sexta-feira, 15 de junho de 2018

CUMPLICIDADE E GRATIDÃO



Deixem-me só ficar no ramo verde
Lira lâmina tuba ou flauta
À espera que ele passe, o Vento,
À espera que ela fique, a Poesia.
                 DEDICATÓRIA  in  “Poemas Iguais aos Dias Desiguais”

Desta vez, o ramo verde foi Lisboa, Palácio Baldaya, Estrada de Benfica. O Vento foi a brisa que subia do Tejo sereno. E a Poesia, essa perpassou em todos os amigos presentes na Sala “O Desembargador”, nas vozes que cantaram a solo e no ritmo intenso e ajustado dos  homens e mulheres que declamaram perante  uma plateia de primeira água, que muito me surpreendeu pela quantidade e, sobretudo, pela qualidade.

Jamais esquecerei – e, pela amostra, quem ali esteve – estes momentos vividos numa tarde de Junho cadenciada pelos “Poemas Iguais aos Dias Desiguais”, introduzidos pela sonora profundidade analítica da historiadora Raquel Varela, a quem renovo os meus agradecimentos.
Uma palavra de reconhecimento e apreço à Administração do Palácio Baldaya e aos amigos que, na capital do país, organizaram o evento.
15.Jun.18
Martins Júnior  

quarta-feira, 13 de junho de 2018

TODOS OS ANOS, PELO 13 DE JUNHO


         Ao dobrar a curva ímpar do dia 13 de Junho de cada ano, impossível
seguir viagem sem prestar vassalagem aos dois gigantes que se erguem diante dos nossos olhos – os olhos do mundo inteiro. Separa-os um largo oceano de oito séculos, mas maior e mais forte une-os aquele fogo invisível que purifica as grandes almas: o génio criador! Como um romeiro crente que vem de longe, curvo-me, ajoelhado, diante dos dois Fernandos – Fernando de Bulhões e Fernando Pessoa – e ao pé do seu ‘altar’, hoje em Lisboa,  peço-lhes a bênção e a permissão para saudá-los com a mesma prece que, desde o ano transacto, lhes dedico com paixão e gratidão:



Quem te amarrou ao cepo
De uma milenária noite estulta?
E quem te travestiu
De usurário agente da turbamulta
Em velórios mortiços
Mitos bentos óleos  e feitiços?
Que mão rasteira
Te enfardou e apalhaçou
Entre os varridos balões da feira?

Grandíloquo helénico Demóstenes
Da era medieva
Precursor de Vieira a haver
Esconjurando a treva
Dos tempos

Náufrago migrante
Pelo mundo esparso
Foste ‘Fogo de Santelmo’
Foste Paulo de Tarso
Ulisses bandeirante
Da tua urbe primeira
‘Por mares nunca dantes navegados’

Onde as lusas quilhas não lavravam
Já os teus pés de Assis
Lassos mendigos exilados
Deixavam rasto visionário
De sábio lutador missionário

Em cada areia ou cabo ou frágua
Em tudo vias a amurada de Pádua
Com homens-peixes lá defronte

Oh verbo-fogo que arpava os tubarões
Flameja de novo a afiada espada
Da Justiça agrilhoada

Como outrora os tribunais
Ainda hoje esperam as togas naturais
Que não se prostituam nem fraquejem.

 
 Pessoa com o estro de Fernando
António transmutado de Pessoa
Filhos do mesmo sol de Junho
Amamentados no mesmo berço-Lisboa

Voltai de novo ao seio capital
Génios do Bem
Fernandos da mesma Mãe
E será grande  Portugal



