segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O SONHO E A REALIDADE - ou – O OPTIMISTA E O REALISTA --- Um Brinde de Natal

       
          Matança do porco, carne de vinha-de-alhos, chocalhos e búzios, licores, broas de mel, canja de galinha e missa do galo… “Espectáculo”, diria o Gordo. É o Natal da barriga folclórica que sai do genuíno aconchego familiar e salta para o adro da igreja e alaga as atlântidas, as ondas hertzianas, os programas “super-educativos” cá da ilha. Não só da ilha, mas de todas as janelas escancaradas dos hipermercados, cada qual com a sua pirueta  consumista. O povo gosta… e  até precisa do estalar de copos e talheres para fazer a Festa. Só faltava esta de vir o parteiro-governo fazer reclame e sermão das “missas do parto”!
         Sei bem que um programa de variedades ou um arraial de pastores não são propriamente uma sala de retiro nem uma cela contemplativa.  Mas, pessoalmente, incomoda-me esta overdose ensurdecedora de massificação colectiva em que se pretende  comprimir o Natal. Pela minha parte, trago um brinde diferente – o único, talvez,  que confere com a história – e peço licença para o colocar no pinheirinho, sempre verde, desta sala comum do “SENSO&CONSENSO”. Será assim:
         Há uma encruzilhada da história humana em que o sonho e a realidade se encontram. E, ao mesmo tempo, se desencontram. É a gruta, o pomar, o deserto, o casebre, chamado Natal. É também o rio que desagua em delta. Ali a ficção de outrora, a ambição superna das gerações de antanho, queda-se perante o acordar numa noite de invernia. Aí cantam (e brigam!) duas figuras de proa da narrativa bíblica: Isaías e João, o Baptista. Isaías é o sonho, tão vívido, frenético, colado ao mundo futuro como se ele fora presente, expresso na ternura da ruralidade mais tocante:” O lobo será bem recebido no currais dos cordeiros … as crias dos animais selvagens e as dos animais domésticos pastarão juntas, lado a lado… a criança poderá meter a mão na toca das serpentes venenosas sem que estas lhe façam mal algum”. Noutra visão apoteótica, Isaías antevê, “com os próprios olhos”, que “nenhuma nação levantar-se-á contra outra e que jamais os povos serão treinados para a guerra”. Acabar-se-iam os exércitos e os soldados “transformariam  as lanças de guerra em foices e relhas do arado”  para arrotear os campos.   Enfim, o sonho azul,  ilimitado. Para quando? No nascimento do Messias, o Natal.
         Mas chega o Natal e o Baptista vê-se cercado pelo logro. Cai na real.  Afinal, fora  enganado pelo Livro, porque os “lobos-homens” devoram os “homens-cordeiros”,  a cobardia farisaica afoga no silêncio a infância pura. Os  profissionais  do Templo e os emissários do Imperador tramam na mesma cama a matança dos inocentes. O Baptista desperta, atira o Livro de Isaías à torrente do rio Jordão e descobre que é preciso agir, lutar, clamar, nem que seja no deserto. E fê-lo tão arreigadamente que lhe cobraram a factura: a cabeça decepada sobre uma salva de prata assassina, por ordem de Herodes.
         E com o tal Messias Prometido  foi aquilo que se viu. Do Taumaturgo das miragens  bíblicas fizeram  um sem-abrigo de nascença e um indefeso Derrotado!
         Mas isso é demais – dirão alguns. E os bolos, os chocalhos, os licores, a matança do porco e a carne de vinha-de-alhos, vamos jogá-los  ao lixo? Afinal, não há Natal?!
         Ao lixo, não. Mas definitivamente deixem de entronizar o acessório em detrimento do essencial. Há sempre um tempo de tréguas. Saudáveis e necessárias, mas nunca a servir de narcóticos, ainda que folclóricos de circunstância. Porque, se as nuvens negras continuam a  pairar sob o azul do firmamento aqui e mais além, então todo o Natal será um postal e um apelo para cumprirmos nós, aqui e agora, o sonho messiânico de Isaías.
         Sem dramatismo forçado mas com renovada coragem, acompanho o grito de Ary dos Santos, no fecho do seu poema “Kyrie”:

         Em nome dos teus filhos que esqueceste
         Filho de Deus, que nunca mais nasceste,
         Volta outra vez ao mundo

      Mas, sei eu, que só voltará pela força da nossa mente e pela energia do nosso braço.
          Natal Sempre!

