segunda-feira, 6 de julho de 2015

O EURO-DRACMA SALVA O EURO-DRAMA! A PERSONALIDADE MILENAR DO POVO GREGO


Vem intensamente prolongado este Dia Ímpar porque intensamente vivido até ao último instante, mais concretamente, até à plena certeza de que um povo, miúdo na geométrica  do planeta, mas altissonante como a epopeia de Homero  ergueu-se e corajosamente disse NÃO!
E porque as grandes alegrias dispensam palavras que são sempre apêndices sem alma, também aqui resumo em três estádios crescentes a minha interpretação do fenómeno que, sendo local, vai repercutir-se à esfera global:

1º - Como escrevi, em tempo útil,  Tsipras e Varoufakis firmaram em rude mas eloquente escritura o maior cunho de coerência com a palavra dada ao seu  Povo. Deram a cara, exercitaram a mais paciente e consequente diplomacia político-económica, aceitaram com estóica valentia os olhares esquivos  e o desprezo  dos  todo-poderosos escondidos atrás das muralhas sem rosto do FMI, do BCE  e do offshore Merkel. Nunca baixaram os braços. E quando, com a corda ao pescoço, não o deles, mas o do seu Povo, disseram: se foi o Povo que nos mandatou para isto, então que seja o Povo a decidir isto. E aconteceu o referendo. Entenderam que o procurador sério  deve devolver a procuração ao seu constituinte. Que grandeza de carácter! Que coragem, sabendo que se o SIM vencesse seria a sua imediata demissão! No mísero  albergue que é Portugal, o que vimos nós? Gente cara-de-feijão-frade, que cá dentro chupa o sangue aos seus e apresenta-se lá fora  como rica matrona, tapando o pé rapado: ”Eu não sou dessas, da Grécia Eu cá. tenho os cofres cheios”. Devo dizer que tenho vergonha de ser português enquanto houver um só tuga que vá votar nessa gente. Quem, pelo passado recente, poderá acreditar numa única promessa desses títeres das feiras?!

2º - “Nobre Povo, Nação Valente, Imortal” --- não estou a cantar o nosso hino nacional mas o robusto Hino de Atenas e Esparta! Quantas ameaças de Juncker, do BCE, do FMI, dos sofisticados carteiristas  que descapitalizaram a Grécia, retirando-lhe milhões e biliões para os bancos da Suíça, enfim, o anátema de expulsão da EU, o apocalipse fatal --- e, não obstante tamanho arsenal bélico, o Povo serenamente disse NÂO.  “Se é para ficarmos mortos com o Euro-Hitler, preferimos viver pobres com o nosso pátrio dracma”: eis como entendi a mensagem dos herdeiros de Ulisses e Leónidas.

3º - Paradoxalmente, foi o pequeno David que fez voltar atrás a tômbola gigante do Golias sediado em Bruxelas.  Só o pigmeu portuga é que  ainda pensa que a “questão grega” é  um embrulho de circunstância para meter na prateleira. É toda uma nova revisão da União Europeia que agora salta ao de cima. Que “comunidade” é esta, quão distante do sonho de Monet e de Delors? Calaram-se as baionetas de guerra na Europa de 45. Agora são os petardos silenciosos da exploração do pobre pelo grande capital. Agora é que  dizem que a Grécia nunca devia ter entrado no euro. Mas quando a receberam, só o fizeram para dela tirar “leite de um pau seco” --- como diz o ditado popular --- para servir-se das tripas do pequeno para engordar o monstro obeso. Prevejo que nada será como até agora: ou a Europa se alevanta ou a Europa implode. Com todas as consequências daí decorrentes. Também para nós. Porque os implacáveis especuladores não têm bandeira e  outra senha não conhecem senão: “Bolsa ou vida”. Tudo pode voltar à estaca zero. E aí encetar a refundação da Europa. Para que não nos bata à porta uma outra guerra mundial.

Tsipras e Varouvákis terão de voltar ao chão pedregoso do seu calvário na mesa insensível das negociações. Mas agora com outra força. Cada um deles poderá bradar como o Homem do Leme: Aqui, ao leme, sou mais do que eu. Sou um Povo inteiro!
Haja o que houver, o Povo grego deu, como há milénios, uma lição de assombro a esta Europa decrépita e astuta.

