sexta-feira, 1 de maio de 2015

NO DIA DO TRABALHADOR - O FAMIGERADO “TRIBUNAL POPULAR”

        
        Escrevo esta declaração de princípios precisamente no Dia do Trabalhador: só um Povo vigilante consegue assegurar a defesa do seu país. Não há guarda nem polícia nem GNR que aguentem se não for cada cidadão o guarda de si mesmo. A isto chamam Justiça Popular os sisudos dominadores da sociedade, os que sadicamente sangram o mais fraco, protegidos pelos biombos negros das leis que eles próprios fabricaram, tal como os padres da Inquisição que se paramentavam de preto para rezar os ofícios pela vítima que eles mesmos amarraram às chamas da fogueira. Não é da “justiça de Fafe” nem do vingar pelas próprias mãos que  venho falar. Nem daquela que o presidente do governo cessante apregoou num comício em Câmara de Lobos contra aqueles que se lhe opunham: “Quando esses indivíduos aparecerem não chamem a polícia nem o presidente da câmara, resolvam o caso por vós mesmos”.
         É de outra justiça que trato hoje, Dia do Trabalhador, a qual tem a sua tradução prática no conceito de “vigilância”. Estar vigilante é estar acordado para a realidade, atento aos sinais dos tempos, interventor na hora oportuna. A arma dos poderosos é a sonolência dos povos e a força deles é a anestesia dos fracos.
         Na sequência da posição central que o Povo de Machico tomou aquando do 25 de Abril/74, vou referir-me ao papel determinativo dos trabalhadores na defesa da sua terra e dos valores da democracia nascente. Para entender cabalmente este capítulo é indispensável ter em mente o anterior, ou seja, o plano destruidor da organização terrorista “flama” (não merece maiúsculas) que amotinou, até à morte, as nossas duas ilhas, sob a passividade, se não mesmo cumplicidade, da autoridade absoluta do arquipélago, o governador civil e militar Carlos Azeredo. Em Machico comentava-se às claras: “Tanta bomba a rebentar por essa ilha fora e nem o governador nem o tribunal descobrem os criminosos?...Aqui não vai ser assim… Se chegarem cá, vamos  saber quem são ”…
         E foi o que se passou.
       Naquela manhã de Agosto, subo eu  para o meu gabinete, quando o subchefe da PSP me apresenta seis rapazes que os   trabalhadores vigilantes nocturnos da “Matur”  apanharam a pintar as paredes daquele complexo turístico com as conhecidas palavras de ordem “flamistas”, tendo-os denunciado imediatamente à polícia. Nessa época, o presidente do município era o superior hierárquico da PSP. Surpreendido com o facto, cumprimentei-os e, devido à sobrecarregada agenda dessa manhã, disse-lhes que fossem almoçar ao referido complexo turístico onde estavam hospedados. Entretanto, expus o caso, via telefone, ao dito governador que peremptoriamente me ordenou “metê-los no calabouço”, após respectiva identificação. Voltaram à tarde os jovens ao posto policial, instalado no edifício municipal, foram identificados pelo subchefe, mas não os prendi, primeiro por não haver necessidade e, também, porque um deles tinha 16 anos. Os outros eram maiores. Por enquanto não revelo aqui os seus nomes nem a sua proveniência, apenas refiro que dois deles, filhos de um conhecido independentista açoriano pertencente à “FLA”, tinham chegado nessa mesma noite à Madeira e já estavam em acção.
         A carrinha da PSP, enviada pelo governador, permanecia à porta da câmara municipal, aguardando os rapazes para transportá-los ao Funchal. E foi nesse preciso momento, 18 horas, quando os mandei tomar a carrinha, que tudo se complicou. A viatura  avariou-se. Comunicado o incidente, o governador prometeu mandar um “unimog” do exército.  Na altura, já Machico sabia do caso e os trabalhadores da construção civil em serviço nas obras da Matur, após a hora de trabalho, aglomeram-se na Praça do Município. Eram centenas e exigiam conhecer e “saber a quem pedir contas se alguma bomba rebentasse em Machico”. Aliás, toda a gente  sabia que, após as inscrições murais,  o bombismo tinha campo aberto.
