segunda-feira, 13 de março de 2023

O MAIS PODEROSO É O ELO MAIS FRACO – DEZ ANOS É POUCO TEMPO!

                                                                    


       Ele disse que foram buscá-lo ao fim do mundo. Mas a verdade é que ele veio de outro mundo. Se atendermos ao figurino pontifical dos detentores da Cátedra Sacro-Profana da Roma católica apostólica, descobriremos sem sombra de dúvida que o actual ocupante do trono pontifício destoa frontalmente do triunfalismo oficial dos seus 265 predecessores.

Ousarei mesmo afirmar que assim como foi necessário um espírito revolucionário para reverter todo um passado da Cúpula Romana (e esse espírito incarnou em Bergoglio) assim também será preciso muito furor dogmático e muita insolência para reintroduzir caducas velharias anti-cristãs. E se o fizer, a Barca de Pedro voltará a naufragar na mundanidade vaporosa do descrédito total.

Tal foi a Grande Viagem de uma década venturosa para a Igreja e para o século XXI! Em dez anos, Francisco Papa deu mil voltas ao mundo, não as viagens quilométricas, de país em país, mas as outras mais profundas, o descer aos subterrâneos da condição humana, o mergulhar nos antros cavernosas da guerra, do armamento, da pobreza, da exclusão e até da própria Igreja Católica, numa introspecção corajosa de arremeter sem tréguas contra escândalos transformados em fantasmas antes sonegados pela hierarquia. Quanto à extensão e profundidade da obra do “Papa Cristão”, remeto para os escritos do Prof. Padre Anselmo Borges e do nosso conterrâneo Padre José Luís Rodrigues.

Mas é ingente, desmedida, a tarefa de Francisco Papa. Bem poderá ele inscrever no seu programa reformador o desabafo que Goethe deixou no seu ‘Fausto’: Ars longa vita brevis! Ciência e Arte é o que se lhe pede e o que o sucesso lhe exige. Porque a super-estrutura eclesiástica criou muralhas de bronze, castelos, torres de menagem, exércitos travestidos de fardas invisíveis, arquétipos cultistas, enfim, uma sedimentação gradual, mas consistente, que dois milénios se encarregaram de desvirtuar a transparência original do seu Fundador. E agora, que fazer?!… Certamente terão ecoado no consciente mais profundo de Giorgio Bergoglio o mandato de Ihaveh dirigido a Isaías e Jeremias: “Desde o ventre da tua mãe, Eu chamei-te para arrancares e plantares, para destruíres e construíres”…

Ciência e Arte – e uma couraça de ferro para tão dura epopeia! Entre outras, a cruzada de arrancar e destruir a mais insidiosa falácia anti-evangélica: o Estado do Vaticano, com toda a rede de diplomatas sediados em toda a esfera política dos poderosos do mundo, como que rivalizando com eles um estatuto bastardo, que Jesus de Nazaré nunca lhes teria outorgado. Seria talvez a prova de fogo que o Bispo de Roma daria para todo o sempre. Mas não conseguirá. Dez anos é pouco tempo, talvez um século! E, sobretudo, porque a corte palaciana não lho permite: os purpurados cardinalícios, os vergonhosamente chamados ‘núncios apostólicos’, monsenhores, bispos e toda a cadeia de subalternos serventuários.

A propósito, todos ouvimos e vimos a representante do movimento “Somos Igreja”, Maria João Sande Lemos, dizer  que os “padres deveriam manifestar-se contra a inacção dos bispos” no conhecido caso do abuso de menores por clérigos em Portugal. Nas entrelinhas, quereria ela dizer: o povo católico deveria fazer o mesmo aos padres.

E quem não pressente no semblante, sobretudo, no olhar meigo e ansioso do Papa aquele irreprimível pedido de acção “Ajudem-me neste trabalho”, traduzido diante da multidão apinhada na Praça de São Pedro, desde o primeiro dia do seu pontificado, há dez anos: “Rezem por mim”!

A renovação – chamem-lhe revolução, metamorfose, subversão ou reconquista – nunca advirá do vértice da pirâmide, mas da base dela, só das bases da sociedade, estejam onde estiverem. Sem o povo não há solução duradoura. É de nós, cidadãos comuns, crentes e não crentes, do nosso esforço de mentalização positiva e aberta, que depende o sucesso das lideranças. A de Francisco Papa, a da Igreja, a do nosso Planeta.