5.Jul.2015

Martins Júnior

sexta-feira, 3 de julho de 2015

AS CINZAS DO "REI" PASSEIAM-SE POR LISBOA

      
      Devo confessar que não esperava dedicar o qualitativo de  “Dia Ímpar” àquilo que o não é. E se o for, sê-lo-á pelos mais frágeis argumentos. Sei que corro o risco de, hoje por hoje, contrariar a identidade deste “Senso&Consenso”  pelo seu antónimo: “Senso&Contrassenso”. Isto, porque tudo quanto  vou dizer é tão válido como o seu contrário. Paradoxo. Mas certo. Tudo depende, como já o reconheci no dia 29 de Junho, da encosta ou do outeiro onde cada qual coloca a objectiva para  melhor interpretar a imagem envolvente.
         Falo do fastio que me causou essa requentada ementa que nos serviram as TV´s na longa tarde de hoje e que deu pelo pomposo nome de “Transladação de Eusébio da Silva Ferreira (ESF)para o Panteão Nacional.”. Foi tudo um formalismo seco, de gravatas polvilhadas, mais parecendo um “frete” sem retorno, a começar pelos próprios ocupantes da casa-mãe que deitou ao mundo o sobrenome de tão ditoso filho: a Assembleia da República, Dos 230 deputados que euforicamente aprovaram a proposta, só 50 é que puseram os pés, como almas penadas, envergonhadas, alguns até escondidos atrás das grossas colunas no cimo da monumental escadaria, lobrigando a “banda passar”, a trote de cavalaria rusticana.
        Só posso interpretar correctamente o caso, se ponderar numa das mãos a carga semântica do pódio chamado “Panteão” e na outra o peso estrutural dos felizes predestinados ao Olimpo dos Deuses.
    Adianta-se, desde logo, o argumento que ESF foi o “Rei” da monarquia futebolística. Mas por aí, até o agora Verde Jesus bem poderia, com o sua  ruiva juba, levar ao alto “os cinco violinos de Alvalade”, Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano. Com maioria de razão, porque o valor colectivo destes heróis suplanta a distinção individualista de um só homem, que é o mesmo que um homem só.
       Depois, diz-se que ESF tornou Portugal conhecido no mundo. E eu pergunto: quais os valores substantivos e duráveis que daí verteram para o país? Também no mais primitivo tugúrio do mundo, seja na China, seja na Indonésia, o que de Portugal conhecem é o nosso Ronaldo. E que proventos navegam para cá, a não ser os magnatas asiáticos, exploradores de mão-se-obra miserável, vêm a galope rapar o melhor que temos, porque cheirou-lhes um governo que vende ao desbarato aquilo que não é seu, mas de todos os portugueses.
         Mais: ESF, dizem, deu imensas alegrias ao povo português. Se perguntarem aos vizinhos leões, aos devotos de Belém  ou aos tripeiros dragões, não sei mas adivinho que lhes terá dado o “Rei” com seus  assaltos de pantera negra: mais lágrimas que sorrisos.  E nisto de dar alegria, tem muito que se lhe diga. Há outras profissões (inclusive a mais velha do mundo) que por aí operam e  também divertem e aliviam corpos e almas, aos milhares…
         Poderia continuar neste arra-desarrazoado fado corrido, em que todos ralham e todos têm razão ou, pelo menos, as suas razões. Por este andar, o que é suposto prognosticar é que o dono do palacete terá de arranjar mais uns aposentos e reservá-los já para quantos ESF’s  e CR7’s este chão botar ao mundo.
      Finalmente, a coabitação de exemplares tão heterogéneos no mesmo “apartamento”, talvez não os deixe descansar em paz. Estou a ver a grande poetisa escrevendo que “as pessoas sensíveis são incapazes de matar uma galinha, mas são capazes de comer cem galinhas”. Do outro lado, o General Sem Medo ainda a clamar “Obviamente demito-o” (ao Salazar), mais a um canto, o “Pantera Negra” apronta a Grã-Cruz da Ordem do Infante, que lhe deu o mesmo governo da ditadura (do Salazar) e, lá ao fundo, a diva do fado entoando com repassada melancolia “Que estranha forma de vida”, querendo talvez dizer, “que estranha forma de morte”. Vai ser uma desatinada cacofonia. Não vai dar certo.
         O melhor seria construir uma imensa abóbada, tipo arco-íris,  onde coubessem todos os deuses do futebol profissional, de todas cores clubísticas, as taças, as chuteiras, os apitos dourados.  E mais umas prateleiras para os demónios da bola, os Blatter’s,  os corruptos das Fifa’s intercontinentais, regionais e locais, enfim, essa rotunda e imensa arena de traições às camisolas (o futebol profissional é a pátria dos apátridas), as luvas de milhões, os negócios obscuros,  toda essa deseducação em cadeia  com que se tem revelado o carreirismo do futebol profissional. Aplicando a filosofia do grande treinador que é o povo --- “cada macaco no seu galho” ---  dir-se-ia que a cada deus  seu panteão.
         Ressalvo, como ponto de honra, o “engenho e arte” de ESF e outros similares no exercício da sua profissão. Se algum remoque aqui vai é só para aqueles que, a troco de aproveitamentos políticos e quejandos, obrigaram a passear as cinzas do “Rei” pelas ruas de Lisboa, sem que ele o pedisse.
         E porque quem pensa ao contrário também tem a sua razão, conclui-se nesta hora  que está feito o grande milagre: o Contrassenso tornou-se Consenso, ficando cada qual com o seu senso.  

