sexta-feira, 1 de setembro de 2017

QUANDO CHEGAR É SINÓNIMO DE PARTIR…


“Ei-los que partem”…
Assim começa a canção-sombra que a minha geração aprendeu na voz doce e plangente de Manuel Freire, descrevendo a dolorosa expectativa dos nossos emigrantes a caminho de França. Mas hoje eu opto pelo seu contrário: Ei-los que chegam… Após as férias, ei-los que chegam - os veraneantes que somos - cabisbaixos, ensonados, mais cansados que à partida.
Agora, é o limpar o pó das mobílias, ajeitar a sala, esquadrinhar a ordem mecânica das ferramentas diárias, voltar à monotonia dos gestos iguais, o bater anti-alzheimer das horas que nos chamam à pedra. São os petizes que treinam as costelas para carregar os livros, são os professores que têm de andar cem e mais quilómetros para encontrar a ‘sua’ escola, são os juízes cujos ombros voltam a vergar ao peso das togas sancionatórias, são os eventuais condenados de delito comum obrigados ao banco aos réus. Sem falar daqueles que agora comem o pão-de-cinza que o diabo amassou. E são também os políticos-candidatos transpirando com as dores de parto do 1º de Outubro, p.f.. Destes, porém, e da sua imensidade tão polifacetada quanto monocórdica (senão mesmo indigesta) cassete, lembrar-me-ei em breve.
Adeus, Agosto claro e benfazejo, tinto  das tonalidades estivais! Agora, é a bruma outonal de Setembro. Acabou-se o tempo da cigarra e entrou-se na laboriosa oficina da formiga. Mas, alto e sonoro, impõe-se  e cresce dentro de nós, como um espigão inquebrável, o pensamento de Frederico Garcia Lorca: “Tudo quanto fazemos não é nosso, é dos outros e para os outros,  pertence ao amanhã”. De outra forma, direi que o Agosto (todos os agostos) nós o capturámos para o nosso prazer subjectivo, enquanto o Setembro (todos os setembros) já não será nosso, é pertença de outros, desagua sempre no bem colectivo, dentro ou fora das quatro paredes  que habitamos.
Guiados por esta bússola interior, descobrimos que afinal, não chegámos. Partimos. Estamos sempre de viagem. Setembro entrado, o tictac dos ponteiros ganha o metal vibrante  de um clarim soando a madrugada.  “Esta é nossa hora”!
Ei-los que partem. E ei-los que chegam para tornar a partir. É sempre bela e auspiciosa a nossa largada.

            01.Set.17

            Martins Júnior

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

ENTRE O AGOSTO GOSTOSO E O SETEMBRO BRUMOSO…


Atravesso a ponte – o longo e largo passadiço que começa pelo fim e acaba no princípio – entre o “31” de hoje e o “1” de amanhã. Não sou mais que um transeunte dentro da multidão anónima. Todos deixaram na outra margem a quietude sonâmbula dos dias e das noites sem ponteiros. E agora apetrechamo-nos para alcançar o ilhéu de nuvens, do tamanho do mundo. Aí   acordaremos para a prosa corrente das horas repetidas. Quando lá chegar (e amanhã será) contar-vos-ei o que os meus olhos vêem e a minha mão escreve na ponte ímpar entre duas margens…

31.Ago.17
Martins Júnior  


terça-feira, 29 de agosto de 2017

A CADA QUAL - SEU FESTIVAL

          