         05.Dez.16
         Martins Júnior    
  
         

sábado, 3 de dezembro de 2016

EM MACHICO --- FEZ-SE JUSTIÇA!


Não é na barafunda publicitária que navega a Justiça, porque  quando o estouro é grande, a chama é parca e fugaz. Gestos há que, no recôndito do seu “habitat” sentem e fazem sentir ao redor o perfume da Justiça e da Beleza.
Aconteceu em Machico, 30 de Novembro.
Há 243 anos nascia nesta freguesia Francisco André Álvares de Nóbrega. A terra primeira da Descoberta da Ilha trazia no seu seio os genes prematuros que mais tarde produziriam troncos e génios de todos os “Camões”, do maior ao mais pequeno. Porque ser  “Camões”,  mesmo pequeno,  sobrepuja o comum dos mortais. E foi em 30 de Novembro de 2016  que Machico voltou a erguer  nos seus braços esse que, sendo “Pequeno”, foi seu filho maior. Comemorou-se o nascimento do grande vate - não só de Machico, mas da Madeira – com a dignidade e o calor humano que merece. Aliás, há cerca de meio século, conterrâneos seus, abertos à Luz e sensíveis a tão singular Personalidade, têm batido à porta do “sítio dos Moinhos”, onde nasceu, chamam-no à mesa da saudade e aí reaprendem, em verso e canto, os seus sonetos.
Neste ano, Francisco Álvares de Nóbrega desceu à cidade e à sua volta reuniu “amigos” de longa data, cultores seus. Agregou os poderes autárquicos e viu fazer-se-lhe Justiça. Câmara Municipal, Junta de Freguesia e “EFAN-Estudos Nobricenses”  deram-se as mãos e levantaram--lhe um justo  pedestal. Não o do espectáculo gratuito, de encher a vista, mas o do profundo, que penetra e inunda o espírito Refiro-me à homenagem que lhe foi prestada pela edilidade,  com o novo título dado à Biblioteca – “Biblioteca Municipal Francisco Álvares de Nóbrega”. É o seu meio ecológico, a Biblioteca. É aí que jovens, adultos e até anciãos vão beber da água cristalina da Cultura, de cujo manancial se alimentou outrora  o nosso poeta, pensador e tradutor.
A Junta de Freguesia franqueou o Salão de Actividades Culturais para fazer reviver Francisco Álvares de Nóbrega, na recitação de alguns sonetos, em paralelismo com os do seu  companheiro de cela,  Manuel Maria Barbosa du Bocage, cujo 250º aniversário Portugal acaba de comemorar. Ambos foram presos pela Inquisição, nas masmorras do Limoeiro. Registo emotivo para o Grupo Coral de Machico que interpretou, em polifonia a quatro vozes, dois sonetos das “Rimas”,  composição  do maestro Nélio Martins.

