domingo, 5 de fevereiro de 2017

O 4 DE FEVEREIRO FEZ 50 ANOS! – o bolo feito de lágrimas e cânticos


No mesmo dia, na mesma hora e quase no mesmo local, à beira-Tejo,  em que partia para  a África  o porta-contentores com gente dentro – o extinto navio “Niassa” – marcaram formatura os protagonistas de outrora no almoço de confraternização, juntamente com as esposas e familiares.  Cinquenta anos voltaram a sentar-nos em redor da mesa da saudade. Antes era a marmita do ‘rancho geral’ e das rações de combate, agora é o licor da alegria borborejando nos nossos lábios molhados. Antes, os lenços brancos do Cais da Rocha misturavam-se com os bonés castanhos acenando do convés do navio, enquanto as águas do rio, insensíveis e cruéis, separavam dos filhos os pais chorosos, apartavam das  esposas os jovens maridos, os namorados das suas apaixonadas namoradas.  Agora,  perguntar-se-á, como  o autor da ‘Mensagem’: Valeu a pena?
Maior, porém, que a voz interpelante do nosso subconsciente, foi ontem esse encontro memorável, organizado pela Companhia de Comando e Serviços, da sede do Batalhão 1899, e a que outros se seguirão, pelos ex-militares das Companhias Operacionais, espalhados por esse Portugal fora. Só quem lá esteve é capaz de entender o desfiar de recordações, umas felizes, outras dramáticas; este episódio picaresco, aquele mais interiorizado. “Lembra-se, capelão, daquela canção que cantávamos com os nativos – “Ah ma-i-má  eh  tantzamá” – e do aldeamento da Milamba onde ia dar escola à petizada… e do nosso grupo coral… e da peça “A Velha Senhora” que fizemos em Mocuba e levámos a Quelimane… e das tristes vezes que não vinha a avioneta com os aerogramas da família … e do cemitério de Mocímboa da Praia onde ficaram os onze que iam para Nambude”… E de tantas outras cenas que para outros nada dizem, mas para nós amaciam  e comovem o coração. Das melhores recordações guardo a solidariedade especial do único madeirense no Batalhão 1899, o tenente Aldónio Fernandes, oficial do Serviço de Transmissões Militares, presente e apoiado pela esposa no encontro de ontem.

Foram dois anos de comissão em Moçambique, regiões de Cabo Delgado e Zambézia. Cumprimos, embora forçados-carne-de-canhão. Sem glória e sem proveito para a Pátria Portuguesa. Daí, por diante, recomeçou a nossa verdadeira comissão existencial, esta já com quarenta e oito anos de vivência e mais determinante para levantar o esplendor do Povo Português.
Cabelos brancos, cabeças “descapotáveis”, vozes roufenhas, abdómens  dilatados, enfim, hoje, todos septuagenários, também já fomos jovens, robustos, bonitos, corajosos. Mas somos os mesmos! Tal como fomos há cinquenta anos. Os mesmos…menos alguns (e não são poucos) os que já partiram durante esta comissão de serviço à comunidade. Um abraço para eles, as praças, os furriéis, os sargentos, os médicos, quer milicianos quer do quadro. Para nós, o apelo quente e dinâmico para nos mobilizarmos a nós próprios e mobilizarmos os que de nós dependem ou connosco vivem, neste Plano de Operações: A nossa comissão ainda não terminou. Cumpramos o nosso lugar, cumpramos o nosso País!
Foi de lágrimas e cânticos o bolo do cinquentenário que, como mais veterano, fui chamado a cortar. Lágrimas de saudade pelos que já abalaram, cânticos de esperança por nós que levaremos até ao fim o glorioso estandarte do Batalhão da Vida!

