sábado, 13 de maio de 2017

NOBRE POVO PORTUGUÊS – O PURO SANGUE LATINO!

                                                    
Portugal não cabe hoje no mini-rectângulo do seu berço nativo, nem mesmo no  mar imenso que o liga às ilhas-filhas. “Ganhou tudo o que havia para ganhar”. Desde os neurónios da  cabeça até à planta dos pés! Tudo fervilha e canta e pula, como se esta meia ‘jangada de pedra’ levantasse o voo triunfal de outras eras. Este 13 de Maio, bem  poderiam inscrevê-lo ao lado do Dia de Portugal, geminados os dois pela coroa de louros destinada aos heróis, alcandorados ao olimpo dos deuses.
Esperei até ao dobrar da noite para lançar-me, livre e triunfante, na asa branca desta página. E, de repente, acho inútil perder tempo e tinta perante o magnífico triplo salto que nos foi dado observar na pista transatlântica que é o nosso país. Venha a voz macia e quente do nosso Francisco José e cante,  “baixinho” não, mas  a plenos pulmões ao som da guitarra: “Esta noite ninguém dorme”. Na realidade, corpo e alma erguem-se hoje na trilogia do transcendente que define  a condição humana: a espiritualidade, o vigor atlético e o amor  “pelos dois”, por mil, por milhões. A partir do traço-equador de Portugal, viveu-se a mensagem intimista do espírito, através do líder sócio-religioso na Cova da Iria. Descendo à “capital do Império”, um  novo Tejo, vestido de rubro ardente, desaguava em delta aos pés do Marquês do Pombal. Era o tetra.  E mais longe, noutro meridiano europeu, Kiev erguia o coração exaltante de Portugal numa canção onde cabiam os corações do mundo inteiro.
                                               

Dito isto, o que mais me tocou nesta  euforia estonteante  foi o  afã incondicional, irresistível, roçando o irracional, com que nós e os outros – o vulgo – enquanto espectadores ou co-partilhantes, vivemos cada um destes acontecimentos. Tão díspares, na sua análise epistemológica, mas tão iguais e coincidentes nos efeitos e reacções! Seria preciso abordar um investigador neurologista ou sócio-psicanalista para desvendar o enigma. Desde logo, a começar pelas motivações: quer em Fátima, quer no Marquês ou na Luz, as motivações individuais enfeixam-se no mesmo tronco: a fé, a crença, o afecto. Se lá em cima eram a religião e o amor que empolgavam os ânimos, cá em baixo, ouvia-se escancaradamente: “O Benfica é a minha família, o amor da minha vida”, ou, repetindo o mais famoso de todos, Artur Semedo, “o Benfica é a minha religião”. De um lado, uma imagem tutelar e um líder galvanizador;  do outro, uma estátua inamovível tutelando o cobiçado troféu e um condutor de homens atléticos que os levou ao clímax, sósia de si mesmo, Vitória. Depois, é a multidão, o frenesim contagiante e sempre  o mesmo balbuciar de espasmo: ”Não há palavras”… A mesma equação estava  na ribalta de Kiev: o Troféu do Eurofestival, o palco do artista, os iluminados julgadores-votantes e milhares, milhões de corações aos saltos.
Salvaguardando, como disse, a escala de valores, a questão que se impõe é esta: “Qual dos fãs amará mais? E a qual dos três ‘santuários’ prestará  culto maior? E onde o sensímetro para quantificar a lealdade ou a energia dos ânimos?
                                          
É neste banco raso que me coloco, serenamente, para tentar penetrar nos labirintos do psiquismo humano, sem sectarismos de espécie alguma, procurando entender o individual intimista, conectado com o fragor das multidões. É que a multidão, como é sabido, não é apenas a soma parcelar das partes. É outra entidade e ultrapassa a singularidade empírica do indivíduo.
Mas, afinal, onde me fui eu meter?!... No entanto, é algo que me motiva e me arrasta: mergulhar na profundeza do nosso composto psicossomático. Fica para o silêncio do meu quarto. Porque hoje  é Festa, garbosamente tricolor: a brancura do Papa do Povo, o vermelho do Benfica e o negro-espiritual do Salvador Sobral. Venha cá o Fernando Pessoa  e emende,  não diga mais: “Portugal, hoje és nevoeiro”. Não, que é dia de cantar: “Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal”!