Prestimoso brinde de aniversário ganhou a “EFAN-Estudos Nobricenses” com a cedência, pelo Município, de uma sede (sonho antigo), onde ficarão expostas ao público as publicações editadas por esta Associação, fundada em 30 de Novembro de 2005. Fiel ao seu objecto social, o estudo e divulgação da vida e obra de Francisco Álvares de Nóbrega, já deu à estampa as “Actas do Bicentenário” (2006-2007), o “Processo nº 15764” do Tribunal  da Inquisição e a peça de teatro “Camões Pequeno” do escritor e dramaturgo madeirenses João França.
Não podia passar  o 30 de Novembro sem que fosse evocada a memória do presidente da Assembleia Geral da “EFAN” e grande impulsionador desta efeméride,  Manuel Rufino Teixeira, recentemente falecido.
Fez-se Justiça. À “maior alma que Machico deitou ao mundo”, repito, parafraseando Almeida Garrett quando se  referiu  ao nosso épico  Luís Vaz de Camões. Mas a maior prova, a única  que  Francisco Álvares de Nóbrega, o “Nosso Camões”, mais apreciaria, consiste  no conhecimento dos ideais que ele  cultivou e pelos quais  deu a própria vida –  Liberdade,  Igualdade,  Fraternidade!

03.Dez.16
Martins Júnior

            

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

QUANTO CUSTA O 1º DE DEZEMBRO


Fácil é nascer; difícil é o renascer. Saboroso é ter nas mãos o fruto apetecido;  mas doloroso e, por vezes, inalcançável é recuperá-lo, quando perdido. Até na saúde, normal é possuí-la, feito maior é reconquistá-la. Três casos-tipo, os apresentados, para chegar à conclusão de que, em tudo na vida e na história, exige mais esforço e  merece o mais alto louvor a reconquista do tempo e do espaço que antes eram nossos e, por inércia ou traição, deixaram de o ser. É uma evidência.
         Assim foi em 1640, o dia 1 de Dezembro. Assim tinha sido já na crise de 1383-1385. Sempre com a muralha hostil de Castela em frente a Portugal - pequeno no tamanho, mas gigante no ânimo.E assim voltou a acontecer em 1910 e em 25 de Abril de 1974.
Neste ano, as homenagens ao emissário de Castela (leia-se, Espanha) ganharam uma aproximação histórica. Aconteceram, precisamente, antes de Filipe VI deixar o território luso, nas vésperas do 1º de Dezembro. Embora num outro cenário político bem diverso, também há  quatro séculos os Filipes deixaram livre o Portugal então amordaçado por Castela.
         Muito custou a recuperação da Liberdade. Houve quem arriscasse a vida para que, de novo, o Povo Português se revestisse  do brilho de outrora e entrasse na senda do progresso e do crescimento económico e cultural. Por isso, esta data tinha de ser reencontrada, reerguida, alcandorada no trono da história. Apagá-la da nossa memória colectiva foi como que um ignominioso acto de rendição e derrota do nosso prestígio. Uma despersonalização do todo nacional. Assim, a retoma do 1º de Dezembro ganha uma simbologia maior, reacende o nosso brio, levanta, “de novo, o esplendor de Portugal”  e a vontade de erguer a fronte,  à conquista do nosso lugar ao sol. É a reafirmação daquela  independência possível, que outros deixaram cair, esfarrapada, numa governação agradada aos estranhos de fora, mas  opressora aos filhos de dentro. Porque sempre é mais barato vender que comprar.
É este o ímpeto que a proclamação do 1º de Dezembro deve insuflar no subconsciente de cada português, mais que a fortuita benesse do feriado. “Independência ou morte”, clamavam os verdadeiros defensores da pátria.
Tão difícil e necessário quão glorioso é  o troféu da Independência! A todos os níveis: político, económico, social e cultural, Sem respeito pela personalidade endémica de cada nação nunca serão possíveis a unidade e a paz. A submissão compulsiva só produz o silêncio das masmorras e a “paz” dos cemitérios. A Europa terá de sentir no coração e nos centros de decisão a dignidade do Povo Português, em vez de fazer dele um pedinte hereditário, um eterno devedor, sem direito a crescer e a ser livre, autónomo, independente.
O 1º de Dezembro penetra mais fundo no psiquismo individual e na autonomia do pensamento. Incita-nos a rebater o primado do pensamento único,  quer seja no domínio do intelectual, do económico, do filosófico, do religioso, até e sobretudo. Sem liberdade de concepção, o pensamento atrofia-se, a fé mecaniza-se, a história apodrece. O meu voto – o produto desta féria de hoje – define-se assim:  Que o 1º de Dezembro seja todos os dias e todas as horas em que levantes a bandeira da tua personalidade, o cântico da tua independência, respeitando sempre a bandeira de todos quantos têm direito ao mesmo  nobre estatuto.
01.Dez.16