3.Julho.2015

Martins Júnior 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

“DIA DE MACHICO” --- PRIMEIRO QUE “DIA DA REGIÃO”


       Quis o governo autónomo da Madeira antecipar-se a Machico, não no rigor da História mas na infantil ambição de chegar primeiro à meta, marcando o 1º de Julho como o  Dia do Achamento da Madeira, quando, afinal, os cronistas da época --- Gomes Eanes de Azurara, João de Barros, Damião de Góis --- atestam unanimemente que esse foi o dia 2 de Julho . E, para que não pairasse sombra de dúvida, explicitam claramente, esse foi o “Dia da Visitação de Maria a Santa Isabel”, como marca o hagiológio litúrgico. Antes que o Funchal saísse à rua, já Machico, antes do 25 de Abril (sem quaisquer encargos para a Fazenda Pública e  a expensas de genuínos “patriotas” locais) içava a bandeira das Descobertas, com vastas iniciativas sócio-culturais, pioneiras nesta ilha: recitavam-se as oitavas de Camões, de Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos, de Manuel Tomás, cantava-se o “Desde a primeira hora, Machico foi, Machico é…” 
         Se a iniciativa funchalense foi a de obnubilar aquela que foi a Primeira Capitania da Madeira, chegou tarde. Antes do Funchal, Machico já era! Ininterruptamente, em cada ano, Machico engalanava-se com o brilho das suas gentes para assinalar o seu Dia, considerando a nossa baía como o “Pórtico das Descobertas” ou “Na Rosa dos Ventos, Machico à Proa”, ficando gravado para sempre o espectáculo de luz e som nos baixios da enseada em que se representou o excerto da peça “O Infante de Sagres” de Jaime Cortesão. Tempos inolvidáveis para quem os viveu por dentro e por fora!
         Parabéns a esta Junta e a esta Câmara que, ao contrário de outras, dão continuidade à tradição autóctone, através de um programa condigno previsto para amanhã.
         Após este desabafo, com entranhado sabor telúrico, extensivo a todos quantos amam Machico, a “Pária do Autor”, assim lhe chamou o nosso vate Francisco Álvares de Nóbrega, quero aproveitar a presente comemoração para mergulhar no rio destes quase 600 anos de História, ficando também, paradoxalmente, nas suas margens como observador atento. Não irei vasculhar o alfarrábio ou o livro dos fiados de seis séculos, como ridiculamente o extinto dono da ilha sujeitou o historiador do regime, mas tão-só fazer luz --- “para que os homens não esqueçam” --- sobre a clamorosa dívida que o erário público regional tem para com Machico. Nem vou tocar a finados pelas atrocidades que uma “autodura”  (deixem passar o neologismo, que mais não significa senão a justaposição  ente autonomia e ditadura) que nos governou durante 40 anos e que tudo fez para esganar o progresso e destruir o prestígio da nobre “Vila de Machico”.
         Quero referir-me a um aspecto que não foi ainda suficientemente ponderado por quem de direito. E como entrada, declaro aberto o processo  de causa-efeito inerente ao historial de todas as sociedades: os homens passam, mas as  dívidas ficam. Por outras palavras, cantam-se as vitórias, mas as vítimas perdedoras continuam a arrastar os efeitos colaterais.
         Falo hoje da construção do aeroporto da Madeira que, além dos transtornos da sua construção inicial, mais agravou o concelho de Machico com o prolongamento da pista. Desaparecem os contra-argumentos quando se olha a destruição do Aldeamento Turístico da Matur, único na Madeira, rivalizando até com  o que de melhor tinha então Portugal Continental. Não me demoro aqui com a multiplicada agitação dos debates, das divergências entre os procuradores empresa turística  e o governo regional acerca do projecto proposto. Fez-se o aeroporto. Muito bem. Mas… e o resto? As unidades hoteleiras que implodiram, as residenciais, o internacional Club de Bridge, as muitas centenas de postos de trabalho, a movimentação nos transportes, táxis e afins, a espantosa melhoria de qualidade de vida reflectida em novas habitações, investimentos levados a efeito no perímetro urbano de Machico, Água de Pena e, por contacto, o Caniçal, Santo da Serra! Já alguma vez bateu no coração e na mente dos governantes o tremendo prejuízo infligido, com mais gravosa incidência, sobre  Machico, dado que era neste concelho que se recrutava o grande volume de mão-de-obra? Sou testemunha das dificuldades inultrapassáveis que abruptamente arrasaram famílias inteiras, as lutas, as reuniões com governos de cá e de lá em que tive de participar aquando da construção, como presidente do Município!
         É esta uma dívida histórica, ainda por saldar. E não se badale mais a nauseabunda quanto estrábica acusação que  “Machico parou por causa das Câmaras da oposição”, não, porque nos mandatos das que precederam e sucederam, não mais se recompôs, pior, destruiu-se, toda a pujança de Machico, vocacionado para polo turístico alternativo ao Funchal. Disse “destruiu-se”, porque o que se fez em Machico, só por sofreguidão eleitoral, foi sobretudo betão e alcatrão para desviar desta cidade os viajantes na ilha. Aliás, esquartejou-se  anarquicamente a paisagem, o ambiente, a praia, roubou-se aos residentes o livre e amplo acesso ao mar, casos paradigmáticos os de Água de Pena e Caniçal. E se não o fizeram à praia de Machico foi porque a população opôs-se terminantemente, como terei oportunidade de demonstrar noutra altura.
         Deixo aqui este alvitre para o Dia de Machico (e, por arrasto, da Região) em forma de protesto pelo facto de Machico não ter sido cabalmente ressarcido das perdas e danos decorrentes de um equipamento que, sendo de indiscutível utilidade para o bem global da Região, causou prejuízos colaterais ainda por sanar. Não bastam os discursos anafados por fora, mas ocos por dentro. É preciso restituir o que foi levado.
         Felicito a Junta local por ter escolhido esta data para “Dia da Freguesia” e ainda por ter votado o soneto “À PÁTRIA DO AUTOR” do grande Francisco Álvares de Nóbrega para guião do hino oficial da autarquia machiquense. Bem o merece!
      