13.Mai.17
Martins Júnior        

quinta-feira, 11 de maio de 2017

ÁGUAS DANÇANTES – LEVADAS CANTANTES





Hoje vou poupar as redes sociais à inflação dos dois ‘éfes’ que, de manhã à noite, vão entupindo os canais oficiais da informação. Deixo, pois, sossegados Fátima e Futebol  -  os dois tufões (ambos respeitáveis) que até sábado varrerão florestas, cidades, telhados e cabeças deste país.
Prefiro as breves viagens na minha terra, as que nos trazem aragens calmas e saudáveis, que perpassam à nossa porta e pedem licença para entrar.  São os livros, que hoje se ofereceram aos ilhéus. Na Ponta do Sol, a evocação da Primeira República, pelo investigador Gabriel Pita, à luz do romance histórico “DA CHOÇA AO SOLAR” do Padre João Vieira Caetano,  (1917) apresentado pela Prof. Luisa Paolinelli. No Funchal, a candura do “QUINAS  ” da escritora Violante Saramago Matos, cristalino como um repuxo matinal, porque inspirado e ilustrado pelas crianças das escolas de Câmara de Lobos e Calheta.
O terceiro sopro de frescura ecológica veio ter comigo na apresentação das “LEVADAS DA MADEIRA”, uma obra antológica primorosamente enriquecida pelos textos de escritores portugueses e estrangeiros sobre a epopeia incrustada no basalto da ilha, desde o início do povoamento. A iniciativa do Prof. Thierry dos Santos - com posfácio do Prof. Nélson Viríssimo e fotografia de Francisco Correia – traz um novo traço, ainda não revelado, e um olhar polissémico sobre as nossas levadas, nos seus multiformes contornos, desde o ecológico e literário até ao pragmático e social.
Apreciei a produção poética de escritores madeirenses sobre o mesmo tema (para mim, uma surpresa) e verifiquei que o cantar gorgolejante dos nossos canais de rega ultrapassou a rudeza rural das gentes com quem se entrelaçam as nossas vidas. E associei-me ao ritmo das águas correntes, reproduzindo aqui a letra da canção que, em 2012,  incluí no CD “TERRA DA MINHA SAUDADE”, a qual, composta há mais de duas décadas, foi coreografada no palco da Ribeira Seca, como homenagem à luta quotidiana  dos camponeses desta localidade. Homenagem, sobretudo, à água que fertiliza os nossos campos – tão bendita e sagrada como a água de Fátima – e aos heróicos construtores das levadas “que abraçam toda a Madeira”.

Água que corres baixinho
E vens do alto da serra
Tu és o nosso caminho
Dás o pão à nossa terra

Pão nosso de cada dia
Amassado de amargura
Também nasce da levada
Vem da nascente mais pura

Refrão
 ‘Levada Nova’ da serra
Que vem da ‘Fonte Vermelha’
Passas na Ribeira Seca
Cantas com ela à parelha

Água que vens de lá de cima
Bem vês a nossa canseira
Do povo do nosso campo
És a mãe e a companheira

Levadas da nossa terra
Que vivem à nossa beira
Lá andam de terra em terra
Abraçam toda a Madeira

11.Mai.17
Martins Júnior


terça-feira, 9 de maio de 2017

A NÃO-VISITA – UMA HISTÓRIA VERDADEIRA


Está ao rubro o 13 de Maio. Caminhos e veredas, estradas e romeiros enchem os canais da informação oficial  e as redes sociais. Rios de alegria à mistura com dores físicas e morais vão desfilando sob os nossos olhos, ao minuto. Mas há uma outra peregrinação – a da Imagem de Fátima à Madeira em 2010 -  coincidente com a grande catástrofe que vitimou parte da ilha. E dentro dela, há uma sub-história, vivida na Ribeira Seca em 8 de Maio. Fez ontem, precisamente, sete anos. Durante toda a tarde, a comunidade preparou-se para receber a visita da Imagem Peregrina. Em vão. Levaram-na para a escola local e, no regresso, trouxeram-na pela estrada que liga à igreja da Senhora do Amparo,  Ribeira Seca. Era já noite.  Ali estacou, em plena via pública. E não entrou, nem sequer no adro. A população apinhada no vasto recinto, estupefacta, viu o representante da diocese, acompanhado  dos  respectivos  acólitos paramentados,  negar a entrada da Imagem. O insólito acontecimento serviu de mote às poetisas locais  que descreveram o caso em muitas dezenas de quadras populares, integradas mais tarde (2014) no CD “A Igreja é do Povo e o Povo é de  Deus”.  Porque também isto faz história, prescindo hoje do meu comentário e reproduzo, resumidamente, algumas das referidas quadras. Foi o nosso 13 de Maio. 
                                                            

