quinta-feira, 15 de setembro de 2022

ENIGMAS D’ “O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO”…

                                                                            


“…Onde quer que estejamos e onde quer que sejamos, não fazemos mais na vida do que procurar um lugar onde iremos ficar para sempre. Nem sempre é assim, cismava José, com uma amargura tão funda…”.

“…Foi ontem, e é o mesmo que dizermos, foi há mil anos, o tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó, o tempo é uma superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar…”.

“…Desde a aurora do mundo sempre os incêndios atraíram os homens, há mesmo quem diga que se trata de uma espécie de chamamento interior, inconsciente, uma reminiscência do fogo original…” .

“…Há momentos em que a dor é mais forte que o temor da morte…”.

“…Pode bem pouco afinal, a mão de Deus, se não chega para interpor-se entre o cutelo e o sentenciador… Todo o acto humano, por mais insignificante que seja, interfere com a vontade Deus…”.

“…As ilusões de óptica, sem as quais não há prodígios nem milagres, não são uma descoberta  do nosso tempo, basta ver…”.

“…Não gostaria de me ver na pele de um deus que ao mesmo tempo guia a mão do punhal assassino e oferece a garganta que vai ser cortada…”.

“…Não faltará já por aí quem esteja protestando que semelhantes miudezas  exegéticas em nada contribuem  para a inteligência de uma história afinal arquiconhecida, mas ao narrador deste evangelho não parece que seja a mesma coisa, tanto no que toca ao passado como no que ao futuro há-de tocar…”.

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         Caso muito sério este do percurso de José Saramago na floresta imensa da  misteriosa e nunca assaz contada vida do Nazareno! Vale a pena tentar descobri-la e decifrá-la, pela mão do Autor, tal como Dante Alighieri, pela mão de Virgílio na “Divina Comédia”.

“O Espírito sopra onde quer”!  (Jo,3,8).

        

15.Set.22

Martins Júnior

terça-feira, 13 de setembro de 2022

O QUE O POVO CONTA… QUANDO CANTA !

                                                                       


                           

    Aqui está o Até já do último dia, a crónica da Festa, cuja segunda página hoje completa a primeira anteriormente descrita. Chamam-lhe vulgarmente  a festa profana em oposição à festa dita religiosa, mas para nós elas são os ramos do mesmo tronco culto-cultural e efusivo daquela atmosfera sadia que todos precisamos de respirar e onde optámos por viver.

         Para memória futura, a Festa ritual e processional em honra da Protagonista Senhora do Amparo desdobrou-se inteira do templo para a rua, como já é protocolo não escrito desde há mais de 50 anos. Os ribassequenses esperam a sua festa para confraternizar, divertir-se e, sobretudo, levar ao palco as suas tradições, umas centenárias, outras mais recentes, a sua trajectória sócio-existencial e cultural, transformada em verso, música e dança. Quem quiser escrever a história do Povo da Ribeira Seca encontrará  nas canções festivas da terra  um manancial fidelíssimo da sua génese, do seu crescimento, das sua altitudes  e das suas depressões, das suas glórias e contratempos, numa palavra, da sua luta até ao vértice, sempre inalcançável, da perfeição, os valores humano-culturais e espirituais de que deve enformar-se uma sociedade habitável.

         Assim se cumpriu mais um ano. Os seis sítios da Ribeira Seca, jovens e adultos – e a que se juntaram também as crianças – apresentaram-se em palco coreografando os versos e as músicas originais evocativas do seu percurso histórico. Aqui deixo apenas alguns dos estribilhos de cada grupo, não obstante o desejo de fixá-los por inteiro, datando-os da época a que dizem respeito.