05.Fev.17
Martins Júnior


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

“DO MEDO À ESPERANÇA” – Ao vivo


Se alguma vez se pôde chamar ´”impar” a um dia do calendário, hoje foi. Foi o 3 de Fevereiro, ímpar na ordem cardinal e super-ímpar na alma que lhe deu corpo! Em redor da mesma mesa, 60 anos cronometrados viajaram com a leveza de um voo fraterno, ora rompendo clareiras nas alturas, ora baixando, rasante, ao chão do quotidiano, mas sempre com a procura da verdade no horizonte maior. Entre os 27 e os 87 anos de idade, do mais jovem ao menos jovem, ali ficámos, os cinco, degustando com a ementa do almoço “a esperança” que é nossa, contra o “medo” que vem de fora.
Ali precisamente, ao vivo e em franca confraternização, foi um dom inestimável ter ao nosso lado os autores dessa  sábia “Summa Sociológica” – DO MEDO À ESPERANÇA – o psiquiatra e psicanalista Prof. Coimbra de Matos e a historiadora Prof.ª Raquel Varela. Com a franqueza mais saudável e sem plano pré-estabelecido, as páginas do livro ganharam  sonoridade na voz e brilho no olhar dos seus ‘progenitores’. Filosofia, medicina, saúde, arte, questões laborais, religião,  eutanásia, afectividade, pedagogia, políticas da inclusão e da exclusão, a nível nacional e internacional – tudo isto e muito mais, temperado com o néctar da amizade, enriqueceu e sublimou as iguarias que a anfitriã preparou com o requinte e o carinho que se lhe reconhecem.
 Os contributos da psicologia e da economia, proporcionados pelo especialista José Paz e pelo mais jovem convidado, alargaram as dimensões daquela prestimosa mesa comum. Assimilar e interiorizar a ciência acumulada e o “saber de experiência feito” de um veterano “senador da psique humana”, o Prof. Coimbra de Matos – a frescura do seu humor  livre, sem pregas - é algo que jamais se esquece, porque  faz-nos “ver” e concluir que aos 87 anos seremos sempre jovens.
Pela minha parte, à definição “DO MEDO À ESPERANÇA”, ajuntarei e interpreto este ‘dia ímpar’, 3 de Fevereiro, como a ponte entre a expectativa e a realidade – a concretização de um desiderato que já vem de longe. Bem hajam!
  03.Fev.17
Martins Júnior

  

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

QUEM É QUE O SEGURA?... TALVEZ NENHUM DESTES!


Porque a um dia ímpar outro se lhe segue, retomo o relato de ontem,  31 de Janeiro,  para fazer o “passe” de golo e entrar confiante e auspicioso na baliza do 1º de Fevereiro. E é só isso – um toque, uma passagem de nível, em crescendo, sem perder o balanço do corpo e das ideias. A propósito da vitória dos “infantis” do Moreirense sobre os craques “internacionais” do Braga, reaprendi a estratégia de treino, aquela de que o mundo mais precisa: descobrir que é nas estruturas básicas da sociedade que se desenha e fortalece a solidez da pirâmide. Não é o vértice que a segura, tal como não é o telhado sobranceiro que garante a arquitectura da prédio.
Terminei a reflexão de ontem com uma evidência que tantas vezes a esquecemos e até negamos, ou seja, as transformações sociais nunca nascem nos tronos engalanados do poder, mas no chão anónimo dos campos lavrados, subindo até ao cume da montanha. Esse chão, húmus de pura seiva, somos nós.  No Deve-e-Haver dos contabilistas usurários, Donos Disto Tudo, cada um de nós não passa de mais um número a assentar à soma das parcelas do lucro vil.  Mas - e é deste trunfo que mais se precisa – cada um de nós é a soma partilhada, a riqueza produzida, a força e a alavanca do mundo. Quando um Povo perde (ou nem sabe sequer) o dom desta convicção,  já entra derrotado no estádio.
Mas quando, por  raro privilégio da história, surge alguém que no alto do pedestal é o primeiro a avançar e a fazer crescer o monumento vivo da condição humana, então é urgente segurá-lo, abraçá-lo, alcandorá-lo. Citei ontem o caso do Papa Francisco. Entretanto, os filhos das trevas,  com pele de  púrpura,  no Vaticano, os que nasceram dos ossos das múmias do poder cardinalício, querem afogar o sol renascente, mobilizador. O meu amigo Padre José Luís Rodrigues tem sobejamente descrito no seu “Banquetes da Palavra” alguns desses estranguladores da evolução espiritual e civilizacional, entre os quais os da chamada “Congregação para a Fé” (os tais da “Constituição Dogmática”) cujo corifeu dá pelo nome de cardeal Burke. Como é possível viver lado a lado, coabitar sob o mesmo tecto, sabendo que aqueles que juraram fidelidade ao Papa, afinal, são os seus mais vis detractores, os mais pérfidos traidores?!
É preciso segurar Francisco, “aquele que veio do fim do mundo” para nos fazer descobrir a beleza, a paz e a fraternidade do nosso mundo. E quem o segura?... O antecessor sucumbiu e desertou.  Quem o agarra pelo tronco para não cair?... E quem lhe levanta os braços para não desfalecer, como a Moisés no alto do Monte Sinai?...
Nós. Cada um de nós. Os cristãos de base. Mulheres e homens, nascidos da Terra e do Espírito!