                                                                 

“O  nosso trabalho  é  a terra
Ela também é um altar
Lá onde a Mãe do Amparo
Está sempre a abençoar

Mas um dia a Peregrina
Veio aqui e  não entrou
A Senhora não tem culpa
O  bispo é  que  não deixou

A comissão da paróquia
Várias cartas escreveu
Mas nunca nos deu resposta
Com certeza não as leu

Senhora és Mãe de todos
A Igreja tem de aceitar
Quem é o bispo da Madeira
P’ra nela querer mandar?

A diocese não quis
Que a imagem viesse á igreja
Veio à escola do governo
É isso que Deus deseja ?

Levar a imagem à escola
Religião com disfarce
Nossa Senhora precisa
De tirar a quarta classe

Na  paróquia há uma igreja
Pobre mas religiosa
Aqui ninguém corre risco
De doença contagiosa

Agora só falta ensinar
No próximo catecismo
Que a escola é p’ra rezar missa
E a igreja é  p’rao racismo

Foram os chefes do templo
Os que mataram Jesus
Com a fé e o poder
Pregaram Cristo na cruz

O Povo desta paróquia
Eles têm desprezado
Só falta pregá-lo à cruz
Para ser crucificado

Usam a religião
Para nos fazer sofrer
Será que o Papa sabe
O que está a  acontecer?

O Papa Bento 16
Veio visitar o país
O que aqui  se passou
Isso a ele ninguém diz

Ó Maria nossa Mãe
Tende de nós piedade
P’ra  podermos  resistir
A tanto ódio e maldade

O senhor bispo e o cónego
Não acham que estão errados
Tratarem uns como filhos
E outros como enteados?

O  D. António  Carrilho
Deve ter descarrilhado
Já esqueceu o seminário
E para que foi ordenado

O senhor bispo não acha
Que basta de hipocrisia
Desocupe a diocese
E vá  p’rà  Quinta Vigia

Para quê ler uma Bíblia
Sem cumprir o que lá diz
Deus não quer guerras nem ódios
Nem ver ninguém infeliz

Não querem ver a verdade
A Igreja está doente
Olhem os vossos defeitos
E deixem a nossa gente

Ninguém cala a nossa voz
Digo ao mundo e a vocês
Com imagem ou sem ela
Nós somos filhos de Deus

Nunca vamos desistir
Lutamos com esperança
Já é um ditado antigo
Quem merece sempre alcança

Já tem mais de trinta anos
Que esta luta começou
Morre um Bispo  entra outro
Mas na Igreja nada mudou

Veio a imagem de Fátima
Visitar-nos à Madeira
Não veio à Ribeira Seca
Que ficasse na azinheira

O dia 8 de Maio
Deve ficar na memória
A nossa Ribeira Seca
Conta aqui a sua história

Somos todos filhos teus
Perdoa ó nossa Mãe
Vendo aqui tanta maldade
Tu sofres mais que ninguém”

Versos da autoria de Júlia Ribeiro,  Josefina Mendonça,  Encarnação Bacanhim
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domingo, 7 de maio de 2017

MÃE – ORIGINAL OU FOTOCÓPIA?