                                                           


Ó noite tão ditosa                                        Viva a alegria do povo

É aquela que hoje se tem                            Que é alegria verdadeira     

Ó noite mais formosa                                  As uvas dão vinho novo

Que todos se querem bem                           Vinho novo da Madeira

Viva a canção da terra                               O povo está amargurado

Da terra que nos dá o pão                          Cansado de trabalhar

Viva o Moinho da Serra                             Temos vivido espremidos

Que aqui traz seu coração                         Como as uvas no lagar

         (1976)                                                              (1983)

 

Viva quem de longe vem                           Vem tronco em flor

Ver de novo a terra-mãe                           Povo que te levantas

Sua terra pequenina                                 Conta a tua dor

É de todas a mais linda                            Nos versos que hoje cantas

Este nosso baile rodado

 É cantado com amizade                           O povo em festa

É para o nosso emigrante                         Canta mas não se ilude

Que vem de lá bem distante                      Quer ter e com razão

Matar a sua saudade                                 O Centro de Saúde

A festa em que o povo dança                                 (1982)

Fica sempre na lembrança                         

                   (1987)

 

Inaugurar o quê                                        Cantai crianças

Aquilo que se paga                                    Nesta festa do povo

Quanto mais se inaugura                           Cantai crianças          

Mais dinheiro se estraga                            P´ra fazer um mundo novo

O que o povo precisa                                  As crianças da paróquia

É de ver a sua vida                                     Têm muito que contar                                      

Toda bem organizada                                  Querem ver os seus direitos

E de ver a sua estrada                                 Toda a gente  respeitar

Bem depressa alcatroada                                                  (1994)

As estradas são do povo

A luz é do povo                                                  Foi no ano de 60

Ele é que é o patrão                                           Passou-se uma grande coisa

O povo é que paga tudo                                     Novas paróquias nasceram

Essa é a nossa condição                                     Com o bispo David Sousa

O povo é que paga tudo                                      O povo ficou contente   

É nossa a inauguração                                        Com este caso tão raro

                  (1983)                                                Nasceu a nova paróquia

                                                                             Na Capela do Amparo

                                                                                              (1969)

Esta curta amostra da participação activa da comunidade (mais de 60 elementos em palco) poderia ser ampliada o triplo e o quádruplo, tantas são as centenas de canções produzidas pelo povo (a letra) e por mim (a música), algumas das quais já editadas em CD e publicadas nas redes sociais.             


Ao delicioso bolo da alegria faltava ainda a “cereja sonora”: a comemoração do 39º aniversário da nossa tuna, a TCM- Tuna de Câmara de Machico – fundada por jovens da Ribeira Seca em 1983. Atravessou quase quatro décadas e, por isso, os jovens de hoje, herdeiros de pais fundadores, ofereceram ao público presente uma breve actuação, de que se destaca a KleineSerenad (nº13) de Mozart, Time, Funiculi Funiculá e, para encerramento,  Canção do Mar, e Amor a Portugal na voz de Paula Spínola.

Aqui fica, portanto, para memória futura, esta apressada síntese do espírito que tem sobrevoado o chão e o firmamento deste pequeno vale incrustado no coração do grande vale de Machico. Nas nossas festas, o Povo é que tem ocupado a centralidade dos programas festivos, porque ele – o Povo Ribassequense – é que tem sido a inspiração, a composição, a construção e a exibição coreográfica dos mesmos programas. Ele é autor, actor, construtor e intérprete da sua própria festa.

Viva Ribeira Seca !!!


A HISTÓRIA QUE UM POVO CONTA… A CANTAR !

                                                                            


            É a de um Dia Ímpar esta crónica – ímpar no cômputo do calendário, 11 do mês, ímpar sobretudo pela viva e revivalista comemoração da história de um Povo situado na periferia urbana da cidade de Machico – a Ribeira Seca.

Cumprindo a secular tradição de evocar a memória e prestar homenagem, desde 1692, a Maria de Nazaré, Senhora do Amparo, a população ribassequense juntou-lhe as vivências centenárias dos seus antepassados e conjugou-as com as diversas fases de um percurso feito de há 50 anos até ao presente.