         Apresentei os rapazes pacificamente, os quais falaram sem receio à multidão e até me recordo bem de um deles ter justificado a independência da ilha, dizendo claramente: ”É para o dinheiro da Madeira ficar aqui para os madeirenses”, ao que alguns dos trabalhadores presentes responderam “P’rao teu pai ficar com tudo e a gente sem nada”.
         Como a viatura militar tardasse, resguardei os jovens de imprevisíveis excessos da multidão e convidei-os a esperar no gabinete. Houve momentos que me causaram susto e séria apreensão, sobretudo quando um grupo mais enervado quis forçar a entrada da câmara. Sabendo que o piquete de polícias que blindava a porta era impotente perante a multidão, vim eu pessoalmente cá fora e pedi serenidade e controlo, para evitar problemas maiores, tendo-se então acalmado à minha palavra. Finalmente, pelas 11h da noite chegaram várias viaturas militares carregadas de tropas que desataram à coronhada e “bombadas de fumo” contra a multidão, enquanto os rapazes tomavam os seus assentos, rumo ao Funchal.
         Eis em termos fidedignos o que os “flamistas” terroristas e o governador chamou de “Tribunal Popular”. Nem um toque, nem um empurrão, nem uma agressão. Tratou-se tão só de uma acção preventiva contra eventuais apetites bombistas sobre Machico. A perturbação instalou-se apenas quando surgiu um dos  parentes dos rapazes, insistindo para entrar nos Paços do Concelho e eu, contra a vontade da multidão, acedi.
         De todo este relato, cinco item’s  a reter:
         1º -  Um louvor aos trabalhadores que, durante o seu horário de  trabalho, portaram-se como verdadeiros vigilantes e defensores do Povo.
              2º -  Gostaria de mostrar ao público imagens dos factos, mas só poderá fazê-lo quem os gravou na sua máquina fotográfica: um jovem recém-formado e grande impulsionador dos acontecimentos, que mais tarde chegaria a Secretário Regional, engenheiro Santos Costa.  
              3º -  Até essa altura, Machico não soube o que foi atentado bombista. Só daí a um mês estouraram com o carro de um familiar meu. O que nos levou a concluir que o objectivo do governador Carlos Azeredo era que a população não conhecesse os eventuais bombistas, configurando-se como seu proteccionista. Espalhou-se em Machico a canção de um amigo meu que dizia: “O Azeredo/O flamista/Foi o traidor/De toda a nossa conquista”.
       4º -    Foi logo a seguir aos acontecimentos narrados que o mesmo  plenipotenciário governador conseguiu o que queria: destituir-me da presidência da Câmara.
              5º -    Guardo, mas por agora não revelo, o abraço que, anos mais tarde, me deu um emigrante, nessa altura de férias, num inesperado encontro no Funchal e desabafou:” Sr. padre, eu fui um daqueles rapazes daquele dia em Machico. Agradeço ter-me tratado bem e aos meus companheiros e nos ter mandado almoçar a casa, na Matur”.
         Esta é a versão autêntica dos acontecimentos, tão distorcida e vilipendiada que ela foi por toda a comunicação social madeirense, que nunca me deu oportunidade de esclarecer. Espero ter tempo  para, um dia, mais expressamente descrever os desenvolvimentos e as consequências dos factos narrados.
         Por fim, cumpre-me reiterar o voto de congratulação aos trabalhadores que têm hoje o seu Dia, evocando o seu papel de centralidade na defesa da sua terra e na construção da história.

