segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

A ESCALADA INTERMINÁVEL DOS NATAIS – EPISÓDIOS DA ILHA E DA RIBEIRA SECA

                                                                                 


A que estrela ou a que abismo iremos para achar o braseiro de um lume novo que aqueça este Natal/2022?... Esgotadas as cantigas ao Menino que “ora está deitado, ora está estendido”, repetidas e puídas as ‘lapinhas’, os cordeirinhos, a vaca e o burrinho (que nem estiveram na gruta de Belém), enfim, onde encontraremos inspiração para olharmos mais além e vermos outros Natais que não o ramerrão fugitivo de todos os dezembros?...

         Este ano, não foi preciso sequer atravessar oceanos, galgar montanhas e continentes. Bastou-nos fixar a mente e o coração num livro de pedra ilhoa, aberto no logradouro do templo da Ribeira Seca, o adro que todos os dias pisam os nossos pés. Aqui, impressos estão em alvos calhaus roliços e em graciosa moldura circular os tempos históricos deste modesto burgo serrano. A viagem em busca do tesouro de um novo Natal fez-se não pelas autoestradas dos territórios mas pelos alongados trilhos do tempo.

E neles nos revimos e neles nos demorámos, perplexos e ávidos de encontrar a resposta a esta procura da nossa ancestralidade longínqua: Como viveram o seu Natal os nossos antepassados de há trezentos e seiscentos anos?... Que Menino viram eles nos seus presépios?... O mesmo de hoje, sempre ‘deitado e estendido’ – ‘estendido e deitado’?...

É uma tarefa que nos propusemos realizar nas nove “Missas do Parto”, ora em curso. Na onda da tradição, tentamos surfá-la (desculpem o estrangeirismo) relacionando-a com o Natal Primevo de há dois mil anos e com o tempo e o lugar que hoje habitamos.

Já lá vamos no IV episódio ou quarto andamento do percurso, pelo que só muito sinteticamente poderemos descrevê-los, deixando desde já a quem o pretenda a sugestão de maiores desenvolvimentos.

I

O MENINO DO TINTUREIRO ENTRE OS ESCRAVOS DO AÇÚCAR

Desde os alvores do “Achamento” da Ilha, mas acentuadamente desde1440 – A Carta da Outorga da Primeira Capitania a Tristão Vaz Teixeira, pelo Infante D, Henrique (a do Funchal aconteceu em 1450) – Machico prosperou sobretudo no segmento açucareiro, para cuja faina foram trazidos escravos negros (não esqueçamos que a Madeira funcionou como grande Entreposto de escravos). Na área montanhosa da Ribeira Seca, porém,  instalou-se uma outra indústria: a tinturaria, tão rara e preciosa que o próprio Rei D. Manuel I exigia o retorno do imposto, não em dinheiro, mas em espécie. Atesta-o a nomenclatura dos três sítios contíguos: Tintureiro ( a árvore produtora), o Pastel (a tinta) e a Nóia (do italiano Paulo da Noia, o empresário da exploração). Que Natais seriam esses? De um lado, o luxo da sede da Capitania, os torneios, os saraus românticos, possivelmente em redor do presépio que os frades franciscanos trouxeram para a Ilha. Do outro, as precaríssimas condições dos trabalhadores. Ou seja, o Natal dos ricos e o Natal dos pobres, dos escravos.

II

O MENINO EM CASA DO SENHORIO

Aconteceu em 1692. O Capitão-Secretário da Câmara Municipal de Machico, Francisco Dias Franco, mandou construir, a expensas suas, a Capela de Nossa Senhora do Amparo, no sítio chamado Lombo do Xeque, sendo aí instaurado o senhorio ou morgadio da Ribeira Seca. Foi o mesmo titular que mandou construir, em 1706, o Forte de Nossa Senhora do Amparo, na vila de Machico. Os senhorios e morgadios surgiram da alteração da Lei das Sesmarias, com base na deturpação subsequente do regime de concessão de terras, passando a vigorar o ‘leonino contrato da colonia’ equiparado ao dos servos da gleba, escravos da terra. Em apoio tácito aos senhorios, a Igreja, ela também senhoria, concedeu-lhes o ‘direito de capela’. Os camponeses, catequizados que eram pela instituição eclesiástica, agradeciam ao senhorio o lugar do culto. Aí podiam cantar ao Menino, sentiam-se enlevados na contemplação do estábulo, a vaquinha e o burrinho, enfim, o seu Natal, mais uma vez o Natal dos pobres que trabalhavam de sol a sol para o senhorio, enquanto este se banqueteava com a sua comitiva no palacete contíguo à capela. Um episódio que merece considerações mais profundas, realistas e dramáticas! Temo-lo feito, em consonância com os textos do Profeta Amós, do Antigo Testamento, capítulos 5, 6 e 8.

