quarta-feira, 4 de novembro de 2015

NO CORAÇÃO DE LUATY BEIRÃO BATE O NOSSO CORAÇÃO!


         Irresistível e necessário revisitar Pessoa, a síntese de todas as fulgurações que emanam da infinita galáxia da história dos homens e das coisas:

                            Aqui ao leme sou mais do que eu
                            Sou um Povo que quer o mar que é teu

         De Ulisses ao Gama, de Moisés ao Cristo, de Joana d’Arc  a  Gandhi e Luther King. E de todos a Luaty Beirão! A causa de um só homem  torna-se o íman de todo um Povo. A sua luta atravessa  todas as latitudes da história humana e faz do planeta um inteiro e único campo de batalha. Em Luaty Beirão mora uma legião, cujo clamor --- ora clandestino e abafado, ora ostensivamente manifesto --- faz aproximar o tsunami perante o qual as ditaduras terão de vergar-se, a curto ou a longo prazo. Tal como a fatídica noite do fascismo em Portugal amordaçou, deportou e esquartejou centenas, milhares de resistentes anónimos, assim também todos os que têm pago (e muitos são, exemplar o do jornalista Rafael Marques) com  a prisão e a própria vida o posicionamento corajoso contra um neo-colonialismo, mudado de cor, politicamente identificado com a violência doméstica entre irmãos da mesma etnia, todos eles “fortalecem mais a independência de Angola do que o regime de José Eduardo dos Santos em 36 anos de regime”, escreve Alexandra Lucas Coelho. E acrescenta: “O que Luaty moveu em muitos milhares de pessoas é irreversível”. A greve de fome de Luaty, em 36 dias,  ultrapassou até os sucessivos jejuns de Gandhi, entre 1914 e 1948, sendo de 21 dias o mais prolongado, em protesto contra o colonialismo britânico e a supremacia dos brâmanes. Mas deixou raízes que se abriram em flores e frutos historicamente pujantes.
         Não vou reimprimir aqui a eloquente soma de apoios que, em África e em Portugal, têm surgido em prol da causa heroicamente propugnada por Liaty Beirão e seus companheiros. Não resisto, porém, a traçar em breve síntese o cenário sóciopolítico de uma África, onde são frequentes e sangrentas as investidas do poder contra quem se lhe opõe, as quais transformam  os imensos territórios desse continente em sudários de sangue .e horror, entre abusos inomináveis e guerras civis, mais devastadoras que as guerras coloniais. Será talvez o inevitável percurso de séculos da escravatura em direcção à conquista da autodeterminação e da independência. Mas eu que, mesmo metido forçadamente na guerrilha entre portugueses europeus e portugueses africanos, sempre aspirei no mais íntimo de mim mesmo e em atitudes concretas ao respeito e à independência desses povos, sou obrigado a reconhecer, com mágoa e revolta, que os africanos, uma vez no poder, herdaram do branco o pior que o branco tinha: a prepotência,  a ganância do dinheiro, a desumanidade  do “dente por dente, olho por olho”, enfim, o regresso às lutas tribais de outrora. Correndo o risco de desagradar aos poderes instituídos, manda-me a consciência atestar o que, de forma directa, observei no pós-independência. Temo que se esteja perante um estranho fenómeno de auto-racismo.
         Falei na luta entre tribos. Porque as vi com os meus próprios olhos.  E aí esteja talvez a explicação de determinados abusos do poder. É que muitos anos, muitas décadas faltarão ainda para que as diversas etnias africanas interiorizem o sentido de nacionalidade, naquele conceito de unidade de um povo sob a mesma idiossincrasia e a mesma bandeira. É este o parecer unânime dos sociólogos e antropólogos que se debruçam sobre a realidade africana, como refere o excelente trabalho de investigação de Joana Gorjão Henriques. Cito, por todos, Elias Isaac, nascido no Lobito e director  da ONG “Open Society Iniciative of Southern África, situada em Luanda: “Houve independência, mas não descolonização das mentes”.  Paulo Faria, cientista político, autor de uma notável análise sobre o mesmo tema, completa assim o pensamento: “Angola é um mosaico de vários grupos étnicos e matrizes linguísticas. Cada grupo tem a sua língua e estes grupos vão construir a sua identidade etnopolítica”. E continua: “A Angola pós-1975 vai ser o produto disso e uma das grandes bandeiras foi vender a ideia de “um só povo, uma só nação”, fazendo um corte com uma Angola que tem este mosaico multiétnico e racial”.
         Sobre estas milenares placas tectónicas, tentaram construir uma  generalizada independência  dos vários países africanos. Puro engano. As movimentações, de dentro e de fora, emergem de tal forma que o poder concentracionário tem de defender-se e arregimentar-se até ao último cartuxo,  afogando de imediato e por todos os meios ao seu alcance quaisquer tentativas de desestabilização do “império deles”. Em cada esquina, em cada livro vêem um conspirador. E assim se formam as ditaduras, abertas ou disfarçadas. Nós, madeirenses, temos no minúsculo território civilizado da ilha uma amostragem desses comportamentos autocráticos, quando, a pretexto de autonomia, mantivemos no poder um homem que, orgulhosamente só, se ufanava de estar no poder mais tempo que Salazar e, pelos vistos, mais que os 36 anos do presidente angolano…
         Mil vezes dobrada luta a de Luaty Beirão e seus companheiros de cela! Estamos com eles. E saudamos o fim da greve de fome. É imperioso que ele se reerga e avance decidido como bandeirante de uma causa que nos toca a todos. As ditaduras islâmicas e o dramático cortejo de refugiados que chegam à Europa aí estão para demonstrar que é a montante que se ganha a batalha pela liberdade. e pela universalidade dos direitos humanos neste globo que é cada vez mais aldeia.  Sublime, porém, é a carta que Nuno Álvaro Dala, um dos 15 prisioneiros escreveu em nome de todos e que a citada jornalista trouxe a público: “Não odiamos o Presidente da República nem aqueles que executaram a trama urdida contra nós. O perdão é o melhor caminho… Pedimos a todos os angolanos de bem que perdoem a essa gente”!
         Em homenagem aos resistentes aponho idêntica mensagem dessoutro prisioneiro lutador pela liberdade, o nosso, muito nosso poeta de Machico, Francisco Álvares de Nóbrega,  num dos seus sonetos:
                  
