paulo da Noia, em benefício da Coroa.
         Para surpresa geral, tive oportunidade de desenhar perante a população presente este tríptico sócio-económico-cultural – Paulo da Noia, pastel, indústria tintureira – fazendo-o coincidir com a nomenclatura, desde tempos imemoriais, de três sítios da Ribeira Seca: a Noia, o Pastel e o Tintureiro, todos justapostos na zona nor-nordeste do território “ribeirense”. As reminiscências ainda vivas da era de Quinhentos e a memória tricentenária da Capela do Amparo, orago da actual circunscrição religiosa da Ribeira Seca,  vieram sobredoirar a Festa, subvencionando aos participantes, a par da alegria contagiante, um acréscimo cultural de imprescindível relevância para a psicologia de um Povo que, embora pisado e excluído da roda dos grandes, tem um passado maior, no seu conteúdo factual , mas  sobretudo como estímulo para as gerações de hoje e de amanhã, afim de continuarem a escrever as páginas do Futuro, assim como as gerações de outrora deixaram escrita a História que nos foi legada.
Mais uma vez, no Ano CCCXXIV cumpriu-se a História!
E voltaremos a cumpri-la no Ano CCCXXV, a próxima Festa do Amparo, em 2017.

11.Set.16

Martins Júnior

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

FESTAS, ARRAIAIS E FESTIVAIS


         Em fim de verão e com o abrandamento das temperaturas quentes que o caracterizam, queimam-se os últimos morteiros e esfumam-se as euforias das festas,  festivais e arraiais , tão férteis como cogumelos sobrepostos  neste pedaço de poio que é a ilha, povoada de lendários patronos e divertidas padroeiras. Só não esmorecem, neste entardecer de estio, aquelas iniciativas nascidas do húmus original da terra-madre. Por que é o seu Povo quem as organiza.
Para sintetizar esta evidência não vejo melhor súmula, nem mais expressiva, como o refrão de uma cantiga,  de há  décadas cantada e coreografada,  no sítio suburbano onde habito:

Na festa que o Povo organiza
Há mais alegria e verdade
Por isso trazemos a estrela
A estrela da felicidade