Martins Júnior

terça-feira, 29 de novembro de 2016

QUANDO É O PÚBLICO QUE APRESENTA O LIVRO…

        
     Abrem o olho as “câmeras” televisivas e enchem-se folhas inteiras com minudências de circunstância, a que dão títulos garrafais, como inovação, originalidade, caso único. Mas, quantas vezes, fazem orelhas de mercador a factos que, esses sim, trazem algo de novo, singular, eminentemente criativo e contributivo para a construção do corpus social!
         Vi e senti “ao vivo” no último fim-de-semana um fenómeno único na minha experiência quase octogenária: a apresentação de um livro em que não houve um avental falante e galante a abrir a cena. Nem o próprio Autor se deu ao afã narcísico de ler e interpretar uma só linha do seu texto. Para insólito espanto meu, os protagonistas  foram os participantes no acto, sem atavios nem holofotes nem os oficiais jarrões amovíveis das aberturas e fechaduras das solenes comemorações. Tudo tão simples, tão tangente, tão íntimo, como quem fala ao coração de quem se ama.
         Aconteceu na Câmara Municipal do Funchal, que cedeu o espaço para o lançamento de mais um  livro de António Barroso Cruz, ESTÓRIAS  A NU E CRU, publicado pela “Liberal” Editora. Traumas sociais, fracturas abertas no solo que habitamos, tais como o drama dos refugiados, a violência doméstica, a pedofilia infantil no santuário eclesiástico, são alguns dos capítulos candentes deste livro, escrito em estigmas “nus e crus” e moldados num estilo directo, por vezes corrosivo, queirosiano.
         O Autor dispôs a sala de tal forma que ninguém esteve de costas para ninguém. Olhos nos olhos e ombro a ombro, uma energia palpitante corria por todos e enchia a sala como o ar que se respira. António Cruz, sem qualquer introdução formal, deu a palavra aos presentes. Falaram as vítimas de violência doméstica, desdobrando sem tabus o sofrimento silenciado anos e anos nas “prisões” da agressão sem queixa. Passaram, no depoimento de quem presencialmente acompanhou  e relatou,  os gritos dos foragidos da guerra. Tocou-se sem hipocrisia o escândalo da pedofilia na Igreja, as causas a montante e os crimes a jusante, o sigilo cúmplice da hierarquia e a veemência do Papa Francisco na condenação dos abusadores.
         Mas o Autor das ESTÓRIAS não se limitou a ouvir  a narrativa dramática dos factos. Interpelou, face a face, os presentes, penetrando no íntimo das nossas convicções e da nossa consciência latente, até ao limite de interrogarmo-nos a nós próprios sobre o contributo efectivo que podemos dar na solução das questões em apreço. Observei atentamente e surpreendi-me com a capacidade de liderança do promotor deste encontro na condução dos diálogos, tão delicada e necessariamente respeitadora da liberdade e da privacidade de quem se propôs intervir.
         Devo dizer que nunca em tempo algum – nem mesmo nos retiros  ou em  assembleias colectivas – assisti a uma tão pura elevação espiritual, incisiva e dinâmica, ficando ali envolvido entre a psicanálise, a catarse e a confissão. Deste tríptico interior, voltado para o exterior - a vida e a acção - sobressaiu uma leveza psíquica, uma libertação indizível e reconfortante, sublinhadas no final pela poesia e pela canção, como o fruto mais saboroso daquela estância transparente.
         O sortilégio do momento esteve na verificação deste estranho paradoxo: o livro, afinal, não foi apresentado. Ele próprio se apresentou. Melhor, talvez:  os destinatários daquelas páginas vivas foram os oradores natos de tão impressiva mensagem. Aqui reside a inovação criadora e, com ela, o meu apreço por tão singular iniciativa, que merece  continuidade, para contraponto da vacuidade campanuda  dos tempos que correm.