                            “Das almas grandes a nobreza é esta”.
          
         É na grandeza de alma de Luaty Beirão e de todos os “Luaty’s” do mundo inteiro que cada um de nós,  à semelhança do “homem do leme” de Fernando Pessoa, deveria bradar energicamente no rosto de todos os ditadores: “Aqui na cadeia ou no exílio, aqui na ilha ou mais além, sou mais do que eu. Sou um Povo que quer o reino que dizes ser teu, mas que  é  nosso e será sempre nosso”!

3.Nov.15
Martins Júnior

domingo, 1 de novembro de 2015

DIAS GÉMEOS DE OUTONO NA PONTE ROLANTE DO COSMOS



Três dias inseparáveis que reúnem a síntese ímpar da vida: 31 de Outubro - 1 de Novembro - 2 de Novembro. Neles se condensa a viagem do ser humano neste planeta: palmas de vitória e noites de amargura, gestos heróicos e atrocidades sem nome, génios e medíocres, são todos companheiros de jornada até ao “campo santo”, o cais da saudade




Não sei para onde vai a ria
Se para a foz se para a fonte
Só sei que hoje é a travessia
Daquela  ponte
Onde me perco e me encontro
E onde se parte e abraça
O círculo-mistério que traça
E comprime
O que não tem começo nem termo

Vem a terra toda comigo
O canto da cotovia
E o agoiro antigo
Das bruxas nocturnas soturnas
Ventres de ouriços abrindo em  castanhas e nozes
Do pão-por-deus das crianças em festa
E vêm génios farrapos de vozes
Coladas ao vento que as leva
Sem ter ninguém que as guarde

Nos degraus da roda dentada
Há uma tábua que arde
E outra gelada
Estalam foguetes à gargalhada
E gemem os gonzos nos ossos doridos
Nos dedos partidos

É o mundo todo que roda
Na cósmica ponte
Nova barca de Caronte
Rumando ao cais
De onde ninguém volta mais.
Ali entrega viajante e bagagem
Trocam lenços brancos 
Adeus adeus  boa viagem
Torno já  à outra margem
………………………………………………………

Mas um rio
Silencioso corre
Sob o chão frio
Onde se chega e se morre

É o pranto
desta e de outra idade
Que estende o térreo manto
Onde a mão da humanidade
Deixa viver a saudade

31Out.1-2.Nov.15
Martins Júnior


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

SÍNODO DOS BISPOS: PROCURA-SE, VIVO OU MORTO!