III e IV

Em 1960, por Decreto Diocesano do Bispo D. David de Sousa, deu-se o desmembramento das paróquias ou a descentralização da igreja matriz da área respectiva – uma decisão verdadeiramente revolucionária para a época, visto que cumpriu, por antecipação, o desiderato do Papa Francisco de levar a Igreja ao encontro do povo. Quebrou-se a “ditadura” do centralismo religioso e criaram-se novas centralidades em zonas inóspitas da Ilha, o que provocou uma positiva onda de desenvolvimento e cidadania progressiva entre os que habitavam a ruralidade profunda. Machico, de uma só paróquia, transformou-se em quatro, entre as quais a da Ribeira Seca.  Retomando as passadas anteriores, a população local recordava nos versos das romagens festivas:

A Capela do Amparo

Foi lá que a paróquia abriu

Mas ela não era nossa

Pertencia ao senhorio

 

Queríamos uma igreja nossa

Pobre sim mas verdadeira

Carregámos tudo aos ombros

Da  ribeira e da pedreira

 

E foi um esforço soberano, uma vaga de entusiasmo nunca visto. Todos ajudavam, acarretando areia, pedra, madeiras. E fez-se o templo. Tem data assinalada em caracteres de sangue no coração altivo e feliz da população, mais tarde esculpida no lajeado do adro: 1963! Então, foi diferente, foi glorioso o Natal de 1963, não obstante o sacrifício e a exploração de que o povo era vítima em plena guerra colonial.

Foram sucedendo os anos. O que acabo de contar é fruto do relato de paroquianos da Ribeira Seca, visto que só tomei contacto directo com a paróquia da Ribeira Seca em 1969, por nomeação episcopal. No entanto, o que aqui se releva é o crescimento evolutivo de um povo que foi ganhando a sua autonomia, a autonomia possível em tempos árduos, à custa do seu braço de trabalho. Esta foi e é a Igreja do Povo, que nada deve à diocese ou ao governo. A este propósito, em apoio às considerações formuladas, lemos hoje na meditação da “Missa do Parto” a sequência do Livro do Profeta Amós, quando proibido de profetizar no santuário de Betel porque “este santuário é do rei”. (capítulo7, 10-17). Vícios que vêm de longe, de muito longe: o poder político açambarcando o poder religioso!

O Natal de um povo também se constrói com a sua autonomia – a autêntica! – e não com a submissão servil. Jesus de Nazaré, mesmo Criança, veio libertar-nos da subserviência gratuita, da escravatura!

É interminável a escalada dos Natais, todos iguais e todos diferentes. E é nesse rumo que vamos continuar, seguindo o CPS escrito no adro da Ribeira Seca

 

19.Dez.22

Martins Júnior

domingo, 18 de dezembro de 2022

A GRANDE VIAGENN INTRA-UTERINA !!!

                                                                      


     Sem dúvida - a enorme, excepcional viagem de circumnavegação e tão desproporcional se tivermos em linha de comparação o mínimo espaço aquático em que todos navegámos no seio da nossa mãe! Por isso, a invocação da Senhora do Parto despertou a alma madeirense para as mais delicadas e extravagantes tradições, aliadas ao sopro mágico da noite abrindo a porta à madrugada.

         Passo ao lado dessa onda de diversões e superstições. Apenas recolho o convite do grande percurso intra-uterino que durante nove dias ininterruptos homenageamos nas Missas do Parto para, todos os anos, partir para outras grandes viagens extra-uterinas, descobertas planetárias, por vezes à volta do meu quarto.