Focalizados na Protagonista reverencial  da Festa, os habitantes da Ribeira Seca iniciaram a sua marcha, a partir da velha capelinha da Senhora do Amparo, situada no sítio do Lombo do Xeque e construída pelo capitão-secretário da Câmara Municipal de Machico, Francisco Dias Franco, na data citada, 1692. Foi como que a reincarnação de todo um passado, marcado pela colonia em que os ‘servos da gleba’, os caseiros, mirravam de sol a sol sob a canga dos senhorios. Ali prestou-se gratidão, homenagem, solidariedade póstuma às gerações de outrora confinadas às montanhas deste vale, privadas dos meios mais elementares para uma vida familiar e social: sem estradas, sem luz, sem água potável.

O cortejo pedonal, representativo da marcha do passado para o presente, fez-se rumo à actual sede da comunidade, o templo construído em 1963 e renovado em 1999. Celebrou-se, então, a Eucaristia com o mesmo ritual deste meio-século, a comunicação directa e coloquial entre o altar e os participantes, o acompanhamento da nossa Tuna, mas enriquecida a cerimónia pela presença de dois grandes sacerdotes, o Padre Pedro Nóbrega e o Padre José Luís Rodrigues. Foram momentos impressivos inesquecíveis, não pela oratória balofa característica de celebrações congéneres, mas pelo acurado sentido pedagógico-didáctico que o Padre Pedro  imprimiu à sua lição e pela visão de futuro – um futuro sombrio, talvez inexistente - que o Padre José Luís vaticinou para uma Igreja Regional, consequência dos mais recentes ‘exemplares’ clericais e o ‘anacrónico triunfalismo’ de uma hierarquia ‘divorciada da vida dos cristãos’.

                                                 


E foi do futuro desta comunidade que se fez, de seguida,  a terceira fase da marcha pelas estradas e caminhos locais, com três ´picos’ plenos de simbologia e realismo: a Imagem da Senhora do Amparo transportada pelos jovens neste longo percurso, a participação da Filarmónica da Atouguia Baleira de Peniche e a Banda Municipal de Machico, sendo que a ‘cereja em cima do bolo’  brilhou aos olhos do muito povo acompanhante, num desfile digno de ver e deliciar: em vez das opas, capas e capinhas das Irmandades da Senhora das Lágrimas, dos Socorros e do Último Suspiro, ou as de São Lázaro e de Santa Ifigénia (respeitamos quem as tenha e faça), aqui as crianças, jovens e adultos representativos de todos os sítios, desfilaram com o colorido da indumentária festiva, confecionada pelos próprios, as saias das raparigas ostentando as mensagens, bordadas à mão, de SAÚDE, CULTURA, PÃO, VIDA, LIBERDADE, AMOR, FELICIDADE – os melhores votos que Maria de Nazaré, a Mãe do Amparo,  pode desejar aos filhos.   

Ao terminar a homenagem culto-espiritual à Protagonista-Patrona e Padroeira da Ribeira Seca, senti-me no dever de, em poucas palavras, registar a ornamentação cheia de leveza e graciosidade do nosso templo, onde só existem duas reminiscências hagiográficas: a escultura da Senhora do Amparo, evocativa de Maria histórica de Nazaré – não da “Senhora que faz favores a baixo preço”, como disse o Papa Francisco em Fátima, nem as piedosas novelas de milhentas aparições, improváveis e duvidosas, a maior parte e com as quais se explora, abusivamente, a frágil mentalidade de um povo híper-crente.                                          