         01.Fev.17

         Martins Júnior

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

OS CÓNEGOS CONTRA OS ARCEBISPOS… E NÃO É QUE OS ARCEBISPOS PERDERAM A GUERRA ?! – Crónicas do meu televisor privativo


Desanuviar  o ambiente, é preciso. Correr, descomprimir, rir e aprender – eis o melhor remédio. Vamos a isso, já. Portugal, de lés-a-lés, pulou desenfreado, ali de desespero e raiva, acolá de fogo e palma e contentamento sem freio. Desta vez, o Minho foi “Rei de Portugal e dos Algarves”. Adeus Lisboa, capital do Império. Adeus, Porto do pré-republicano “31 de Janeiro”. Adeus, Coimbra dos Doutores. O Minho é que é!  O Minho é Lindo!
E no Minho, o maior é o Moreira (não do Rui), mas dos Cónegos. Imberbe e pequenino, abateu o gigante vizinho, depois de ter enjaulado o Dragões e as Águia,  no percurso norte-sul. Todos os jornais derramaram o brilho da tinta, todas as rádios escancararam as cordas vocais e todas as TV´s  mudaram de cor. “Viva o Moreirense, viva, viva”!... “Moreirense só há um, o dos Cónegos e mais nenhum” !!!
Mas no meu televisor privativo, havia mais qualquer coisa. Ou parecia. Não faltaram os crentes bíblicos em colar na testa o duelo David-Golias, ou o texto litúrgico de Paulo de Tarso, anteontem, onde se exaltava que “Deus usa os fracos para confundir os fortes”. Também vieram os cultores das metáforas e das alegorias,  identificando o grande feito à fábula da formiga e da cigarra, da lebre e do sapo-concho.
Apareceu depois  um esguio e pálido juiz do Vaticano, ruminando pragas e atribuindo a Satanás o “escândalo” de ver uns magros  cónegos de Moreira, grande parte deles oriundos da África negra,  derrubando os anafados e alvíssimos arcebispos de Braga! Impossível: a aldeia de uns cónegos decrépitos, vitoriosos em cima dos mausoléus da arcebispal “Braccara Augusta”!
Logo a seguir. O “pivot” explicou que os cónegos não são mais que padres,  calçados de meias vermelhas, já rapadas. E o arcebispado de Braga era e é  o detentor da sede primaz da Cristandade em Portugal.  E foi dizendo que na Igreja há postos e patentes, tal como nas Ordens Militares: presbíteros, bispos, arcebispos, cardeais e Papas. Tudo talhado à maneira da hierarquia do exército: soldado raso, sargento, oficial, capitão, por aí  fora, até brigadeiro, general e marechal.
O locutor mais não disse. Mas percebi nas entrelinhas o que não lhe permitiram dizer, ou seja, a história que ciclicamente se repete: só a “arraia-miúda” é capaz de abater os castelos dos poderosos, desde a porta-de-armas até às aguçadas ameias. Sempre foi assim. Com a luta do Mestre de Avis, em 1383-1385. E agora, na era em que nos foi dado viver, foram as praças, os sargentos e os capitães de Abril que derrubaram a ditadura dos galões e das estrelas faustosamente coladas nos ombros dos generais.
Pela minha parte, enquanto a multidão lá de cima vibra e salta ao ritmo dos fogos-fátuos que iluminam a noite, fico pensando que a força dos fortes provém da fraqueza dos fracos e que esta aparente fatalidade só se inverte pela pertinácia das bases. Nunca as metamorfoses da história começaram pelas cúpulas. Se os pequenos e os fracos quiserem, será realidade o cântico de Zeca Afonso: “O Povo é quem mais ordena”.
Também na Igreja. Nunca os cardeais e os arcebispos nem os Papas deixaram que o Cristo histórico,  íntegro e total,  passasse por aqui. Só uma excepção – Francisco Papa! Mas se as raízes, os miúdos, os cristãos de base não sustentarem na mente e nos braços este troféu da Verdade, tudo cairá outra vez  no abissal império dos arcebispos. Não os de Braga, mas os de sempre. Daqui também.
Graças ao Moreirense e à sua  sibilina e, para mim, sábia mensagem!  
    