1.Jul.2015

Martins Júnior

segunda-feira, 29 de junho de 2015

PEDRO “POPULAR” --- OU O NOSSO AUTO-RETRATO

(Foto: Facebook da Câmara Municipal de Machico)

Ontem à noite foi a véspera:  alinhei e aplaudi as romarias, as da cidade de Machico, as outras e a nossa,  com a marcha original do  “ S. Pedro da Ribeira”, leia-se, Ribeira Seca. E as de Câmara de Lobos, da Ribeira Brava, da Póvoa de Varzim, enfim, de todos os cantos e ruelas, por onde os arcos e os balões soltavam foguetes de alegria em “louvor do S. Pedro”, mas que, feitas as contas, o destinatário eram os foliões e as respectivas claques.
Hoje, 29 de Junho, foi o dia de andar com o Simão Pedro, na sua casa, no “calhau” do mar de  Tiberíades, no meio da companha do barco onde foi arrais, nos caminhos da Palestina, no monte Tabor,  no Jardim das Oliveiras, até aos tribunais do Sinédrio e ao cadafalso da crucifixão. É sempre assim todos os anos: ando com ele. E foi aí que um dia descobri o fundamento de chamarem  a  Pedro  um dos “Santos Populares”. Enquanto a multidão acha-o popular pela folia da véspera, muito participada e divertida, descobri a extensão semântica do termo “Popularidade”.
Popular é tudo quanto ---  pessoas, paisagens, objectos, sensações --- se assemelha com o povo, que lhe está próximo, que se parece com ele. Ao passar o dia com Pedro, vi "claramente visto” que é ele o protótipo, o auto-retrato de cada parcela da identidade popular. Porque?
É vê-lo,, marinheiro rostudo, destemido no mar e frágil em terra,  operacional e indeciso, fogoso e tímido consoante a circunstância, enfim,  o coração sempre ao pé da boca, capaz do melhor e do pior. Ele é a personificação da bipolaridade estrutural que enforma a psicologia popular e domina a condição humana, na sua transparência e na sua transcendência: estátua de bronze e pés de barro.
É um estado de alma o que hoje vos trago: intimista  mas, ao mesmo tempo, propulsor de energias sempre cadentes e sempre renováveis.
No rasto das “Sandálias do Pescador”, encontramo-lo ao lado do Mestre, disposto a tudo para defendê-lO, ao ponto de puxar do navalhão de cortar atum e desancá-lo na orelha de um dos soldados que vinham  prendê-lO nessa fatídica noite de Quinta-Feira, que culminou no assassinato de Sexta-Feira. Mas --- Oh paradoxo deste estranho mix, corpo-espírito --- daí a poucas horas, quando Pedro, clandestinamente a aquecer-se junto à fogueira, entre os judeus,  nessa noite fria, foi interpelado por uma mulher:
--- Tu também és do grupo d’Ele
--- Não sou, não, mulher.
--- És sim, até já te vim com Ele.
--- Não sou, estou-te a dizer e digo quantas vezes quiseres.
--- Ah, já te descobri pelo sotaque da terra d’Ele: és galileu.
--- Juro-te, mulher, nem sequer conheço esse homem. Nunca O vi na vida.

Bastou que o Mestre saísse da audiência do tribunal, cruzou com Pedro. E este corou de vergonha: Três anos a conviver com Ele, escolhido para líder do grupo,  acérrimo defensor, capaz de dar a vida por Ele… e ali, diante de uma  judia anónima, borra-se de medo e comete a suprema traição que se pode fazer a um amigo: ”Nem sequer o conheço”!
O resto já o sabemos. Das muitas vezes que foi preso, açoitado e intimado a não falar mais do Mestre em público, ripostava: “Vou continuar a falar d’Ele”. Até que, finalmente sentenciado à pena máxima, pediu ao algoz  que o crucificasse,  mas de cabeça para baixo: “Não sou digno de morrer como o meu Mestre, porque O traí”.
Aí está Pedro, o espelho de cada um de nós!  Parecido connosco, que somos capazes do melhor e do pior. Quantas vezes, o medo de afrontar directamente a adversidade, o calculismo da nossa defesa individual, a preferência pelo nosso interesse, se transformam em cobardia perante uma circunstância fortuita!... Em Pedro, consubstanciou-se, “avant la letre”,  a constatação de Ortega y Gasset: “O homem é aquilo que é, mais a sua circunstância”.  Na política, nos negócios, na religião! No indivíduo e na sociedade!
Pedro --- tão perto de nós, tão igual a cada um de nós, tão gigante e tão pigmeu como a massa de que somos feitos. O nosso auto-retrato, o teu e o meu.
O importante é prosseguir viagem, reagir. E tornar cada vez mais renováveis as energias cadentes da alma popular. Como o “Homem do Leme”  na “Mensagem” de Fernando Pessoa . Como Pedro, o último e  mais popular dos santos deste Junho de verão nascente!
 Será  esta a marcha, esta  a canção que ele mais espera de nós, como refrão perene da euforia da véspera.

