sábado, 15 de abril de 2017

O POEMA VIAJA TODA A NOITE…

"Na tua mão - a Ressurreição" porque  perto ou longe de ti alguém te espera para voltar a viver


A noite chama a  tua mão
E naufraga ébria e cega
Até  ao cais do teu corpo-luz

Nela vagueiam mastros nus
À espera que lhes ates as velas
Perdidas nas procelas
Sem bússola nem remos

Bateram à minha porta
Noctívagos de amor e pão
Chamando a tua mão
Dizendo que tu amas e inundas
De sol
As órbitas vazias e fundas

E eu vou com eles
Sem GPS nem redes
Que eu sei o mar  vasto
Onde mergulhas e me procuras
O rasto

Se a morte me sepulta
A tua mão me exalta
E  a terra toda exulta

Se espalmares a mão
E soltares os dedos
Estremece o furacão
E afogas todos os medos

Como o poema que navega
Toda a noite
Tacteando a rima e o rumo
Sorvendo a madrugada que não chega
Assim te anseiam e gritam
No silêncio sem eco
No beco sem saída
Na escada sem vão
Teus sósias anónimos
Tua irmã teu irmão
Porque na tua mão
Amanhece o Dia  da Ressurreição

  15-16.Abr.17
Sábado para Domingo de Páscoa

Martins Júnior

quinta-feira, 13 de abril de 2017

UMA NOITE DE CONTRASTES


Escrevo no corredor da noite de Quinta para  Sexta-Feira. Noite branca. Noite negra. De suores frios e toalhas de linho sobre a mesa. De traições ocultas e sobre-humanos perdões. Tudo começou  num jantar clandestino de despedida, direta para o matadouro anunciado. A fatia do pão e a taça do vinho acabaram numa túnica embebida em sangue. Noite de contrastes, portanto. Não foi brinde amistoso o daquela noite.
Só Ele via, em grande e claro plano, o guião do trágico filme, em que seria protagonista e vítima indefesa, às ordens do potentado religioso do Templo de Jerusalém. Não obstante, no adeus final o ar pesado daquela sala, cedida gratuitamente para a “festa”, tornara-se  leve e transparente desabrochando em abraços sem palavras. Porque o ar puro, transcendente, chamava-se Perdão.
À distância de mais de dois mil anos, acompanhámo-lo, ao Mestre, nesta noite.  Aliás, foi Ele que veio ter connosco, sentou-se ao nosso lado na mesa rectangular coberta do linho da terra. E ficámos a saber que perdoar faz bem à saúde. Descobrimos que não se aguenta uma vida inteira com um revólver dentro do peito nem com um coração feito  pedra em vez de carne verdadeira, sensível, imune às arritmias fatais.  E, daí, aprendemos também que o perdão não é um acto estritamente  religioso mas uma proposta de educação cívica, porque ele só tem lugar no chão tangente da vida quotidiana e não nas paredes amorfas de um santuário, por mais sacrossanto que se apresente. Na enorme redoma planetária  em que nos meteram, marcada pelos ribombos de tudo arrasar, sentimos que somos capazes de enterrar machados de guerra sem nos demitirmos da luta franca e justa dos nossos ideais colectivos. E aí percebemos que no palmo de quarto que habitamos, rugem explosões de circunstância – palavras, olhares, gestos mútuos  -  que podem sufocar quem vive à nossa beira, provocando depressões tão corrosivas como as armas químicas.
Por outro lado, não foi difícil perceber que os auto-proclamados mestres de perdões oficiais apoucam a nossa visão e só se interessam em formatar-nos na ‘gravidade’ das minudências  ocasionais, nervuras, neuroses, beliscaduras individuais, enfim, o tecido curricular inerente à  comum fragilidade humana. Para os confessionários é isso que conta. E deixa-se de fora a grande criminalidade, a opulenta e sofisticadamente elaborada para melhor explorar o mais fraco, o mais pobre, o mais doente. Aos crimes ou pecados sociais que matam silenciosamente povos e gerações, a Igreja dos tronos e altares não tem formulários, pagelas ou penitências pias. Talvez  porque o seu escandaloso património terá sido fabricado também nos G8 de vários séculos!     Foi preciso que “um homem do fim do mundo” rompesse os oceanos e chegasse à Europa ‘cristã e ocidental’ para entender o rol doméstico dos nossos desacertos e apontar,  aqui e agora, os crimes sociais dos brâmanes, dos intocáveis, dos que ficam sempre no pódio dos vencedores.
Por fim, consolidámos a convicção de que a Deus ninguém rouba, ninguém mata, ninguém O leva à falência, ninguém O ofende, ninguém O engana. Tudo isso acontece - só e sempre -  quando o agredido, o lesado, o ludibriado é o nosso co-transeunte, que vive e viaja connosco, perto ou longe, um Ser:  humano, animal, vegetal, mineral, solar ou lunar, numa palavra, a Mãe atmosférica , telúrica  que nos deu o berço e um dia há-de recolhê-lo na sepultura.  Como viveu e sentiu Teillard de Chardin, nunca atingirá  o vértice do Espiritual  quem  não partir das raízes do Natural.
Assim também o pão e o vinho novo – o Perdão – desta histórica vigília de Quinta para Sexta-Feira.  Assim se canta o Perdão à mesa da Comunhão! 