29.Nov.16

Martins Júnior

domingo, 27 de novembro de 2016

QUE DIREITOS QUERES TU ?...

     
    Quantos quilómetros de rolos e quantas toneladas de tinta terão de fazer gemer as rotativas diárias sobre o corpo gigante de um homem que hoje não é mais que um punhado de cinzas ambulantes!... É impossível ficar abúlico e  inerte perante um fenómeno que, sendo o mais comum e banal entre os mortais, ganha outro tamanho e provoca outro ruído, outra trepidação à sua volta. Porque o que conta não é o objecto físico que somos no espaço, mas a força que transmitimos ao ar que os outros respiram. Por outras palavras, é a obra que avalia o Homem/Mulher que vem a este mundo.
Por isso, eis-me aqui, alinhado na fila dos ditos e escritos sobre a morte de Fidel de Castro. Debruçado à janela de mim mesmo, vejo  “ a banda passar”, os jornais, os tele-noticiários, as opiniões  que vão desde o fundo mais fundo da maledicência voraz até aos píncaros dos montes heróicos.  Deixo para outra altura a apreciação sobre o mar revolto das críticas e dos panegíricos inspirados no “Comandante”. Hoje, descansarei a cabeça em cima da voz que ouvi a um septuagenário cubano, residente em Havana, a respeito dos atentados aos direitos humanos, praticados pelo regime.
Ao jornalista respondia o homem: “É verdade que não tínhamos
 os direitos de protestar, de falar ou escrever contra o governo. Mas há outros direitos humanos mais importantes, como a saúde, o ensino, a segurança, a alimentação. E esses tínhamos mais que os outros países”.
         É neste binómio que se situa o código supremo da condução dos povos. Sem dúvida que o ideal seria ganhar o melhor dos dois mundos: a liberdade de expressão e a satisfação dos direitos inerentes ao crescimento integrado do indivíduo e da sociedade. Chegados, porém, a estra encruzilhada – direito à falar ou direito à auto-realização – por onde iremos?
         Já tivemos conhecimento da cadeia em que viveram os nossos antepassados no regime salazarista. Era o tempo da mordaça e da sentença fatal:  “o trabalhador só precisa de duas camisas -  uma no coiro e outra no lavadoiro”.  Emancipados, porém, dos ferozes sistemas  ditatoriais  para o plano da democracia, justo seria recuperar os dois patamares ou direitos enunciados acima. Entretanto, a transição é sempre uma passagem de nível entre duas margens, entre dois campos opostos, é a  fuga vitoriosa das garras daquele que nos sangrava cruelmente, que nos manietava e matava. Nesta fuga, há que acautelar-se o futuro da população, enfim, livre, nunca esquecendo  que os sequestradores de ontem, os opressores, estão sempre à espreita, para vingar-se da derrota. E quando esse “inimigo” organizado se chama “capitalismo selvagem”, insaciável do sangue dos inocentes, então aí é preciso segurar, organizar a defesa eficaz contra o invasor sem tréguas.
         É nessas circunstâncias que se torna premente escolher. E perguntar: De que serve a liberdade de falar se daí em nada altera o regime: se as populações continuam sem escolas, sem assistência médica e medicamentosa, sem o direito ao pão e à segurança?
         Dei comigo a excogitar sobre a resposta do septuagenário cubano. E, não obstante a lógica do seu pensamento, volto a confrontar-me se a liberdade de expressão não se sobrepõe a todos os outros direitos humanos. Porque há regimes e titulares, os da área capitalista, que compram as pessoas, os jornais, a comunicação social toda, as igrejas, as colectividades para, depois, silenciar e reprimir todo um país ou toda uma região!... Não sei se os madeirenses se revêem neste cenário.
         Ingente tarefa esta para os líderes e para os liderados, qual é a de evitar dois perigosos escolhos: por um lado, a ingenuidade “revolucionária” que abre  portas e postigos  aos invasores e, por outro, o imperativo de devolver a liberdade e o respeito às comunidades libertadas.  
         O menos ou o mais que se pode dizer é que, se em determinados picos da transição são inadiáveis medidas–válvula de segurança e apertada vigilância, a verdade é que  no curso normal da vida não se pode viver em permanente estado de transição.