1.Maio.2015
      Martins Júnior     

quarta-feira, 29 de abril de 2015

TERRORISMO BOMBISTA NUM “CANTINHO DO CÉU”

Tantas e traumatizantes são as notícias que nos entram em casa --- tragédias no mar, tragédias em terra, tragédias no ar, umas naturais, outras provocadas --- que, parece, só delas deveria ocupar-se o olhar atento dos  observadores, em vez de tecer esparsas análises sobre o passado. No entanto, dois factos recentes, de sentido contrário --- o reconhecimento dos erros passados, assumidos pela maioria na Assembleia Regional e, por outro lado,  a recente preocupação da RTP/M em esconder a história do pós-Abril na Madeira  --- vieram reforçar-me os argumentos para que  não se apaguem os trilhos de uma história que é nossa e corre o risco de passar em branco na futura memória colectiva.
Por isso, retomo hoje as vivências de Abril em Machico de 74/75 para reafirmar que o gérmen de todas os movimentos e metamorfoses de uma sociedade reside nesta condição “sine qua non”: o povo na centralidade dos acontecimentos.
Foi o caso ocorrido nas terras de Tristão Vaz. Já vos dei conta do papel estratégico da população no domínio da economia e da política. Ficámos a saber que, das muitas vicissitudes por que passou o processo revolucionário em Machico, prevaleceu a vontade popular contra as imposições dos poderes de então.
    Mas, de permeio, reorganizaram-se as hostes do fascismo agonizante, com redobrado furor contra o povo que ia construindo um novo país e uma Madeira para todos. Tinha o falacioso cartaz de FLAMA (Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira) --- libertação igual a opressão, exploração e destruição do povo madeirense e privilégios para uma minoria dos dominadores, senhorios da ilha. As suas armas eram as bombas, a sua estratégia era a noite. Instrumentalizaram  jovens, recrutados ao pormenor, que armadilhavam casas e carros, chegando ao crime de entregar a um menor inexperiente o explosivo assassino que rebentou nas mãos do próprio e o matou quando se preparava para o colocar num carro visado pelos flamistas na sombra. Um outro activista,, já maior de idade, ameaçado de morte  pelos chefes do bando terrorista, se falasse ou os denunciasse, apareceu  mais tarde enforcado na cadeia. Um dos atentados mais imundos aconteceu quando destruíram os aposentos de quatro padres, professores no liceu e nas escolas do Funchal, os quais viviam em comunidade sacerdotal na Rua do Pomba. Nem escapou o avião militar estacionado na pista do aeroporto, depois removido para um terreno particular em Água de Pena, (foto acima).  Madeira e Porto Santo viviam num irrespirável sobressalto, um autêntico inferno,  sendo que os alvos preferenciais eram os cidadãos que abraçaram os ideais do 25 de Abril.  Muito tempo depois, vim a saber, da própria boca de um operacional (decepcionado por não ter sido agraciado com um posto importante na orgânica do recém-formado governo regional) que a igreja da Ribeira Seca estava no ponto de mira dos bombistas. Nada conseguiram porque o templo estava sinalizado e vigiado vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, as mulheres vinham bordar em volta durante o dia e os homens formavam pelotões rotativos durante a noite.
A “flama” assumia-se como o braço armado do neo-fascismo entre nós. Até tinha bandeira e hino. Curiosamente a bandeira, azul e amarela com a cruz ao meio, foi aquela que depois veio a ser adoptada para ícone da Região Autónoma da Madeira. É sintomático e permite as mais díspares interpretações (e era conversa comum entre a gente mais atenta e esclarecida) o facto-coincidência de ter-se calado o arsenal bombista a partir do dia em que tomou posse o presidente do governo regional, ora cessante.
A ideologia da “flama” espelhava-se nas palavras de ordem pintadas, pela calada da noite, em paredes públicas e particulares: “Portugal, rua! Independência já” … “cubanos fora, Madeira é nossa” e afins. E constituíam um aviso infalível: onde quer que  aparecessem as inscrições murais independentistas, inevitavelmente seguiam-se-lhes as bombas, um ou dois dias depois. Eram o prenúncio certo.
Permanece fechado, a sete gonzos,  nos antros da (in)consciência dos seus caudilhos  a história tenebrosa do poderosíssimo paiol que foi esse movimento, tão minoritário que só se afirmava pelas mãos criminosas tintas de sangue inocente. Aconteceu que, como acima, este bando estava tão talhada à medida da máfia siciliana que os co-autores, em esgares de desespero,  acabam vítimas às armas que fabricaram. Por mais horripilante que custe escrever e ler o que vos transmito, não posso calar o pavor que assolou os madeirenses quando apareceu num dos fundos do litoral da ilha o corpo de um dos principais flamistas, que eu bem conheci, correndo a versão de um misterioso suicídio.
Tudo isto e muito mais aconteceu. E as autoridades civis e militares, com todos os meios ao seu alcance, nunca conseguiram identificar os terroristas domésticos, de dentro e de ao pé de casa...
E aqui é que entra a acção do Povo de Machico, na centralidade dos acontecimentos para defesa do seu território. Ficará para um próximo “dia ímpar”. E para memória futura.