          Diz-me qual é o teu – e eu dir-te-ei quem és.
Podia ser assim o subtítulo deste passatempo breve. Breve e, em hora certa, divertido. Aproxima-se o fim do mês ‘gostoso’, onde é rainha a ridícula silly season, com entrevistas de cordel, areias cor-de-rosa na praia dos jornais, reportagens “chapa-seis” que dão para qualquer locutor preencher de mais vazio o vazio da estação.
Nem é preciso simular. Basta reproduzir. O jornalista, entre  saltimbanco e ‘franco atirador’, enguia-se pelos apertos do arraial e pergunta: “Então, está a gostar?... De onde veio?... Algum compromisso especial”? E a resposta é pronta: ”Vim da Venezuela (do Canadá, da Austrália”), cheguei ontem e vim comer e beber no arraial”. O homem do microfone joga-se para a porta do estádio e faz o passe ao nosso emigrante: “Então, aqui? De onde é que veio e para quê”? E o ‘instrangeiro’ marca logo: “Venho da América, andei mais de 3.000 Km para ver o Portugal-França”. Mais modesta e composta, a estagiária na “TVerão”, mete-se na procissão do norte da ilha: “E a senhora, foi a fé que a trouxe?... vem de longe”?  E a devota, de mantilha piedosa a cobrir cabeça e ombros,  balbucia: “Vim da África do Sul pagar (!!!) a promessa ao Senhor Bom Jesus (ou à Senhora do Monte, ou à do Livramento ou a Nossa Senhora do Calhau, tanto faz)”.
Três motivações, qual delas a mais distante uma da outra. Mas há mais. Os que planeiam o ano inteiro para chegar mais cedo ao palco da Zambujeira do Mar, de Vilar de Mouros, do Rock in Rio, de Coachella Fest na Califórnia. Até  o mais rasteiro ‘alibabá’ não larga a vida sem ir a Meca. E os ungidos do óleo pascal juram que não morrem sem ir a Roma “ver o Papa, que é Deus na terra”.
O mercado é enorme, não conhece fronteiras e o seu limite é igual à desgarrada imaginação de cada qual. Uma, porém, deixou-me de bruços, dependurado numa incógnita insuperável. Foi aquele casal, emigrante há mais de trinta anos num ‘país capitalista’ (assim mo disse)  que todos os anos programa as férias para estar presente na “Festa do Avante”. E lá vai ele, asinha, para a Atalaia do Seixal. Dispenso-vos, ‘kamaradas’ ilhéus, de quaisquer emolumentos por este naco de propagandazinha cunhalista. Quão diversa é a meta deste cinquentão e sua esposa, se a compararmos com as restantes”!
Sem contar com o grosso daqueles “que vão a todas”, um aspecto salta, incontido e decidido, deste confuso emaranhado: é a militância com que cada um se deixa seduzir  (eu direi, narcotizar e, nalguns casos, alienar) diante do seu craque, do ídolo ou do cromo que entronizou como deus na ara do seu culto.
 Sem entrar em altas incursões sobre a sociopsicologia do fenómeno, não estaremos longe do alvo se considerarmos o “Festival” (nos casos citados)  como o barómetro do indivíduo e da sociedade a que pertence. Nesta onda, faço um stop para olhamo-nos um em frente do outro: “E qual é o teu Festival, real ou imaginário…e o meu…e o do meu meio”?
Xavier de Maistre, desde há duzentos anos que nos vai ensinando a arte e a ciência de viajar até onde quisermos… dentro da nossa própria casa. A Viagem à volta do meu Quarto é bem a paradoxal  conclusão de que somos nós os timoneiros da insondável circum-navegação da nossa vida. Nas nossas mãos o leme, o horizonte, o porto de chegada. Lembrando Pessoa – “A Minha Pária é a Língua Portuguesa” – direi que a Pátria-Mátria de cada um é lá onde está o gosto, o apetite, o sabor e a consequência das suas opções.
Festivais! Diz-me qual é o teu e eu dir-te-ei quem és.  Educar-me  para um “Festival” maior. Eis o sumo do meu Luar de Agosto.

29.Ago.17

Martins Júnior

domingo, 27 de agosto de 2017

A POSITIVA METAMORFOSE DAS TRADIÇÕES


Viva a Vida!
Pego na chama acesa com que fechei a simulação – a um tempo, humorística e séria, muito séria – tirada do obituário que a imprensa reproduz todos os dias com nomes iguais ou diferentes do nosso. Hoje, é a Vida que me interessa. Vê-la saltitante como um pássaro e crepitante como um facho de luz nas nocturnas encostas do vale.
´Nesta noite não saio da ‘minha’ capitania de Machico, pioneira dos capitães donatários da ilha, há seiscentos anos.. Alargo os olhos e deixo entrar as fogueiras estivais que neste sábado alumiaram as rochosas e seculares montanhas da minha terra. Para quem as vê pela primeira vez, fica extasiado. Quem as repete duas ou mais  vezes será tentado a bocejar, desconsolado: “ mais do mesmo”.  Engano. A tradição dos fachos é sempre nova e rediviva para as gentes de Machico. Há quase oitenta anos que os acompanho desde criança e acho-os tão cativantes como desde a primeira hora. Mais renovada e mobilizadora é a tradição para a perto de centena e meia de mãos, todas jovens que arduamente se levantam até aos altos socalcos previamente preparados para o grande anfiteatro luminoso de Machico. Honra e valor a essa juventude que mantém acesos não apenas os fachos mas a memória dos seus antepassados.
Entretanto, desbravemos as remotas veredas da história e lá encontraremos, decepcionados, a genuína identidade dos fachos. Aquilo que hoje nos delicia e aquece a sensibilidade, afinal, nasceu num temeroso ambiente de roubos e predações que com que os corsários e piratas dos mares amotinavam os incautos habitantes das ilhas. Para defender-se dos invasores, usavam como meio de comunicação nocturna o lume vigilante  nos picos estratégicos do território, a fim de que as vilas e aldeias preparassem a defesa, quer munindo-se de armas artesanais, quer fugindo para as furnas situadas nas serras. Aqui radica a toponímia de alguns desses picos, como o Pico do Facho em Machico e o Pico do Facho no Porto Santo.  
Depois, fortificadas as ilhas e debandados os corsários, o povo deixou-se fascinar pelo sortilégio das chamas desenhando a silhueta das montanhas. E continuou a acender fogueiras. Fez a catarse do medo com a metamorfose do lume vivo: o fogo já não era o alarme convencional contra o terror mas uma homenagem a uma divindade, neste caso,  o Santíssimo Sacramento.