         Tomando sempre como farol de referência o nascimento de Jesus Infante, desenhámos uma rota definida – como de resto fazemos todos os anos, na Ribeira Seca – ao encontro de quem nos responda à seguinte coordenada terrestre, universal: “Como viveram os madeirenses, particularmente os ribeira-sequenses, os seus Natais de seiscentos anos, suas afinidades, suas contradições, coflitualidades sócio-económicas, suas glórias e frustrações, suas ambições?”.

         Eis as prendas (aceitáveis ou não, conforme o olhar do destinatário) que porei sem guardanapo nesta mesa virtual de cada dia.

 

         17.Dez.22

Martins Júnior

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

A CARNE E OS OSSOS…

                                                                           


       Não será esta a estação adequada para mexer em ossos e ossadas nem também para autopsiar a tão ventilada questão da eutanásia, razão pela qual ainda não a trouxe à ementa da nossa mesa virtual. Por agora, é da vida, de berços cantantes, é do inverno transformado em primavera que devem encher-se os caminhos e as folhas em branco destas vésperas natalícias.

         Mas algo é devido, na conta deste SENSO&CONSENSO,  devido porque prometido – o entretenimento sobre as chamadas ‘sacras relíquias’,  (para mim) desviado em conflito aberto entre modernos pietistas medievais e os seus esclarecidos opositores. Desde logo, o meu registo de interesses: sou estruturalmente solidário e conforme aos bem fundamentados pareceres do Prof. Dr. Nelson Viríssimo e do Rev. Padre José Luís Rodrigues sobre esta matéria, tal como  foram divulgados nas redes sociais.

         Em poucas palavras sublinho afirmativamente o seu conteúdo, acentuando a tese geral colhida da análise histórica das civilizações: quanto mais retardatário é um povo, mais se lhe revela a necessidade do toque, da vista, do olfacto, enfim, do empírico para avaliar a “circunstância” e, nessa base, decidir-se sobre  os acontecimentos e as pessoas. Assim, apegam-se as sociedades rudimentares ao fácies, aos cabelos, às mãos e aos dedos, àqueles contornos que a vista alcança e os braços tocam.

         Aí, pois, a devoção, melhor, a vertigem dos pouco crentes perante o ‘abismo’ das ossadas, as relíquias – uma endemia primária que na Idade Média se converteu em pandemia religiosa. Um dos factores mais visíveis dessas patologias verifica-se no caso dos psicopatas que, segundo informes dos media, chegam à extrema paranoia de reterem clandestinamente em casa os corpos de familiares seus.

Quanto à eficácia das relíquias na mente dos devotos, o autor do grande manual “L’Histoire de l’Église”, Chanoine Le Poulet, faz este relato, não de todo isento de um subtil humor negro: ”Na Idade Média, pelos caminhos de Roma e Compostela passam numerosos cristãos, muitos doentes, que acreditam mais nas miraculosas relíquias do que nos próprios físicos” (os médicos). (Volume I, pág.550).

Permitam-me esta quase provocação: Se Jesus nascido em Belém morresse ainda no berço, fosse a manjedoura, fosse a casa paterna, qual de nós teria coragem de pedir (pior, aceitar) um dedinho, uma perna, uma orelha do Menino?...

Pois, leiam esta página da “História da Igreja em Portugal” do eminente e exigente Fortunato de Almeida: “São Teotónio faleceu em 1162 e no ano seguinte fot canonizado. A cidade de Viseu tomou-o para seu patrono. Afim de satisfazer a devoção da catedral viseense, enviou-lhe o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (onde estava sepultado) uma relíquia do braço direito do santo, a qual foi ali recebida com grandes festas e alvoroço”. (Volume I, pág.259).