29.Jun.2015

Martins Júnior

sábado, 27 de junho de 2015

TSIPRAS E VAROUFAKIS: ESTOU COM ELES!

  
     Nas encruzilhadas da História como no circo  da humana espécie, há ventos oblíquos e há artífices tão estranhos e complexos que ficam para sempre com  a expressiva designação de “Sinal de Contradição”.  E, com sendo estranhos e complexos, são eles e elas  ---  nimbados pela auréola espinhosa da contradição ---  que marcam o rumo novo de uma nova era. Exemplo acabado é aquele em que o profético velho Simeão no Templo de Jerusalém fez estalar o coração daquela jovem-mãe: “Esta criança está posta no mundo para Sinal de Contradição, um rochedo inabalável, onde uns vão salvar-se e outros vão despedaçar-se”.
Encurtando a minha mensagem de hoje, quero referir-me à Grécia, tão exígua no tamanho, mas enorme na vanguarda do pensamento e da arte, que se constituiu a matriz civilizacional desta imensa e tão diferenciada Europa. Para uns, ela, a Grécia, não passa de  um apêndice  espúrio  a amputar, quanto antes, do corpo “cristão e ocidental”. Para outros, ela prenuncia e luta por uma Nova Ordem Europeia, uma outra interpretação do epifenómeno existencial, extensiva a toda a condição humana presente e futura, em que o termo “União” corresponda à sua riqueza semântica. Estes últimos  são os que a minoria cega do capital e das armas chama de românticos. Os primeiros são os profissionais da forca, estranguladores sem pingo d’alma, em  nada diversos dos degoladores islâmicos, fanáticos discípulos da Lei de Talião:  olho por olho, dente por dente.
Não sou letrado nesta matéria. Por isso mesmo recorro a Juan Ignacio Crespo ---  autor de Como acabar de una vez por todas com los mercados --- o qual afirma peremptoriamente: “”A dívida pública, na maior parte dos países, não se paga, renova-se”  E logo sugere a metodologia  adoptada nos finais do século XVIII quando Alexander Hamilton, Secretário  de G.Washington, se esforçou  em  unir os diversos Estados numa Confederação, o que só  conseguiu quando o “Tesouro Único” se encarregou das dívidas dos diferentes Estados. “Um exemplo que seguramente se atingirá, mas que está tardando na Europa”, acrescenta.
 Sejam quais forem os olhares --- contraditórios sempre --- sobre a nobre e pobre Grécia, quero hoje endereçar  um clamoroso Voto de Congratulação aos dois acérrimos combatentes contra o vil sistema do capitalismo selvagem que manipula e mata a economia sustentável dos povos. São eles Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis, sejam lá de que partido forem. Eles incarnam o “alfa e o ómega” da alma helénica,   rediviva no século XXI. Em  Varoufakis espelha-se a fibra heróica do espírito de Esparta, austero e sem rodeios. Tsipras conjuga  plenamente a serena posse do espírito de Atenas, desinibido no traje e rico de olhar, onde a simpatia diplomática não contamina nem dissimula o ímpeto bélico de devolver ao seu povo a dignidade  perdida. Realizam, os dois, as linhas paralelas da concepção dialéctica da governação: um, o mal amado, Varoufakis;  o outro, Tsipras,  diplomaticamente, o bem amado. Mas ambos, confluentes no mesmo vértice  para defender, como o grande Ulisses, a honra da sua Penélope, o Povo Grego. Viagens, expectativas frustradas, reuniões de arrasar, insónias, incompreensões, manifestações, inimigos de dentro e de fora, enfim, uma luta desigual entre David e Golias, até à exaustão, mesmo que o destino seja morrer na praia. Mas, cuidem-se os armadores dos cruzeiros capitalistas, porque o naufrágio, se houver,  não ficará só pelas ilhas gregas. Tsipras e Varoufakis sabem muito bem que Lagarde’s e Draghi’s, Schaeuble´s  e  Juncker’s  não passam de secos funcionários, marionetes de feira,  às ordens  desse secreto  monstro chamado “Mercado”, antro de offshores, máfias e corrupções. E é, em grande angular, contra  o monstro que a Grécia luta, indicando o caminho para que se unam no mesmo feixe os “ofendidos e humilhados” do mundo inteiro.
Quão diversa e mísera é a  brigada de prematuros reumáticos que do sangue e das lágrimas do Povo Português fazem o ridículo verniz com que apertam  a mão e dobram-se em arco aos especuladores sem escrúpulo! Os governantes gregos lutam porfiadamente pelos compromissos assumidos nas eleições. Os nossos, traidores das promessas que fizeram quanto às pensões, abonos, subsídios de férias e natal, apresentam-se de consciência relaxada e empertigada, palheiros de aviário armados em pavões, entregando ao diabo corpos e almas que não lhes pertencem.
Dê no que der,  será sempre monumental e homérica a luta de Tsipras e Varoufakis. Estou com eles!