Não sei por onde escolha --- é o que me diz a mão com que escrevo. De entre as rajadas de vento que passam vou ficar com aquela que, ao menos pelo visual majestoso, marcou o início da semana: o Sínodo da Família em Roma. Muitos abanões espadanaram por esse mundo fora. Para uns, foi a ameaça de um “cisma prático”.  Para outros foi a derrota do Papa Francisco.  Bento Domingos interrogava-se, por duas vezes consecutivas no  jornal Público; “Sínodo  das Famílias ou Sínodo dos Bispos”?  E para o grande auditório do mundo global, imagino eu, aquilo foi mais  uma não notícia e, se o foi, não passou de um episódio das clássicas novelas romanas.
Mas o caso foi muito sério. Não pelos cenários, mas pelos bastidores. Não pelo guarda-fato dos figurantes, mas pelo dentro da peça representada. Não pelo que se disse e aprovou, mas pelo que se não disse e obliterou. Concretamente: é verdade que os debates incidiram sobre questões fracturantes, endurecidas e fossilizadas de séculos --- a família, o casamento e seus derivados --- e por isso nunca daí poderiam esperar-se consensos. Para dourar a pílula, os 270 bispos e cardeais convidaram  18 casais e algumas mulheres. Esperava-se que estes últimos, considerados legítimos representantes dos verdadeiros destinatários do Sínodo, (as famílias) fossem ponderadamente ouvidos nas assembleias e dali saíssem conclusões mais amplas para o mundo exterior, abrindo  mentes e corações sensíveis aos problemas actuais, realidades novas onde está mergulhada a instituição familiar, fruto do inevitável processo histórico.
Mas não. Prevaleceram os fósseis, as teses dogmáticas, o imobilismo ou, mais precisamente, as almofadas bolorentas  em que dormitaram os velhos cardeais, solteirões oficiais à força, que durante as reuniões só acordavam sobressaltados quando alguém desafinava do coro dos anciãos, como nas tragédias gregas. “Uma Igreja moribunda, ligada  às máquinas”, escreveu no seu blog o meu amigo Padre José Luis Rodrigues. Na mesma linha contestatária, conta a historiadora Lucetta Scaraffia, 67 anos, convidada a participar no Sínodo, ela mesma responsável do suplemento feminino do jornal vaticano L’Osservatore Romano: “Quantas vezes tive que reprimir a  impaciência rebelde que me assaltava, ao longo dessas três semanas…Mas o que mais me chocou foi ver a ignorância total dos cardeais quanto à condição feminina, a sua forma de tratar as  mulheres como sendo inferiores, da mesma forma como tratavam  as freiras que, quase sempre, lhes servem de criadas domésticas”. (Le Monde, edição de hoje).
Para quem segue com alguma atenção esta metamorfose que se opera no Vaticano, seja-me permitido transmitir a leitura holística que faço  do Sínodo. Ele inscreve-se naquela dinâmica que o Papa Francisco pretende instaurar, ou seja,  não uma  Igreja impositiva, mas uma Igreja propositiva e participativa.  São os cristãos que devem construir a sua Igreja, como Povo de um Cristo permanentemente actualizado e aberto. Poderíamos dizer, se não fora a corruptela do termo, uma Igreja Democrática. Era assim nos primórdios fundacionistas  do cristianismo, até na indicação dos   seus próprios bispos. Depois, tudo se foi degradando, passou o povo cristão à condição de servo, humilde, obediente, proibido de pensar e  até de ler a Bíblia, enfim, uma ditadura sacralizada de liturgias e sanções canónicas, banais caprichos de classe que  os homens da religião transformavam em mandamentos divinos.
E agora estamos nisto. O Papa Francisco --- dificilmente teremos outro igual --- bem se esforça para que sejam as bases, os cristãos a pronunciarem-se sobre aquilo que à sua Igreja diz respeito, mas em vão. Já aqui transcrevi o pensamento de um reconhecido teólogo: “Enquanto  os cristãos   continuarem  à espera  de um   exclusivo líder carismático, a Igreja perderá  a sua vitalidade, a sua  identidade essencial”. Deve ser o maior desgosto deste  Grande Reformador:  pensar que, depois da sua morte,  tudo fique  na mesma inércia e volte a Igreja ao armário dos esqueletos, manipulada e contorcida por gente vestida de vermelho e enegrecida de ideia ou, como dizia, o Mestre:  “sepulcros caiados de branco por fora, mas cheios de ossadas por dentro”.
É este um assunto inesgotável, pleno de esperança para quem sonha, mas causa perdida à nascença para a maior parte dos cristãos. Porque se demitem do seu mandato, porque lhes é mais cómodo rezar que pensar. Batemo-nos pelas nossas capelas futebolísticas e partidárias e damos de barato o templo da nossa crença. Ninguém espere  que a seiva criadora venha de cima, dos paços episcopais, das mitras-altos capuzes de carnaval ou das colunatas do Vaticano. É do chão, das raízes que emana a produção renovadora. Para debelar o fascismo dos anos trinta foram precisas décadas de luta. A este propósito, ocorre-me  aquela resposta que um simpático clérigo portuense, então secretário do, agora,  bispo do Funchal, me deu sobre a inércia diocesana em resolver o caso Ribeira Seca: “Sabe, amigo, a Igreja é uma instituição que já tem  dois mil anos”. Percebi-lhe a ironia, em jeito de crítica ao que por aqui acontece.
A solução é o que se vê, a “debandada”, como dizia o Papa Francisco aos bispos portugueses na recente visita a Roma. Tenho para mim que a Igreja institucional não passa de mais um adereço da etiqueta social. Quanto mais opulenta e magnificente  mais servirá  para igualizar-se aos “príncipes deste mundo” e defendê-los nas suas refregas (como fez ontem o cardeal Patriarca de Lisboa, a propósito de Cavaco Silva) e, em ricochete, para menorizar os crédulos dos seus rituais, melhor ainda, citando Lucetta Sacaraffia, trata-los com tratam as freiras, criadas domésticas.
Se não houver cristãos esclarecidos e actuantes, o Papa Francisco perderá sempre, por mais sínodos e conclaves que houver. Ele precisa de nós.
Também aqui, a Hora é Nossa!