Em 1162, há 860 anos. Qualquer semelhança com certo culto local do século XXI  é pura coincidência. Ou não…

Respeitando a boa-fé dos crentes (na Índia, há até quem ainda acredite arraigadamente na vaca sagrada), basta-me abrir o LIVRO e fixar o que o nosso Mestre e Libertador, Jesus de Nazaré, afirmou num momento nefrálgico da sua evangelização – a promessa de que a sua carne “seria uma verdadeira comida”. Perante a contestação dos Judeus ali presentes, sentenciou e esclareceu de uma forma lapidar, inequívoca: “A carne não serve para nada, o espírito é que dá vida. As palavras que eu acabei de pronunciar são espírito e vida” (Jo.,6, 36).

Se isto disse Jesus acerca da carne, que não diria ele dos ossos, das relíquias?!

Para mim, dispenso quaisquer outros esclarecimentos supersticiosos e piedosas pregações.

Cantemos a Vida. Proclamemos o Natal.

 

15.Dez.22

Martins Júnior

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

LUZ E FESTA NUMA ESCOLA DE MACHICO

                                                                


Abrem-se as cancelas adventícias, rangem os gonzos dos portões natalícios e logo se atraem, movidos por uma subterrânea força centrípeta, amigos, colegas de trabalho, amaradas associativos em esfuziante confraternização. Logo pelo meio junta-se a tecnologia feérica e empresta à paisagem uma espécie de embriaguez luminosa descendo em cascata o dorso das montanhas, cambaleando em ziguezagues virtuosos até estatelar-se no chão das cidades. E se alguém perguntar quem faz anos, a resposta segue imediata: É festa, é a Festa!

Mas há outras parcerias, ocultas ao vulgo em trânsito, há outros repuxos iluminantes, invisíveis àqueles que não ultrapassam a casca dos dias e o batente das horas.  Mas, parecendo impossível, são essas parcerias e esses jactos luminosos que penetram nos cérebros atentos e vigilantes, são esses momentos que não se confinam ao Natal, mas enchem os dias, os meses e os anos, a vida.

É precisamente ao prazer de um desses momentos que dedico a  saudação deste dia. Dirigentes, professores e alunos da Escola Secundária de Machico (11º ano) reuniram-se para, sob o signo “Semana das Línguas”,  surfar (passe o estrangeirismo) sobre o Natal e suas variantes. Os responsáveis pelo evento entenderam dar a palavra, prioritariamente, aos alunos, que formularam as perguntas que quiseram (atingindo o número recorde de 48) projectadas no ecrã do auditório. Embora convidado (o que gratamente registo) a proferir uma conferência, para a qual me preparei com gosto, vi-me ali na condição de aluno ou, com uma ponta de ironia, no estatuto de réu da causa e a ter de responder aos meritíssimos juízes, os alunos. 


Devo dizer que apreciei a versatilidade das questões, muitas delas marcadas pelo timbre de uma certa ousadia/atrevimento, características louváveis da juventude e para cuja liberdade interventiva contribuiu a não identificação do/da interpelante. Apreciei, repito, o acervo das matérias `propostas e fiquei elucidado sobre os conteúdos mentais e emocionais dos jovens que, não obstante o conceito medíocre que, na generalidade, deles tem uma certa sociedade, eles são mais, positivamente muito mais do que parecem.  É intimamente reconfortante para um adulto, neste caso, para um octogenário, verificar que no ânimo destes jovens participantes há preocupações de saber a verdade, sem medos nem preconceitos, sobre o mundo que os rodeia e no qual irão viver, sobre  instituições supostamente intocáveis - como a Igreja, o Sacerdócio, o culto, a Mulher.

Logicamente não poderei desdobrar, num apertado ‘blog’, os diversos assuntos tratados e espero não ter surpreendido ou “escandalizado” nem alunos nem professores, sendo certo que aos jovens de hoje não nos é lícito dar “papas de maizena” ou pílulas sintéticas, anestesiantes. Com a devida vénia e sem agredir anquilosados processos de desinformação no passado, é urgente servir à juventude actual o prato suculento da Verdade, enfim, o GPS possível das estradas do futuro, para que, ao menos em nossa legítima defesa, amanhã não digam que os enganámos. Tomo aqui a palavra de ordem do Evangelho e dos seus primeiros bandeirantes; “A Verdade vos liberta”!

