terça-feira, 9 de junho de 2015

DESPORTO-REI E DESPORTO-ESCRAVO


Na estação das cerejas  surgem, aos punhados,  factos e pessoas e coisas que povoam e quase rebentam as rotativas dos jornais e os rectângulos do audio-visual. Deixo no congelador  todos os outros temas e ocupo hoje este espaço (porque sempre me tem ocupado e preocupado) sobre o mais rasteiro e mais poderoso rectângulo que tem dominado a opinião pública: o futebol. Longe estava do meu pensamento gastar um pingo de tinta com as botas do relvado. Mas os casos do cochicho quotidiano têm atingido proporções tais que não podemos ver deixar passar um monstro à nossa frente como se fora um “mosquito nas Desertas”.
         Não me restam dúvidas de que o desporto-rei criou o desporto-escravo. Tornou-se a mitológica Hidra de sete cabeças cujos tentáculos se deixam ver na sua virulenta fealdade quando atinge as cúpulas supremas da sua arquitectura. Ainda o mundo está transido de espanto e nojo perante esse covil de gente emproada por fora e podre por dentro, os corruptos das altas esferas da FIFA, como atempadamente denunciou o nosso Luís Figo.
“O Ronaldo foi vendido por tais milhões, o Sulemani vai ser comprado por outros mais ou menos milhões, o Nani vai para o mercado por tantos”  e, por fim,  (ai jesus!) o Jesus troca de cor por mais um milhão e meio de luvas ou sei lá o que seja, tal como os Mourinhos e os Vilas Boas mudam de pátria. O amor à camisola, o patriotismo clubista, os murros da honra na cara do adversário! Tudo lérias, tudo fumaça. “Cacau” é o que marca ou, parafraseando o humor de Francisco Louça sobre o antigo  rali afro-asiático: “País, dá cá”. A amigos meus, quando os oiço discutir à brava pelo seu contra o outro clube, também entro ao barulho e limito-me a dizer:”Vocês estão aí a esgaçar-se, sem nada lucrar. Os que estão em campo e a ganhar milhões são os que menos amor têm à camisola. Mais uns trocos e mudam de camisola mais depressa do que vocês mudam de camisa”. E lá vem o sacratíssimo caso do benfiquíssimo Jesus!  Mesmo que a moeda de câmbio sejam biliões, não deixa de ferir os ouvidos  de quem tenha um mínimo de sensibilidade: “O homem vai ser vendido, o sujeito vai ser comprado”, como se ouvia antigamente no mercado negro dos escravos. Terminologia degradante.
E as fortunas em numerários e em tempos com que nos massacram os media, sobretudo as TV’s, com esses nauseabundos debates, mesas redondas, prolongamentos, dias seguintes, todos repetidamente sobre o pobre Jesus?! Mas o que me repugna sobremaneira é ver políticos, deputados, gente de responsabilidade na “respublica” sujeitar-se a esse vexame, a essa baixeza de discutir as arbitrariedades do apito, as rasteiradas, as caneladas em campo dos, para mim, novos gladiadores do circo moderno! Mais útil seria assentar os árbitros, os centrais, os pontas-de-lança para analisarem as injustiças, as votações parlamentares, os cortes e as agressões que os políticos fazem ao povo português…
         Finalmente --- finalmente, porque o pouco capital que perdi com isto já foi demais --- o “bezerro de ouro” cresce e empina-se como touro frente ao poder político.  Basta citar o que disse o brasileiro João Havelang,  antecessor de Jepp  Blater na FIFA, ao jornalista David Yallop   (Wuo They Stole The Game,1999): “Os Estados têm o seu poder e eu tenho o meu, mas o poder do futebol é o maior”. Para quê mais testemunhas?
Aproveito para relevar publicamente a atitude do anterior presidente da CM do Porto, Rui Rio (e estou longe das suas opções políticas) face à basófia e às megaloruaças  do chefe dos “dragões”.
Se é ponto de honra separar o poder governativo do poder dos negócios, não o será menos cortar com as corruptas alianças entre o poder político e o poder do futebol. Entre nós é o que se viu e o que se vê: os quadros superiores dos clubes da ilha são tomados por serventuários do regime: eles são ou foram deputados e/ou governantes (um deles afiançou que será presidente do governo em 2020…), todos muito bem servidos  neste que pode considerar-se “reino das Arábias”  por ter três clubes no escalão máximo  do futebol português.
Pelo vírus estrutural dos futebóis profissionais, pelo esbanjamento de capitais públicos e perante o arrepiante espectáculo da entrada e da saída das claques frenéticas nos recintos desportivos, escoltadas pela polícia de choque, mais parecendo as antigas hordas de selvagens arianos contra os bárbaros do sul europeu, permitam-me reproduzir aqui o desabafo que faço várias vezes aos meus amigos: Ligar o televisor para ver cenas destas sinto que é uma traição a mim mesmo, um erro, uma cedência, um pecado!
 Razão tinha   Sylvie Kauffmann  para, na edição de ontem de Le Monde, classificar este gigantesco labirinto anti-desportivo como um “psicodrama geopolítico”.