29.Out.15

Martins Júnior  

terça-feira, 27 de outubro de 2015

AS DORES DO PARTO DESTE PAÍS…

       

                                                                                                                                                                                                                                                                  Está chegando a hora da graça de 2015, em cujo seio Portugal dará à luz     o  ocupante de um novo trono. O parteiro, pelo que se tem visto, é o velho ocupante de     Belém, pois que só será “rei” quem ele quiser. Ainda que seja um nado-morto, tal como já o provaram as mais recentes ecografias políticas, será esse, o nado-morto, que Cavaco Silva pretende entronizar em São Bento. Dispenso-me de repetir as, de todos os quadrantes,  ásperas censuras ao seu discurso para o qual, ao que parece, o senhor terá tomado um reforçado estimulante gutural afim de  disfarçar o falsete mal digerido, carregado de ameaças sepulcrais.
         O que, porém, mais nos emociona e enternece é a romagem de afectos ao santuário do Rato, os pedidos de conversão, as promessas de assentos na bancada governamental, logo de entrada a armadilhada  cadeira do “Irrevogável”, enfim, uma algaraviada colorida, desde o afã do “pater-famílias” de Boliqueime até à sedução feminina das Teresas, a cristianíssima Caeiro e a democratíssima Leal Coelho. São tais as juras desta gente que até me cheiram a assédio, senão mesmo a suborno e, no limite, a esturro. “É a política, estúpido”, dir-me-ão os sabidos comentadores.  Eu sei, mas não havia necessidade de se exporem tanto nas rotundas  da cidade comunicacional.
         Não me preocupam estas negaças minadas, porque os deputados são um povo adulto que representa outro Povo Maior. Não se compram nem se vendem nem querem  provar sequer o “queijo limiano” lá das bandas da coligação. O que seriamente ainda me estremece é o eventual excesso de zelo dos  três partidos portadores da expectativa nacional.
Seria útil proceder à anatomia política de cada partido para fundamentar a minha preocupação. Muito rapidamente, em duas vertentes. A primeira tem a ver com o ADN (os angariadores coligados chamam “idiossincrasia”)  das formações partidárias. Cada partido tem a sua árvore genealógica, as suas raízes históricas, ideo-programáticas, que fornecem a seiva ao tronco, aos ramos, aos frutos, o que só por isso merecem o maior respeito e consideração. O pior é quando a árvore original, a pretexto de consolidar-se, se padroniza, se petrifica até transformar-se em monumento de bronze maciço, puro e duro, ídolo de culto cego, mas sem alma lá dentro. É aí que a forma absorve o fundo, o império rigorista faz do militante um vassalo submisso ao suserano. E é aí também que a inflexível pureza ideológica cai no labirinto do obscurantismo seguidista. Quando assim acontece, tais partidos não evoluem, antes pelo contrário, cristalizam e tornam-se em meros partidos de manutenção, até nas votações obtidas. A um amigo meu, militante activo, dizia eu, um dia destes: ”Parece-me que a vossa organização se assemelha à velha cúria vaticana, com os mesmos cardeais inflexíveis e puritanos, lançando anátemas sobre os clérigos desalinhados do dogmatismo romano”. Ele até achou graça e, com um sorriso, sublinhou tacitamente os meus dizeres. Não queria prolongar este exercício de anatomia partidária, justamente porque estamos em hora de unir e não de perorar.
A segunda vertente consiste na estruturação orgânica da empresa, chamada partido. Não se pense que a organização partidária é só ideia, pesquisa de propostas parlamentares, luta social. É também empresa, com hierarquias, administração, funcionalismo e demais encargos ou até merecidas benesses  colaterais. Eu só queria saber,  nessas arruadas gigantes da coligação,  quantos braços erguidos têm a outra mão na mesa do orçamento estatal! Sempre foi assim. Impressionou-me vivamente a citação de um texto escrito em 1915 pela pintora modernista  Sónia Delaunay, refugiada das guerras europeias, em Vila do Conde:  “Os políticos não estão a actuar, olham apenas para os seus próprios interesses. Os esfomeados, um dia, também se revoltam”.  Há 100 anos!!!  Ela referia-se aos regimes totalitários de onde fugira. Mas, mutatis mutandis, os partidos democraticamente estatuídos,  se lhes faltar  permanente vigilância, não estão imunes a tais tentações.
Feita esta incursão breve ao interior dos partidos e perante a gestação de uma outra  alvorada em Portugal, o meu maior desejo era fazer chegar aos partidos da esquerda portuguesa o clamor de quem espera ver nascer uma Nova Ordem Europeia, a começar por este país do extremo sul do Velho Continente:
Esta é a hora! A Nossa! A hora de provar que governar Portugal não é monopólio da Direita nem das suas sofisticadas coligações. É chegado um Tempo Novo em que a Esquerda Unida toma as rédeas do poder em prol de um Povo que avidamente suspira por Ela. Soa aos nossos ouvidos na amplidão atlântica, continente e ilhas,  o clarim  vibrante de ganhar esta  guerra. Não estamos condenados sempre  às derrotas, por divisões internas, como também não queremos vitórias morais, parcelares. Queremos a Vitória inteira. Tal como na guerra não se limpam armas, também nesta aliança “Povo-Forças de Esquerda” esqueçamos interesses e pruridos ideológicos de circunstância para içarmos na torre mais alta de Portugal a bandeira  verde-rubra  empunhada pelos braços daqueles  que sempre deram  corpo e alma por uma verdadeira “Nação Valente e Imortal” ao serviço da grei, ao serviço do Povo que lhes outorgou o poder para derrubar quem defraudou os nossos melhores sonhos de viver condignamente.
Ao menos, por quatro anos, vamos reabrir “as portas que Abril abriu”!