27.Jun.2015

Martins Júnior  

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O QUE ME DISSE O CAMINHO DESCENDENTE DO “BARREIRO DA QUEIMADA”

Considerem,  se assim acharem, um passatempo esta minha digressão pedonal que começa  nos miradouros do alto da antiga Matur, Água de Pena, debruçados como varandas de sonho sobre o majestoso vale de Machico. Mas é da leveza do olhar que brota a profundeza do pensamento, como da paisagem singela emergem as mais ímpares  sensações.
Aproveitei o fim-de-tarde de ontem, após a comemoração do 479º  aniversário da freguesia de Água de Pena , para fazer a caminhada diária. Alcancei os miradouros e bem me apetecia ali ficar  perdido no vasto horizonte que abarcava a osmose perfeita entre o azulado e o lilás que definiam a silhueta das Ilhas Desertas e até do Porto Santo
Ali, onde o homem se sente o vértice da criação, o protótipo real do universo!  Ali, onde os nossos braços se abrem e parecem tocar as duas possantes muralhas do vale, ombro a ombro com os picos altaneiros. Lá ao fundo, o insignificante formigueiro dos telhados, dos carros-caixa de  fósforos e dos anões figurantes num rodopio de peões errantes.
Mas era preciso prosseguir viagem e fui descendo os carreiros ziguezaguantes  do velho “caminho do Rei” que há sessenta e setenta anos trepávamos em fuga  para jogar à bola no “Barreiro da Queimada”,  o local onde mais tarde viria a nascer a grande Complexo Turístico da Matur  Grão-Pará.  Para descer,  levei o triplo do tempo que nós, miúdos da escola, levávamos a subir, nessa época.
Mas  era  outro o olhar. Em cada passo, em cada curva , a ordem era “parar” e ver   que as coisas-perto, afinal,  tornavam-se longe e as coisas-longe faziam-se  perto. Após meia dúzia de voltinhas, estaquei e vi que os altos montes já não os abraçava, como no varandim do miradouro, e o breu da via-rápida , lá em baixo, era mais que um risco a tinta-da-china, Vi que o mar já não era distante, tinha subido de nível e o ar já prenunciava o afago da maresia do “calhau”.  Aí entrou em mim o espírito sadino de Sebastião da Gama quando escreveu: “O poeta em tudo se demora”.
Chegado ao sopé do promontório da Queimada, dei a última passada no “caminho do Rei” e já estava eu possuído pelo vaivém das viaturas rolantes, cuidado com as passadeiras alvi-negras, as  casas franqueavam largamente  as portas aos residentes, as saudações dos transeuntes tomavam conta das emoções, os restaurantes semi-iluminados traziam o tilintar da hora de jantar. E, no meio desta mini-arena do comum quotidiano, como lembrar-me  das montanhas?  Onde  estava o sortilégio da paisagem?  Para onde fugira a ampla e reconfortante respiração de quem “em tudo se demora”?... Afinal, a vida era esta, não a outra. Afinal, toda a poesia  se tinha alterado, senão mesmo desmoronado.
Tanto tempo, página e meia, para chegar à mais conclusiva evidência: o mundo, a vida, aquilo a que chamamos realidade, depende tudo do local onde nos posicionamos para podermos observá-lo. Consoante o chão onde colocamos o tripé da nossa objectiva, daí surge a nossa visão do mundo, das pessoas, dos acontecimentos. Daí se estrutura a nossa filosofia de vida, a visão sociológica captada pelo particularismo da situação que escolhemos ou fomos forçados a ocupar. E daí, também,  as contradições, os interesses conflituantes.
Isto, que não passa de uma verdade à Lapalisse,  bateu-me em cheio quando abri o El Mundo e deparo-me com uma bonita jovem jornalista do mesmo periódico,  cabeça envolta na característica mantilha, logo em 1º página: “Por que razão me questionam por ter abraçado esta fé?  O Islão não é o véu nem o Estado Islâmico nem nenhum terrorismo”. Onde assentou Amanda Figueras a sua objectiva  serena e convictamente contraditar a amostragem que todos dias nos aparece em casa nos écrans tintos de sangue?
Alguém viu, uma noite destas,  o arrepiante documentário sobre a indústria de curtumes no Bangladesh?  O realizador prevenia, lodo à entrada: “É para nós, europeus, vermos quanto sofrem os nativos para termos mais barato o calçado, as malas, os casacos”!  Rios contaminados, homens, mulheres e crianças enfiando pelos nossos olhos dentro o raquitismo e a imundície de vidas tão efémeras. Gente como nós.   De um lado, o preço barato, o lucro do empresário.  Do outro, a degradação humana. Onde colocaremos  as pupilas do nosso olhar?
Entremos num  arsenal de  armamento de guerra. De um lado, a produção de “riqueza”, milhares de postos de trabalho,  técnicos, criativos. Do outro, a destruição, o genocídio. Quem decide?  Em que ponto enviesado da encosta  estará o nosso observatório?
Aquela casa, comprimida num apartamento da cidade ou perdida na aldeia velha, alberga um casal, recebido segundo  o sagrado rito da Santa Madre Igreja, ajuramentado com o signo da fidelidade e da unidade  “até que a   morte os separe”.. Mas naquelas quatro paredes é a violência que impera e destrói mulher, marido, filhos, móveis, etc.. Que fazer? Que aconselhar? Onde colocar o microscópio? Na fidelidade mutuamente bombardeada, na unidade arrasada ou nos filhos, vítimas inocentes, afim de possibilitar a  separação entre os cônjuges?  O Papa Francisco pronunciou-se, há bem pouco tempo, pela segunda alternativa.
Seria um nunca mais acabar. O grande J:Cristo, que não sendo sociólogo “nem tinha biblioteca”, como nos informa o “Cântico Negro” de José Régio, prenunciou aos seus futuros mártires: “Há-de chegar um dia em que aqueles que vos matarem julgarão estar prestando um serviço a Deus”.
Com ou sem respostas às perguntas formuladas, é ponto assente que a sabedoria do julgador, como do eminente Salomão, consistirá em investigar qual o posto de observação garantidor da melhor equidade do juízo em causa. Peço aos pacientes topógrafos do nosso território  ensinem onde colocar o teodolito do meu olhar interior  para alcançar a tal visão holística do mundo, o mesmo que dizer da marcação menos incerta dos vários caminhos a percorrer nas encostas da vida.
Em que dão as voltinhas em ziguezague do velho “caminho do Rei” do “Barreiro da Queimada”