         31.Jan.17

Martins Júnior

domingo, 29 de janeiro de 2017

EM 2017, DOIS CENTENÁRIOS “MUTUAMENTE EXPLOSIVOS” ???


Porque hoje é Domingo…
E por sê-lo, o corpo repousa e a mente voa. Livre como um pássaro e desarvorado como o vento, o espírito chega até onde não nos permitem os dias comuns. Por isso não tem mapa de voo, nem sequer heliporto terminal. E aí é que surgem as surpresas mais estranhas, não pensadas, quase esotéricas, saltitando nos lagos imprevistos do pensamento-viajante de fim de semana. Umas vezes, com lampejos inspiradores, outras sem nexo aparente, mas sempre com um que nos interpela e nos persegue.
Foi o que me sucedeu precisamente. Imaginem para onde me levou hoje la folle de la maison (a louca da casa) como ironicamente  definia Montaigne a nossa mente?... Fez-me atravessar dez décadas e deixou-me no pico alto do ano 1917. Abriu o livro de memórias e mostrou-me duas paisagens, dois retratos,  dois hemisférios radicalmente opostos, qual deles mais contrastante que o outro. E ambos enraizados na encosta do mesmo mês: Outubro de 1917. Um deles, cercado de luz, uma “Senhora mais brilhante que o sol”, uma azinheira rústica, repousante. O outro, um estouro retumbante, um murro no trono, uma foice e um martelo, uma revolução. “Malhas que o Império tece”…
Já  notastes, decerto, que me refiro a dois acontecimentos, plantados ao mesmo tempo, mas de crescimento e frutificação tão diversos! Ocorria o mês de Outubro de 1917. Na Rússia, consumava-se a revolução bolchevique, inspirada no marxismo-leninismo. Em Portugal, na Cova da Iria, dava-se o “milagre do sol”, consumando-se as aparições da Virgem, que passou a chamar-se “de Fátima”.
Este foi o texto linear que a mente, la folle de la maison, me deu a ler no voo sem rumo deste Domingo. Declaro desde já que hoje não tenciono perorar, nem sequer filosofar, sobre tão escaldante dialéctica. Garanto-me, porém, a mim próprio, que farei o maior esforço de hermenêutica para decifrar o enigma da concomitância destes dois pilares históricos que marcaram um século da história e mexeram com as estruturas pensamentais, económicas, culturais e sociais do mundo todo, a partir do continente europeu. É da mais elementar filosofia o conhecido  axioma de que “os extremos tocam-se”. Monitorizar as linhas de intersecção onde os dois casos se tocam e se repelem – eis uma tese que se impõe a todo aquele que procura a sabedoria, mesmo que não se assuma como analista arguto dos fenómenos histórico-sociais. Em que medida Rússia e Fátima serviram mutuamente de arma agressora ou de alavanca colaboracionista no seu desenvolvimento, ao longo de cem anos?      
 É curioso notar o afã com que os promotores ou propagandistas de um e outro factos se esmeram em programar a secular efeméride, cujo depósito têm à sua guarda. “Pela aragem, conhecer-se-á quem vai na carruagem”, significando este aforismo, no caso vertente, que pelos cerimoniais, pelos discursos, pela opulência (ou não) dos protocolos, será possível detectar aspectos fundamentais que, das duas mensagens, só virtualmente visualizamos. Pela minha parte, guardo na reminiscência da infância, desde os bancos do seminário até aos inflamados sermões das igrejas, a palavra de ordem vigente de que “Nossa Senhora de Fátima veio a Portugal para acabar com a Rússia e que, por isso, era preciso rezar muito”.  Desde então, pairou-se-me no subconsciente a ideia de que os dois casos estão ligados um ao outro.
Estas e outras incógnitas, cujos contornos se ramificam superabundantemente, farão parte dos meus projectos, não apenas nos voos de Domingo mas na serena e porfiada análise de cada dia. Seria bom ter alguém por companhia neste exigente percurso.