É a maior homenagem que podemos prestar a este visionário, Profeta do século XXI. E é aquela que mais deseja. Porque, sendo ele o mais poderoso, não deixa de ser o elo mais fraco.

 

13.Mar.23

Martins Júnior      

domingo, 12 de março de 2023

A RUA ESTÁ NA MODA, MAS PRIMEIRO FOI O DESERTO

 

                                


         Se o Poder não está na rua - na rua navega, como em mar revolto, o Contrapoder. Na hora que passa, o planeta assemelha.se a essa rua - .circular, interminável -  coalhada de multidões em alvoroço, bandeiras tremulantes mas ameaçadoras, cartazes que gritam mais alto que as clássicas palavras de ordem sem retorno, tais como “Escuta, o povo está em luta… Tá na hora d’ires embora… A gente unida jamais será vencida” – todo um glossário de guerra, traduzida em todos os reinos e línguas, desde o Ocidente ao Oriente, exceptuando os regimes ditatoriais, onde abrir a boca significa beber o veneno letal. Portugal, França, Reino Unido, Israel, Irão, Sudão, enfim, África ingovernável, Ásia insegura, Américas imprevisíveis. É caso para desafiar: Dá a volta ao mundo e diz-me onde não encontraste  a ‘Rua da Manif, a Praça da Revolta’.

         Nem é preciso consultar o manual do tumulto ou a sua génese. Parece tudo inato e plasmado nos neurónios subterrâneos do mundo que os humanos pisam e nele se contagiam. É o que descobrimos a olho nu no LIVRO, mais precisamente o ‘Éxodo’, capítulos XVI e XVII. Conta-se num breve parágrafo, subdividido em quatro alíneas:

1 – O povo hebreu está preso no Egipto do faraó Ramsés II, ´seculos XIV-XIII aC.

São 40 anos de cativeiro escravo, do qual Moisés, o Grande Libertador, conseguiu evadir gerações de conterrâneos seus, num confronto épico com o faraó. O povo vibrou de júbilo ao iniciar a viagem de regresso à sua pátria e aclamou Moisés como Supremo Herói.

2º - Mas a travessia do deserto exigia tenacidade, sacrifício e persistência, complemento incontornável da libertação gratuita. Sobrevieram constrangimentos, carências, fome, sede e era preciso ‘pagar o tributo’ do regresso. Mas os beneficiários da Liberdade não estavam dispostos a isso. E confrontaram Moisés com uma agressividade cega, assassina (queriam apedrejá-lo), recorrendo a argumentos desprovidos de toda a racionalidade, como os que se seguem:

3º - “Trouxeste-nos aqui para morrermos de fome e de sede. Melhor ficássemos no Egipto, onde tínhamos panelões de carne e pão com fartura” (16, 3). Estás a matar-nos à sede, os nossos filhos e os rebanhos que trouxemos connosco. (17, 1 sgs.).

4º - Moisés – o Grande Herói anti-faraó – tremeu perante o furor da multidão, fugiu incontrolado perante as gritos ameaçadores, escondeu-se por entre as dunas e clamou por socorro a Iaveh, que fez descer o maná, as codornizes e a água que Moisés fez brotar de um rochedo próximo. Aí, a horda selvática  voltou a entronizar Moisés como o Libertador de Israel, o povo eleito de Iaveh.

 

Neste fim-de-semana, 11 e 12 de Março, os crentes tiveram oportunidade de ler e ouvir o protótipo de todas as manif’s, guerras  e revoluções, desde as mais justas às mais requintadas de prepotência irracional, sejam elas de teor religioso, político, laboral, corporativo, gregário. Nihil sub sole novi - nada de novo debaixo do sol, adverte o brocardo latino.

À luz da revolta no deserto de há mais de três mil nos, importa analisar a atmosfera tumultuosa de todos os tempos, particularmente à dos dias que habitamos, desde a Federação Russa e similares às justíssimas reivindicações de quantos atravessam o calvário dos desertos que os homens fabricaram.