Uma palavra de reiterada simpatia aos alunos da mesma Escola e são também elementos da Tuna de Câmara de Machico, pelo brilho que deram ao encontro com a execução de melodiosas canções de Natal.    

 

 

13.Dez.22

Martins Júnior

domingo, 11 de dezembro de 2022

NATAIS DE ISAÍAS, NATAIS DE MARIA – O CONTRASTE QUE NOS DESAFIA

                                                                           


Há 600 anos que na Madeira se fala da ‘lapinha’, desde que os padres de São Francisco – o inventor dos presépios – chegaram ali à baía de Machico e ali celebraram a primeira missa na Ilha. Desde mais de 900 anos em Portugal, o Menino dorme e sonha nas palhinhas. Desde há 2000 anos e  mais, o mundo se mexe e remexe com os vagidos do Divino Infante. Que mais faltará dizer sobre o caso?... Pregadores, eloquentes oradores sacros, onde iremos achá-los para nos dizerem algo de novo?...

Ele é o Príncipe da Paz, o Espírito de Sabedoria, de Fortaleza, de Inteligência, que vai transformar o deserto e a terra árida em jardins de delicadas flores e as agudas lanças de guerra vai transformá-las em enxadas, foices e arados para lavrar os campos agrícolas. Ele é o descendente do Rei David, Ele vai dominar o planeta de mar a mar e de rio a rio, vai acabar com as guerras!!! E daí, “Cantemos ao Menino Deus, Chantons tous son événement”.

Este é o Natal dos Profetas, os Natais de Isaías, de que nos falam hoje os textos dominicais. Estalem foguetes no ar, encham-se os mercados de lojas e lojinhas, embebedem-se as praças de luzes, luzinhas e lusões. Rivalizem os povoados e as cidades a ver quem dá mais fogo e lantejoulas esfumaçantes. É festa, é festa, o Menino nasceu.

Tudo bem. Não se vai estragar o brinco. O povo precisa de Festa, de descontração, de alegria, mesmo que não passe de um dia de ilusão.

         Mas há o outro Natal, o autêntico, o histórico. Conta-se em poucas palavras, vê-se-o a olho nu. Uma rapariga de 16 anos de idade, vai à terra dos seus antepassados, imprevistamente sente as dores do parto, ninguém naquele pequeno burgo a recolhe, o marido insiste (por amor da criança, ao menos por ela, arranjem-me um lugarzinho, um vão de escada, onde a minha mulher possa ter o filho).

         Ninguém. Nem maternidade, nem parteira, nem pensão doméstica, nada. Solução: “Vá parir para o palheiro de acolá acima ou na furna que fica atrás”. E assim foi. E assim se faz uma festa. Festeja-se por uma jovem, nessa altura, migrante por decreto imperial (o recenseamento), porque a pequena, quase uma adolescente teve que dar à luz uma criança na manjedoura dos animais. Interessante, divertido, não acham?... Fosse hoje, seria notícia de primeira página, entrada nos telejornais, um escândalo…  então não há maternidades, uma pensão, um vão de escada, sequer, para uma pequena grávida sem abrigo?!

         Este foi o Natal de Maria!

         É preciso que haja Festa. Qual festa? Ao Natal de Isaías, que nunca teve concretização ou ao Natal de Maria que significa, em contra~luz, a indiferença de um mundo perante a Mulher, a Criança, um Recém-Nascido?

         Os dois são úteis e até necessários. Mas não se faça do Natal um carnaval. E não se esqueça que os Natais de Maria repetem-se, de vários módulos, neste mundo que habitamos… Não é motivo de cantigas, mas de indignação geral.

 

         Onde nasceria, neste século XXI,  uma criança russa, por hipótese o “nosso”  Menino hebreu? Não tenho dúvidas: Ali mesmo, na Ucrânia.

         No entanto, ‘Lá vamos, cantando e rindo’… em honra do Manino e Sua Mãe!

 

         11.Dez.22

         Martins Júnior

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

DA “SÃO LOURENÇO” AO “SÃO LOURENÇO” NUM MAR DE CANÇÕES TUNEIRAS

                                                                   


 

      Nem “São Lourenço” mudou de género nem as canções ‘tuneiras’  têm algo a ver com os tunídeos migrantes que atravessam os mares da Madeira. No entanto, todos eles  conversam na amurada - o título - deste cais virtual dos Dias Ímpares.