29.Abril.2015

Martins Júnior

segunda-feira, 27 de abril de 2015

EM ABRIL – CRAVOS CEM, PIRUETAS MIL

           Ainda estamos a tempo de considerar jovem o 25 de Abril/74.
        É o que demonstram as múltiplas expressões públicas da sua vitalidade, umas mais espontâneas, outras mais elaboradas. As multidões em Portugal Continental, sobretudo no coração de Lisboa. Os imponentes murais. A evocação de Zeca Afonso e de tantos cantautores de Abril, muitos deles com presença rememorada na Madeira, especialmente em Machico. Na Assembleia Legislativa Regional, a mensagem multicolor dos diversos representantes do povo. O toque de alvorada na sessão da Assembleia Municipal do Funchal pela voz de um capitão de Abril. A “Távola Redonda” em Santa Cruz sobre o ontem, o hoje e o amanhã da Revolução dos Cravos. As Tunas, exposições (41 obras nos 41 anos), a Corrida da Liberdade entre Machico e Santa Cruz e, em terras de Tristão Vaz, a confraternização dos muitos cultores de Abril coroada com o emocionante concerto musical de crianças, jovens, Grupo Coral e Universidade Sénior, enfim, um feixe de cravos vermelhos apertado ao peito de distintas sensibilidades e gerações.
         Mas não faltaram também as piruetas. A começar pela serôdia despedida de Cavaco Silva no Parlamento Nacional, cujo reiterado atrevimento nem pestanejou ao afirmar que “ um dos mais importantes activos de  Portugal, comparado com outros países da UE, é a sua coesão social”. Com a alta taxa de desemprego, com ”mais de 640 mil jovens e crianças na pobreza”, referem as estatísticas,  e onde “há mais jovens a ir para a cama com fome”  (Margarida Gaspar de Barros),  è preciso muito impudor para branquear o negrume social vigente.
Outra facécia de cordel foi o “casamento de conveniência” entre Coelho e Portas, um “cravado” ao peito, outro encravado até à medula, numa pirueta própria de circo ambulante, mas nunca de um “25 de Abril!
Na Madeira, em minha apreciação, o que se passou na RTP/M, sob o signo “A Liberdade antes e depois do 25 de Abril”, agregando velhos e novos numa sala de composição híbrida, eclética e, por tal, inconclusiva, mais não foi que um propósito deliberado de branquear 41 anos de “Estado Novo” na auto-proclamada “Madeira Nova”, incutindo nos jovens e nos telespectadores a ideia de que  todo o mal foi antes de 74 e, daí até hoje, nada aconteceu de atentatório à Liberdade e à Cidadania dos madeirenses.
O melhor de tudo, no entanto,  foi ouvir as versões unânimes dos jovens presentes sobre o conceito de Liberdade,  numa digressão enciclopédica que bem poderia ser feita em qualquer cidade ou aldeia do mundo.  Também  “mui terno e eloquente” foi o testemunho de certos semi-veteranos, alguns encartados no sistema, ao exaltar aquela sala como produto da autonomia regional,  ou ao  promover as mulheres, “porque antes de 74 não podiam seguir a carreira de diplomatas e agora podem; ou, ainda,  que antes não eram permitidas turmas mistas  nas escolas , mas  agora sim”… E ainda toda a vela dada pelo inquiridor-mór às baforadas da velha tecla, tresandando à pólvora da “Flama” bombista: “nós estamos aqui a sustentar aqueles tipos lá de Lisboa para viverem à grande”. Tudo isto passou aprovado sob o olhar complacente do censor e entrevistador, sempre o mesmo e único que temos na casa-mãe dos ecrãs ilhéus.
Proteger o sistema regional --- foi o desígnio oculto, mas não ocultado,  do moderador ---  branquear o regime, sem nada informar o público sobre a real situação repressiva, imposta no pós-Abril da Madeira, pelo mesmo partido e pelo mesmo salazarismo disfarçado de autonomismo.
Isto é mais que pirueta. É embuste. É fraude É  traição à gloriosa data que nos devolveu a liberdade de expressão. E tanto mais censurável quanto se esperava agora uma nova aragem na transição do cenário político decorrente das eleições do recente 29 de Março. Enfim, mais do mesmo! Inclusive, cortar a palavra a quem fora convidado a exercer o seu direito de opinião sobre a Liberdade, não apenas antes de 74, mas também depois de 74.
         Por este caminho, os madeirenses vão ter de esperar  mais  40 anos para  que  seja permitido aos jovens de hoje (já serão, então, pré-veteranos)  debater a liberdade vivida (ou não) na Madeira entre 1974 e 2015.  Mas isto só dependerá da vontade e do espírito crítico da população face aos seus órgãos de comunicação social.