27.Out.15

Martins Júnior 

domingo, 25 de outubro de 2015

ENTRE MADEIRA E SETÚBAL : SAUDAÇÃO E ABRAÇO


Na diversificada oferta dos hipermercados noticiosos deste fim-de-semana, abasteci-me mui particularmente  num cabaz que nos toca a todos, ilhéus, sobretudo porque dentro dele  encontro aquela simbiose tão rara, qual seja a de juntar a insularidade à universalidade. Mais concretamente, tocou-me o acontecimento ocorrido hoje em Setúbal em que um homem da ilha, mantendo-se fiel à ruralidade pura dos nossos campos e das suas gentes, faz esta apelativa declaração de princípios:  “O madeirense não é uma pessoa isolada, a pequenez da Madeira não é limitativa, pelo contrário, abre-se à grandeza do mundo…. Gosto imenso da minha ilha, mas não me fecho ao tempo em que vivo, porque Deus é maior que tudo isso”.
Está dado o mote para a homenagem que a comunidade da Ribeira Seca prestou a um nosso conterrâneo do concelho de Machico, nas três celebrações eucarísticas deste domingo.
Entretanto, não esqueço que esta entrada na diocese de Setúbal coincide com dois outros factos similares: o solene encerramento do Sínodo dos bispos em Roma e, proximamente entre nós,, a  entrada em funções  dos dignitários políticos de Portugal. Aproximei estes dois eventos para dizer que assim como na tomada de posse destes últimos não será curial a Igreja marcar presença canónica, assim também não me seduz, na catedral sadina, a ostensiva presença de mandatários políticos. Que o fizessem a título pessoal, a um nosso compatriota, muito bem. Mas a título oficial,  em nada vem valorizar (bem pelo contrário) uma cerimónia que, pelo seu sentido definidor, quere-se-a marcada por uma expressão de júbilo evangélico, despida portanto das lantejoulas protocolares das ribaltas mundanas.  É uma opinião, tão livre e discutível quanto o seu oposto.
Prefiro, pois, juntar a  investidura episcopal deste domingo à magna reunião de trabalho sobre a Família, mais expressamente, o Sínodo dos 270 bispos em Roma. Esta minha preferência tem a ver com a actual conjuntura dogmático-pastoral que (felizmente, enfim!) a Igreja atravessa, algo de novo nesta sociedade milenária, pois que há debate de ideias, há sensibilidades distintas sobre uma mesma causa, procura-se o humanismo “versus” legalismo, promove-se a pedagogia dos povos em vez do  anquilosado magistério desencarnado da História que nos cabe escrever e construir.    Mais se acentua  esta paridade entre os dois acontecimentos, sendo publicamente conhecidas as duas frentes de luta pela redescoberta da Verdade: de um lado,  bispos e cardeais identificados com a nova mundividência crística de Francisco Papa e, do lado oposto, cardeais e bispos ferreamente opositores. Quanto aos bispos portugueses, são tímidas e escassas as pègadas do Pontífice das periferias e da inclusão. Na Madeira, tivemos, como residentes,  bispos da esperança e do sorriso, mas morrem por aí, nas praias do sorriso e da esperança, quando não da opacidade e das alianças pouco recomendáveis.
A este propósito, cito o jornalista vaticanista André Paul, na edição de Le Monde  deste domingo: “A vontade do Papa de criar as linhas verticais de uma Palavra situada entre o alto magistério e os cristãos de base não faz dele um  progressista, mas sim  um “expert en humanité” (um especialista conhecedor da humanidade),  próximo dos homens e dos seus problemas”.