29.Jan.17
Martins Júnior

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

NUNCA SE SABE PARA QUEM SE TRABALHA!... Um aborto a céu-aberto


Desde ontem até hoje, já nem sei contar quantos títulos me ocorreram para esta longa viagem dentro das quatro paredes da sala do nosso  Arquivo Regional. “Expropriados, vendidos, assaltados e escorraçados”… “Como pode uma árvore boa dar  um fruto podre?”… “Ó tempo volta pra trás”… “Um parto contra-natura”… E outros tantos, quase todos deprimentes, para estampar  publicamente o misto de desilusão e  repugnância que me causou uma breve consulta  ao “Jornal da Madeira”, de há 59 nove anos. Foi  a propósito de um soneto – “VEM,  SENHOR”! – que publiquei na edição de 25 de Dezembro de 1958, depois republicado na antologia de Luís Marino e no “Eco do Funchal” e, agora, para satisfazer a sugestão  solicitada por um amigo meu.
Percorrer aquelas páginas amarelecidas foi uma romagem de saudade. Recordar os colunistas de então, entre eles o Pe. Alfredo Vieira de Freitas, em secções distintas e respectivos criptónimos, o seu sobrinho, também poeta, António José, o fogoso deão da Sé Catedral Fulgêncio de Andrade, professores do Liceu, correspondentes em Lisboa, crónicas de viagem, os folhetins diários, alguns deles mais tarde compilados em romance. Passou-me no horizonte da memória o fabrico artesanal do jornal,  com os velhos e meticulosos compositores da tipografia (cada letra, um chumbo alinhado à mão no caixilho de madeira que, tantas vezes, também manuseei ao lado dos ‘homens da ferrugem’) enfim, um desfilar dos cheiros tóxicos das barras de chumbo derretendo a altas temperaturas,  as provas repetidamente corrigidas, os revisores, os jornalistas e até os ardinas que, pelas três da manhã,  vinham preparados para a faina, depois de uma “quentinha” ( café pingado de vinho) no café da esquina.
Era, então, o genuíno Jornal da Diocese. Embora fosse dirigido, algum tempo, pelo prof. Basto Machado,  chefe da Mocidade Portuguesa criada por Salazar, havia pudor e discrição para que o chamado ‘Estado Novo’ não tomasse a dianteira da Igreja, na orientação e paginação diárias. Lembrei-me dos sucessivos directores e chefes de Redacção, sacerdotes de primeira linha, Agostinho Goncalves Gomes, Maurílio de Gouveia, Jardim Gonçalves, Abel Augusto da Silva, Paquete de Oliveira.
Confesso que desisti de folhear o grosso volume encadernado e dei comigo ali, só, a cabeça entre as mãos, interiormente comovido e revoltado, perante o que fizeram do Jornal da Diocese. Arrancaram-lhe o coração, mas mantiveram a pele. E o que era Igreja viva, tornou-se por dentro pedra dura da política sectária, ao serviço de um herdeiro da ditadura do ‘Estado Novo’  e à qual deu o despudorado baptismo de ‘Madeira Nova’. O bispo Francisco Santana, o primeiro vendilhão do jornal e  do templo na ilha, entregou  a direcção  ao candidato  a dominador insular, como quem oferece uma filha virgem a um predador sem escrúpulos. O bispo Teodoro Faria vendeu-lhe a propriedade do Jornal, com menos dor que  Judas quando vendeu o Mestre por trinta dinheiros. O actual bispo dorme na cama que os predecessores doaram e deixa o Jornal na rua, semelhante a um deserdado, um sem-abrigo, um filho de pai incógnito à espera de  alma caridosa que o adopte e o compre como uma rês depenada. Nem que seja por 1 euro.
À maior parte dos que me lerem, talvez pareça um anacronismo, uma tolice até, revelar o estado de alma em que me prostrou a consulta de ontem. Porque não viveram os sacrifícios que os cristãos madeirenses fizeram pelo seu Jornal, os peditórios anuais em todas as freguesias, os esforços para não deixar cair a identidade da sua imprensa, os contributos factuais naquelas páginas, naquelas paredes, naqueles escritos, entre os quais me incluo, no dealbar dos verdes anos.
De que serviu tanto labor e a quem aproveitou tamanha resiliência em tempos difíceis?... Deveriam ser chamados à pedra os comparsas sem honra e sem lei que  ofereceram e alienaram a estranhos aquilo  que não era seu. Que fizeram da Igreja da Madeira uma vil moeda de troca. Ou, como há 1500 anos verberava Santo Agostinho de Hipona, os que transformaram a Igreja numa casta meretrix, uma meretriz casta, o mesmo que prostituta cara.  O “Jornal da Madeira”  é o mísero ex-libris a que chegou a Instituição diocesana: sem brilho, sem coluna, sem prestígio.  Lamentavelmente.