27.Abr.2015

Martins Júnior

sábado, 25 de abril de 2015

TRÍPTICO – GERAÇÕES DE ABRIL

OS MÁRTIRES
O espólio do futuro
Aqui jaz
Perfura o terro ingrato e duro
E acharás
Aquele rio sem nascente nem foz
Por onde correm e cantam
Ossos artérias e olhos
De todos nós:
Olhos que sonharam
mas não viram
Artérias que transportaram
mas não trouxeram
Ossos que incarnaram
mas não viveram
O milagre do sol
Feito cravo vermelho
Na noite escura
Menino de alva
Em flor
Por sobre a nossa sepultura

OS HERDEIROS


Irresistível que o saibas
O quê e o como,
O porquê e para quê do nosso 25

Porque colonizaram os teus avós
Não deixes colonizar-te!

Porque lhes amordaçaram a voz
O sonho e a arte
De ser livres
Não deixes definhar-te
Nas algemas do silêncio
No tarrafal do medo
Que de ti quer tomar parte!


Porque lhes secaram as veias
E as searas ao pão da sua fome
Vem à ribalta
De cidades e aldeias
Que fique mais nobre e alta
A ponta do estandarte
Da beleza, do amor, da igualdade!

Contigo jovem
Ninguém parte
O fulgor da tua lança
Que é de todos e que é tua
Larga  bandeira que flutua
Como este cravo vermelho
Na mão doce da criança!


OS AMANHÃS QUE ESPERAM

Quando chegares, incógnito nascituro,
Encontrarás ainda
O espólio do futuro
Deixado em testamento?

Basta que o creias
À hora do teu achamento

Ele espera por ti
Ele tem o teu nome
E se não o vires aqui
Ascende mais acima ou mais além
Mergulha mais fundo ou mais aquém
E acharás o sol antigo
Sem nascente nem poente
Feito cravo incarnado
No teu peito de soldado

Enquanto a terra girasse
E no mundo homem houvera
Um Abril sempre renasce

Está sempre à tua espera!
25.Abril.2015
Martins Júnior

quinta-feira, 23 de abril de 2015

À CONQUISTA DO PODER POLITICO – o Povo na centralidade

No prosseguimento do relato e respectiva análise dos factos vividos em terras de Machico aquando do “25 de Abril/74”, passo hoje ao segundo posto estratégico operacional da população local  face à conquista do poder. No entanto, ao deslizar, emocionado, os dedos sobre o teclado do computador, paro e fico perplexo só em pensar no frémito e, ao mesmo tempo, na contenção de ânimo dos gloriosos revolucionários de Abril, libertadores de Portugal, durante estas vinte e quatro horas que os separavam do clímax  médio nocturno  em que havia de lançar-se a decisiva cartada da Vitória através da “Grândola, Vila Morena”.
Interrompo e continuo, volto a interromper e, de novo, sigo caminho na descoberta do tal posto estratégico operacional: o Povo na centralidade da viragem do poder político.  Do fascismo para a Democracia.
É da mais elementar constatação da realidade social que o poder económico vive paredes meia com o poder político, coabitam em salões contíguos ou, no mínimo, passeiam-se em corredores comuns, o que tem feito correr dilúvios de tinta e dinheiro em processos judiciais e fugas de capital.
Ora, em Machico, o Povo não precisou de ler as sebentas da ciência política para chegar a essa conclusão: viu-a, a olho nu, diante dos olhos e debaixo dos pés. A própria geografia física mostrou-lhe essa maquiavélica aliança: era a época em que no edifício da Câmara Municipal concentravam-se os mais diversos serviços públicos, desde o gabinete da PSP, o Registo e Notariado e outros afins. Sucede que grande parte dos seus titulares eram e representavam o substrato  do poder económico local, patrões, feitores, comerciantes e, sobretudo, senhorios, os arqui-inimigos dos caseiros espalhados por todo concelho, os quais senhorios usavam e abusavam da jurisdição municipal para amedrontar e espezinhar (é o termo exacto) os seus súbditos e fregueses. Daí em diante estava aberto o mapa das operações: tomar a Câmara. Seria, para os cronistas locais, a tomada da Bastilha. Foi em 14 de Junho de 1974, com a vila de Machico  abarrotando  de cabeças a mais não poder.
De registo memorável foi o gesto do então presidente, Manuel Rufino Teixeira, que fora entregar ao brigadeiro Azeredo, governador civil e militar, as chaves do edifício, logo após o 25 de Abril, ficando em seu lugar o vice-presidente.
Era um coro entusiástico naquele largo côncavo da vila de Machico, entoando uma canção que já circulava por entre as gentes do Caniçal e a trouxeram para Machico:
Esta é a primeira lição
Que nós devemos saber
Sem ter o poder na mão
Nada podemos fazer