Tudo já foi dito e tudo ficará ainda por dizer. É assim o Livro, o Poema, a Beleza, a Altura e a Profundidade do nome de Mãe. De todas as quadras populares acerca da Mãe, esta será porventura a que mais se me cola à memória e ao coração: “Por muito que a gente faça/ Em louvor da nossa mãe/ Tudo é nada comparado/ Ao amor que ela nos tem”. Olhá-la, senti-la, amá-la, na sua pureza matutina será a atitude perene de quem lhe deve o ser.
Vê-la na sua versão original! Mesmo quando, pela lei da vida,  dela se apartam os nossos olhos, ficará ela sempre viva, imponente, sublimada no trono dos valores maiores. Por isso que nenhuma fotocópia – papel. tecido, madeira, mármore,  ouro ou diamante – logrará o nosso mais profundo afecto. A cor da pele e a sonoridade da voz materna, nós sentimo-la e  ouvimo-la, com saudade,  bater à nossa porta, quer  dos longínquos continentes, quer do silêncio da campa rasa. E isso nos basta. Porque vemos o invisível e escutamos o inaudível!
Quero partilhar convosco, por toda esta semana, emoções e sobretudo concepções acerca daquela que, desde tempos imemoriais,  nos tem sido apresentada  como protótipo das mães – Maria de Nazaré. Está na ordem do dia, pelo menos até 13 de Maio, em que um milhão de gente anónima caminha, por diversos meios, até alcançar a colina de Ourém, não sei se para ver a fotocópia da Mãe e Senhora, se para ver a figura cimeira do mundo contemporâneo, Francisco Papa.
Desde logo, assumo a condição de vidente empírico da realidade, a qual, sendo bimilenar, mais transparente se torna ao meu  olhar. Dispenso radicalmente as imitações, os roda-pés, os ‘pastiches’, as adaptações berrantes e, por vezes, alucinadas. Numa palavra, rejeito as fotocópias.
Por isso, curvo-me e amo aquela que se comprometeu e gerou dentro da sua barriga mortal o líder imortal dos tempos novos, o Restaurador da Humanidade. Risco tremendo, aceite sem tremer, sabendo ou, pelo menos, prevendo a saga sangrenta e trágica em que retalharia os pés e as mãos ao longo do percurso daquele Filho! A começar pelo ostracismo a que foi votado antes de entrar no mundo – “os seus não O receberam” – até ao supremo martírio  no cadafalso mais ignominioso de então, essa Mulher-Mãe demonstrou uma coragem estóica, roçando o heroísmo. Cumpriu o seu mandato até ao fim. Sem desvios nem hesitações. Sem louros a coroá-la nem panegíricos à sua espera. À estatura enérgica de carácter, aliava uma subtil e interventiva sensibilidade que lhe fazia adivinhar, solícita, o que faltava à mesa da festa do Povo, o vinho nas bodas de Caná. Não percebo por que maquiavélica estratégia a literatura oficial hierárquica esconde nas pregas de um misticismo alienante aquele canto homérico, promotor da autêntica revolução social, descrito de viva voz pela própria. “Eu te saúdo, ó Deus, porque derrubaste os poderosos dos seus tronos e exaltaste os humildes da terra. Eu te bendigo,  porque encheste de bens os famintos e aos  exploradores ricos despediste-os sem nada” (Lc.1, 51-52).    Magnífico, exuberante e arrebatador este que se pode chamar um antecipado ‘Grito do Ipiranga’. De ontem, de hoje e de sempre!
Por isso, amo-a, mesmo que nada me dê. Vê--la e segui-la, à luz forte e meiga do seu rasto, tanto me basta e me chama. Por isso, dispenso as ‘reproduções’ mutiladas, tão em voga. E ainda por isso, peço que Ela me ajude em não perder-me na hipnose colectiva a que é propensa a personalidade neurótica e oportunista dos tempos que correm. É o que me proponho abordar nos próximos dias.

07.Mai.17

Martins Júnior

sexta-feira, 5 de maio de 2017

DOMINGO, 7 DE MAIO, OS BISPOS FRANCESES TAMBÉM ESTÃO EM LUTA!