27.Jan.17

Martins Júnior          

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

UMA “CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA” NO FUNCHAL


Este 25 de Janeiro sai-me do computador como um poliedro de muitos rostos. Tem tanto de sério e diletante, como de sarcástico e chocarreiro. Consonante e contraditório, ao mesmo tempo.
Começo pelo tom “grave e sério”. Está na ordem do dia falar de normativos constitucionais, inconstitucionalidades, tribunais constitucionais, numa palavra , invocar  a Lei Fundamental do Estado-Nação, a Constituição. Sempre as houve, desde as constituições monárquicas  às liberais, desde as totalitaristas às republicanas, cada qual com o seu figurino próprio ao serviço da ideologia ou dos interesses dominantes. De todas, porém, a mais original e anacrónica  será aquela que deu à luz o título deste escrito: A Constituição Dogmática. Quem me lê neste momento conhece, de certeza, a máscara e o ADN do (des)qualificativo Dogmático. O dogma não se discute, não admite perguntas nem respostas, não tem apelo nem agravo. É o “status”: inflexível, inamovível, sem olhos, sem ouvidos, sem alma e sem coração. É a esfinge no deserto do pensamento, além da qual ninguém pode passar, sob pena de condenação à pena capital. São seus parentes menores as constituições dos regimes fascistas, as constituições estalinistas, enfim, as ditaduras. Todas fabricadas pelos humanos mortais.
Mas as Constituições Dogmáticas são “gente fina”. São do outro mundo. Procedem dos oráculos divinos, de lá onde mora o Eterno e  Supremo Juiz da História. E o seu fiel depositário é um só, mesmo sem procuração reconhecida:  a Religião - melhor talvez, as religiões. No caso vertente, a Igreja. E, para  nós,  a Católica. Seus delegados e juízes, dotados de infalibilidade dogmática, são os “ministros hierárquicos”, mais deístas que Deus, mais papistas que o Papa. Pela Constituição Dogmática da Igreja, foi excomungado o Patriarca Miguel Cerulário, em 1054 (há quase mil anos!) e, com ele, a Igreja Ortodoxa, desde então separada de Roma. Pela Constituição Dogmática, em 1431, foi queimada viva na fogueira uma jovem francesa, Jeanne d’Arc, por defender o seu povo. Ainda pela Constituição Dogmática foi excomungado, em 1521, Martinho Lutero e, por tal sentença, proliferaram na Europa e no mundo as doutrinas protestantes. E pela mesma Dogmática Constituição têm sido ostracizados, reduzidos ao silêncio, encarcerados no próprio país, muitos pregoeiros da Verdade, lídimos cultores da Sabedoria, teólogos eminentes, mártires anónimos, sobre cujo féretro a mesma Constituição Dogmática manda rezar ofícios sagrados, que mais não são que cínicos impropérios repugnantes perante a barra da Justiça autêntica, seja ela humana, seja ela divina.