Onde pretendo chegar com estes considerandos aparentemente desconexos em relação à Saudação ao novo bispo José Ornelas da Carvalho?  Já o digo. É que a sua nomeação para uma cidade problemática como Setúbal, com as condicionantes de outrora (aquando do bispo Manuel Martins, a quem os exploradores do povo chamavam de “bispo vermelho e comunista”) e os problemas de hoje,  pois a escolha de um homem, conhecedor de outras paragens do interior de Angola, fiel à terra, sensível à condição humana, faz-me prever nele um aliado firme do Papa Francisco nesta alvorada de uma genuína evangelização.  E vou prová-lo, transcrevendo  um excerto da sua conferência, do melhor que ouvi no Congresso dos 500 anos da diocese do Funchal, em Setembro de 2014. Chamo a atenção para o facto de, na altura, ainda não estar sequer anunciada  a encíclica Laudato Si que o Papa Francisco iria publicar, sobre a ecologia. É de pôr-nos em sentido … e marchar, marchar!
“Uma ilha é um espaço onde fazem falta a criatividade responsável, a liberdade concertada e a coragem de crer e de sonhar… Uma ilha aberta ao mundo tem necessidade da ecologia evangélica que assomou diversas vezes aos nossos diálogos:
·        Uma ecologia da terra, do apreço pelo dom precioso que nos foi dado para usufruir, mas igualmente para guardar e cuidar;
·        Uma ecologia humana que foge à tentação da monocultura do pensamento único, privilegiando a diversidade de linguagens, de soluções e de culturas;
·        Uma ecologia eclesial que se propõe  sempre como serviço e não dominação, casa aberta ao mundo e à sociedade, expressão do coração misericordioso e universal de Deus. É importante alimentar assim o coração das pessoas, para dar coração ao mundo novo que está nascendo.”
O Papa Francisco não teria dito melhor. 
É esta a melhor Saudação que posso endereçar ao novo bispo da cidade do grande sonetista Manuel Maria Barbosa du Bocage, companheiro de cela do nosso Francisco Álvares de Nóbrega na cadeia do Limoeiro, por defender os ideais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Que a geminação histórico-literária, realizada em 30 de Maio de 2007 entre Machico e Setúbal, nas comemorações do bicentenário dos “gémeos-poetas”  proporcione ao novo líder espiritual de Setúbal mais um suplemento de inspiração para a ingente tarefa que o espera. E que o Atlântico que nos separa faça chegar a esta ilha reflexos cintilantes da sua mensagem renovadora.

      25.Out.15
      Martins Júnior



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

DESCUBRA AS DIFERENÇAS --- Cenas que não gostaria de tornar a ver…


São torrenciais as bombadas  de tinta crítica  e fizeram-se intermitentes os relâmpagos de jornais, folhetos e folhetins televisivos sobre indigitações políticas e tomadas de posse, ainda mais intensos  do que a meteorologia  tem  provocado nestes últimos dias. Pelo que, hoje  vou “arrecolher-me” da chuva  e reservar para outro dia os efeitos que tal barafunda  em mim tem causado.
Nada melhor que a alienação dos estádios de futebol para nos  desviar dos sérios pesos pesados que nos deitam à frente dos olhos. É, outra vez,  do espectáculo rectangular que me vou ocupar, sabendo que não recolherei a simpatia de todos os meus amigos. Serei mais breve que habitualmente porque o trabalho a desenvolver  deixo nas vossas mãos. Quais as diferenças?
Dou já o mote, manifestando abertamente o horror que estes dois cenários me provocam:  primeiro,  o dessa  multidão desesperada e faminta que foge à guerra e procura  um abrigo, seja num campo de refugiados, num armazém, num estádio. O segundo cenário é o da entrada e da saída das claques esfomeadas de cio bélico, antes e depois dos “derbies”. A minha repulsa advém de um pormenor visual que logo os identifica: um pelotão de polícias sofisticadamente apetrechados que se distribuem por todo o perímetro dos caminhantes,  formando na vanguarda um paredão que, à falta de melhor, classifico de muro cinzento da vergonha. Esta é  a semelhança.