“Como é diferente o amor em Portugal” – desabafava orgulhosamente o purpurado português Gonzaga, na Ceia dos Cardeais, esse mimo de literatura do nosso Júlio Dantas.
No preciso dia em que escrevo estas linhas, direi, não com orgulho, mas com preocupação: Como é diferente o episcopado em Portugal, sobretudo  quando o comparamos com os seus pares franceses. Enquanto no nosso país, as dioceses preparam jubilosamente a seda e a púrpura das vestes pontificais para receber o Papa Francisco, em França os bispos estão divididos e, com eles, os padres, os cristãos e as associações católicas em geral. O caso é preocupante, tanto na pátria dos gauleses como noutros países e regiões onde a Igreja se defronta ( ou é obrigada a definir-se)  com as diferentes forças político-partidárias que se degladiam democraticamente na encruzilhada eleitoral.
A notícia do jornal Le Monde não deixa dúvidas: “O episcopado francês, dividido face à Frente Nacional  (FN) de Marine Le Pen”. É esta mulher que está no pomo de uma discórdia semelhante à de 2002 quando o candidato era o pai Le Pen contra Jacques Chirac. E tudo porquê?... Porque o comunicado oficial do presidente da Conferência Episcopal Francesa, emitido logo após os resultados da primeira volta, em 23 de Abril, “não apelava expressamente o voto contra a FN”. E o debate está aceso, comenta a jornalista Cécile Chambraud.
O  nucleo do conflito cinge-se ao seguinte dilema: os católicos votaram massivamente em Fillon, na primeira volta, esperando que  passasse à segunda, o que não aconteceu. “Ficaram órfãos de candidatura”. E, agora em quem votar?  Macron ou Marine?... Eis o nó górdio da questão.
Por um lado, o magistério do Papa Francisco tem-se desmultiplicado em censurar duramente os regimes totalitários e xenófobos, apelando angustiadamente ao acolhimento dos refugiados, por parte dos países europeus – o que manifestamente subentenderia o repúdio da opção FN de Marine. Neste pressuposto, muitos bispos saíram abertamente contra a FN, na linha do bispo de Troyes e presidente da organização ‘Pax Christi France’, Monsenhor Marc Stenger no seu twiter:  “Qual será o nosso boletim de voto em 7 de Maio”?  E respondia, de imediato:  “Não será seguramente o voto do medo, do ódio, da exclusão, da mentira, do fechar-se sobre si mesmo”. Mais clara não podia ser a indicação de voto. Do lado contrário, o bispo de Toulon, Dominique Rey, tido como conservador entre o episcopado francês, alerta: “A Igreja deve limitar-se à apresentação de princípios e não dar indicações de voto. É uma boa postura esta e é a minha postura”. A corrente mais interventiva, porém,  considera esta atitude como uma demonstração de fraqueza, comparando-a com a de 2002, em que o episcopado mandou os católicos votarem em Jacques Chirac contra Jean-Marie Le Pen”. Entretanto, o director da agência de sondagens, Jêrome Fourquet, reconhece que “é real e patente a capacidade da FN em atrair o voto dos católicos praticantes”. Acresce ainda o diferendo profundo entre Marine e Macron relativamente ao casamento, à procriação medicamente assistida e à situação dos homossexuais, teses liminarmente rejeitadas por Marine Le Pen.
   Nesta delicada conjuntura, o jornal católico La Crroix e o semanário La Vie apontam directamente e sem rodeios para o voto Macron. E o editorialista de Le Monde converge no mesmo sentido, ao citar um outro comunicado do Conselho Permanente dos bispos franceses, datado de 13 de Outubro de 2016, onde defendia o carácter pluricultural da sociedade francesa e denunciava “o projecto da extrema-direita que “obriga os nossos concidadãos a fecharem-se sobre si próprios, ( ‘os franceses autênticos’, diz a FN) e que nos isola em relação à Europa, com prejuízo das nossas liberdades”.
É neste ambiente de turbulência que se debatem os bispos de França perante o cenário eleitoral de depois de amanhã. Não se deixam ficar falsamente  imunes, sentados no cadeirão da indiferença, porque sabem e sentem que está em causa o futuro do seu povo, católicos e não católicos.
Resta-me fazer um desafio: E nós, em Portugal, teremos uma Igreja sensível aos reais problemas das populações?... Sendo certo que seria mais cómodo  ‘lavar as mãos na bacia de Pilatos’,  ouso perguntar a quem me lê: Como interpretaria a hipótese de ver os bispos portugueses tomarem a veste interventora dos seus pares franceses?... Caso sério que merece resposta!