 

11-12.Mar.23

Martins Júnior   

quinta-feira, 9 de março de 2023

OS CRAVOS DE ABRIL NA UNIVERSIDADE PELA MÃO DE UMA JOVEM MULHER

                                                                           


        Alvíssaras mil pelo auspiciosa entrada do ”25 de Abril” nas cátedras  universitárias. Outras tantas por vermos redivivo meio século de um monumento que fez renascer Portugal. E. mais puro e saudável, é olharmos uma jovem Mulher (precisamente na atmosfera do Dia da Mulher) empunhar o Cravo Vermelho nos umbrais da nossa Universidade, tal qual a inesquecível Celeste Caeiro a colocar o flor da Liberdade no cano da espingarda do soldado naquela manhã libertadora de Abril/74.

            É a segunda vez que, no início de 2023, duas teses simultâneas privilegiaram, em fundo inspirador, a gloriosa data da Democracia: uma, a de Bernardo Martins (tese de Doutoramento) a que já me referi, a outra de Elda Jéssica Freitas Olim (tese de Mestrado) intitulada “O PAPEL DA MULHER NO 25 DE ABRIL NA ILHA DA MADEIRA”. Para o autor deste blog, um gosto suplementar adiciona-se a esta dupla produção histórico-literária:  Doutor e Mestra são oriundos de Machico ”Terra de Abril”, com isto significando que a inspiração das duas teses reflecte a sensibilidade e a idiossincrasia de um povo.

            O estudo de Jéssica Olim merece uma atenção redobrada pela profundidade da investigação, pela imparcialidade de análise, a que se junta o direito ao contraditório exercido pelos interlocutores constantes do texto. Trata-se de  uma esclarecedora “banda larga” da evolução do estatuto da Mulher, desde A Idade Média, o Renascimento, passando pelo galarim de Mulheres escritores, médicas, vanguardistas pelos Direitos da Mulher, o Código de 1886, a transição do regime em 1910 e como que cristalizando na CRP de 1933 até chegar à almejada manhã de Abril/74, com a nova CRP de 1976. Os desenvolvimentos pós-revolucionários estão criteriosamente descritos, associados e/ou confrontados com o papel da Mulher na sociedade. A situação económica, os tabus atávicos, a Igreja, o associativismo crescente, os partidos políticos, enfim, o cenário holístico daquela época está meticulosamente mapeado na tese de Jéssica Olim. Quem acompanhar a sua monografia – e merece uma ampla divulgação – terá uma visão global da Região Autónoma da Madeira no pós-25 de Abril.

            Relevante e demonstrativo  da consciência crítica da autora é a diversidade das Mulheres entrevistadas, desde professoras, bordadeiras, sindicalistas, autarcas, funcionárias públicas, emigrantes, com predominância para as domésticas rurais, as que mais sofreram com o regime pré-esclavagista da colonia, o qual constituiu o grande estímulo da ‘insurreição’ dos camponeses e da forte participação feminina, pioneira nas lutas que então mudaram o panorama político-social insular.

            No rescaldo do DIA Mundial da Mulher, a obra da Mestra Jéssica Olim assume-se como um dos mais preciosos contributos para a historiografia e para a dignificação da Mulher Madeirense. Alvíssaras renovadas!

 

            09.Mar.23

            Martins Júnior   

quarta-feira, 8 de março de 2023

FRAGMENTO APÓCRIFO DO LIVRO DO GÉNESIS PARA O DIA DAS MULHERES

 

                                       


            À hora em que o escriba invisível toma a pena de um esbelto ganso para traçar o episódio maior da Criação, já a noite caíu no silêncio angélico do divino  Éden .

O Demiurgo Taumaturgo ALAIHAVEH passeia-se sob um luar de mel silvestre, feliz por ter dado ao homem a estância mais bela do Universo saído das suas mãos. Encontra o formoso Adão recostado ao tronco de um sicómoro, em sono profundo, entrecortado por monossílabos delirantes, quase imperceptíveis: “Pa…reci…da…co…mi..go…Pa…reci…da…”. O Supremo Demiurgo afastou-se e entendeu a tristeza que todos os dias o possante Adão mal disfarçava: em todo o concerto idílico do paraíso terreal não achava quem lhe falasse, quem o escutasse, quem amasse e fosse amado. Era a libido genética que lhe subia dos pés ao cérebro e não achava eco nos pássaros multicolores, nos jardins suspensos, nos portentosos elefantes. Por mais de uma vez ousara pedir ao Criador: “Dá-me uma companheira parecida comigo”.