25.Jun.2015

Martins Júnior

terça-feira, 23 de junho de 2015

46 ANOS – O PROCESSO INACABADO II PARTE


Antes de completar  a razão de ter escolhido ontem a capicua “22”  para  meu  “Dia Ímpar”, devo confessar que não esperava tamanha receptividade àquela mensagem por parte de amigos e amigas  de dentro e de fora, inclusive do estrangeiro. É esse o objectivo nobre das redes comunicacionais: compartilharmos com os outros e, em troca, que os outros compartilhem connosco. E mesmo quanto às saudações endereçadas para mim, quero definir, sem sombra de modéstia, que elas só fazem sentido enquanto me assumo como sócio de uma colectividade, designadamente a Ribeira Seca.
Mas, precisamente neste particular, falta um esclarecimento essencial: “Porquê 46 anos? No mesmo lugar? E tanto tempo? Que interesses estarás tu a defender? Dinheiro? Poder? Palco? Orgulho? --- terão todo o direito a indagar, sejam os de fora, os de dentro, os estranhos, sejam os cépticos, os críticos.
Sei da veleidade e do ridículo que significa a quem quer que seja falar de si mesmo. Mas hoje impõe-se. Até para desvanecer dúvidas ou aleives de quem, ingenuamente ou malevolamente, pretenda equiparar o caso em apreço à sepulta longevidade de certos políticos fora-de-prazo.
Sintetizo este dever cívico em três item’s:
1º -  Porque sempre me repugnou a tremenda ambição de clérigos que, após a ordenação, renegaram a classe de onde vieram, passando de filhos de proletários a “príncipes da Igreja” e candidatos à passadeira vermelha dos que exploraram os seus próprios pais e avós.  Sempre  pertenci aos que habitaram os subterrâneos da opressão e da repressão e, como tal, achei indigno, em nome de uma vocação crística, ascender ao fastígio mundano dos hodiernos comparsas do assassinato do J:Cristo. Foi uma opção de vida. E mesmo quando me foi proposta a tribuna parlamentar, aceitei-a para puxar para cima os incontáveis “mineiros anónimos”, sofridos e amordaçados, com cujo estatuto   quero identificar-me até à morte. Dou graças por me terem enviado para o mesmo sub-mundo, onde a dureza dos trabalhadores do campo se cruza com a rudeza dos  trabalhadores do mar.

2º - E como toda a lógica tem seu rumo marcado, a militância também tem a sua inesgotável consequência. Era preciso escutar o bater da alma dos que, dobrados sobre a terra, eram os “sem-terra” e tendo ganas na garganta, eram os sem-voz no céu da boca. Pregava-se do alto dos púlpitos  o lucro no além-túmulo com a paciência e a resignação neste mundo. Mas --- sentindo subir dentro do peito a chama de Vinícius de Morais “Um dia, o operário disse: Não!” ---  também aqui o “NÂO” foi estremecedor. Ao ponto de se virarem contra a Ribeira Seca as cegas baionetas do Funchal e os torturantes chicotes do templo episcopal.  Alguns episódios breves dessa guerrilha institucional já ficaram na I PARTE editada ontem. Aprendemos então que a fraqueza dos pequenos é a força dos grandes. E quando os pequenos formam maioria invertem-se os factores. À ofensiva sem tréguas dos poderes inimigos (são mesmo inimigos da condição humana!) é preciso responder com a firmeza sem tréguas dos humilhados e ofendidos. Até que saiam derrotados e avisados a não repetir os mesmos ataques. Foi esta a história da Ribeira Seca! Aqui, a ditadura política e a inquisição eclesiástica fugiram, cobertas de vergonha sem retorno. Valeu a pena resistir. Como é possível permitir que a Verdade seja sempre esmagada pela mentira?... Por que razão só há mártires (vítimas) entre os que procuram a luz e não os há nos semeadores das trevas? Basta de vitórias “morais”, porque fictícias. Tem de haver vitórias efectivas da Verdade e do Bem! Regozijo-me de ter sido um soldado básico nesta luta. O Povo é que esteve na vanguarda. Sempre!