Neste fim de semana  aí  navegam  em cardume festas, arraiais e festivais, cada terra com seu uso como  roca com seu fuso. E então é ver o patriotismo bairrista de mordomos e festeiros rivalizando em luxo, arrebitados em estrondo ou   descobrindo “cabeças de cartaz”, de bom ou mau gosto não importa, desde que peçam mais uns “milhes” pela actuação.
Da minha parte, ouso partilhar aqui a minha predilecção por tudo quanto emana dos genes endémicos das populações. E é nos meios rurais e suburbanos que se aquece o coração na chama da produção popular, quer cantada e rimada, espontânea ou ensaiada, quer ainda na evocação da história local, suas raízes e tradições litúrgicas ou artesanais. Quanto me divertem e ensinam os despiques populares,  não os empolados em palcos concursais, mas os de rua junto às barracas - genuínos discursos dos romeiros pedestres, em que a pitada de humor picante se mistura com adágios da sabedoria de antanho, transmitidos na oralidade de gerações e a que o rajão, a rebeca e o pandeiro dão ritmo e pesponte inigualáveis. A riqueza poética das gentes rurais, a dada altura,   fez-me  puxar da viola e do acordeão e dar corpo cantante às rimas de redondilha maior que camponeses e camponesas me traziam à mão.
Foi-me doada por circunstâncias fortuitas a graça – sublinho graça enquanto dom gratuito – de “cair” num  ambiente marcado por esta identidade telúrica, pura e livre, ainda não deturpada pelas tais megalomanias “estrangeiradas”,  requentadas, besuntadas de verniz mal cheiroso e em que o opulência  de dinheiro é proporcionalmente inversa à cultura, à “alegria e à verdade das festas que o povo organiza”. Desde há quase cinquenta anos que me é concedida esta dádiva, que se fez maior por ter-me proporcionado a oportunidade de ver a diferença entre festas, arraiais e festivais.    
Mais uma vez neste fim de semana, serei parte deste  “caldo” preparado pelas mãos calejadas de um “Povo/ um Povo  que trabalha e faz o mundo novo”.  Quem aqui vier, sábado e domingo, fruirá por certo da fragrância emanescente dos nossos campos, da autenticidade ornamental do nosso recinto de festas, onde é fresco e natural. Verá  desfilar a candura das crianças,  o viço da juventude e a feliz serenidade dos adultos, interpretando em palco as tradições laborais traduzidas em verso e ritmos dançantes: o Tear, as Vindimas, a Paisagem , a Colonia, a Emigração, os picos altos e as árduas lutas que este Povo viveu e vitoriosamente ultrapassou. Páginas gloriosas de Machico, desde a primeira hora, perpassarão diante dos nossos olhos. A nossa Tuna, remoçada agora com  jovens executantes, será o abrir das cortinas da nossa Festa, que do Amparo se chama.
Momento  de rara emoção será o da “revisitação” da velhinha Capela do Amparo, mandada erigir por Francisco Dias Franco em 1692 no próprio coração do sítio da Ribeira Seca. Ali juntar-se-á a comunidade para sentir o percurso sofrido dos seus antepassados, desde há 324 anos. Subir à Capelinha do Amparo é fazer uma peregrinação mais longínqua que ir a Fátima, a Lourdes, à Aparecida do Norte, no Brasil. Muito antes dessas, a Senhora do Amparo já era!
Reconstituir o “sangue, o suor e as lágrimas” que as altas montanhas do Vale da Ribeira Seca outrora viram correr será o mote de esperança e de coragem perante o futuro, calcorreando as novas estradas até alcançar o templo actual. Passado, Presente e Futuro – eis o GPS do nosso cortejo, com início às 16 horas de domingo.
A festa em que o Povo não ocupa a centralidade da inspiração e da acção não poderá ser nunca a “Festa do Povo”. Sentimo-nos bem assim. Mesmo sem parangonas publicitárias, sem estouros piroténicos, (ajudámos as vítimas dos incêndios) e sem estrelas convidadas, a Festa é nossa. E de quantos nela querem participar e conviver, ”se vierem  por bem”.
Volto à terra e seu uso, à roca e seu fuso. Mas, respeitando a roca, a terra, o uso e o fuso, não me cabe na testa como é possível estampar na primeira página de um matutino a vistosa notícia de que um determinado cantor (para mim e  para muitos, “pimbalheiro” já gasto) que vem à festa de uma determinada freguesia rural “para manter a tradição”.  Mas, qual tradição?... O mínimo que se pode dizer é exclamar: É obra!
Fiquem todos com todas as “estrelas” do Mundo, cadentes e não cadentes. Nós ficamos com a Estrela da Felicidade, Porque nas festas que o Povo organiza, há mais Alegria e Verdade.