A outra representação hagiográfica neste templo é a efígie do Padre Mário Tavares Figueira, para nós um Santo que ‘vimos, ouvimos e lemos’ e tocámos de corpo e alma, um Santo pela robustez do seu tronco ideológico-teológico, pela telúrica osmose da sua fé onde se cruzavam e cresciam o corpóreo e o espiritual, o humano e o divino. E, estruturalmente para nós, um Santo que nunca abandonou a população indefesa da Ribeira Seca durante a travessia no exílio de décadas de ostracismo a que nos atirou a hierarquia diocesana em pornográfico conúbio com o poder político. Desde a sua morte, temo-lo aqui na nossa igreja onde ele tantas vezes partilhou as nossas dores e a nossa resistência, sofreu com as ameaças, os medos e os danos que o conluio político-religioso da Madeira infligiu a este povo. Formulei e reitero de novo o voto-promessa de que, venha quem vier, nunca se retire deste templo, a efígie do Padre Mário Tavares Figueira, junto da escultura da Senhora do Amparo – as duas únicas imagens de santos presentes neste lugar sagrado. Sem descurar a magnitude espiritual de milhares de outras figuras hagiográficas da história da Igreja – e não só da Igreja – o nosso templo não está vocacionado para museu de estátuas, mas para Casa de Oração e Progressão Evangélica.

Esta é a crónica do dia 11 – assim comecei. Mas fiquei-me apenas pela primeira página, a homenagem à Protagonista  Sacra, Maria Histórica, a da Nazaré, sob o título de Senhora do Amparo, uma opção necessária mas muitas vezes obliterada ou secundarizada nos arraiais do mundo.

Permitam-me anexar os dias ímpares 11 e 13, complementando depois a narração com a segunda página: o histórico do Povo ribassequense através da música, verso e dança no palco aberto do nosso adro. Até já.

 

11-13.Set.22

Martins Júnior

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

FESTEJAR É VIVER!... “A FESTA QUE O POVO É” !!!

                                                                            


Quando me preparava para descrever o Dia Patriótico do Brasil – essa comemoração intensa do “7 de Setembro” em Olinda e Recife, ano 1972 – eis que a ‘rosa dos ventos’  fortuitos, veio virar o capelo aos planeamentos mais estratégicos, com a morte da Rainha Elisabeth II e, de certo modo, Dona do Mundo. É grosseiramente sábio e eficaz o organigrama (ou ordenamento jurídico da monarquia) para ‘eleger’ o  novo Rei. Ele já está feito, há 73 anos|. Por isso os canhões que protestam a morte da Rainha são os mesmos que ribombam de encantamento pelo novo rei. Inefáveis Ironias…

          Do “7 de Setembro”, não posso deixar de recortar a proclamação-síntese do Grande Herói da verdadeira soberania da Brasil no século XX, Hélder da Câmara, arcebispo de Olinda e Recife: “Dizem os militares da ditadura que eu sou anti-brasileiro e não quero o progresso da nossa nação, mas enganam-se  porque o progresso que eu quero para o Brasil tem de ser feito com os brasileiros, pelos brasileiros e para os brasileiros”.

         A população do lugar – bairro, freguesia, concelho, região ou nação – sempre na centralidade dos movimentos ou projectos do lugar! E não há outro caminho de sucesso.

         É por isso que, sem subalternizar o peso dos grandes eventos que ora decorrem à nossa volta, vou apenas situar o pensamento de Hélder da Câmara no recôndito vale da Ribeira Seca no grande vale de Machico. É que há festa, sábado e domingo. E é também nas festas que se revela  a personalidade de um povo, a sua identidade, o seu espírito criador, a sua fidelidade às raízes.

         É o povo deste modesto rincão que se organiza, que ornamenta de verde puro o seu logradouro, a sua sala de visita, o seu adro. É o povo que “conta a sua dor nos versos que hoje canta”. A presença em palco – o palco que as pessoas construíram – afirmará de novo que a FESTA É DO POVO – do povo que reside e de todos quantos queiram vir por bem. Passarão em desfile coreográfico episódios marcantes da história deste lugar, a sua luta, as suas aspirações legítimas, as suas reivindicações mais dramáticas, algumas delas, e sobretudo os seus processos de intervenção, sempre através da música e da arte. É a história de um povo traduzida em verso e canto e dança e interpretada por adultos, jovens e crianças do lugar. Registo para Memória Futura!