3º - Há mais de quarenta anos, prisioneiro (voluntário!) da periferia canónica, aguardo pacientemente aquilo que tantas vezes, por escrito e por palavra, formulei aos bispos madeirenses do pós-25 de Abril, com redobrada insistência ao actual titular da diocese: Que abra o processo de julgamento da minha suspensão “a divinis!!!” Não querem fazê-lo. Preferiram em surdina pedir ao governo regional para processar-me em tribunal, mas perderam, já em 2008. Tenho dito e redito: A Justiça de Deus (dando de barato que seja a justiça da Igreja) não pode ser menos perfeita que a justiça dos homens, isto é, respeitando o direito ao contraditório. Nunca fui ouvido nem achado em processo do foro eclesiástico. Abram o processo: se ganhar, ganhei; se perder, perdi. Tenho muito que contar… Se possível, antes de partir definitivamente para o Além. Santo Agostinho definia a Igreja-Instituição como casta meretrix”, prostituta casta, prostituta fina. É um Santo, Bispo e Doutor da Igreja, quem o disse, no século V. Que diria ele hoje desta Igreja-Instituição madeirense, contra-testemunho da liberdade e da transparência evangélicas?
Imagino que ressalta da mente de muita gente de boa-fé a matéria de acusação: “É porque foste político, deputado, presidente de Câmara”. Dêem-me licença que explique, primeiro, com um argumento ex absurdo: O Vigário Geral da Dioceses, meu professor no Seminário, Padre Dr. Agostinho Gonçalves Gomes, foi deputado à Assembleia Nacional pelo partido de Salazar, juntamente com o Dr. Agostinho Cardoso, presidente-delegado da União Nacional na Madeira. E não foi suspenso “a divinis”. E agora pergunto, como lho perguntei face a face: “Por que é o senhor padre pôde ser deputado pelo fascismo e eu não poderei sê-lo pela Democracia?”
         Segundo esclarecimento: eu só optei pelo serviço público na Assembleia Regional da Madeira, sempre como independente, depois que o bispo F. Santana me suspendeu, sem processo formado, repito. Mas, ainda que fosse esse o entendimento do julgador, já estou fora de toda a actividade política há oito anos, desde 2007. Quid juris ?...Agora questiono eu os doutores em cânones, os juristas.
Mas que overdose (desculpem o estrangeirismo) ofereci hoje a quem me endereçou parabéns! É verdade, mas 21-22-23 de junho perfazem para mim a tríade perfeita do meu “Dia Ímpar”. E posso garantir-vos que isto é apenas a ponta do véu que nunca me deixariam abrir na Madeira se não fosse a portentosa invenção das redes sociais. Fá-lo-ei um dia em formato mais alargado.
Para fechar, a minha incomensurável gratidão ao Povo da Ribeira Seca. Foi ele o obreiro destes 46 anos continuados. E, para mim, felicíssimos. Lembro-me de tantos colegas, eruditos e exemplares sacerdotes, perseguidos pela Igreja diocesana e, daí, malsinados pelo governo, que não aguentaram a tormenta. Vi-os partir e desistir, com grande mágoa minha. Não tiveram o Povo que eu tive.
Agradeço a todos os ilustres sacerdotes madeirenses que tiveram a nobilíssima ousadia de vir oficiar e falar à comunidade da Ribeira Seca. Entre outros: O saudoso humanista, meu professor de literatura, Pe. Alfredo Vieira de Freitas, o cientista botânico Pe. Manuel de Nóbrega, o poliglota Pe. Rafael Andrade e, mais perto de nós, os monumentais arautos do Evangelho,  Pe. Mário Tavares e José Luís Rodrigues. De Portugal Continental, o abraço desta comunidade para os teólogos Frei Bento Domingues e Pe. Prof.  Anselmo Borges, o presidente de Rede Europeia contra a Pobreza, Pe. Jardim Moreira, o missionário redentorista Pe. Henri Leboursicaud, o pregador Pe. Manuel Couto e o Prof. Pe. Armando Marques, estes dois últimos colegas de curso do actual bispo do Funchal.  Chamei de “nobilíssima” a sua ousadia, porque a Diocese ameaçava suspender “a divinis” todo e qualquer sacerdote que fosse à igreja da Ribeira Seca.
Para atenuar o cansaço dos que tiveram a paciência de acompanhar-me até ao fim desta II PARTE, reproduzo aquela primorosa saudação de um dos últimos sacerdotes, que acabei de citar, ao seu colega Carrilho: “António, vim à Madeira e não te pedi licença para falar ao Povo de Deus da igreja da Ribeira Seca”. E, apontando para o brasão episcopal desenhado em azulejo na parede exterior do Paço, rematou: “Vim aqui cumprir o que tens ali escrito: Caritas Christi urget nos. “A amor de  Cristo chama-nos, com urgência” (S. Paulo).
Reiterando o meu pedido de desculpa, cito a perífrase daquele amigo que escreveu ao outro uma longa, longa, longa carta: “Desculpa, porque não tive tempo de fazê-la mais curta”.
E garanto nunca mais voltar ao assunto neste “blog”, por muitos que venham a ser os “46 anos” do Ímpar Dia 22 de Junho.

23.Jun.2015

Martins Júnior