09.Set.16

Martins Júnior

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

E BEM-AVENTURADOS TAMBÉM OS NÃO CANONIZADOS



Ainda pairam nos céus de Roma os ecos em revoada daquela manhã sonora de domingo. Nunca a modesta rapariga albanesa teria imaginado que as chagas sociais e as dores dos proscritos que ela ajudou a sarar ascendessem tão alto e tão sonante como no dia aniversário da sua descida às terras dos párias e dos marajás.
E chegaram até nós. Tenho seguido com interesse as opiniões que suscitou o meu último escrito. Bom sinal dos tempos, quando se interpretam e discutem temas tão marcantes como a canonização de alguém. Ao relevar a magnitude da obra de Madre Teresa de Calcutá, pretendi saudar o empenho pessoal, a doação inteira dessa mulher à nobre causa da Humanidade. No entanto sublinhei que, também na mesma medida,  é urgente analisar os gritos e as  fomes que perseguem o mundo, acentuando a dicotomia emergentes versus duradouras. É a diferença que nem sempre descortinamos entre pobreza conjuntural e pobreza estrutural, sendo certo que as soluções para estas últimas não podem ser as mesmas utilizadas para as primeiras. O que está em aceso debate é a eterna antinomia de sempre entre Caridade e Justiça. É verdade que não se prega a estômagos vazios, mas não é menos verdade que os paliativos de circunstância não resolvem a raiz do mal ínsito na medula das sociedades injustas.
Não foi por mero acaso que o próprio Papa Francisco no texto da proclamação da canonizada exclamou: “Ela fez sentir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconheçam as suas culpas diante do crime  da pobreza que eles criaram no mundo”. É esta a maior “afronta” que dimana da obra de Teresa de Calcutá, embora muitos a desconheçam. E é precisamente neste “item” que alguns biógrafos, entre os quais o já falecido escritor Christopher Hitchen e os jornalistas Aroup Chtterjee e Donal MacIntyre, põem em causa o efectivo contributo da “Mãe dos Pobres” na erradicação da pobreza. Suponho que referir-se-iam à polarização dos conceitos: pobreza emergente - conjuntural - e pobreza duradoura - estrutural. A fome emergente requer Caridade de emergência, mas a fome estrutural exige  Justiça legislativa e Coragem sem tréguas..
Reflicto e partilho esta incógnita decisiva  e faço-o para trazer ao trono da consciência pessoal e colectiva tantos e quantos lutaram contra os regimes de opressão, contra as leis draconianas da escravidão que ainda hoje perduram a olho nu pelas nossas cidades. Gente de fibra que pagou nas masmorras o preço da sua sede de atacar as estruturas de uma  sociedade ruim, viciadas e assassinas, mas envernizadas de púrpura e incenso. Esses nunca conheceram o abraço ou o sorriso das multidões, mas foram tão sobrenaturais como as esculturas marmóreas beijadas pelos fiéis e alcandoradas pelas hierarquias. Não fossem os prisioneiros do Tarrafal, não lutassem os militares de Abril  e ainda hoje estariam os “velhos” de mão estendida aos filhos e netos para lhes darem uma côdea de pão. Não fosse a coragem dos salvadores do Povo, os criadores do Serviço Nacional de Saúde e ainda hoje estaríamos condenados a esperar a morte numa enxerga malsã. Não fossem os operários de Chicago, uns presos e outros mortos, e os homens, mulheres e crianças continuariam a moirejar de sol-a-sol, caídos de tísica no antro das minas.
E as Mulheres da estirpe de uma  Joana d’Arc, Catarina Eufémia! E padres e bispos, como Óscar Romero, assassinado no altar, António Ferreira Gomes, bispo do Porto, expulso de Portugal sob a ditadura  de Salazar e o silêncio cobarde do Patriarca Cerejeira, pelo “crime” de defender os camponeses da sua diocese contra os latifundiários e exploradores do Norte”
Seria um nunca mais acabar este cortejo de humilhados e ofendidos, mas gloriosos, Santos de maiúscula, que nunca foram canonizados. Lembro-me, sobretudo, daquele friso que todos os dias me acompanha, em lugar cimeiro, na biblioteca comunitária da Ribeira Seca – Padre António Vieira, Teresa de Calcutá ( já viu a sua hora de reconhecimento universal) Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Zeca Afonso, Luther King. E outros que quem me lê também reserva no altar da memória. É por eles que ainda sonho concretizar um Hagiológio  (Vida dos Santos) em que o testemunho sacro-cívico-social  constituirá a auréola trinitária que iluminou a face sempre viva da sua passagem pela terra. Uma auréola onde cabem todas as lutas, todos os calvários e todas as vitórias da Humanidade.
E se nosso Mestre chamou “Felizes os que Lhe deram de comer, os que O viram doente e O visitaram, os que  O encontraram sem abrigo e O receberam, também foi Ele – o mesmo! – que proclamou no Sermão das Bem-aventuranças: “Felizes os que têm fome e sede de Justiça… Felizes os que sofrem perseguição por amor da Justiça “!
Bem-aventurados os que lutaram contra a fome duradoura, contra o crime estrutural!