  Seguiram-se, nos dias e meses posteriores, muitos e acesos  episódios entre populares e agentes, militares inclusive, nas repetidas vezes em que as pessoas ocuparam o edifício camarário, mas sem nunca causar quaisquer danos, seja nos funcionários, seja no mobiliário, seja nos arquivos. O que o Povo queria era um presidente da sua escolha.  Nessa altura, o Centro de Informação Popular, instalado num prédio da Juventude Agrária Católica, cedido pelo Pároco, Manuel Severino de Andrade, promoveu uma eleição por todo o concelho em cujo boletim figuravam cinco nomes de cidadãos credíveis e a contento da população.  Feito o escrutínio ou prospecção (em termos simplistas e menos apertados que os das actuais eleições, como é naturalmente compreensível) o nome mais “votado” abdicou  -- e fi-lo assim tendo em conta a minha condição de padre --- e passou a dirigir a Câmara, com a anuência de Carlos Azeredo,  o segundo cidadão mais votado. Mas , imponderáveis que se repetem, a população cedo  verificou o logro em que tinha caído, pois  o novo presidente, por manifesta inexperiência política, aliou-se aos corifeus do antigo regime. A revolta redobrou de tom e sem tréguas. O brigadeiro Azeredo mandou o seu lugar-tenente, o major Oliveira, percorrer as freguesias e sítios do concelho para auscultar as populações, até que, em Abril de 1975,  me nomeou oficialmente presidente da Comissão Administrativa do Concelho, o equivalente a presidente do município.
Não serei o narrador mais indicado, para discorrer sobre o alvorecer de Abril naqueles dias exaltantes, uma saga que deixarei para outra mais publicação que já me chamaram a atenção ser meu dever trazer a público.
No entanto, é possível que amanhã, dia 24,  na Quinta do Reboredo, Santa Cruz, venha a abordar novos desenvolvimentos em “Távola Redonda” com notáveis conferencistas. Ou então, na RTP/Madeira em encontro colegial sobre o “25 de Abril”.
Termino com o sublinhado inicial com que me propus aproximar-me das comemorações da Revolução dos Cravos, ou seja, a centralidade do Povo na concretização pragmática da Revolta dos Capitães. Se o Povo não está lá, não há metamorfose social que possa valer.
Nos meus ouvidos ecoam ainda os versos que os populares fizeram e que, depois, tive a honra de musicá-los, cujo refrão (“Festa do Povo/ O Povo é quem trabalha/E faz o mundo novo”)  precedia o anseio de um poder, pelo Povo e para o Povo::
Viva o Povo que trabalha
E dá toda a produção
Ele um dia há-de vencer
E mandar toda a Nação
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Com este texto, perfaço os 100  “dias ímpares” em que nos acompanhámos, desde Outubro de 2014. No meio da profusão de tanta informativa água corrente que nos cerca, pergunto.me se terá valido a pena. Com ou sem “pena”, vamos continuar  a encontrar-nos na ponte destes que, bem desejaria, fossem “ímpares dias”.
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 23.Abril.2015
Martins Júnior