  13.Abr.17
Martins Júnior


terça-feira, 11 de abril de 2017

“SEMANA MAIOR” - DE SOBRESSALTO E PROTESTO!


Não tem mais que sete dias. E cada um  com as mesmas horas dos dias comuns. No entanto, chamam-lhe a “Semana Maior”. O ano passado, chamei-lhe a semana do protesto. E do sobressalto. E, por isso,  a “Semana Maior”. Porque ela não se limita à narrativa que vai de Domingo a Domingo. Vem de longe, de muito longe. Mesmo na época  em que tudo se passou, o plano da tragédia não se congeminou numa semana.  Tinha, no mínimo, três anos de fermentação. E talvez mais: trinta anos, desde a noite em que os Magos do Oriente vaticinaram que aquela Criança  nascera para ser rei de Judá. Por mais Largos  e Halleluias  de Haendel , por mais Árias de Bach, por mais solene que seja a dramaturgia dos ritos litúrgicos,  não me sai do pensamento a trama satânica que a hipocrisia do Templo e a cobardia do Tribunal do Império urdiram, na clandestinidade do povo hebreu.
         É por isso que, para mim,  na Semana Maior, são  tão escassas as palavras  quanto profundo o abismo do protesto. O protagonista mais poderoso da Ideia e da Acção não merecia tamanha derrota. E nós, também não.
         Oh quanto me destroem as majestosas encenações dos templos, pinceladas fúteis do que foi o grande sarcasmo contra O Mestre! E as  não  menos  contraditórias peregrinações aos santuários para “ver” a Semana Santa.  “Ver”…o quê? Um dos maiores, senão o maior, crime da História?!
         Aquilo não é para se ver, sem se entrar em sobressalto.
         O Cristo histórico não suporta o teatro dos homens. E o Cristo de hoje só espera os nossos braços, a nossa voz, o nosso vigor para bradar contra os novos poderes, herdeiros dos de outrora. E agir! Tenho para mim que Ele, “sempre em agonia até ao fim  do mundo”, (Blaise Pascal) mais estima a nossa visão vigilante -  debruçada  sobre as estações dolorosas que todos os dias passam diante dos nossos olhos, por vezes, indiferentes – do que a contemplação estática, improdutiva, das estações do Calvário.
Porque é intemporal o pensamento do Padre Vieira, que citei no ano transacto, trago-o  de novo,  como quem faz a síntese perfeita:  
 “As imagens de Jesus  Crucificado que estão nas igrejas são imagens falsas, porque não padecem nem sofrem. Imagens verdadeiras de Jesus são os pobres, os doentes, (hoje diria ´’os refugiados), esses sim é que padecem” .
É assim a minha Semana Maior!