Vem de longe, desde 1692, aquando da construção da velha capelinha do Amparo, centralidade primitiva que deu origem à nova e ampla centralidade da Ribeira Seca. É expressivo o título do Orago desta comunidade: a Senhora Mãe do Amparo, designação transparente que nos remete para uma verdadeira saga de acontecimentos que projectaram estas gentes a um patamar de dignidade, coerência e dinamismo.

    FESTEJAR É VIVER !

 

         09.Set.22

         Martins Júnior

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

ENTRE OS 150 E OS 200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL. UM HOMEM JUSTO CONTRA A DITADURA MILITAR. O DESCONCERTO DO MUNDO…

                                                                         


7 de Setembro de 1972. Olinda e Recife. Um Homem, um Justo, um Santo na fogueira da inquisição militar. Eu estava lá.

         Não passa nem um “7 de Setembro”  que não regresse àquele terreiro largo onde está implantado o Paço Episcopal da diocese. Um palácio imponente, ao melhor estilo colonial, mas com uma diferença abissal: o bispo não mora lá. Foi habitar uma casa rasteira numa das ruas da capital e cedeu a monumental construção às associações vivas da diocese, crianças, jovens, adultos e veteranos.

         E se permanece sempre audível o eco emotivo dessa memória anual, hoje - volvidos outros 50 anos sobre os 150 da independência – com mais intenso clangor bate comigo o “7 de Setembro de 1972”.

         Era o tempo da ditadura militar (1964-1985), das rusgas nocturnas, do Esquadrão da Morte, dos julgamentos políticos na trágica “Rua Brigadeiro António” (onde atrevidamente assisti a um desses julgamentos), era o tempo da condenação de padres-pastores na Prisão da Praia Grande de Santos, era também o tempo de perseguir os bispos verdadeiramente cristãos, como o bispo de Volta Redonda, a quem o governo já tinha instaurado três processos judiciais. E era, acima de tudo,  a fogueira onde o poder militar pretendia fazer desaparecer o “bispo vermelho”, “o bispo comunista” (assim era a matéria de acusação gratuita) contra  o ‘Apóstolo das Gentes’ do século XX, o arcebispo Hélder da Câmara,

         Aqui faço um obrigatório ponto de paragem. Ia eu a descrever o cenário intimista, cativante e solidário dessa noite, quando alguém me chama para ver e ouvir uma multidão ululante diante de um recandidato à Presidência do Brasil, em olhar disperso e faiscante de alucinado político, apelar à população que espumava de ódio, ameaças, gritos tribais atingindo o clímax selvagem nestes termos: “Golpe Militar”!!!

         Nem queria acreditar. Aberração inominada essa de transformar o dia patriótico da Independência num despudorado comício eleitoralista! Com toda a consideração pelos grandes vultos brasileiros em vários quadrantes da civilização, apete-me também gritar: “Que povo é este, que povo?!”. E mais humilhado fiquei, ao ver ali, entalado e franzino, como um junco o nosso Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa.

         Para completar o cavername repugnante daquela Praça de Brasília, a jóia primorosa de Óscar Niemeyer, foi de bradar aos céus a blasfémia colectiva de terminar tudo com uma oração. Não se sabe a que deus dos infernos!

         Que mundo é este, que futuro!!!

         Pedir aos deuses o tenebroso e assassino regresso da ditadura militar !

Cinquenta anos depois de 1972. Duzentos anos após a Independência e Liberdade do Povo Brasileiro.

E falecem-me as forças para continuar…   

         07.Set.22

         Martins Júnior

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

FESTIVAIS INFORMES, CONFORMES E DISFORMES

                                                                          


Terra quente, terra fértil a deste verão seco e solarengo, de onde brotam aos borbotões feixes irresistíveis, quase explosivos, de eventos, festas, concertos, arraiais, por tudo quanto mexe à face da terra e, sem medida, na mão pequena da Ilha.