13.Jun.18
Martins Júnior

segunda-feira, 11 de junho de 2018

E JÁ COMEÇA O BATUQUE TUGA-ILHÉU…




         Ainda batem nas pedras da rua e nos tímpanos dos portugueses de aquém e além-mar os tambores, as trompas e trompetes das marchas apoteóticas do Dia da Pátria. Os discursos, os poemas, que é que contam perante o colossal instrumental que os ares atroa? Não há tempo nem eco do seu rasto. O importante é o estrondo, a embriaguez do sopro galopante.
         Olhei o mapa, li o calendário e em jeito de premonição imediata concluí que foi dada a batuta iniciática para o grande batuque itinerante que atravessará os mais de 500 dias que vão desde agora até aos finais de 2019. Vai haver farra e fanfarra. Feiras e feirantes a granel, todos armados de megafones, megaeventos, hiperdecibéis, megadebates de cordel.  Em todos os palcos, ribombará a palavra de ordem: “Façam barulho”!!!
Pela aragem da carruagem, está visto que pouco restará para pensar. Vem aí o rolar da rolha do foot-rei na Rússia, as cabeças dos portugas  aos milhões a rolar no relvado, a alma toda verde-rubra  metida dentro do “caneco” mundial. Vêm a seguir as festas, os santos populares, os concertos, os superrock-superbock’s e outra vez os campeonatos, mais os natais, as missas-do-parto, os foguetes do pobre-são-silvestre e ainda logo à porta a primavera e, em cima dela, os comboios descendentes entrando pelas casas e casebres, sempre a abrir e a zunir “Vota, Vota”, quanto mais ruidoso melhor!
Quem nos dá um momento ou um recanto para pensar e decidir?
Parece que daqui em diante, o que havia a dizer e a propor com seriedade e critério terminou o seu tempo. O que vai lavar e durar são as colunas gigantes, as rotativas diárias gemendo ou urrando conforme a renda que lhes derem, câmeras e ecrãs, idem, idem, aspas, aspas. Quão difícil será manter-se imune à frenética  praga dos vírus que aí vêm!
Para caracterizar a voragem sem freio que se adivinha, puxo para a cena a fala de D. Miguel, governador do reino, eloquentemente desenhada por Sttau Monteiro, na peça Felizmente há Luar:
“E agora, meus senhores, vamos ao trabalho. Há que provocar o ardor patriótico. Há que pôr os frades, por esse país fora, a bradar dos púlpitos… Há que procurar em cada regimento um oficial que se preste a dizer aos soldados que a Pátria se encontra ameaçada pelos inimigos de dentro. Há que fazer tocar os tambores pelas ruas… Os estados emotivos dependem da música que se tem no ouvido… É necessário que as bandas não parem de tocar. Quero os sinos da aldeia a tocar a rebate, os tambores em fanfarra, os frades aos gritos nos púlpitos, uma bandeira na mão de cada aldeão.  Quero o país inteiro a cantar em coro. Portugueses, a hora não é para contemplações”!
Para ironia dos tempos e vergonha nossa, será este o batuque no continente e nas ilhas (por isso lhe chamo batuque tuga-ilhéu) ao qual tentarão amarrar as orelhas e as mãos dos eleitores. Perante o confuso estridor das torres de Babel que já assestaram frechas para os próximos tempos, constituirá um feito notável e duradouro ganhar a sensatez e a coragem de José Régio para, ao menos, reflectir e dizer: “Sei que não vou por aí”!
11.Jun.18
Martins Júnior  
        

sábado, 9 de junho de 2018

APOLOGIA DO “CONTRA” … OU EXPLOSÃO DO “VERO” ?!


                                                                   