         11.Abr.17

         Martins Júnior

domingo, 9 de abril de 2017

POPULISTA… O MESTRE? JAMAIS! – O DIA ÍMPAR DA FORÇA DO POVO


Ao fim de um domingo de festas, cortejos, espectáculos, campeonatos, se ainda houver um recanto íntimo de onde se possa visionar a agitação dos factos e deles extrair uma cabal interpretação, aqui vos deixo uma proposta.
         É de palmas e de tenras folhagens verdes que me rodeio e inspiro. Porque hoje é o seu dia – o Domingo de Ramos, um  momento episódico passado lá longe num tempo e num espaço fora do nosso alcance e que se tornou viral, espectacular, explorado ao sabor de interesses que não foram os originais.
         Situando-nos no cenário de então e compulsando os escritos coevos, o caso é simples de contar. Um homem de trinta e três anos, líder e educador de uma  espiritualidade  transparente – O Mestre J:Cristo – tinha a absoluta certeza de que os seus dias estavam por um fio. As classes dominadoras da finança e os intocáveis ‘gurus’ da religião oficial ultimavam as linhas estratégicas  para  liquidá-lO.  Os rumores e as ameaças verbais que, de veladas passaram ostensivamente a provocações directas, não deixavam margem para dúvida.. “Ele deixou de aparecer tão abertamente em público”, dizem os textos. Armas e exércitos não os tinha, poder financeiro muito menos, aliados nas altas esferas oficiais também não. Mas era preciso fazer tremer as estruturas do poder maquiavélico que dominava a Palestina e que maquinava assassiná-lO.
         Uma ideia avassaladora saiu do povo miúdo, à qual Ele, pela primeira e única vez, deu assentimento. E foi num domingo, pela manhã. Andou a mensagem de boca em boca (hoje seria pela net) e depressa juntou-se a multidão vinda dos quatro pontos cardeais da Judeia, numa explosão de alegria que mais parecia um ‘tsunami’  imparável sobre a cidade capital, Jerusalém. Espontaneamente, velhos e novos, homens e mulheres, crianças saltitantes, atapetavam o chão dos caminhos com mantos e mantilhas, ramos verdes, o que havia à mão. A meio da multidão, Ele seguia, manso e firme. Seu trono era um jumentinho emprestado por um vizinho de uma aldeia próxima. Os manifestantes enchiam a cidade de vivas, hossanas  e cantares ao seu Mestre e Líder. No seu íntimo (assim me pareço ouvir) um desabafo pairava desafiando os poderosos: ‘Vós tendes exércitos, carros de combate, palácios, tesouros. Não tenho onde reclinar a cabeça, mas sou mais forte que todos vós, a minha força é este Povo que vós explorais impiedosamente, mas que hoje sai à rua, unido,  vitorioso e livre’. Dizem os textos que a cidade tremeu “alvoroçou-se”. E com ela, os fariseus, os Pilatos, os Herodes, os sumos-sacerdotes Anás e Caifás.  Nem as sentinelas pretorianas, nem o exército romano, nem os guardas do Templo, ninguém  Lhe tocou. “Com medo do Povo” explica o relato bíblico. E quando enviaram emissários para que  mandasse calar e dispersar aquela gente, Ele respondeu com o vigor desafiante da sua palavra: “Se eles se calarem, levantar-se-ão contra vós as pedras da calçada”
E foi a Festa da Liberdade, foi o poder do Povo, que venceu a ditadura sacro-profana de Jerusalém! Foi o Dia Ímpar! Não falta, por aí, quem malevolamente alcunhe Cristo de “Populista”. Nada mais falso. Ele incarnava todo o Povo e transportava-o aos ombros. Era o sublime escravo do Povo para salvá-lo em toda a plenitude.
A quem me acompanha nesta viagem, proponho um simples exercício de comparação. Que estranho paralelo!  Tão diversa a paisagem, tão contraditória! Dignitários religiosos revestidos de capas bordadas a filigrana, altas patentes governamentais e militares (vi eu hoje pela TV, no monumento da Batalha), tudo formalista, artificioso, senão mesmo embusteiro. Domingo de Ramos não é festa para sumidades eclesiásticas nem para os brasonados ‘quarteleiros’ dos paióis. Pelo contrário: foi contra os corifeus da religião oficial e contra os imperadores  das armas  que o Povo se manifestou, ao lado do seu Mestre.    
Em Domingo de Ramos, é Cristo o Protagonista --- e seu co-protagonista o Povo autêntico, a caminho da  libertação. E sempre que um Povo se une e se manifesta em defesa da Verdade e da Justiça, aí se renova o Domingo de Palmas!