Maior que todo este libelo acusatório, deixo a minha mais entusiástica homenagem a todos quantos educam a infância e a juventude, não para a arena mercantilista vigente, mas para a  verdadeira cultura atlética, como era apanágio da civilização greco-romana, universal: “Anima sana in corpore sano” --- formar uma alma sã num corpo são.

9.Jun.2015
Martins Júnior

domingo, 7 de junho de 2015

ÀS CRIANÇAS QUE SÃO E ÀS CRIANÇAS QUE FORAM

No imenso anfiteatro multicolor em que se abre hoje a nossa ilha  ---  vistosas procissões, tipo paradas de realeza eclesiástica, fogos de artifício parisiense rasgando os céus do Funchal, ecos retumbantes de um passado quinhentista em Machico --- destaco, enterneço-me e faz-me vibrar as cordas da emoção e do pensamento vigilante um episódio tão singelo quanto avassalador que, à semelhança de outras locais, tive a felicidade de viver por dentro: a Primeira Comunhão na Ribeira Seca.
É verdade que, por toda a parte, a festa de certos sacramentos (baptizados, crismas, casamentos) foram-se deixando resvalar para a ribalta do espectáculo de variedades  sociais. A Primeira Comunhão também não escapa a esta deriva tentadora.
Mas, descontada esta tendência já estandardizada, o dia de hoje é um livro aberto onde podem ler-se as múltiplas dimensões da sensibilidade doméstica, o carinho com que todos lá em casa se aprestam para brindar à pureza original daquele “pequeno-grande ser” que hoje é protagonista. É ver a azáfama no atavio do menino e da menina, um quase stress que mobiliza a casa inteira, desde o ramo de flores ao diploma decorado pelo próprio neo-comungante, a preparação dos cânticos à sua conta, a tuna dos pequeninos,  enfim, uma agitação buliçosa mas tão aliciante. Depois, a envolvente familiar, com pais, avós, tios, primos, o cordão de gerações que se entrelaçam no templo cheio de luz, no palco, no salão de convívio em que todos partilham do pão e dos bolos que trouxeram de casa.
Para mim (aceitem esta abertura de alma) ganha um sabor e um pendor particularmente tocantes o facto de estar diante de pais e mães que há cerca de vinte/trinta anos  eram exactamente crianças que comigo, neste mesmo templo,  fizeram a sua Primeira Comunhão. Quem diria que tal viesse a acontecer. É esta, pois, a grande (re)descoberta, ali “ao vivo”, de que a criança de hoje será infalivelmente o mundo de amanhã. Bem dizia Louis Pasteur; “Diante de uma criança sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é, mas cheio de respeito por aquilo que poderá vir a ser mais tarde”!
Outro batimento interno que preocupa quem prepara crianças para este dia: Que ideias vamos transmitir à criança?  Que ensinar? Sabendo que a alma da criança é comparável à tabuinha de cera mole que grava indelevelmente os caracteres que nela se inscrevem, os monitores/catequistas deverão ponderar seriamente que conteúdos vão imprimir nessa folha intacta, expectante. Quantas palavras ocas, fórmulas estereotipadas, inalcançáveis para a mentalidade infantil, quantos temores vãos, como esse imperdoável atrevimento de forçar a criança a confessar-se. Permitam-me (mesmo com risco de ficar desacompanhado nesta minha convicção)  compartilho convosco a oração do perdão que as crianças formularam diante de toda a assembleia presente: “Meu Deus, peço perdão a quem ofendi em casa, na escola ou na rua. Ajudai-me a não tornar a ofender. De hoje em diante, quero ser melhor”.
Nesta matéria da pedagogia e da didáctica, tenho sempre comigo aquele aviso que um dia li em Antero de Quental, “santo Antero”. como lhe chamava Eça de Queirós:  “Não há nada mais terrível que o olhar de uma criança”.  Na singeleza do seu olhar assoma, por vezes,  a profundeza de perguntas tais que nos desarmam as prateleiras cheias de pó onde comodamente arrumámos  as nossas ideias e preconceitos. Pagam-se caro o embuste e as falácias com que empapelamos as nossas respostas. É este um tema muito sério para quem ministra a educação religiosa das crianças. Por isso, aqui me despeço neste dia de intensa vivência comunitária.
E ofereço-vos as duas quadras, em forma de oração e compromisso, que as crianças da Ribeira Seca hoje proclamaram em alta voz:

                                   Na Primeira Comunhão
                                   Nós desejamos, Senhor,
                                   Que no mundo haja mais pão
                                   Mais respeito e mais amor


                                   Por isso agora prometo
                                   Para quando for maior
                                   Lutar pela Eucaristia
                                   Fazer o Mundo melhor

7.Jun.2015
Martins Júnior

sexta-feira, 5 de junho de 2015

UM MERCADO DE CINCO SÉCULOS “FEITO” PELAS MÃOS DO NOSSO TEMPO!

“Todos os anos, pela primavera” --- lá estou outra vez pegado com Luís Sttau Monteiro --- Machico regressa ao berço de antanho, envolto no pergaminhos régios do foral manuelino, alcandorando as luminárias do poder que passa, ridente e solene, sob o pálio segurado por menestréis e cortesãos. E lá vêm as condessas e as donzelas da corte, as respectivas aias de saias em redondel, enquanto as charamelas, os alaúdes e os tambores enchem as ruas e os corações. É bonito de se ver a capitania virgem do Império, a nobreza de outras eras, os torneios e os saraus nos salões do “Tristão das Damas”. Fiel à história, não podia o cortejo esconder os magros artesãos, o coro dos escravos, os homens livres e os homens bons. Todos os anos, pela primavera, Machico volta a ser “uma nação”, como de há décadas dizemos nós em terras de Tristão Vaz.
Deste espectáculo que já vai na sua 10ª edição, pode afirmar-se  aquele refrão que “é sempre antigo e sempre novo”. E por sê-lo, de sabor tão denso e tão inspirador, recolho-me, mesmo no meio da imensa multidão, recolho-me sim e sublinho algumas conclusões que ficam para além do rasto efémero dos três dias de festejos.
Em primeiro lugar, o valor estrutural desta iniciativa não fica a dever nada às cúpulas da ilha ou das ilhotas pardas ou bastardas. Nasceu da raiz mais pura e livre: a sua população, designadamente, a comunidade escolar. Carregada de um nobre sopro de portugalidade, a partir desde logo da sua criadora, a distinta Professora Raquel Esteves  que no-la trouxe do território continental  e enriquecida com o profissionalismo do VIV’ARTE, a iniciativa ganhou seiva e fruto na força telúrica da juventude de Machico, com a  eficiente colaboração da autarquia.  E com tal pujança que a todos arrastou no cortejo e na praça de mercar os manjares cozidos e temperados pela criatividade dos nossos ancestrais. Embora a baixa de Machico fervilhe, a mais não poder, de gente de fora nestes três folgados dias, a sua grande  e  indissociável matriz está na comunidade local,  como protagonista integral do “Mercado Quinhentista”, com professores e alunos logo à cabeça. Num teatrinho de aldeia em que os “Donos Disto Tudo” transformaram e açambarcaram a ilha e a sua respiração, é meu prazer relevar o carácter autóctone da iniciativa e é meu dever pedir a quem a dirige a coragem e o bom senso de, sem prejuízo dos mais amplos apoios, nunca  deixarem que os habituais manipuladores do poder ou do dinheiro tomem o cadastro de tão rico caudal de cultura e património.