terça-feira, 21 de abril de 2015

CIDADÃ DO MUNDO, MULHER DE CAUSAS, MULHER DE ABRIL


Já aqui expressei a minha indiferença, repúdio até, em tecer homenagens post-mortem  seja a quem for:  pelo formalismo, pela hipocrisia e, quantas, quantas vezes pela pequenez e incompetência dos panegiristas de palanque, oportunistas de circunstância nos cerimoniais fúnebres.
Não posso, porém,  deixar de evocar aqui uma Mulher,  de 72 anos de idade, cujo corpo foi hoje a sepultar em Lisboa, mas que continua viva para quem a conheceu de perto:  uma “Cidadã do Mundo”, uma activista serena e firmemente mobilizadora (os dois predicados ideais, tão difíceis de conciliar numa liderança) convicta católica feminista, naquilo que diz respeito à conquista do poder da Mulher, em paridade com o homem.
De fina educação anglo-saxónica pela linha materna ( os seus avós conheceram e corresponderam-se com Churchill, Graham Green, Henry James) e de sangue latino pela parte do pai, aliou-se-lhe pelo casamento o apelo revolucionário ao consorciar-se com o filho do corajoso anti-salazarista Arlindo Vicente, candidato à República, abdicando depois em favor da candidatura do general Humberto Delgado. A vida de Ana Vicente foi a de um andarilho mensageiro pela Europa, África, particularmente em Angola, São Tomé e Príncipe, em campanhas de promoção das periferias, como consultora da Nações Unidas para a População e  da Organização Mundial de Saúde. Em Portugal esteve na linha da frente da reivindicação dos Direitos, Liberdades e Garantias, relevando a importância da Nova Constituição da República Portuguesa e do Código Civil, ao lado de Maria de Lourdes Pintassilgo, mais tarde na Comissão Nacional para a Condição Feminina, a que presidiu, tendo sofrido, por sua esclarecida militância, a prisão pela Pide antes do 25 de Abril e o saneamento “à esquerda”,  pós-25 de Abril,  no VI Governo Provisório. Exerceu o jornalismo, como  free-lancer e em publicações da especialidade em Espanha e Portugal,  no jornal anti-fascista “República”,  por ex.,  e deu â estampa notáveis títulos de análise político-social, entra os quais,”As Mulheres em Portugal na transição do milénio”  e “Portugal visto de Espanha”.

Para ilustrar o seu pensamento crítico, sintetizo-o em três tópicos, qual deles o mais impressivo:
Sobre os portugueses: ”Os portugueses são de um individualismo doentio”.
Sobre a Mulher e seus adversários: Temos de identificar os nossos inimigos, mesmo que sejam mulheres…Quanto maior o desequilíbrio do poder entre homens e mulheres maior é o subdesenvolvimento”.
Sobre a Igreja, o sacerdócio e o funcionalismo eclesiástico: Quando me dizem que a falta de padres é uma desgraça para a Igreja Católica, eu acho que quanto menos padres houver melhor”. E dá o exemplo da obra grandiosa de várias freiras em São João do Estoril que se lançaram na educação e promoção  num bairro de imigrantes marginalizados, querendo com isto traduzir a verdadeira vocação do cristão liberto do institucionalismo hermético das regras canónicas. Por onde se compreende tenha sido Ana Vicente a pioneira em Portugal do movimento internacional de leigos denominado “Somos Igreja”, tão do desagrado das hierarquias.
Acompanhei-a em encontros de intelectuais e activistas cristãos e agnósticos, ao lado de Frei Bento Domingues, Prof. Pe. Anselmo Borges, Catalina Pestana, Dr. Oliveira e Silva, para citar apenas alguns.
E por que razão interrompi eu o tema que  vinha apresentando nestes dias e por que, com maior razão, trago Ana Vicente hoje ao nosso convívio?
Sobretudo por isto: nesses encontros, repetia-lhe sempre o pedido para vir à Madeira trazer a força da sua mensagem. Mas não lho permitia o estado de saúde. Até que um dia, telefona-me e garante-me: “Agora, decidi-me e vou”.
E veio. Na igreja da Ribeira Seca, foi ela quem fez a homilia, em pleno altar, com toda a assembleia, os celebrantes inclusive,  presa das suas palavras. Estou convencido que ela sentiu-se realizada naquele desígnio por que sempre lutou: a Mulher, também participante do Sacerdócio de Cristo. Na tarde do mesmo dia, 8 de Março, Dia da Mulher, voltou a falar no “Forum Machico” a uma conceituada plateia de professores e cidadãos vivamente interessados. 
 Confesso: não sei que mais admirar em Ana Vicente: se a sua brilhante trajectória de intelectual e militante, se o seu tocante humanismo de, mesmo atormentada pelo vírus fatal, ter-se dignado subir a encosta para estar fraternalmente com a humilde comunidade da Ribeira Seca.
Já lho agradecemos em vida.
Queremos continuar a ouvir o eco das suas palavras!