Fim de semana, Sábado, o dia recolector dos seis que passaram. E, em estrita simbiose, a mão semeadora dos dias vindouros! Não desejaria nunca perder as espigas e os pães que nos são servidos à mesa de cada princípio e fim das semanas por onde viajo.
         Refiro-me à literatura bíblica hebdomadária que, bem assumida e interpretada, rasga clareiras de fogo fértil diante dos nossos passos.
         Toda a semana ficou iluminada com aquele curto-circuito provocado pelo Mestre Nazareno na pútrida instalação dos códigos moisaicos, onde se assentavam dominadores os doutores da lei, os fariseus e os soberanos pontífices da Templo de Jerusalém. “Hás-de guardar o Sábado: por isso, estás proibido de fazer seja o que for” . Era implacável a polícia político-religiosa, que espreitava o proletário Jesus num daqueles seus habituais  gestos de ajudar quem dele precisasse. E aconteceu. Num ímpeto de premeditada provocação, Ele observa um homem, doente de hidropisia congénita e, alto e bom som, diante dos próprios juízes e intérpretes do Livro, exclama: “Ó homem, chega-te à frente, aí no meio onde todos te possam ver”. Depois, ainda mais atrevido, imponente: “Ó senhores da Lei e do Templo, achais que posso fazer um bem a este pobre padecente”?... 
Era Dia de Sábado. O Mestre sabia bem a que se expunha. Mas, sem mais delongas ou pias justificações,  aproxima-se do homem e cura-o, restitui-lhe a saúde. Os “pides” de então não tardaram em processá-lo, como réu de lesa-divindade. Mas Ele, com mais veemência, atira-lhes este estranho e ‘blasfemo’ normativo: “O Homem não foi feito para o Sábado. O Sábado é que foi feito para o Homem”. Hermenêutica jurídica, sem apelo nem agravo: Em caso de conflito de interesses, o direito do Homem tem prioridade sobre o dever do Sábado!
Por esta e por todas as atitudes libertadores do nosso Mestre, os supremos poderes do Templo e do Sinédrio (os dogmáticos da religião) chamaram-lhe Belzebú, Satanás, demónio vivo no meio do povo! Só lhe restava a única e fatal sentença: a pena capital.
A Pessoa e a sua dignidade na centralidade de toda a construção humana, seja ela jurídica, económica, religiosa, administrativa, deliberativa ou executiva! Como foi possível que o nome do Mestre tivesse atravessado a história sem que trouxesse consigo o primado do espírito da Lei “que dá vida”  em confronto com a “letra que mata”???
É a prova nua e crua de que Ele não veio. Amarraram-nO ao patíbulo do Gólgota e em seu lugar fizeram um trono, um palácio, uma pirâmide inacessível, onde voltaram a impor-se os mesmos que O assassinaram. A Ele e a tantos outros que tiveram a ousadia de opor-se ao tráfico da mentira  manipuladora e fraudulenta. Eles aí andam à solta, anafados e cortejados, exibindo códigos canónicos em vez da Boa Nova do Espírito. No Vaticano há um Homem, Pastor da Cristandade, ao qual certos cardiais tentam instaurar um processo-crime por heresia. É caso para repetir e interpelar: “Ao ponto a que isto chegou! Só falta armar a fogueira da Inquisição e queimar o Homem de Branco”!
Numa época de fáceis derivas oposicionistas, não se trata de fazer a apologia do “contra”, mas de pugnar pela força da Verdade, ainda que se torne explosão iluminante e regeneradora. Como no episódio do Sábado.

09.Jun.18
Martins Júnior

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A SAÚDE URBANA CONTRA OS MUROS QUE OPRIMEM !


                                                       

Hoje sou forçado a mudar de registo. Da multiplicidade inspiradora, saída do Dia do Ambiente, manda a consciência cívica, individual e colectiva, que faça hoje uma deriva obrigatória para, precisamente em nome do Ambiente e da Ecologia, sacudir energicamente o enxurro de aleivosias e insultos públicos que expeliram certas goelas, (digo goelas, porque dotadas de poder discricionário)  atiradas ontem ao rosto dos funchalenses e, ao fim e ao cabo, de todos os madeirenses.
Não perco tempo a pesar  a gordura ou a medir o esqueleto desse paquiderme-gibóia monstruosa vindo de uma selva de ‘massa. ignorância e sofreguidão’ e atirada ali para as bandas do Ribeiro Seco. O que só por si se mostra não carece de demonstração.
Mas o que mais atordoa o pacato transeunte da avenida é o desplante de três  exuberantes títeres da praça pública – desplante mais descomunal que o próprio monstro armado – ao querer convencer-nos da lógica e da justiça do injustificável. Argumentos nenhuns: só o livre e desbragado alvedrio do seu real bestunto. “É assim, porque sim, porque eu assumo, porque eu mando e porque eu quero”. E, à falta de argumentos, puxa-se à corda o inimigo externo: “Se for um de fora achavam bem, mas se for de um madeirense já acham mal”. Que farrapo de argumentação! Seria caso para perguntar onde é que estão esses monstros feitos pelos ‘de fora’.
Conterrâneos meus, voltámos ao músculo e ao berro de há décadas?... Querem os mesmos voltar a embrutecer-nos e a embotar-nos a sensibilidade cívica e ambiental?... Para onde caminhamos nós? E para onde caminharão as novas gerações?...
Mais ridícula e, essa sim, embrutecida foi a charada de quem cantou em ritmo binário: “Se fosse comigo, não aprovava isto”. E logo a seguir, OS PARABÉNS; “Ainda bem que deixou  a Calheta e veio para o Funchal”. (Palmas, muito bem!). Estão a escancarar risadas de quem? De nós ou de si próprios? Gravem o disco e rebobinem a fita! Oiçam-se.
O dinheiro não é tudo, E mesmo que seja ouro, não matem a galinha dos ovos de ouro!
Fico-me por aqui, mas a indignação não. Continua. Em nome do Ambiente, da respiração, da saúde urbana, contra a opressão dos muros da cidade! Falo, porque sou cidadão, madeirense, transeunte. E também, pelo modesto “saber de experiência feito”, em tempos que já lá vão. Jamais esquecerei aquela  resposta lapidar de um munícipe quando um certo empresário pretendia construir um (chamemos assim) pequeno paquiderme-gibóia e argumentava em seu favor: “o dinheiro é meu, faço dele o que quiser”, ao que o cidadão reclamante respondeu: “O dinheiro é teu, mas o ambiente é nosso, o ar é de todos, o sol é de todos”. E foi este o veredicto que venceu.
Que cidade e que cidades deixaremos aos vindouros?!