Outro índice que me  fica deste imenso Livro de História, ao vivo, é a trajectória que a Primeira Capitania da Madeira tomou ou foi obrigada a rumar neste cinco quase seis séculos de vivências legadas de pai para filho. O rochoso dinossauro que descansa a cabeça no cais do Desembarcadouro e os altos promontórios da Ribeira Seca e dos Maroços interpelam-me e interpelam-nos a todos, como que a perguntar: “Que fizestes do brilho deste que foi o Pórtico das Descobertas?... Onde paira a estirpe dos que desbravaram as terras e firmaram a nobreza deste Povo?... Que é feito deste mar, onde o sol nasce primeiro?...
Suspendo esta  auto-inquirição,  porque dói-me ver, de há alguns anos a esta parte, empalidecer o “esplendor” desta “nação” que é Machico. Porque daí surge um outro interrogatório: “E tu, sim,  que fizeste tu para reerguer esse esplendor? Conforta-me recordar Álvares de Nóbrega, intrépido defensor dos ideais da Liberdade, Igualde e Fraternidade. Consola-me a memória dos resistentes de Machico na luta entre absolutistas e liberais, na Revolta da Madeira, na “Revolução do Leite”, na Revolução dos Cravos, numa palavra, contra a subserviência, que lhes fora imposta.
Foi enternecedor ver os novos inquilinos do Palácio,  distribuindo abraços e beijos tão dourados e importados como a areia da praia amarela e, armados em novos descobridores, desafiarem os comparsas: “Agora digam que Machico não é uma nação!” Só agora! Não muito longe vai o tempo em que vituperavam a sete línguas que “Machico é terceiro mundo”,  a que um mais raquítico secretário acrescentava: “Isto é o quarto mundo”. Eles, quero dizer estes, também estavam lá,  sentados à mesa do Orçamento, mas ninguém os viu defender aquela que agora chamam “nação”. É urgente chamar a contas quem tanto fez sofrer  o  Povo de Machico. É chegado agora o tempo da reparação. É isto que espero ver  daqui a um ano no próximo “Mercado Quinhentista”.
 “Quidquid recipitur ad modum recipientes recipitur”.           Perdoem-me esta escorregadela para a “minha” tão gostosa língua de Cícero. Mas traduzo: “Tudo aquilo que é recebido toma a forma do recipiente”, ou seja, cada qual interpreta a mensagem segundo a sua sensibilidade.  Para mim, é este invisível sumo alimentício --- e muito mais --- que me fica do belo tríduo patriótico chamado “Mercado Quinhentista”, prestando em troca o meu reconhecimento pelo ingente esforço dos seus mentores e figurantes.
Termino, na mesma linha de responsável optimismo, retomando a palavra de ordem com que a Comissão Executiva, de que fiz parte,  encimou na década de 1980  as comemorações da Descoberta:  “NA ROSA DOS VENTOS, MACHICO À PROA!”