ALAIHAVEH decidiu: “Adão tem razão. Far-lhe-ei a vontade. Será tão semelhante quanto ele, quase igual, que até vou tirá-la do seu próprio corpo”.

Era a noite sétima do terceiro mês lunar. A diva mão demiúrgica teleguiou os passos de Adão, levou-o ao longo da olorosa alameda das espécies tropicais, sem sequer olhar para a “Árvore Proibida”, e deu-lhe a comer a polpa vermelha, de elevado índice capitoso e teor narcótico, de um raro cajueiro escondido na periferia do babilónico jardim. E ali mesmo, sob anestesia perfeita, estendeu-se imobilizado o protótipo da Humanidade.

Na madrugada do oitavo dia do mês – a que os futuros humanos chamariam Março de Marte – Adão sentiu a falta de uma costela no flanco esquerdo, olhou ALAIHAVEH, que logo lhe apontou para a obra-prima da Criação: a Mulher.  Prima inter Pares futuri. “Parecida, quase igual a mim, mais bela e esplendorosa” – soltou a voz adâmica aos pés do Demiurgo, uma voz tão retumbante que convocou todo o reino animal do paraíso, desde as aves de plumas voadoras até aos répteis e remansosos dinossauros, todos ajoelhados diante da Mulher e do seu poderoso Taumaturgo, patrono dos cirurgiões e esteticistas vindouros.

“EVA” será seu nominativo – sentenciou-lhe o Criador - por ser a Mãe Universal de todos os humanos a haver e a multiplicar-se neste planeta que vos dei ”. Mas Adão, assaltado pelo primeiro ciúme de perder o ceptro real, Primus inter Pares, interpôs-se, perdeu a inocência original e logo impôs-se: “Não, Supremo Ser, tal não será, jamais. Se nasceu da costela, não passará acima da chinela”! O espanto arrebatou as vísceras dos animais em redor, mais penosas as belas fêmeas atingidas pelo bastão condenatório do pérfido Adão.

ALAIHAVEH entristeceu-se, empalideceu de vergonha, voltou o rosto para os altos penhascos, para as planícies e para os fundos abismos, ainda por descobrir, na terra e no mar, e bradou aos quatro ventos: “Morreu aqui o Éden que sonhei para os mortais. Hoje abriu.se a selva humana, a primeira pedra da guerra interminável dos sexos e dos géneros. E antes que outros venham proclamar, sou Eu, ALAIHAVEH, Deus Único e Criador, sou Eu – e voltou-se para EVA – que vos aviso e previno: “MULHERES DE TODO O MUNDO, UNI-VOS”!

De passo pesado e semblante carregado de arrependido pela obra criada, subiu à mais inacessível montanha quase a tocar as estrelas e vaticinou:

“Tempos virão em que Tu, Mulher, cumprirás a sina maldita a que o homem te condena: Serás sinal de contradição, salvação para uns, ruína para outros. Darás à luz entre dores. E entre dores e silêncios comerás o pão que Lúcifer servir-te-á, seduzir-te-á, devorar-te-á. Tentarás, como a serpente, morder o calcanhar de quem te persegue e passarás de perseguida a perseguidora. Vejo-te traidora e assassina, Medeia desgrenhada e feia, vejo-te Agripina, Pandora, Vitória rainha sem entranhas”.

ALAIHAVEH, exausto, sufocou a voz trémula que lhe caía dos lábios crestados pelo desgosto. Mas clareou o olhar turvo, viu o sol pespontando a fímbria nocturna das cordilheiras além, e arrancou do peito o Cântico Final da sua obra:

“ Tu vencerás! Vejo-te Penélope, graciosa e firme, esperando contra toda a esperança pelo seu Ulisses. Vejo-te Maria de Nazaré, sensível e estóica como ninguém. Vejo-te Joana d’Arc, jovem e líder, aquela que, como Fénix renascida, das cinzas da fogueira voou para as excelsas aras do Templo. Vejo-te Teresa de Calcutá, malsinada pelos hierarcas de outras sinagogas, por encher de pão as magras mãos vazias. E vejo Malala e Mahisa, chegam até mim os abafados gemidos dessas meninas envenenadas aqui bem perto, no futuro Irão – sangue pisado das mártires derrotadas, mas sementes da grande bandeira da Vitória da Mulher”.