07-Jun-18
Martins Júnior

terça-feira, 5 de junho de 2018

RELÓGIO SEM PONTEIROS, DIA DO AMBIENTE


                                                       

Hoje é dia de ser são. Dia limpo. Dia da respiração.
Ele amanheceu criança, mãe de água, dando de beber ao verde moço.
Depois, é  respirar o sol do meio dia.
Despir-se à suave brisa da tarde e deitar-se no colo materno das noites brancas.
Até que chegue a última, onde o respiro derradeiro seja igual ao primeiro, tão consciente quanto o inconsciente. E, por isso, serenamente feliz.
Hoje é dia de esquecer Ricardo Reis, adiar Álvaro de Campos e fechar o Livro do Desassossego.
Hoje é dia de ficar só com Alberto Caeiro na alameda-poeta  das árvores que não rimam.
Em tuas mãos repouso e canto, Feliz Dia do Ambiente!

05.Jun.18
Martins Júnior



domingo, 3 de junho de 2018

TODOS OS ANOS, UM CRAVO NA PONTA DA ARMA!


                                                  

Congressos, cimeiras, simpósios, eles por aí grassam a granel: regionais, nacionais, intercontinentais. Requintadamente servidos de câmaras, holofotes e canais publicitários de toda a gama. Mas, tal como os homens, também essas, as magnas assembleias, não se medem a metro de repórter ou a peso de som. Outras há, modestas de figurino, mas plenas e brilhantes de intimidade, de história, de lealdade e fraternidade. Foi assim, neste fim de semana,  o encontro de amigos de há mais de quatro décadas, E em local adequado, AS terras de Viriato, distrito de Viseu. Os outrora jovens combatentes de Cabo Delgado, Moçambique, hoje septuagenários, voltaram ao seu convívio anual. Só que a Companhia crescera: são pais, avós, filhos e netos, com as respectivas famílias reunidas em amistosa confraternização.
Recordou-se o guião dessa malfadada mobilização; as emboscadas, as minas e armadilhas, as vítimas, os que lá ficaram e os que regressaram, marcados pela deficiência e muitos pela depressão. À distância, vemos mais nítida a injustiça daquela guerra criminosa: pegar em jovens da província, sem culpa alguma, metê-los no porão do velho “Niassa” e depois jogá-los para o meio da mata como carne para canhão! Lágrimas vi-as eu correr do rosto enrugado daqueles homens, hoje de cabelos brancos, enquanto se evocavam, na hora da eucaristia e depois à mesa do almoço, os cenários da guerra colonial, sobretudo os mortos em combate. Um combate injusto, inútil, contraproducente! De consequências fatais para todos, colonizadores e colonizados!
Algo ficou, porém, intacto e puro: a camaradagem, a entre-ajuda e os valores solidários que fazem parte indissociável das Companhias operacionais,  porque viveram em comum as angústias e os perigos. Como a flor virgem,  silvestre, que emerge por entre as pedras do chão árido, assim também floresce, cada ano mais viçosa, a amizade fraterna que nos faz juntar de norte a sul de Portugal e das Ilhas, todos aqueles que há mais de quarenta anos conhecemos o medo e a saudade em terras africanas.
Uma saudação especial ao ex-Capitão Miliciano Alexandre Aveiro, amigo e conterrâneo, pela pedagogia humanista e profundamente solidária com que soube comandar e promover os seus homens.
Um abraço a todas as famílias presentes e um, de novo, até  ao ano de 2019. Este é o nosso congresso: belo, sincero, positivamente reprodutivo!
“Estamos Juntos”!

03.Jun.18
Martins Júnior