5.Jun.2015

Martins Júnior

quarta-feira, 3 de junho de 2015

VISITAS DE COSTAS VOLTADAS

 

PPC=AJJ


Será a primeira vez e oxalá fosse a última em que vou abrir  este ferrolho “ímpar” com a chave mais ferrugenta e prosaica que guardei de uma peça de teatro da juventude em que o  protagonista bonacheirão comentava os tiques e os toques cosméticos de certa “dama de pé de cabra” com esta tirada prenhe de corrosiva ironia: “A limpeza em demasia já chega a ser porcaria”-
Falo da gentil visita que o Primeiro-Ministro se dignou fazer ao novo inquilino da Quinta Vigia. Uma gentileza camuflada  que mais cheirava a grosseria. E desprezo pelos madeirenses, O senhor não veio visitar os ilhéus, porque há anos que está no “trono do império” e soube lá sequer se havia gente nesta ilha!... Faz lembrar os três primeiros bispos do Funchal que nunca puseram pés na Madeira. Mas agora veio, porque a amizade epidérmica dos “jotinhas”  é coisa que não se deita a coelho bravo nem à gata borralheira. O velho jotinha PSD/Lisboa veio abraçar o seu contemporâneo  “jotinha  PSD/M”, nados e criados na mesma ninhada. Os madeirenses de gema deviam repudiar esta política suja do “amiguismo” que tem corrompido com uma impunidade descarada a vida deste país. Dava-se mal com AJJ e amuou, bateu com os pés nos terraços de São Bento e disse: ”Não vou lá”. E, como é já seu calejado calão, jurou ás beneditinas paredes: ”Que se lixem…que se lixem os madeirenses”! Mas agora veio. Porque já cá estava o seu parceiro da barra, apertadinho num marialvismo tão sopeiro como o sopeirismo vilão do antigo inquilino. Aliás, o “nosso primeiro” mais não fez que imitar o “outro primeiro” que nunca pôs os pés no Dia do Concelho de Machico enquanto foi presidente o subscritor destas linhas. PPC=AJJ! Quando a política é feita dos humores ou das trombas  dos seus actores, entrou-se no compadrio e na corrupção. Os madeirenses não tiveram culpa das diatribes entre o de lá e o de cá. Ao menos, por isto esta visita torna-se “non grata”, o mesmo que politicamente degradante.
Depois, o senhor vem no fim da linha. É curioso! Nunca a cova esteve tão perto do berço. Por outras palavras, nunca o princípio e o fim estiveram tão próximos.  O que, tudo espremido, resulta que  ele veio em busca dos chouriços perdidos por cá. Anda aí uma agência de aviões low-cost  numa campanha, espécie de  escapadela infantil, estilo peddy-paper urbano, a que deu o nome de “caça ao voo”. Intercalem a consoante “t” entre as duas vogais e logo verão os madeirenses o que veio fazer  o senhor cadente de lá  junto do caloiro governante de cá. É o meu segundo motivo de repúdio.
Finalmente, o homem veio prometer tanto tanto como os “cofres” que lá tem “cheios” do suor, da fome e das lágrimas dos portugueses, as nossas também. Mas quem, com um mínimo de respeitabilidade e memória, dará crédito a quem teve o seu mandato nascido de vísceras falseadas, caluniosas, intragáveis. Alguém já esqueceu, porventura, as auspiciosas promessas feitas há quatro anos na época da caça ao voto? Mas agora as promessas são ainda mais cínicas, maquiavélicas. Tem ele a certeza que será o próprio que as vai cumprir?  Será que  o povo vai cair na mesma esparrela de o eleger? É muito fácil prometer para outro cumprir. O último a sair que apague a luz. Mesmo que os madeirenses fiquem às escuras. Promessas e quimeras  levá-las-ão os ventos de outono.
Por estas e outras evidências, confrange-me ver franjas da nossa terra, amolecidas e babadas, perante uma visita de última hora que, desde há quatro anos e daqui para a frente, outra coisa não é senão o mesmo virar de costas. Mesmo que venha nadar nas tendinhas - laranja do Chão da Lagoa.

3.Jun.2015

Martins Júnior

segunda-feira, 1 de junho de 2015

DE 19 ANOS --- UMA MULHER DE ARMAS!