E as diferenças?...  São evidentes os contrastes entre os que chegam --- sofridos, cabisbaixos,  carregados de sacos e farrapos, os únicos bens que lhes restam --- e os que avançam para a arena aos gritos, olhos em fúria, munidos, quantas vezes, de “material de guerra” pronto a disparar, como  recentemente aconteceu. Uns  procuram  a paz, outros a guerra. Aqueles só querem uma mão amiga que os sossegue do medo; estes atiçam os braços incendiários para desassossego da multidão. Aqueles abominam as balas assassinas;  estes transformam o esférico de couro em arma de arremesso.
Preferia não  ver o exército armado encabeçando os tristes refugiados., embora se justifique para assegurar  um bem maior, a protecção. Mas, sem dúvida, mais repugnante se me afigura esse paredão fardado à frente de centenas, milhares de jovens, por esses estádios fora, temendo-se o pior de um fenómeno destinado à festa, à alegria competitiva, enfim, ao bem estar cívico e psíquico dos seus espectadores.  E de quanta  lavagem de cérebro e de não menos corrupção são vítimas esses jovens das claques,  puxados  a cordel  por  quem se esconde na sombra de uma secreta  inimputabilidade!
Debrucei-me hoje sobre matéria, para mim, tão rasteira, precisamente porque sigo o pensamento atribuído a Aristóteles: “Nada do que é humano me é estranho”. E por aqui me fico para não incomodar  quem se rege por outros critérios. É nesta alucinação colectiva que somos arrastados pelos noticiários e tempos de antena que massacram até à exaustão em todos os canais e que conduzem a escândalos financeiros e assimetrias sociais inaceitáveis,  como a que hoje trazem os jornais:  “O jogador Xis  ganha 17 milhões/ano”. Assim fizemos o mundo.    
            Domingo próximo, espero não ver cenas destas que aproximam os seus actores às hordas de assaltantes gulosos de guerrilha.
            Ficam para a próxima outros assaltos, as tais investidas políticas que ameaçam perpetuar em arenas os “forum’s” da ciência e da arte da verdadeira cidadania. “Porque nada do que é humano me é estranho”.
                       
23.Out.15

Martins Júnior

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

QUEM TEM MEDO DE UM NOVO PORTUGAL?