A Ponta de São Lourenço (que desde 1419 tomou  o mesmo nome  da caravela : ´´O São Lourenço chega! bradaram Tristão e Zargo aos corajosos marinheiros) sim, a ponta-extremo-leste da Ilha e braço esquerdo de Machico, rude e revolta, a Ponta de “São Lourenço” rumou até ao Funchal e entrou nos salões doirados do Palácio que lhe usurpou a titularidade de registo, sem contudo ofuscar-lhe o privilégio de ter sido ela a franquear a entrada dos argonautas do Senhor Infante na nobre baía de Machico. O mar ‘tuneiro’ onde viajou levou consigo melodias eternas, as de Mozart, de Beethoven, Strauss e muitas outra que navegaram no convés (daí o nome) da Tuna de Câmara de Machico, TCM.

Está desvendado o pequeno enigma. A TCM teve a honra de abrir, anteontem,  o auspicioso programa “O Natal do Palácio” – o Palácio de São Lourenço. Em poucas palavras, os jovens manifestaram – e aqui não faço mais que prolongar o eco dessa mensagem – o seu muito apreço pelo convite que lhe foi formulado para apresentar ali, num meio eco-melódico adequado e perfeito a genuína ‘música de câmara’ própria do seu reportório. Original foi a participação presencial e efectiva da ‘Tuninha Infantil’ que emprestou ao evento uma graciosidade diáfana, condizente com os natalícios motivos ornamentais do salão, o que muito cativou o público assistente.

Duas notas ficaram gravadas no ânimo de quem lá esteve. Primeiramente, a circunstância, para nós inédita, de ver os jovens e crianças de uma zona rural, como é a Ribeira Seca, subirem felizes a escadaria do Palácio e apreciarem a beleza do mobiliário ancestral, de há quatrocentos anos (informaram-nos).

A segunda nota, essa diz respeito ao público mais adulto, com memória. Não posso esquecer-me de que, quando ocupada em 74-75-76 do século XX por um militar autoritário anti-25 de Abril, aquela casa representou os resquícios do já defunto fascismo, com ameaças e perseguições contra o povo madeirense. Foi dali, daquele Palácio, que foram apontadas armas e lançadas bombas lacrimogéneas e similares contra os camponeses produtores de cana de açúcar, uma enorme multidão de toda a Madeira, reivindicando o  pagamento de dois escudos e meio/Kg de cana. Jamais esquecerei esse triste cenário, o povo transido de medo, mas sempre a gritar pelo justo preço do seu produto.

Reminiscências de outros tempos, contraditoriamente o tempo da libertação do Povo Português! Ultrapassada hoje toda essa malfadada repressão, ao entrar naquela casa sentiu-se a atmosfera de uma simpática receptividade que a todos nos tocou. Por ser Natal e certamente ninguém terá levado a mal, improvisámos esta quadra, intercalada no refrão popular madeirense:

O São Lourenço Primeiro

É o que está no Caniçal

O São Lourenço Segundo

Veio morar p´rao Funchal

Ao Ex.mo Representante da República, Senhor Conselheiro Ireneu Barreto, os melhores agradecimentos da TCM, extensivos aos competentes serviços sob a tutela de Sua Excelência.      

  Feliz Natal !

 

09.Dez.22

Martins Júnior  

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

O CRIME ORIGINAL NA ÁRVORE PROIBIDA

                                                                                   


É do acto de conceber – portanto, de concepção ou conceição – que vou aproveitar esta vigília e este dia, 7 e 8 de Dezembro, chamados da “Imaculada Conceição, para formular uma questão e muitas dúvidas aos liturgistas, teólogos e biblistas ou, por todos, ao próprio Magistério da Igreja e respectivos dicastérios.