Pegou moda o “Je suis Charlie”, mas por mim dispenso-o e não me sai crânio e dos nervos, sobretudo de 30 para 31 de maio, um outro refrão, bem mais alto e interminável: “Je suis d’Arc”. Porque ainda pairam no ar que respiramos as labaredas de há 584 anos, nessa lúgubre noite de Rouen quando amarraram a uma pilha de lenha aquela rapariga de 19 anos de idade, enquanto em redor  padres da Inquisição rezavam ofícios por sua alma. Ela era, ela é e sempre será viva e incandescente para a memória sem termo: Joana d’Arc.
Dia grande em França para comemorar a sua patrona, a reconquistadora da soberania francesa contra as investidas açambarcadoras da  Inglaterra na conhecida  “Guerra dos Cem Anos”. Dia Grande para a França. Dia Memorável para a Humanidade: uma jovem camponesa, vendo a sua pátria e a sua família acossadas pelos ingleses, quando tudo parecia perdido, apresenta-se ao príncipe Carlos VII e faz-lhe um apelo veemente, tal como Moisés no antigo Egipto:  Deus manda-me libertar o meu Povo! Indeciso, depois descrente dela e ainda depois confiante na forma e no fundo do apelo rapariga de Orléans, entrega-lhe  espada, armadura  e o comando do exército francês nessa ingente campanha fatal. E ei-la que surge na vanguarda de milhares de homens contra as hostes inglesas, comandante valorosa, montada a cavalo, trajando armadura de guerreiro,  mais que o Mestre de Avis e mais que o nosso Condestável Álvares Pereira, escorraça os invasores britânicos e faz coroar o dito Carlos VII, solenemente, na catedral de Reims, como o único e verdadeiro Rei de França, em1429. Dois anos depois, é queimada viva  na praça do Vieux-Marché da cidade de Rouen.
Como foi possível consumar-se no corpo desta jovem de 19 anos a sina maldita a que são condenados os libertadores da pátria, da ciência, da cidadania e da dignidade humana?... E quem a condenou a tão atroz suplício?
A história, particularmente com a investigação do douto mestre Jules Michelet,  no-lo explica, bem como os 22.000 documentos arquivados na Biblioteca de Orléans. E sobriamente aqui se reproduz o trágico  testemunho: era o tempo da Inquisição e o bispo presidente do “Santo Tribunal” pertencia à nobreza dos de Borgonha aliados da coroa britânica. Foram estes que, por meio de uma cilada ignóbil, entregaram Jeanne d’Arc ao referido  bispo Cauchon, o qual, sob a falsa acusação de bruxa e visionária, lavra, com o prazer sádico da religiosidade, a pena máxima: a fogueira! Não se sabe se fazia lua nessa noite, mas pode bem imaginar-se o mesmo tétrico espectáculo do enforcamento do general Gomes Freire de Andrade em S. Julião da Barra, magistralmente plasmado na peça “Felizmente há luar”, do saudoso Sttau Monteiro. Mais eloquentes ainda  Artur Honegger e  Paul Claudel no imortal oratório “Jeanne d’Arc au bûcher” (Joana d’Arc na fogueira”)!
E depois, como reagiu a Hierarquia da Igreja, auto-cognominada de Cristo? Vinte anos mais tarde, o papa Calisto III mandou rever o processo, detectou a injustiça do mesmo e ordenou a reparação do crime perpetrado pelo facínora bispo Cauchon.  Mas… só 500 anos depois, Pio XII proclamou-a santa e padroeira de França, em 1920.  Cinco séculos para reparar tamanha crueldade!
Para quem ainda tenha dúvidas sobre o passado negro da Igreja Vaticana, em nada dissonante  do actual Estado Islâmico (matavam-se inocentes sob a farsa da religião) as 24 horas de 30 para 31 de maio de 1431 e os 500 anos para  repor  a justiça e a verdade dos factos, fazem-nos tremer! Razão tem o Papa Francisco para limpar a podridão hereditária da Cúria Romana e muitos dos seus serventuários bispos e cardeais, disseminados pelo planeta,  da raça de Cauchon (por aproximação fonética “cochon”, ou “porco”, em tradução portuguesa).
É dia de beijar as cinzas da jovem de Orléans  que os ventos da História trouxeram até nós, ao arquipélago que habitamos. A Joana d’Arc poderá com todo clamor atribuir-se-lhe a épica homenagem de uma sua ancestral figura bíblica,  Judit, que arriscou a vida para libertar a sua gente sitiada pelo general Holofernes: “Tu és a glória de Jerusalém. Tu és a honra do nosso Povo”!
Falei em homenagem a Joana d’Arc. Mas a maior homenagem é a convicção de um Povo, persistentemente  vigilante e interventivo,  para não permitir que se queimem em chama brava ou em lume brando aqueles e aquelas  que sonham e fazem um mundo melhor  onde todos possam respirar sem medo das fogueiras dos poderosos!
Termino com a transcrição do pensamento de Bertolt Brecht citado, tão oportunamente, pelo recém-criado semanário francês, Le 1: “Felizews os povos que não precisam de ter heróis”. Por mais paradoxal que pareça esta análise do grande dramaturgo, é nela que está o pulsar justo e harmónico do organismo social: cada um de nós terá de ser esse herói anónimo na correnteza dos dias felizes.