Mais não disse. Uma nuvem escondeu-o, levando-o entre as galáxias celestes. Mas, como se um estrondoso trovão estremecesse as raízes de todo o jardim tropical, irrompeu a trombeta do Juízo Final, a voz primeira de ALAIHAVEH, dirigida a EVA condenada, não pelo Criador, mas pelo homem criado:

“MULHERES DE TODO O MUNDO, UNI-VOS” !!!

  

  7-8. Mar. 2023: Dia das Mulheres

Martins Júnior

 

domingo, 5 de março de 2023

OURO EM PORT8UGAL – DE NOVO “DUO OURO NEGRO” DO MAIS FINO QUILATE

                                                                                


É preciso respirar o ar puro de uma nova manhã. É preciso sair à rua, nãos apenas de punhos fechados, mas de braços abertos – tão abertos e tão extensos que cubram os escombros das neuroses da mãe-natura e as ossadas em que o selvagem homem pré-histórico quer transformar  o que resta do planeta azul.

            E a manhã clara viaja até nós na epiderme negra de um novo “duo” – Auriol Dongmo e Pedro Pichardo – vitoriosos nas pistas turcas da lendária  Istambul.

No coração do Ouro ao peito dos medalhados brilha prioritariamente o seu esforço pessoal, a resiliência de ânimo e o investimento orgânico, a que se junta a vontade indómita de vencer barreiras, não tanto as da pista, mas as côr da pele e do estigma migratório. E para Portugal não menos avultam os melhores louros do sucesso por ter dado ao mundo uma inequívoca prova  de multiculturidade étnica  e amplo sentido de acolhimento, cujo saldo final fica bem patente e supervalorizado em eventos internacionais de alto nível. Está suficientemente demonstrado que o imigrante –  somos país e regiões marcadas pela emigração – em vez de pesar como encargo público, evidencia-se de forma notória como factor de crescimento e prestígio civilizacional.

Aos que teimam em reacender na forja do racismo o ferrete da exclusão cega e hostil, o ouro da dupla Auriol-Pichardo proclama urbi et orbi a candente mensagem de António Gedeão no  poema A Lágrima de Preta, cientificamente analisada em laboratório, concluindo com um misto de eloquência e cáustica ironia:

                                               Nem sombra de negro

                                               Nem vestígios de ódio

                                               Água (quase tudo)

                                               E cloreto de sódio

            “Duo Ouro Negro” - cognominei a dupla vencedora que, mais uma vez,  catapultou Portugal no mundo desportivo e multiétnico. Fi-lo e não lhe resisti, porque as ondas hertzianas que me circulam no cérebro e no coração trouxeram-me os tonalidades cativantes e mobilizadores do Raul Indipwo e do Milo MacMahon, o famoso DUO OURO NEGRO, nascido em Angola, que enfeitiçou o universo musical português e não só durante três décadas do século passado. Recordo a sua presença entre nós em 1982 e aquela canção emblemática em pleno centro da então Vila de Machico: Os homens fizeram Um acordo final, Acabar com a fome, Acabar com a guerra, Viver em amor.

            Os acordes deste Acordo Final ainda ecoam, por certo, no subconsciente sonoro daqueles que ouviram o famoso Duo e, por isso, quis juntá-los na mesma partitura da nova dupla Auriol-Pichardo, reeditando no século XXI a mesma saga de universalismo cultural como uma pista segura para a Paz no mundo.

Tempo de respirar um sopro de ar puro do optimismo e da esperança!