         27.Nov.16

Martins Júnior

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

UMA PROPOSTA PARA QUEM TEM A CORAGEM DE INTERROGAR-SE

Que semana esta, tão grande e tão rica numa ilha tão pequena!
         A música, a poesia, o teatro, as artes plásticas caíram como chuva miudinha – a única que fica e faz crescer -  fecundaram generosamente o solo madeirense. Foi arte e foi beleza. E onde há beleza e arte aí germina o Espírito, na sua acepção maiúscula, radical e abrangente.
         A coroar este fim-de-mês e ao abrir do pano para a espiral mágica de Dezembro, a Madeira será visitada pelo bater de asas de alguém – não sei se lhe chame  mensageiro, arcanjo da Luz, embaixador da Verdade.  Ele vem trazer-nos o sopro vivificador que paira por sobre toda a actividade humana, o Espírito. Por outras palavras, ele será a cúpula envolvente de todo este esforço construtivo que, dia-a-dia, vão erguendo os ilhéus na sua terra.
         Refiro-me ao Prof. Dr. Pe. ANSELMO BORGES, o docente universitário, o filósofo, o teólogo, o companheiro solidário em toda esta marcha ascensional para o “Espírito feito carne”. Ele vem realizar o conceito, para nós tão caro, da continuidade territorial. O longo curso de viajeiro itinerante que tem feito em terras continentais na proclamação dos valores mais altos, vem estendê-lo a esta ilha, que também é Portugal. O seu novo livro tem suscitado a atenção de professores universitários, intelectuais e artistas, crentes, ateus e agnósticos que o têm apresentado e debatido desde Braga ao Porto, desde Coimbra a Lisboa, sempre com o nobre horizonte da procura do Espírito que ilumine as trevas ou a neblina em que navegamos sem terra à vista. Como bem observou  João Céu e Silva numa recente entrevista a Anselmo Borges para o “Diário de Notícias” de Lisboa, esta obra de corajosa pesquisa da Verdade resume-se, afinal, não a um receituário de respostas, mas um somatório de perguntas, as incógnitas com que se confronta a condição humana: “Quem somos, De onde viemos, Para onde vamos, O que é que nos espera?”. Na mesma direcção aponta Andrès Torres Queiruga, da Universidade de Santiago de Compostela, que define este livro como “uma ocasião propícia para leitores e leitoras se aproximarem de uma visão excepcionalmente lúcida sobre os graves problemas do nosso mundo”.
         Desta vez, o seu “cruzeiro” à Madeira – onde já esteve na mesma tarefa de apresentação de obras suas e de outros autores, entre os quais a de Naomi Wolf, “A Vagina”, uma apresentação altíssima, magistral e nobilitante, no Teatro Municipal “Baltazar Dias” – desta vez, dizia, começa pelo marco primeiro da Descoberta, Machico, no Solar do Ribeirinho, segunda-feira, 28, pelas 17,30 H. No dia seguinte, rumará a Funchal, mais precisamente à Sala do Senado da Universidade da Madeira, às 18 H.
         Mas o nosso Autor não é só o intelectual dos grandes areópagos do pensamento em Portugal e no estrangeiro. É, sobretudo, o Homem - sensível aos outros - é o Pastor humilde da celebração popular das periferias, como foi em Moçambique nos seus verdes anos e como o faz actualmente  numa modesta capela da Foz do Douro. E como sempre o demonstrou quando veio à ilha, fá-lo-á no domingo próximo, pelas 9,30 H, no templo da Ribeira Seca a cuja população chama carinhosamente “a minha comunidade”. É com renovada emoção que vamos recebê-lo e escutá-lo.
         Bem vindo até nós, Prof. Dr .Pe. ANSELMO BORGES, aceite o preito da nossa mais sentida gratidão!