 31.Maio/1 de junho 2015
       Martins Júnior
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N.B. - A CEFISA-RS ( Comissão  da Ribeira Seca) editou um CD intitulado “A Igreja é do Povo/O Povo é de Deus”, de onde consta a síntese do que foi dito acima. Colocá-la-emos amanhã no facebook desta comunidade.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

BANDEIRAS MONÁRQUICAS SOB AS INSÍGNIAS DO ESPÍRITO SANTO


Dizem os nutricionistas e recomendam os dietistas que se deve preferencialmente  consumir fruta da estação. E no extenso mercado global dos lavradores estendem-se nesta altura aos nossos olhos vastos cabazes de frutas, umas endémicas, outras exóticas e, e entre estas, muitas invasoras e infestantes. Desde  as laranjas furta-cores da política aos mamões amadurecidos, quase podres, do futebol, há muito por onde escolher.
Hoje deito a mão ao cesto do “Espírito Santo”. Ele vem de longe, já foi pintado, enfeitado, outras vezes proibido e ostracizado, sem contar com os remendos e contrafacções que lhe têm caído em cima. Refiro-me aos rituais popularizados, especialmente na Madeira, em “honra do Divino”, como afectuosamente e mais supersticiosamente lhe chamam os devotos. É um assunto sério este que os usos e costumes nos trazem embrulhados no manto das bandeiras da pombinha. Ater-me-ei às origens históricas e duvido que tenha espaço para  debruçar-me sobre os seus  desenvolvimentos até aos nossos dias. 
Não quero escandalizar ninguém, mas os factos são factos e contra eles falecem todos os argumentos e piedosas elucubrações. Por isso, a histórica devoção ao Espírito Santo tem de tudo, menos do que é espiritual. As insígnias vermelhas, a coroa real, o ceptro imperial, os “pagens” (assim ordenava a tradição do cortejo processional no Porto Santo quando lá estive como pároco há 50 anos) todo esse cerimonial possuía, em termos miniaturais, a magnificência e o poder da monarquia. Procurei as raízes e encontrei  nos quatro grossos volumes de Fortunato de Almeida --- “HISTÓRIA DA IGREJA EM POPRTUGAL (1930)  --- o início da devoção ao “Divino”:  Foi El-Rei D. Dinis que, a pedido da esposa Rainha Santa Isabel, mandou construir em Alenquer um templo dedicado ao Espírito Santo. Tal como o “milagre das rosas”, a devoção pegou e, a partir das cúpulas do reino, a Hierarquia regulamentou meticulosamente a tramitação das faustosas cerimónias públicas. Eis o relato do insuspeito historiador:
“No Domingo de Páscoa entrava na convento aquele que fora nomeado para Imperador. De tarde saía da igreja do Espírito Santo o Imperador acompanhado de muitas festas, trombetas e grande multidão de povo com canas verdes nas mãos. E adiante iam dois pajens, um com a coroa e o outro com o estoque e tornando ao convento era novamente coroado. Acompanhando o Imperador seguiam duas donzelas honestas que dançavam no préstito e eram damas do Imperador e por isso se lhes dava dote para casamento. Voltava o Imperador para a igreja do Espírito Santo onde oferecia a coroa num altar e de novo a recebia das mãos de um sacerdote. Depois assentava-se num trono com o seu dossel e diante dele havia folias, bailes dos nobres e do povo. Todos os domingos se faziam estas festas atá ao anterior ao do Espírito Santo que se chamava dos fogaréus, porque como as festas se prolongavam pela noite dentro acendiam-se luzes no arraial”. (pág.556).
Fortunato de Almeida classifica de “extravagâncias” estas devoções, que se foram desenvolvendo ao gosto popular e , com abusos tais, que chegaram a ser interditas pela Igreja. Citando:
O Imperador passou a ser um menino para representar o bispo inocente que vestiam com as vestes e insígnias episcopais, governava o clero até ao dia seguinte, visitava as paróquias como se fosse prelado da diocese, deitava bênção, etc.. Era uma folia, de que o povo ria, e que afinal foi proibida por diversos concílios”  (pág.557).
No decurso dos séculos, a tradição obedeceu ao velho ditado “cada terra com seu uso e cada roca com seu fuso”, de tal forma que as autoridades eclesiásticas viram-se confrontadas com a fértil exuberância da imaginação popular, que misturava a devoção ao “Divino” com práticas marginais, senão mesmo contraditórias, reminiscência das antigas festas pagãs. Uma característica, no entanto, ficou sempre indelével: a configuração do poder imperial adaptada a cada região, sob o signo do Espírito Santo.
Na Madeira, outro tanto aconteceu. Os colonizadores da ilha, capitães donatários e sucessores, detentores do poder senhorial, foram os grandes pioneiros da devoção. É o caso de João Gonsalves Zargo que erigiu em Câmara de Lobos a primeira capela ao Divino Espírito Santo. Obedecendo aos mesmos cânones senhoriais, o fidalgo João Esmeraldo mandou construir a então sumptuosa igreja do Espírito Santo na Lombada da Ponta do Sol. Da minha parte, sou levado a crer que a  (afectivamente “minha” porque la estive dois anos consecutivos) capela do Espírito Santo, no Porto Santo, terá sido obra da velha tradição régia de Portugal colonizador.
         E como bem calculei eu no início destas notas, fastidiosas ou apreciáveis conforme os gostos, hoje não dá para concluir a  mensagem. Ficará para a próxima semana.
29.Maio.2015