09.Abr.17

Martins Júnior

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A CRUZ: SINAL E CONTRA-SINAL


É sexta-feira. De um tempo maior.
Ambos – tempo e sexta - trazem um estigma que marca e abarca templos, cidades, caminhos, lugarejos remotos, onde quem é crente reconstitui a chamada Via Crucis, memória evocativa de um percurso pedregoso, ingrato, lá para os lados de uma Jerusalém de há mais de dois mil anos. O estigma é o símbolo da Cruz, perante a qual o povo se comove, se entretem e, não raras vezes, se compraz, atribuindo-lhe uma conotação mítica, a roçar a magia e a superstição.
Se os meus acompanhantes dos ‘dias ímpares’ tiverem paciência e lugar, partilho a breve incursão que ensaiei, hoje mesmo,  nesta comunidade onde vivo. Chegaremos à conclusão de  que o sacralizado símbolo da Crus destrói-se a si próprio e torna-se o anti-símbolo. ´Contradiz-se a si mesmo, devido ao uso e abuso que dela se tem feito.
A Cruz domina a estatuária, a arquitectura soberana e entra no coração e na carne dos seus utentes. Ela pula, gigante e altaneira, para a ogiva das catedrais, guarnece os alçados palacianos, adormece na tumba dos cemitérios, emoldura a heráldica dos brasões monárquicos e os medalhões  dos laureados famosos,  Por fim, ela cola-se ao peito daquela jovem que mais prendada fica se a trouxer em fio de ouro puro. Chega a ser ‘chic’ usá-la e ostentá-la.
E há um mercado-super de matérias primas para construí-las, as cruzes. Há-as de pinho da terra, e  de ferro forjado; há-as de plasticina e de bronze cinzelado; há-as, ainda,  de marfim e porcelana. É um santuário de cruzeiros a sala de coleccionadores agnósticos. Incomoda-me mais, porque me repugna, ver gente veneranda e devota transportar, de semblante  compungido, um crucificado de prata banhada em ouro, arvorando-o em comemorações de calvário. Como se a carne e os ossos do martirizado Cristo se mudassem em metal precioso, após a sua morte.
Mas a Cruz . aquela que se conhece – nada tem de especioso, mítico ou espectacular. Pelo contrário, ela é a prova mais acusativa da violência dos poderosos, o simulacro horrendo do quanto é capaz a malvadez humana que sadicamente mata os inocentes. A Cruz é o equivalente à fogueira da Inquisição,  à guilhotina, à corda de enforcar, ao forno crematório, enfim,  ao gaz ‘sarim’. A Cruz nunca foi motivo de orgulho, porque  é o símbolo da nossa vergonha comum. Por isso que nunca será peça de adorno, muito menos joalharia sacra ou cereja altaneira no cimo dos campanários. É neste contexto que se interpreta o sermão que o grande Padre António Vieira fez na Capela Real, diante da corte imperial ali reunida, os fidalgos brasonados na primeira fila: “Antigamente, eram os ladrões que pendiam do alto das cruzes. Hoje são as cruzes que pendem do peito dos ladrões”.
Assim seria sempre o simbolismo da Cruz se não fosse o corpo que lá cravaram  os  poderes de então: o poder religioso do Templo, aliado ao poder político-judicial do governador Pilatos.. Absolutamente! Assim como aos grandes abismos correspondem grandes altitudes, assim o patíbulo da Cruz serviu para demonstrar a autenticidade e a palavra de honra de Alguém que pagou com a morte a factura da Sua palavra. Antes quebrar que torcer! Foi o Corpo agonizante do Mestre que, de coração benfazejo, destruiu a malvadez dos assassinos  que maquinaram e levantaram aquele instrumento de ignomínia. “Pai, perdoai-lhes, porque (os autores materiais, estes pobres soldados) não sabem o que fazem”.
Derrubar as cruzes, libertar os crucificados: quem quer alistar-se nesta campanha?...