Pululam, excitantes, escaldantes, as manifestações de índole religiosa, cujos programas batem recordes de audiências presenciais com laivos de paganismo fanático em que os estalos pirotécnicos se misturam  às envergonhadas vítimas carnais condenadas a entrar na fogueira do tempo das cavernas. A ajudar à festa entram os comunicadores do povo, munidos da arma fatal chamada microfone. Achei tão delicioso quanto maquiavélico um desses ‘embaixadores da fala’ referir-se à Festa do Senhor Bom Jesus da Ponta Delgada, definindo a sua magnitude nestes termos: “Este ano o “Bom Jesus” teve 20 vacas, Mas já houve tempo que eram 50”.

Em Roma, o Papa Francisco também entrou na onda e, já noutro registo – solene e grave – procedeu à beatificação de um seu antecessor, João Paulo I, cujo pontificado não durou mais que um mês e meio. Recuso-me a admitir que terá sido feita esta promoção eclesiástica propositadamente  em tempo de silly season, para deixar passar em claro o enigma (crime e assassinato, há quem o prove) da morte misteriosa do “Papa do Sorriso”. O semblante carregado e sombrio do Papa Francisco na hora da beatificação não augura bons indícios sobre o caso, que ainda não foi suficientemente esclarecido pelo Vaticano, tantas são as discrepâncias da narrativa e as reticências até agora escondidas.

Na paisagem polícroma (e quantas vezes contraditória) deste surto festivo, ao qual não sou alheio, também entro, embora sem deixar-me diluir no tropel ruidoso dos foguetes, dos pavios de cera (protegidos por copos de cerveja regional), das procissões teatrais. Entro e o chão que piso está naquela Carta que Paulo escreveu a Filémon, sobre a qual me debrucei no dia de ontem. O Apóstolo das Gentes teria de tomar uma decisão sobre Onésimo escravo, ao serviço de Filémon. Podia fazê-lo de forma unilateral e autocrática, mas não o fez. Pediu o parecer ao próprio Filémon, em termos tais que mais parecia um abraço de paz do que uma consulta formal.

Deve ter começado aí a vocação primordial da Igreja: a sinodalidade – o caminhar juntos, lado a lado,  hierarquia e povo, líderes e liderados, dirigentes e dirigidos. Assim foi a história da Igreja Católica durante os cinco primeiros séculos, tendo ficado, como princípios reguladores da acção pastoral, estes dois normativos: “O que a muitos diz respeito, por muitos tem de ser resolvido” e, mais incisivo e pragmático: “Podem rejeitar o bispo que o povo não escolheu”. É incontornável consultar a obra do ilustre Padre Yves Congar, O.P., Os Leigos na Igreja.

Depois, os ‘Príncipes Pontifícios’, aniquilando toda a mensagem do Fundador de Nazaré (mas auto-nomeando-se seus representantes) moldaram-se ao Direito Romano, com base no ius utendi et abutendi, (de perseguida passou a perseguidora) usando e abusando de um poder monárquico e absoluto. Um dos efeitos mais dramáticos para o futuro da Instituição Eclesiástica Romana foi a excomunhão papal de Lutero, que deu origem à proliferação de outras centenas de credos e seitas oriundas do Protestantismo. Já antes, em 1054, tinha sucedido o mesmo com a excomunhão do Patriarca Miguel Cerulário, de cujo conflito nasceu a Igreja Ortodoxa, desde então separada de Roma.

A ignorância em que se mantinha o povo e a opulência dos bens da Igreja foram as alavancas do Imperium em que as hierarquias foram ganhando foros imperialistas, absolutistas, inapeláveis. E assim navega neste mar vago da história das instituições. É supinamente ridículo o xadrez sobre o qual, em chegando Junho e Julho, se divertem os mandantes do suposto sagrado – cardeais, núncios apostólicos (que mais não são que embaixadores políticos do Estado Vaticano) enfim, arcebispos, bispos e monsenhores – e agarram as peças do tabuleiro, deliciando-se em empurra-las para cá e para lá, ao toque de um espírito oculto, inexistente, num salão doirado. O povo cristão, o único destinatário das decisões, fica lá fora, desimportado e inerte.