07.Set.16
Martins Júnior


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

COMO SE FAZ UMA SANTA? As fomes emergentes e as fomes duradouras


        Os prelos de todo o mundo e as televisões de todas as cores rivalizaram em gordura gráfica para proclamar a grande nova: “Madre Teresa de Calcutá já é santa. A partir de ontem, 4 de Setembro/16”! Permitir-me-ão discordar em absoluto das manchetes mundiais. Porque ela já o era desde há muito, muito tempo. O que ontem ocorreu foi um festival sacro-profano, a que não faltaram governantes internacionais, sendo mais visível o rosto de presidente da Albânia, terra natal de Mãe-Teresa, apóstola das Índias mais periféricas da sociedade asiática. Nada aconteceu de singular nem astronómico que viesse emoldurar a face daquela mulher franzina, modesta e furtiva, cujo único desejo era fazer o bem e passar desapercebida por entre as bátegas da publicitária chuva mundana.
         Também me associo e intimamente congratulo-me pela Santa que ela era e não tanto pela santa que lhe chamam desde ontem. Ela própria é que me deu  o argumento justificativo quando colocou como palavra de ordem dos seus ideais. “O AMOR EM ACÇÃO”. Sob este ponto de vista, o Amor é movimento criador, é corporização, é dinâmica. Nunca poderá ser extático, passivo ou acomodatício.  O Amor não se demonstra – mostra-se. Detesta o trono e ama o chão rasteiro onde nasce, sangra e pulula a Vida. Leiam o capítulo 13 da II Carta de Paulo aos Coríntios. Que beleza, que frescura  e que eloquência ecológica se desgarra do texto Paulino que costumo seguir nas celebrações   de casamento e que enche a alma de quantos nelas participam! O Amor feito estátua ou talismã  não é mais que idolatria. Relembro Antero de Quental: “Na grande marcha da História o Santo é o que vai à frente”. Na frente do esforço, na vanguarda da luta, da intuição, enfim, é “o que vê o invisível”. E avança decidido.
         Mais um desabafo. E vale o que vale: Não me entusiasmam nem comovem esses arroubos apoteóticos, soberanamente proclamatórios das canonizações. Pelo que acima referi. E mais: Que dom de infalibilidade possui um homem para julgar outro homem e considerá-lo santo ou pecador?... Acresce  o emaranhado processo  miraculoso, de duvidosa força probatória, dado que o denominado “milagre” (condição sine qua non) assenta em pressupostos intimistas,  fortemente associados à conjuntura neuro-vegetativa do feliz contemplado com o “milagre”. Mãe-Teresa, venero-a e amo-a não pelos milagres feitos depois de morta, mas pelos que  fez em vida. A sua indomável tenacidade que não temia os obstáculos, alguns até vindos da própria hierarquia eclesiástica no início da sua actividade, a limpidez do olhar que descortinava a presença do Mestre no mais ínfimo do ser humano e que a levou  a entregar-se incondicionalmente aos indianos pobres e aos leprosos de Calcutá, as centenas de casas para os sem-abrigo e para doentes terminais, , orfanatos, hospícios, enfim, procuro as pegadas luminosas dos seus passos que galvanizavam multidões e “seduziram” milhares de obreiros para a sua causa. Curvo-me rendido à sua predilecção  para com os desfalecidos que  morrem abandonados na berma das estradas. Tudo isso ela realizou em vida sem esperar um panteão na basílica vaticana,  nem sequer o Nobel que lhe foi justamente atribuído pela Academia em 1979. Tudo isso fez J:Cristo e o seu trono foi o patíbulo,  a cruz  da ignomínia.
         E é também por tudo isto que me comovo – e não pelos 70 cardeais, 400 bispos e 1.700 padres que participaram na solene  glorificação de ontem, mais os 13 chefes de Estado e as 22 delegações estrangeiras. E por mais este testemunho do Papa Francisco: “Ela fez sentir a sua voz aos poderosos da terra para que reconheçam as suas culpas perante os crimes da pobreza criada por eles próprios”.
É neste 2º item que pretendo debruçar-me no próximo dia ímpar. E é por aqui que surgem apreciações menos optimistas em relação a Madre Teresa elaboradas por biógrafos seus, acusando-a de estar a defender o status quo de regimes injustos. A caridade, dizem os entendidos teólogos, não pode antecipar-se à Justiça. Não basta acudir às fomes emergentes. É preciso debelar as fomes duradouras. Desde a sua origem.
         O “Amor em Acção” toma vestes tão diversas umas das outras, mas está sempre vigilante para que a Justiça vá à frente, tal como o “Santo”,  de Antero de Quental,  na vanguarda da  grande  marcha da História. Há muito mais santos cá fora do que  os que têm assento oficial  nos altares.