   07.Abr.17
Martins Júnior


quarta-feira, 5 de abril de 2017

"DEIXEM ABRIL EM PAZ"…


Ninguém como Mestre Tempo para valorar pessoas e factos!
À luz deste guião percorro os 86 anos daquela que foi a maior afirmação de Portugal contra a ditadura nascente de Salazar: o “4 de Abril de 1931”. E à luz do mesmo critério escrevo na primeira oitava das comemorações ontem celebradas na Madeira.
O contraste entre o registo fotográfico de ambos os acontecimentos não podia ser mais eloquente: Em 31, foram as massas populares que abriram as hostilidades  contra o monopólio da farinha (o “decreto da fome” emanado do governo central) e a falência do banco madeirense “Henrique Figueira”.  Depois, os oficiais de Lisboa deportados na ilha integraram-se no caudal revolucionário que inundava o Funchal e  deram-lhe uma expansão mais incisiva, organizando-se contra a ditadura que começava a crescer no governo de Salazar. Foi uma avalanche gritante que jorrava do coração das gentes da ilha, com maior visibilidade no Funchal. Tal como, mais tarde, em 1936, na “Revolução do Leite”, outra vez contra os monopólios decretados por Salazar. Os ditadores chegaram a tremer perante a resistência do povo.
Ontem, “autoridades civis, militares e religiosas”, obedecendo  sem sangue nem alma  a um ritual  anémico,  ali para os lados do cemitério de São Martinho, acompanharam um ofício de altos dignitários regionais, em rigorosa fatiota de cangalheiros oficiosos,  que, à maneira dos seus progenitores políticos, fizeram o que se faz a um morto: depositaram coroas de flores. E os rapazes audazes só souberam perorar e bradar: “Mais Autonomia, mais Autonomia”  eles que, nos alvores da Autonomia, ainda estavam a sair da incubadora da adolescência, depressa aprenderam a cartilha dos velhos!
E aqui começa a mais atrevida desvirtuação  do 4 de Abril de 31, o equívoco insuportável que se foi propalando aos megafones da Quinta Vigia: “O 4 de Abril foi  o princípio  da luta pelo separatismo contra Lisboa, pela nossa independência, pela nossa autonomia”. Tudo baralhado para destroncar o cérebro do povo! Nada mais errado e desonesto, sob o ponto de vista estritamente  histórico. O “4 de Abril” não foi contra Lisboa, pois os militares que o lideraram eram cidadãos vindos de Lisboa e aqui deportados, entre eles, o general Sosa Dias, o capitão Freiria, o tenente Camões. A Revolta foi  contra a  ditadura salazarista.
Vejamos agora o truque de prestidigitação levado a cabo pelos corifeus do regime salazarista que, logo na manhã de “25 de Abril de 74” mudara de pele. Sigamos as semelhanças e as diferenças:
1)  Salazar mandou de Lisboa furibundos efectivos militares que sufocaram a Revolta. Na Madeira, o primeiro governador civil e militar pós-25 de Abril  e, logo depois, o presidente “vitalício” da Região não fizeram outra coisa: atiraram as tropas madeirenses contra o seu próprio povo, nas justas lutas da hotelaria, nas justas reivindicações dos produtores de cana sacarina. Os sucessivos ataques ao povo de Machico são a mancha mais ignóbil dos autoproclamados donos açambarcadores da Autonomia.
2)    Salazar vingou-se dos madeirenses cortando-lhes as verbas durante décadas. O autoproclamado chefe da Autonomia fez exactamente o mesmo: “Para Machico nem um tostão. Machico é do terceiro mundo” - “quarto mundo”,  acrescentava-lhe um decrépito secretário de todos os departamentos do governo de então). O actual titular não faz por menos: “As populações dos concelhos da oposição vivem pior que as dos concelhos do PSD” – como se não fossem os concelhos todos  da responsabilidade do governo regional!... E quanto a Machico, só agora o mesmo titular saiu da hibernação sonolenta, agora  (vésperas de eleições) é que promete  ressarcir as vítimas das intempéries, três anos depois !
3)    Se mais dúvidas subsistissem sobre as semelhanças dos insaciáveis esfomeados da autonomia ( só para eles!) e o regime ditatorial que esmagou a Revolta da Madeira, basta este blasfemo, antidemocrático e despudorado arroto do protótipo tentacular dessa Autonomia: “Eu bati o recorde do dr. Salazar no governo”.