Martins Júnior

quarta-feira, 27 de maio de 2015

MACHICO RESPIRA SAÚDE

É um deslumbramento sem  ocaso contemplar o maravilhoso mundo da biologia naquilo que possui de mais íntimo, escondido dos holofotes dos dinossauros com olheiras do “ homo erectus” do século XXI.  A beleza da filigrana produzida pelas anónimas obreiras dos casulos mereceu bem esse poético compêndio que Maurice Maeterlinck dedicou À “Vida das Abelhas”. Tanto mais emotivo e atraente quanto se sabe e vê que nos dias que passam o que conta é o grande plano, o efeito, mesmo sem nada feito, mas mensurável  a  olhómetro,  enfim,  o que é espectacular e retumbante, ainda que vazio, desde  que ensurdeça os ouvidos e cegue a vista ao  transeunte comum. Ele é nos futebóis, ele é nos partidos, ele é nas mordomias eclesiásticas pavoneando-se em plumas vermelhas nas praças e estádios.
         Por isso “eu gosto muito mais daquela feia”, perdoem-me, mas sinto a voz do Carlos do Carmo enaltecendo o que,  sem ser vistoso,  guarda a riqueza interior de quem a procura. Foi também nesta perspectiva que E.F.Schumaker  concebeu esse maravilhoso livro “Small is beautiful” (O que é pequeno é belo), um estudo de economia em que as pessoas também contam.
É nesta óptica que aprecio uma iniciativa que, desde há nove anos, a Junta de Freguesia de Machico vem realizando sob o signo de “Feira da Saúde”. Feira, porque é do Povo, pelo Povo e para o Povo. Não se ataviou para a grande ribalta, nem a nossa “TV” das Madalenas se dignou dar cavaco (e já lá vai no quarto dia) nem mesmo o solícito novo Secretário da Saúde se dignou aceder ao convite, nem pessoalmente nem por representação. Ainda bem, acho eu, porque a iniciativa, particularmente nestes dois anos de mandato,  já está habituada a abrir caminho sem muletas nem padrinho.
Mas a verdade é que Machico descobre nesta altura o ouro precioso de um  voluntariado profissionalmente conceituado, ao nível da saúde e sua profilaxia, quer na área do nutricionismo, da actividade física, nos cuidados primários, quer no rastreio presencial, na ginástica localizada, no culto da arte  da música e dança. Outro valor acrescentado manifesta-se na agregação das diversas instituições sediadas em Machico e são muitas  --- desde a infância das escolas até à “terceira idade” --- como pode ver-se no prospecto que aqui se dá por reproduzido. É uma cidade nova que se encontra e reinventa em cada ano, unindo corpos e almas.
Cumpre-me (e nisto acho que envolvo toda a população) felicitar os autarcas da JFM, na pessoa do seu devotado presidente Alberto Olim, bem como à coordenação da jovem e dinâmica dra. Ana Isabel Cunha, felicitação esta  que se transforma em grato reconhecimento pelo trabalho consciencioso realizado em prol da saúde desta cidade. É com iniciativas destas, sem a pesporrência foguetória tão colada a esta Região, que se faz crescer a cidadania e o vigor de todo um povo. Certamente que também  noutras localidades algo se esteja a fazer com a mesma humildade das abelhas anónimas obreiras do Bem Comum.
Parabéns!  Para cumprimentar-vos , não vejo maneira mais cordial e mais saudável senão repetir aquele provérbio antigo: “A primeira e melhor recompensa do dever cumprido é ter cumprido esse dever”.
É esta a vossa maior glória!

27.Maio.2015
Martins Júnior