05.Set.16
Martins Júnior

  

sábado, 3 de setembro de 2016

AINDA OS INCÊNDIOS NAS ESCOLAS E O CASO DA SERTÃ


Quem poderá ficar mudo e quedo perante o retalhar de uma comunidade inteira, consequência directa do êxodo dos seus filhos na mais tenra idade?   E como deixar impunes os talhantes avaros que, a troco de meia dúzia de cifras, pegam nas crianças e, logo nos primeiros passos da vida escolar,  as obrigam a deixar mais deserta a casa-mãe onde foram nadas e criadas?!
         Nas vésperas do início das aulas, outra preocupação maior  não terá quem vive no seio desse agregado populacional e lhe sente os problemas familiares, afectivos, sociais.  Por isso, não me cansarei de afrontar publicamente  ( porque de reunir e conversar já estamos fartos) este insensível governo regional  que usa e abusa do que mais de sagrado tem um povo: o ensino, a educação, a cultura. A frieza e o à-vontade do adejar de braços com que trata as pessoas como números, não pode passar impune no julgamento da história.
         Professores – são números. É só cortar. “Só me deram este punhado de docentes – dizem mecanicamente  as comparsas do talho,  directoras escolares ou algo que o valho. “É com estes que tenho de dividir os alunos”.
         Alunos – números são, os mais frágeis, quando deviam ser respeitados como elos mais fortes da cadeia educativa. É medir, talhar, encaixotar e “sigam à minha frente”.
         Pais e encarregados de educação - números também, voluntários à força. Roça a mais vil hipocrisia dizer-se – como já sei a cartilha – que  as directoras reuniram com os pais e com as crianças. Como se não soubéssemos o papel manipulador da directora: “são ordens que recebi do sr. secretário”. E o secretário faz eco: “São ordens que recebi do presidente do governo”  ou de um secretário, sempre  em transe, de olhar ausente no dinheiro sempre presente. Lembra isto o ferrugento veio de transmissão hierárquica dos antigos regimes: O secretário é obediente cego ao presidente e a directora é  obedientíssima interesseira (e ambiciosa!) ao secretário. Quem paga? … As crianças, os mais fracos.
         Há uma deficiência, para não dizer perversão, de fundo: reduzir a escola a quatro paredes de armazém onde arrumar cabeças. Não entendem nem sentem os talhantes que a escola  é um dos maiores antídotos contra a desertificação rural. E que, por isso, vale tudo defendê-la.  Ponham num dos  pratos da balança os malefícios da desertificação  e, no outro, os custos de um professor ou de uma turma. Depois, façam as contas. E respondam-me, se souberem: quanto pesaria no orçamento regional a colocação de mais um professor nesta ou naquela escola que pretendem fundir e aniquilar?... Bastaria esquecer meia dúzia de balonas do fogo de artifício e ficaríamos todos a ganhar. Quem dá por falta de meia-dúzia de bombas de fim-de-ano? Ninguém. Sabem quantos dão por falta de uma escola ou de uma turma que dissolvem? Toda a comunidade.
         Perguntar-me-ão por que circunstância inédita trago hoje, mais uma vez, este tema à liça. Pois eu digo-vos: Fiquei intimamente tocado e intensamente galvanizado com a decisão que ontem anunciou o Presidente da Câmara da Sertã, a qual é tão sintética quanto eloquente: a edilidade do município vai inscrever no orçamento de 2017 a verba de 200.000 euros para manter em funcionamento quatro turmas em risco de dissolução numa das freguesias daquele concelho do distrito de Coimbra.
          Tem muitos e distintos contornos esta notícia, mas o que dignifica e exalta o município da Sertã é a justificação expressa da medida adoptada: impedir a desertificação daquela área. A isto chama-se mentalidade superior, sensibilidade inteligente, numa palavra, a isto chama-se  autêntica Autonomia do Poder Local, ao serviço dos seus constituintes.
         Este problema que, como eiró entre o lodo da maré, enrola-se primeiro como fusão administrativa até desovar na dissolução da primitiva escola,  não pode ficar por aqui. Quer se ganhe ou se perca este debate-combate,  é dever nosso denunciar, como já o fiz anteriormente,   que enquanto os incêndios destroem as serras os incendiários do governo ardem as escolas. E desertificam os nossos campos.
         UM VOTO: que os autarcas madeirenses sigam o município da Sertã.

         03.Set.16
        Martins Júnior