         A questão é esta: estará a Igreja disposta a continuar intransigente na doutrina do ‘pecado original’, aquele acto de Adão e Eva se terem atrevido a comer do fruto da árvore proibida? Conexa com esta questão está a comemoração do 7/8 de Dezembro, a Festa da Imaculada Conceição, em cujo dogma, promulgado em 1854, está o facto/privilégio que Maria, quando foi concebida, ficou desde logo isenta do ‘pecado original’. Não é um mero desvio doutrinal o que está incluso nesta questão, nem tão-pouco uma blasfémia herética de circunstância. Dizem os tratados que grandes luminares da Igreja, entre os quais Santo Agostinho de Hipona, século V,  São Tomás de Aquino, século XIII e, já antes, São Bernardo, século XII, puseram reticências relativamente ao culto desta isenção de Maria – mais tarde transformado em dogma pontifício.

         Não poderá cabalmente responder-se a esta questão inicial sem desentranharmos o labirinto do que se convencionou designar por ‘pecado original’. Mais embaraçosa se torna esta dúvida quando se diz ou sempre se disse que uma criança nasce com essa culpa ou pecado que “vem das nossas origens”, isto é, do tempo e do ‘crime’ de Adão e Eva. E preceitua a Igreja Vaticana que essa mancha e esse ‘crime’ só se resgatam ou desaparecem com recurso à pia  baptismal. Daí o Baptismo das crianças.

         Ora, o que está em causa é a explicação da deficiência humana. Desde os primórdios da humanidade, está em hasta teo-filosófica esta tremenda incógnita: por que estranha sina nascem os humanos marcados por tendências negativas, vertigens inatas para o mal, para a perversão, para as mal-feitorias?

         Aqui entra a ciência em debate: os biólogos, os psicanalistas, os neurologistas, sobretudo na vertente da hereditariedade. Em virtude dos avanços da ciência e da tecnologia, são eles que têm a palavra. E informam que nós somos herdeiros dos cromossomas dos nossos antepassados. Com o sémen masculino depositado no ovário feminino, os nossos pais transmitem-nos o somatório de tendências positivas e/ou negativas que marcarão o nosso futuro psicossomático. A infância e as reações comportamentais das crianças fornecem-nos um laboratório perfeito dos reflexos hereditários acumulados.

Perante toda esta fenomenologia, que interpretação tem a vertente cultual religiosa?... A mesma que tiveram os  hebreus, a começar por Moisés, que escreveu ou ditou o Primeiro Livro da Bíblia - o Génesis - milhares, milhões de anos depois dos ‘factos’ (?)  por ele narrados.  A solução é atribuir a Deus e ao sistema teocrático aquilo que  o homem não consegue explicar. É o que Augusto Conte classificou como o “estádio teológico” da evolução antropológica. Em termos práticos: a deficiência humana, que se transmite de geração em geração até ao fim do mundo,  é o castigo da desobediência de Adão e Eva. É nesse crime (e na maldição divina contra a  pobre serpente enroscada na árvore) que os dicastérios vaticanos atribuem ou atribuíram a razoabilidade das maldades congénitas dos ‘degredados filhos de Eva’. O mesmo fez a Igreja no século XVI, quando pretendeu sentenciar à morte na fogueira Galileu Galilei, porque o famoso astrónomo renascentista descobriu que a terra é que anda à volta do sol, e não o contrário, como pretendia a Bíblia.  Só não se consumou a sentença porque Galilei achou mais conveniente retratar-se, estrategicamente.

Postas na mesa estas dúvidas e estes dados científicos, permanece de pé a questão primacial: Que valor ou que influência determinista tem nos nascidos no século XXI  a teoria do ‘pecado original’?… Dando um passo em frente, é lícito perguntar: seria plausível (por mera hipótese) que  actualmente viesse o Papa Francisco definir como Dogma infalível o exacto  conteúdo doutrinário promulgado  pelo Papa Pio IX  em 8 de Dezembro de 1854 ?!...

O assunto não se configura com uma especiosa tese académica, tipo escolástica medieval. É um caso muito sério que nos remete para a evolução civilizacional e, mais, pata a dignidade do voluntarismo consequente na demarcação do futuro da humanidade. Um tema que merecerá melhor atenção.

 

7-8.Dez.22

Martins Júnior