 

05.Mar.23

Martins Júnior       

 

sexta-feira, 3 de março de 2023

“SOLTEM-ME”

                                                                                     


Porque não é curial nem de longe se me ajeita  deixar os “casos” pelas pontas, volto hoje a um apontamento lateral que produzi num dos blogs e entrevistas anteriores e que deverá ter suscitado alguns reparos, julgo eu, de liturgistas e tradicionalistas. A propósito dos crimes de pedofilia na Igreja, anotei alguns pormenores visuais que podem configurar-se como uma outra exploração cénica da criança: o acolitado infanto-juvenil no altar.

            Faz parte das técnicas publicitárias ( chamam-lhes markting) recorrer, não raras vezes, à criança-objecto como estratagema fácil para anunciar e vender tal ou qual produto, para prestigiar uma organização e, daí, comover o grande público. A este propósito, um dos mais destacados estudiosos italianos da psique, Vittorino Andreoli, denuncia frontalmente: “Atrás da sobre-exposição das crianças na televisão não está de forma alguma um verdadeiro interesse por elas, mas uma exploração sagaz da sua imagem e da ternura que sabem suscitar para objectivos que nada têm a ver com a infância, antes vislumbrando nela um negócio particularmente rentável”. O autor vai mais longe quando titula estas observações num registo deveras acusatório: “A Criança Lava Mais Branco”. ( Do Lado Das Crianças”, pag.148).

            São de todos os gostos e de inesgotável criatividade imagética os ‘tiros’ que nos elegem como alvos  privilegiados os ecrãs caseiros, mas um, muito habilmente, capta a nossa atenção e, em muita gente, a simpatia: é quando entram no rectângulo de futebol as grandes equipas e lá vêm as crianças-anãs trazidas pela mão dos gigantes lutadores, elas como  cabides autómatos de uma farda que lhes enfiaram no ‘balneário’. Respeitando opinião contrária, considero uma sub-reptícia (sagaz) exploração das crianças, uma espécie de mini-robots, em palco inapropriado, muito pior num recinto onde o linguajar ‘vernáculo´não conhece censura.

            Subjacente a este figurino está o ultrapassado conceito do homúnculos – a  criança vista com um adulto em miniatura. Sempre foi a tendência dos regimes autocráticos, açambarcadores da personalidade individual e, portanto, cerceadores da liberdade, do crescimento saudável, autónomo. Basta lembrarmo-nos da velha ‘Mocidade Portuguesa’ do Estado Novo, com as crianças das escolas, os ‘lusitos’, fardadinhos a preceito, desfilando nas paradas oficiais. Ridicule, mais charmant – é o caso. O mesmo acontece com outros agrupamentos, públicos e privados, ainda hoje, talhadas as crianças com a alfaiataria imposta da organização. Enfim, sempre a massificação da sociedade, a partir da mais tenra idade.

            Suponho ter esclarecido a minha interpretação, nada abonatória do acolitado infantil. Feitas as devidas adaptações, parecem-me artificiais e também abusivas da subjectividade de uma criança aquelas ‘alvas’ moldadas sob os rigorosos figurinos eclesiásticos, como mini-diáconos em cenas milimetricamente premeditadas num grande palco transformado em altar. A criança tem o seu lugar na Igreja, mas (segundo me parece) não ali, em ambiente puramente teatral e desadequado à sua dimensão. Preferencialmente ao lado dos pais, da família, dos colegas.

Deixem as crianças livres de protocolos formais. Lá virá o tempo de fazerem opções. No reino da botânica, como na vida, não se  devem transplantar as flores mimosas senão quando chegar a estação própria. Até para evitar-se a degradação do jardim  e, na vida, insatisfação e revolta.

Respeitando quem pensa diferente,  termino com a mensagem de uma obra esclarecedora dedicada a este mesmo tema,  superiormente expressa num título-desabafo de uma criança: “SOLTEM-ME”!

 

            03.Mar.23

Martins Júnior

quarta-feira, 1 de março de 2023

O “25 DE ABRIL” ENTRE OS DOUTORES NA SALA NOBRE DA UNIVERSIDADE DA MADEIRA

                                                                                     


Até que enfim!... Passados quase 50 anos, falou-se abertamente numa escola e sem medo da polícia política da ‘Madeira Nova’.  Aí debateu-se, explanou-se, desdobrou-se o extenso tecido do maior acontecimento ocorrido em Portugal durante a ditadura do ‘Estado Novo’. Chamo tecido, precisamente por tratar-se de uma análise do facto  ‘À Luz da Imprensa Regional’.  Excelente opção de trabalho, perfeitamente adequada ao local e ao distinto elenco de especialistas intervenientes no debate – todos Professores do Ensino Superior: do Porto. dos Açores e da Madeira.