      Servem estes apontamentos  (mais que desabafos, são constatações indesmentíveis) para ‘justificar’ os resíduos mortuários que ostentam nas mãos os autómatos depositantes de flores no dia “4 de Abril”  aos pés de uma Autonomia que parece cair em cima deles. É que eles não são dignos dos militares de outrora, lídimos exemplares do verdadeiro patriotismo contra o abuso dos ditadores. Nem dignos são  do Povo Madeirense que, em 1931,  abriu caminho aos valorosos militares, combatendo a exploração dos moageiros, os monopólios acobertados e protegidos por governos populistas e seus comparsas, entre os quais. as hierarquias eclesiásticas. Hoje como ontem. Lá estão todos, de braço dado.
    Apraz-me retomar aqui o que, muitas vezes e sob diversas formas, denunciei na minha passagem pelo parlamento regional, numa altura em que a bela estátua, da autoria  do nosso  talentoso escultor Francisco Franco, estava colocada à sua entrada:  “A Autonomia , até agora, resume-se  nesta breve  e evidente axioma: O Terreiro do Paço  mudou-se para o Terreiro do Semeador. O resto é  ilusão e ‘vã cobiça’ com que se engana o Povo”.
     Deixem Abril em paz!  


05.Abr.17

Martins Júnior 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

VITÓRIA É O SEU NOME !!!