Conforta-me o olhar vigilante do Papa Francisco que abandona o trono monárquico e vai escutar a voz – gemido ou pranto, apoteose ou cântico – que das inóspitas periferias querem fazer-se ouvir. É ele o genuíno intérprete da Igreja nascida das fontes que fertilizaram cinco séculos de Cristianismo.

 

05.Set.22

Martins Júnior       

sábado, 3 de setembro de 2022

SINODALIDADE PERFEITA, HÁ MAIS DE DOIS MIL ANOS!

                                                                      


        Não vou fugir à minha paixão pelo LIVRO em fim de semana. Convido a ler a Carta de Paulo a Filémon, um dos activos mais influentes em todo o território israelita. Por influência de Paulo,  Filémon aderira à mensagem de Jesus de Nazaré.  A Carta que lhe esreveu Paulo é a mais exígua de texto  em toda a Bíblia, mas sem dúvida a mais esclarecedora sobre o movimento solidário fundado pelo Nazareno. Três personagens em cena - Paulo, Onésimo, Filémon e o narrador.

         Onésimo tinha sido escravo ao serviço de Filémon. Tempo depois, Paulo requisitou Onésimo para seu colaborador na prisão. Mais tarde, decide desonerá-lo da condição de escravo e restituir-lhe o estatuto de homem livre, enquanto “irmão muito amado”,   o que de certo modo desagradou à classe dominante, em cujo elenco se integrava Filémon.

         Aí começa o drama de Paulo: remeter o antigo escravo, agora liberto e equiparado a “irmão em Cristo”, para o serviço de Filémon.  Mas como fazê-lo sem o consentimento  do antigo dono?... Não obstante o prestígio de Paulo que lhe conferia poder de impor a sua decisão, escreve-lhe a famosa Carta a Filémon, em termos repassados de acurado sentido democrático e respeito, de cujo conteúdo recorto a seguinte passagem:

         Eu, Paulo, o velho, prisioneiro pela Evangelho de Jesus, peço-te, por amor, pelo meu filho Onésimo que gerei nas minhas prisões, o qual noutro tempo te foi inútil, mas agora a ti e a mim, muito útil, to torno a enviar. E tu torna a recebê-lo como se fossem as minhas próprias entranhas, Eu bem  quisera conservá-lo comigo para que me servisse nas prisões do Evangelho. Mas nada quis fazer sem o teu parecer para que o teu benefício não parecesse forçado, mas inteiramente voluntário. Peço-te, pois, que o recebas não já como escravo mas como irmão amado, particularmente de mim, e quanto mais de ti, assim na carne como no Senhor. Assim, se me tens como companheiro, recebe-o como a mim mesmo. E se te causou algum dano ou  te deve alguma coisa, põe isso na minha conta.

         Sem mais comentários, comparemos a atitude de  Paulo com certos comportamentos autocráticos das diferentes hierarquias da Igreja que se autointitula representante e continuadora do Mestre da Galileia, de Paulo e da tradição apostólica. O respeito, a solidariedade e, sobretudo, a atitude sinodal – de colegialidade e de consulta aos fiéis – sobre os rumos que as Igrejas terão de seguir no futuro. Os exemplos, bons e maus, estão ao alcance de todos. O mais eloquente e incisivo é o do Papa Francisco, ao instaurar a Magna Assembleia no Vaticano sob o signo da Sinodalidade, isto é, a arte e o método de caminharmos juntos. Porque “ninguém se salva sozinho e ninguém se condena sozinho”.

 

         03.Set.22

         Martins Júnior