21.Abril.2015
Martins Junior

domingo, 19 de abril de 2015

O POVO NA CENTRALIDADE DA ECONOMIA DE ABRIL


Calcorreando a encosta que nos conduz à entronização anual do “25 de Abril” propus-me trazer comigo o farolim que nos ajudará a descobrir as veredas que lá nos fizeram chegar. É, pois, à luz dos acontecimentos ocorridos em Machico em 1974 que intuiremos o genoma criador de todos os Abris da história: a posição central do Povo na transformação da sociedade. Enquanto o Povo não ocupar a centralidade da, chamemos, renovação ou revolução, nada será duradouro. É a lição da História, a nossa também. Jamais poderá esquecer-se a “Crónica de D. João I”, onde Fernão Lopes coloca no seu posto cimeiro o dinamismo do Povo de Lisboa na recuperação da independência lusa face às ambições de Castela. Embora não desmereça  a figura de um líder carismático na pessoa  do “Mestre de Avis”, o cronista do Reino apresenta o Povo como o grande protagonista desse feito patriótico.
Ora, foi isso mesmo que a população do concelho viveu, mas sobretudo na, então, vila de Machico. Como testemunha ocular e narrador homodiegético, cedo me apercebi que o Povo, ainda que escasso de letras e manuais, reserva no seu âmago o gérmen revolucionário, o mais genuíno,  e até ensina aos líderes a metodologia estratégica e mais  certeira para atingir os objectivos.
Basta-lhe que não lhe ponham entraves preconcebidos, que ele mesmo será capaz de desbravar o caminho. A isto chamo eu a “centralidade” da concepção e da acção renovadora.
E foi no chão térreo da vivência quotidiana que tudo começou. Aquilo que os teóricos catalogam de estratégia revolucionária, o Povo viu, sem teoremas nem compêndios,  que a condição “sine qua non” para o êxito  consistia em entrar directamente nos três centros de decisão superior, o tripé de onde se abarca e determina todo o processo social: a economia, a política e a cultura, nas suas mais distintas vertentes.
Não é possível descrever, senão sumarissimamente, os passos, os avanços e recuos e, de novo, as retomas desta luta para influenciar o sector produtivo e ficar ali presente com autoridade paralela ao empresariado, alterando as regras do jogo sujo da exploração, fiscalizando o valor atribuído ao produtor, fixando preços nesse produto.
Logo à cabeça, era preciso atacar o monstro que subjugou gerações e gerações na ilha --- a colonia --- cuja mais degradante expressão para as famílias era a proibição de construírem uma habitação condigna Sacudir essa canga secular não foi tarefa pacífica, acarretando ameaças dos grandes senhorios, processos judiciais, presidentes municipais, oficiais de Finanças e até da própria Igreja, ela também senhoria de vastas porções de terreno. Os Caseiros de Machico conseguiram unir milhares de colonos em toda a ilha, a UCIM,(União dos Caseiros da Ilha da Madeira) criaram o seu órgão de informação, o semanário “O Caseiro”, realizaram plenários, até que conseguiram sair vitoriosos com a publicação do decreto legislativo regional, denominado Decreto da Extinção do Regime da Colonia, em 1977.
Outra conquista irreversível foi a fixação do preço/Kg de cana sacarina em 2$50, pagos no acto de entrega e sob a vigilância de um representante dos produtores na balança de pesagem. O quanto isto custou?! Ocupação dos engenhos, sobretudo o da fábrica Hinton, impedindo a entrada de camiões carregados de milhares de molhos de cana durante mais de quinze dias e, por fim, as bombas lacrimogéneas que o brigadeiro Azeredo (governador civil e militar) mandou atirar contra a enorme multidão apinhada frente ao Palácio de São Lourenço. Mas o Povo venceu!
Outrotanto se passou no sector dos bordados, dessas “Lágrimas correndo mundo”, como bem titulou o grande escritor Horácio Bento de Gouveia num dos seus romances históricos. As mulheres de Machico, unidas a outras centenas de  bordadeiras da  Ilha, chegaram a formar a sua Cooperativa, a UBM (União das Bordadeiras de Machico), a qual foi tantas vezes tripudiada por patrões das casas de bordados do Funchal, do Governo Regional   e da Câmara Municipal de Machico, ocorrendo cenas indescritíveis de agressão às mulheres dessa cooperativa de produção.
O mesmo poderia desenvolver quanto ao sector comercial, quando a população decidiu abrir uma outra cooperativa, esta de consumo, no centro da vila, como expressão do poder do Povo contra o modelo comercialização/exploração e em resposta aos comerciantes de então que se comportavam como lacaios dos poderosos contra o novo mundo nascido em “25 de Abril”.
Fico-me hoje por este capítulo, com os sucintos apontamentos de uma época vivida, suada e transfigurada pela força da população que, nessa altura, organizadamente mas decididamente, se colocou na centralidade das soluções no domínio da economia de então para este concelho e, extensivamente, para a Ilha.
     
19.Abr.2015

Martins Júnior