         25.Nov.16
        Martins Júnior

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O ANEDÓTICO E O SÉRIO DA QUESTÃO

Após um início de semana envolvido no universo poético de Herberto Hélder – foi o seu I  Congresso Internacional  no Funchal – desci à rua e meti-me pelos becos e avenidas de um assunto que tem tanto de sério como de anedótico.
Começo pelo anedótico. Lembram-se  (como não lembrar-se?) dos suspiros, que passaram a remoques, da direita portuguesa, desejosa de greves e manif’s, ao ponto de acusarem certos sindicatos, com flecha directa aos professores: que já não faziam nada, nem greves, nem revoluções nas ruas, nem na escadaria da AR. “Estão feitos com o Costa” – era a amarga desilusão acintosamente  repetida . Até que, por fim, lá vieram as almas para a rua, desfraldaram-se os tão almejados lençóis com palavras de ordem, nalguns casos até, com estertores de esganiço febril. E a direita, essa alfim satisfeita, babada e embalada nos protestos, ao ponto de subir a parada mais alta das benesses populares no Orçamento de Estado, já  a partir de Janeiro. O anedótico começa por aqui: os que abominavam as greves e as manf’s e tremiam com os policiais a treparem a escadaria do Parlamento, agora suspiravam por elas, dia e noite!
Mas o cómico continua, à mistura com a cegueira primária. As reivindicações cobradas a este governo têm tudo a ver com o que os anteriores gerentes do reino subtraíram ao povo: era o horário das 35 horas, era o malfadado congelamento de carreiras, eram as carências de recursos humanos, enfermeiros, médicos, funcionários judiciais, enfim os cartazes empunhavam libelos acusatórios contra aqueles que, há um ano transiam e assavam de medo atrás das janelas dos ministérios e agora esvaíam-se em espasmos de júbilo adolescente, sem sumo. É o cúmulo da cegueira!
Passando ao aspecto sério da questão. Não obstante as melhorias verificadas desde há um ano a esta parte, não será nunca despiciendo o contributo directo dos interessados na causa e no processo. Umas vezes por escrito, outras nos gabinetes e ainda outras nas ruas. Tenho para mim que a presença “ao vivo” das populações, de forma correcta e assumida, funciona como um despertador sempre vigilante à mesa de cabeceira dos dirigentes de um concelho, de uma região, de um país e até de um continente, no nosso caso, o europeu, podendo mesmo alcançar as raias do “planeta azul”, no tocante, por ex., ao ambiente e ao aquecimento global. Diante de quem protesta, a atitude imediata  não será a de  accionar o botão e mandar um batalhão para a rua. Pelo contrário, deverá soprar aos ouvidos dos governantes esta pergunta: Em que é que nós erramos? Onde, como e quando devemos emendar a mão?
Não há que ter medo de quem se manifesta com a sua razão. E é bom sinal que, na ponderação e solução dos problemas, siga o povo na vanguarda, manifestando a sua consciência cívica, política e social. Porque por muito que esteja feito, há sempre algo a fazer. As manif’s e greves, quando justas, têm todo o peso institucional de um referendo vivo, personalizado, mais imperativo, portanto.
Sirvam estas palavras  de constatação e de saudação ao primeiro dos quatro degraus do pódio a que o Povo Português convocou os artífices da governação, aquela que tão malsinada foi no início e, agora, se apresenta como testemunho seguro de participação activa no comando da Nação.

23.Nov.16

Martins Júnior