05.Mai.17

Martins Júnior    

quarta-feira, 3 de maio de 2017

PREGADORES OFICIAIS DISPENSAM-SE. CHEGOU A HORA DOS AMADORES


O título é desconcertante. Como inédita e ‘perturbadora’ é a iniciativa que me atrevo a comentar. Olhando em nosso redor, perto ou longe detectamos sinais de uma era nova que parece reincarnar aquele anúncio milenar escrito por Joel: “Virá o dia em que os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão” (Joel 2,28).
Na sua mais intensa tradução semântica, o ‘profetizar’ abarca a palavra e o gesto de anunciar boas novas, notícias coladas à vida e transfiguradas pela intuição de quem descobre o “caminho, caminhando”, gente que vai tacteando por atalhos e veredas à procura do marco geodésico que une e dinamiza as linhas do pensamento certo. A essa gente costumamos levianamente chamar de ‘amadores’. E que surpreendentes preciosidades nos trazem os que furam o desconhecido, descobertas latentes no coração dos dias e que permanecem indiferentes aos doutos  ‘profissionais’!
Foi isso que nos patenteou a Fundação Gulbenkian, em Lisboa, quando anteontem o Prof. Dr. Pe. Anselmo Borges deu a conhecer publicamente o seu novo livro “FRANCISCO, UM DESAFIO PARA A IGREJA E PARA O MUNDO”. Não me refiro ao conteúdo da obra nem me deixo mover pela ribalta “cinco estrelas” da intelectualidade portuguesa ali presente. Nem mesmo pelo estatuto  singular de certas personalidades, como o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o general Ramalho Eanes, o Prof. Adriano Moreira,  a  Prof. Isabel Allegro Magalhães, o Prof. Eduardo Lourenço, o Provedor da Justiça,  catedráticos, escritores e jornalistas que encheram a sala.
Outra força maior mexeu comigo. E foi ver “claramente visto” o sopro do espírito pairar no verbo e na voz de quem menos se esperava. Pelo menos, em áreas que, por imperativo oficinal  lhe não são afins. O Autor  pouco disse. Deixou aos comentadores (a que chamo ‘amadores’) a tarefa de decifrar perante a enorme assembleia as linhas mestras do livro. À tribuna subiram as quatro primeiras personalidades que  acima citei. Para espanto meu e desconcerto da ortodoxia hierárquica tão propagandeada, verifiquei que os tais ‘amadores’ conheciam profusamente da matéria em debate, levantaram questões corajosas, direi mesmo fracturantes para a Igreja e trouxeram para a liça a figura imponente e mansa de Jorge Bergollio. Ali falou-se do pensamento religioso, puro e duro. Puro, enquanto processo de liberdade. Duro, enquanto padrão de exigência. Livre e exigente, assim se nos apresentou o fenómeno religioso. No verbo e na voz de ‘amadores’,  gosto de repetir, que nos falaram da periferia para o centro, da base para o vértice, seguindo o método indutivo enraizado na vida, em vez do dogmático e artificioso esquema escolástico-dedutivo.
Foi tal o impacto dos testemunhos apresentados, a transparência e elevação, na forma e no fundo, que cheguei a convencer-me deste terrível dilema: seguir o magistério de uma hierarquia autoritária  não será uma deriva perigosa, porque deturpadora, da Verdade do Cristo Histórico?... Pelos vistos, parece que sim. No final do encontro, um assistente ‘amador’ veio dizer-me: “Está a ver? Televisões, rádios, jornalistas, muitos aqui presentes. E a católica rádio “Renascença”  onde é que está? Não veio. E a própria Igreja oficial também não veio nem se fez representar.
O Prof. Padre Anselmo Borges, segundo a agenda prevista, porá os chamados leigos – os ‘amadores’ – de Portugal a falar de religião, cristianismo, liberdade, compromisso, regresso às origens, na esteira do Papa Francisco. É obra! Em universidades, fundações, associações. Para todos: professores, estudantes, políticos, sociólogos, cristãos, agnósticos, ateus. É esta a grande evangelização nos tempos que correm. E fá-lo, não a coberto de títulos hierárquicos, mas pelo esplendor da Verdade que nos ajuda a descobrir. É por aí que também nós queremos ir!
Por isso, a Madeira espera a sua vez.