 Desde ontem, domingo, vou escrevendo como quem corre pelos trilhos de uma maratona sem termo ou como quem canta em cima dos escombros da  própria casa esmagada  pelo furacão.  Porque é impossível viver sem olhar o pico alto, nem se consegue respirar senão abrindo os pulmões ao sol da madrugada, venha ela cedo ou tarde.
         Ontem foi a última passada para chegar às margens da Páscoa e onde se falou de soltar os cativos do túmulo e trazê-los à vida (Ezequiel,37, 12-14 ). Viu-se também o filme narrado de um tal Lázaro, ‘amigo do peito’ do Cristo taumaturgo, sair da tumba cavada na rocha e voltar aos caminhos reencontrados de Betânia, sua aldeia natal. (Jo,11, 1-41) .  Tocou-me as entranhas da emoção e da razão essa mensagem positiva, sublimadora, em manifesto contraste com os arroxeados crepes da chamada Semana Santa que tanto comovem as mentalidades tradicionais, secundadas pelos não menos tradicionalistas e taciturnos ritos que a acompanham.
         Que estranho fenómeno de masoquismo! Parece que os crentes deliciam-se na contemplação da derrota, na exploração mórbida do drama, do suor de sangue no Horto das Oliveiras, dos espinhos e das marteladas no Calvário,  a desnudação do manto inconsútil do Nazareno, enfim, alteou-se o Crucificado como símbolo e talismã supremo que importa ver e guardar a todo o momento. É o guião impressionista, até ao extremo insuportável, de Mel Gibson, cuja película muita e ‘boa’ gente adorou. Sem mais preâmbulos, o meu comentário cinge-se a uma simples pergunta: “Qual de nós gostaria de exibir, como único troféu ou ex-libris, a figura de seu pai, de sua mãe, de um seu irmão, publicamente humilhados num cadafalso, vilipendiados, quase-nús, irremediavelmente derrotados?”…
         Nem o próprio Redentor. Pelo contrário: o que Ele pretende é que O ajudem a transportar o madeiro, aliviar-lhe o martírio, como fez Simão de Cirene. O que Ele quer é que O  tirem da cruz, como fez José de Arimateia que até lhe ofereceu o túmulo da família,  estalagem transitória de sexta a domingo. E como a Mãe que,  já morto, O recolheu nos braços sustentados por uma força maior – a certeza da vitória, três dias depois.
         É por isso que os textos de ontem só falam do regresso à vida, à acção, à luta pelo triunfo da Verdade e do Bem. É por isso que o pico alto da Páscoa e a sua mais expressiva bandeira não são a cruz da derrota, mas o Cristo redivivo, libertador, triunfante, para fazer subir e triunfar toda a Humanidade. Assim fizeram protagonistas anónimos da história humana, companheiros de prisão, amigos debruçados sobre os abismos da depressão alheia, enfim, solidários activos, corajosos, com risco da própria vida,  desobedientes às leis dos ditadores,  mas salvadores de homens, mulheres e crianças, como  foram Aristides Sousa Mendes e Salgueiro Maia, comemorados  e ressuscitados hoje, 63 e  25  anos após a sua morte, respectivamente.
         Mas escrevo desde ontem, pensando e sentindo que há mais Páscoa a cantar dentro das quatro paredes da mesma casa e depois se alargam e projectam para o grande estádio desta comunidade.
Desculpar-me-eis este desabafo de estado de alma, mas não consigo ultrapassá-lo sem partilhar convosco. Seis anos selaram a urna branca do menino que brincava à nossa porta, que subia aos mastros engalanados das nossas festas e  que nos encantava a todos dedilhando as cordas do seu bandolim.  E nessa noite, foi paixão e morte antecipadas para seus pais que aceitaram nos braços um filho morto  – o único!  Vinte anos de primavera ceifados quando abria o mês de Abril…
Mas não quiseram os pais amortalhar-se nas lágrimas da campa breve. Ergueram-se à luz de um sol que os esperava por detrás da montanha abissal da amargura. E mesmo desafiando os imponderáveis da idade, pendente já para  a linha do  equador da vida, transformaram o luto em cânticos e dos espinhos fizeram pétalas de ouro, trazendo ao mundo essa mimosa manhã de Páscoa, a quem puseram o nome de Vitória! E o encanto voltou de novo à paisagem, encheu os nossos braços e agora  saltita feliz de mão em mão deixando sorrisos e ternuras infantis em todos os corações. Onde só havia uma cruz solitária levantou-se uma haste fina e bela  que se junta agora  às cerejeiras em flor  e aos aleluias pascais.
Desde ontem, estamos tecendo o hino à morte que se tornou Vida.  VITÓRIA é o seu nome.
É assim a Páscoa que queremos todos construir!

03.Abr.17

Martins Júnior