Perguntar-me-ão por que andas e bolandas venho eu, hoje mesmo,  com este tão estranho arrazoado.
É que hoje é 25 de Janeiro.Com recheio gordo de 4 “pratos”.   Às companheiras e companheiros viajantes dos  “blog’s”  proponho que descubram  as consonâncias e as dissonâncias, os sabores e dissabores da ementa:
1)    O “JM” (forma sincopada, semi-amputada do ex-“Jornal da Madeira”) tem propagandeado “No Seminário diocesano, três dias de actualização do clero sobre a Constituição Dogmática da Igreja” à luz do Vaticano II. Ouso sublinhar que, para a Madeira, podia ser “do Vaticano I”.
2)    Hoje encerra-se o Oitavário para a Unidade das Igrejas Cristãs, iniciativa centenária de um pastor protestante e depois adoptada pelo Vaticano, conducente ao respeito pelos diferentes credos e instituições inspiradas na fé do mesmo Cristo.
3)    Hoje evoca-se a conversão de Paulo de Tarso que, de feroz perseguidor dos cristãos, passou a defensor incansável de Cristo, coração  aberto para todos, gregos ou romanos, judeus ou pagãos.
4)    O Papa Francisco, na entrevista ao El País (a que fiz referência anteontem) acaba de verberar o clericalismo autoritário, desenraizado da vida, castrador da Verdade Total – a Verdade que é participada por  todos e por cada um dos humanos.
E a pergunta é:
Que sentido faz  hastear na diocese do Funchal a bandeira de uma “Constituição Dogmática” ? Ou: como pode compaginar-se o “prato nº1” com os outros três que se lhe seguem?... Dará em congestão, de certeza. Ou em reacção nuclear.
Poderia reproduzir aqui um extenso rol de citações bíblicas e doutrinais sobre a ilusão em que navegam certos “príncipes da Igreja”,  desactualizados, dogmáticos medievais, julgando-se seguros por terem uma mitra na cabeça, um báculo dourado na mão e um código canónico aos pés. Prefiro apenas procurar resposta a estoutra pergunta:  Porque é que nenhum artista sacro, desde os clássicos aos modernos, se atreveu  a representar Jesus Cristo com o mesmo toque de estilista: mitra filigranada na testa, báculo na mão e cordão  de  ouro ao peito?...
Como Saulo, outrora no caminho de Damasco, capital da Síria, desejo e empenho-me todos os dias para que caiam as escamas do obscurantismo  que ainda nos turvam a luz dos olhos. Dos meus. Dos nossos.

25.Jan.17

Martins Júnior