03.Mai.17

Martins Júnior

segunda-feira, 1 de maio de 2017

NO DIA DO TRABALHADOR – UM PADRE OPERÁRIO: “TENHO UM CANCRO”


Cento e vinte e oito anos passaram sobre a ponte oceânica que, desde 1889, continua a unir cidades e continentes. Por todo o mundo ecoaram hoje as vozes de Chicago. Também aqui em Portugal. Vozes carregadas de espinhos e dores, mas tornadas leves e soltas pelo esforço de gerações e gerações de homens e mulheres em defesa da dignidade do trabalho face à supremacia do capital. Daqui de longe levanto a bandeira rubra do sangue, do suor e das lágrimas que os filhos dos  trabalhadores  empunharam e continuam a segurar num mundo adverso em que as pessoas são reduzidas a máquinas escravas, descartáveis, de fabricar o metal sonante que sobredoira as mansões dos ‘donos disto tudo’. Homens e mulheres, jovens e anciãos de mãos calosas, rosto enrugado e gasto, mas de olhar desperto como o abrir da manhã, merecem hoje e sempre o pódio dos vencedores – heróis anónimos do trabalho braçal.
No mesmo degrau dos construtores da justiça global, irmanam-se num só abraço os titulares do trabalho intelectual e artístico, arquitectos, engenheiros, escritores, médicos, enfermeiros, professores, todos elas e elas autoras e actores do pensamento em acção. É este o seu dies natalis que importa efusivamente festejar.
É aí que vejo e exalto soberanamente a personalidade de um homem que baixou anteontem à morada comum dos mortais: Joaquim Carreira das Neves, Mestre jubilado de Teologia na Universidade Católica e, mais do que isso, padre humilde, caldeado nas humanas veredas da espiritualidade telúrica que nos deixou o Poverello de Assis.
Todas as vezes que saía do remanso do claustro, em Lisboa, era para encher de luz a mentalidade sombria de uma sociedade que se contenta com a roupagem dos mitos confortáveis da inércia mental. Quer através dos livros, quer em debates televisivos, quer ainda em  conferências de pendor coloquial, Carreira das Neves navegava da foz para as nascentes, procurando delas exaurir a interpretação cientificamente sustentada e, para os preguiçosos sonâmbulos da religião, agitava sem tréguas os alarmes e os desafios da verdade original decorrente das fontes. Dos vários títulos que publicou, como prova demonstrativa do que acabo de afirmar, destaco O Coração da Igreja tem de Bater (2013) e A Bíblia no Século XXI (2016). As suas posições teológico-pastorais são testemunhos premonitórios daquilo que, anos depois, anunciou e continua a ensinar o Papa Francisco. Vertical, corajosa e lapidar é, entre outras, a seguinte constatação que nos legou, como eminente biblista que era: A Bíblia não pode ser tomada como um absoluto, arriscando-se a ser uma tirania à ,maneira do Alcorão de certos fundamentalistas islâmicos.
Tudo isto e muito mais deveria alcandorar-se hoje, 1º de Maio, em homenagem ao trabalhador intelectual que foi Carreira das Neves. E deveríamos tê-lo feito em vida. Por que ingrata tendência somos nós picados, que nos leva a subalternizar e esquecer – quando não, hostilizar, em vida - aqueles que são os nossos mestres e líderes do pensamento sólido e dinâmico, para só os recordarmos após a morte?... Enquanto vivos, actuantes, é que devemos segurá-los, para que os nossos passos caminhem iluminados e conscientes nas encruzilhados da existência. Neste pódio estão  intelectuais de primeira água, nacionais e estrangeiros, como Anselmo Borges, Bento Domingues, Dimas de Almeida, Leonardo Boff, Hans Kung, Pagola, Andrès Torres Queiruga, Castillo e tantos outros.       
            Deixo para o fim um episódio tocante (jamais o esquecerei) quando no Convento da Luz, em Benfica, convidei Carreira das Neves para vir à Madeira e também à Ribeira Seca falar sobre temas suculentos numa ilha ainda sombreada por mitos e tradições atávicas, ele respondeu-me assim, com a frieza de um cientista e com a aceitação descontraída de um aldeão: “Agora não posso. Tenho um cancro. Mas penso que daqui a dois anos, diz o médico que já poderei viajar de avião”. Passaram-se dois anos, passaram-se quatro e o avião levou-o para mais longe. Ficou, porém, sempre perto de nós, com a sua memória e os seus livros, pelos quais ouviremos a sua voz de cientista e aldeão, aquela voz frontal e amiga. Inesquecível!
            Honra e gratidão aos trabalhadores de todos os lugares e de todos os tempos!
           
    01.Mai.17
  Martins Júnior