               Para contextualizar o evento, esclareço que consistiu na apresentação da tese de Doutoramento do Mestre Lino Bernardo Calaça Martins – “O 25 DE ABRIL NA MADEIRA: TENSÕES SOCIAIS E POLÍTICAS,  `A LUZ DA IMPRENSA REGIONAL” – perante um júri de alto nível e notória exigência científica. No final do Exame, o almejado anúncio  “APROVADO POR UNANIMIDADE” (e com nota máxima, confidenciou-me um dos membros do júri) culminou o porfiado esforço de investigação de muitos anos, na sequência da tese de Mestrado – “O 25 DE ABRIL EM MACHICO: CENTRO DE INFORMAÇÃO POPULAR” (2016) – publicada pela Câmara Municipal de Machico em 2017. Segundo informação prestada pelo presidente de júri, tratou-se do segundo  Doutoramento outorgado pela UMa na área dos “Estudos em llhas Atlânticas: História, Património e Quadro Jurídico-Institucional“ – circunstância que prestigia a nossa Academia e releva da coragem do Autor em ter abordado com proficiência e transparência um assunto tão mal tratado e quase tabu até ao presente.

            Para lá do enquadramento genérico, o mais importante e revelador das quatro horas em que se desenrolou o evento  perante o vivo interesse do auditório foi (mais que uma prova académica) sublinho, foi um genuíno debate sobre o papel da imprensa regional na transição da ditadura para a Democracia. Ao mais alto nível, intelectuais, historiadores, catedráticos e críticos contemporâneos bem conhecidos! Mais sintomático, ainda, foi o amplo espaço de liberdade de intervenção, quer da parte do candidato como do júri, em cujo argumentário cruzaram-se apreciações divergentes, entre as quais a do autor do Dicionário Breve da Autonomia, membro do mesmo júri (na entrada F, flama), chegando a questionar o candidato por que razão não considerou ‘as outras vias’ , além das apoiantes solidárias da Revolução dos Cravos…

            A estas e outras objecções respondeu o candidato, munido de documentação plenamente probatória, remetendo para obra ulterior o valioso acervo da oralidade coeva, como testemunho fidedigno dos acontecimentos. Nota impressiva e bem definida foi a preocupação indissociável do rigoroso espírito investigador em expor a fria e desapaixonada realidade dos factos descritos, compaginando-os com o exercício do contraditório, ‘doa-a-quem-doer’, coibindo-se de qualquer leitura subjectiva e deixando-a por isso ao critério do leitor.              


            “São abordadas as causas, as movimentações e as consequências do“25 de Abril” neste arquipélago, a situação nas vésperas da Revolução, os primeiros dias da liberdade e as alterações ocorridas nos sectores primário, secundário e terciário. Outrossim – continua o novel Doutor – analisamos o papel das associações, movimentos e partidos políticos, bem como os polos simultâneos e conflituantes da autonomia e do separatismo. E ainda a acção da Igreja Católica e da comunicação social madeirenses, a par da compreensão da consciência política da sua população e do impacto do “25 de Abril” na Madeira e Porto Santo”.~

            Do enunciado-síntese ressalta o valor estrutural da obra, 700 páginas imprescindíveis para uma visão global da nossa história mais recente e que, sou eu a opiná-lo, tem sido politicamente sonegada aos jovens e à população madeirense.

Estão de parabéns e merecem o nosso grato reconhecimento o Doutor Bernardo Martins, o seu orientador de tese Prof. Doutor Nélson Viríssimo e a Profª Doutora Teresa Nascimento, Directora da Faculdade de Artes e Humanidades da UMa. E um voto: Tal como aconteceu com a publicação da tese de Mestrado, em 2017, auguramos ver nas estantes das nossas livrarias a prestimosa obra científica “O 25 DE ABRIL NA MADEIRA”. E levá-la às escolas desta Região. A docentes e discentes. A toda a população.

 

01.Mar.23

Martins Júnior