Nunca se agitaram tanto as águas neste país à beira-mar plantado. Tenho para mim que nem Vasco da Gama sentiu  ranger tanto o cavername das naus ao passar o Bojador como agora se agoiram comentadores, locutores, políticos havidos e políticos-a-haver nesta canoa a boiar no Atlântico. É a grande incógnita de quem será o timoneiro durante as quatro estações que dura o mandato governativo. Da incógnita  passa-se ao medo e do medo às ameaças sobre um Povo, sobretudo o incauto povo, porque  miúdo e pouco esclarecido.  
Já quase  tudo e de todos os quadrantes  foi dito nesta iminência de um parto antecipado de Belém. Belém dos Jerónimos, entenda-se. Entretanto,  há quem, agarrado ao leme da coragem e do bom senso,  não trema diante do “mostrengo” que nos pintam. Estou nesses.  Bom senso  na interpretação dos dados e coragem perante o arco de uma nova ponte.
Sobre o caso, aqui deixo alguns tópicos, susceptíveis  de  desenvolvimentos maiores, que ficam ao critério dos analistas, afinal, à consideração de cada um de nós.
Começo  pelo insolúvel enigma que resulta da primeira  incógnita:  Como é possível que o partido mais votado não encabece a governação do país?  É possível, desde logo, porque  é constitucional. E porque radica mais fundo, ou seja, no conceito de soberania originária: o sufrágio directo e universal.  Consideremos este conceito como que de geometria simples, linear, aritmética,  Ultrapassado  porém  o sufrágio,  a  soberania transforma-se em poder delegado, soberania delegada nos partidos. Em contraponto, será uma geometria algébrica, poliédrica, se quisermos, dado que se apresenta com tantos  contornos  quantos os partidos. E agora, recomeça a incógnita:  Para que serve este poder, esta soberania delegada, quais os objectivos primários? Em termos singelos, digamos que para o bem-estar dos seus constituintes, o Povo. Como lá chegar? No douto veredicto do actual Presidente da República, condição “sine qua non” é o princípio da “estabilidade governativa”. Passemos adiante e logo descobrimos que no nosso ordenamento jurídico-constitucional,  a estabilidade está pendente, não do voto universal e secreto,  mas única e exclusivamente do mandato dos deputados da Assembleia da República. Assim o prognosticou o Presidente, antes de realizar-se o acto eleitoral. E com toda a lógica, não apenas formal, mas constitucionalmente material. E de tal forma que os deputados, em maioria  e  seja qual o seu partido, podem depor o governo em minoria, mesmo que unilateralmente tenha sido ele  o mais votado. Quem quiser de outro modo, rasgue a Constituição da República Portuguesa , substitua-a por um  outro ordenamento jurídico. Só se espanta  desta evidência quem, como o governo da coligação, fez tábua-rasa do Tribunal Constitucional, à semelhança do Padrinho-Presidente que o considerava uma “força de bloqueio”.
Em conclusão:  Na nossa democracia representativa, o Povo é quem mais ordena, é verdade, mas só até à urna de voto. Daí em diante, é outro o normativo: o Parlamento é quem mais ordena. Da minha parte ( e ainda que nos reste a figura do Referendo) preferia a força imperiosa da democracia participativa. Mas o que está escrito --- está escrito.
Encostados às cordas neste primeiro combate, os vencedores na noite do 4 de Outubro, mas vencidos no dia da verdade parlamentar, avançam com outro “mostrengo”: o risco!  Logo à mão, o risco do desentendimento inter-partidário --- três partidos com programas diferentes! É legítima a dúvida. Mas quem é o vidente moralista que levanta a dúvida? Precisamente aquele ou aqueles que, a meio do percurso,  ameaçaram deitar abaixo a governação com o famoso “irrevogável” . Tão amigos que eles eram…  e se não fora o Padrinho-Presidente,  já o traquina de quota mínima em São Bento teria deitado tudo ao rio!  Com que autoridade moral apontam o dedo aos que querem unir-se pelo superior interesse da Nação?
Outro risco: o do exterior. Dos investidores, dos banqueiros,  dos credores, dos BCE, FMI e afins. É o malfadado capitalismo financeiro, a “economia que mata”.  Mas àqueles, sempre os mesmos, que decretam “não haver outra alternativa “  respondem economistas e abalizados analistas que há outras vias de obviar ao Tratado Orçamental  que não o opressivo  regime austeritário. Em política, como na vida,  nem tudo se reduz ao exclusivo paradigma do preto-e-branco. O mesmo se há-de dizer de outros item’s  programáticos --- NATO, MOEDA ÚNICA, etc.. “Natura non fit saltus”,  sentenciavam os antigos. A História, também, não se faz aos saltos. Na vida dos Povos, há condicionalismos que nos fazem “dar um passo atrás para ganhar dois passos à frente”.
Ademais, não somos só nós que  queremos  quebrar as alcavalas sanguessugas que os agiotas do planeta nos lançam ao pescoço e ao bolso. Há outros vizinhos  nossos, oprimidos,  que esperam a sua hora. Antevejo que a luta do Sirysa não vai ficar pela austeridade nua e crua que lhe impuseram. Em Espanha, o “Podemos” aguarda o derrube da direita serventuária de Bruxelas. E daí por diante.
Não posso deixar de denunciar a mesquinhez de carácter dos amargurados detentores  da maioria-em-minoria quando, esgotado todo o arsenal de guerra, se atiram a António Costa --- “o derrotado”, dizem, “o náufrago quer agarrar-se ao poder”  ---  e logo a seguir lhe oferecem o lugar do anarco-cristão na vice-presidência de São Bento…
Honra e valor aos três líderes de Esquerda, se conseguirem unir a grande maioria do Povo português num único tronco que perdure as quatro estações da legislatura! Será a primeira Vitória contra a presunçosa coligação e contra o inquilino de Belém, cuja estratégia, de velha raposa, consistiu sempre  em “dividir para reinar”.
Não me ocorrem palavras mais generosas e mobilizadoras do que aquelas que ouvi, no Forum-Machico, aos excelentes actores do CONTIGO TEATRO quando encerraram o espectáculo deste sábado, declamando Fernando Pessoa: “Ó POTUGAL, HOJE ÉS NEVOEIRO. LEVANTA-TE. É A HORA”!
21.Out.15
Martins Júnior