A espantosa imaginação popular que do medo fez beleza e  encantamento! Não fossem os corsários da costa e hoje não teríamos os fachos, ex-libris de Machico, na “Festa do Senhor”, último domingo de Agosto!
Não é caso único na historiografia do Cristianismo. São inúmeras as tradições e rituais pagãos, desde Grécia a Roma, que a Igreja oportunamente (e oportunisticamente também) acolheu e deles se apropriou para dar-lhes uma nova veste, sacralizando assim as grandes festas pagãs em homenagem aos deuses, porque tais festas mantinham-se  ainda arreigadas nos povos convertidos. O caso mais flagrante cinge-se ao Dies Natalis, o Natal cristão, que teve origem nas famosas Saturnália, festas dedicadas ao deus Sol sob o signo de Saturno, realizadas pelo Império Romano  entre 17 e 25 de Dezembro. Só a partir do século IV, a Igreja ‘canonizou’ os costumes pagãos em honra do deus Sol, substituindo o Sol pagão por Jesus Cristo que passou a designar-se por Sol Justitiae, Cristo - Sol da Justiça, como se canta nas antífonas.
Muitos outros rituais poderia citar. Mas aqui o que importa relevar é a vantagem filosófica e prática de não arrasar liminarmente as tradições populares. Se elas se identificarem com a idiossincrasia de um povo, é sensato preservá-las, segurando o que de valorativo possuírem e, se algo de menos digno ou anacrónico comportarem, a solução será a de operar-lhes uma metamorfose interpretativa, transfigurando-as e imprimindo-lhes um carácter nobilitante, actual, construtivo. Neste caso, suponho poder aplicar-se o princípio geral do Direito: Pacta sunt servanda, os pactos ou os acordos devem ser conservados, cumpridos. E as tradições também.
Muito longe levar-nos-ia esta tese. Em vários quadrantes da sociedade. Por hoje, a convicção de que valeu a pena conservar a tradição originalmente radicada nos assaltos dos corsários da costa, para que o nosso olhar se enchesse da luz envolvente do vale de Machico, com “Os Fachos na serra, Altos a brilhar”. Ontem, hoje e amanhã.

27.Ago.17
Martins Júnior

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

CARTA DO OUTRO MUNDO


"É do fundo da terra - ou das intocáveis alturas, tanto faz – que vos escrevo. Sem minha autorização estenderam ontem o meu nome numa prega de jornal, embrulharam-no e  atiraram-me para a vala sem regresso. Antes, porém, tiveram a preconceituosa devoção de me rezar ofícios em cerimónias fúnebres molhadas de água benta.
E ‘práqui’ estou. Abri de novo os olhos que os familiares me fecharam, reanimei as mãos e os dedos e eis-me neste miradouro subterrâneo de onde tudo se vê. É daqui que vos vejo a todos e vos escrevo.
Agradeço, em primeiro aceno, a horizontal posição em que me colocaram no esquife. Porque, agora sim, tenho ‘todo o tempo  do mundo’ para olhar os altos, deliciar-me com as colunas milenares das montanhas da minha ilha, descansar as pupilas nas estrelas, ir mais além e mais acima do que quando estava convosco. Esse foi o tempo em que os olhos me pendiam para o chão rasteiro do quotidiano, os meandros sinuosos, as nervuras interesseiras, as intrigas, os fogos fátuos de fugazes prazeres. Percebo agora, a olho-nu, que em mais de metade da vida, as pessoas  são consumidas inutilmente no rescaldo baço de incêndios que outros atearam. Faltou-me o ar puro da razão prática para desenlear-me das muitas teias de aranha em que, distraído e ingénuo,  me deixei enredar.
Nesta cidade onde cabe todo o planeta e onde todos vós tendes apartamento marcado, a paz serena advém de um outro reino, cuja constituição tem um Artigo Único: ”Aqui todos são iguais. Inelutavelmente”! Ditoso império da igualdade congénita, onde não há palácios nem casebres, não há bancos nem falências, não há brâmanes nem párias, senhorios e caseiros, exploradores e explorados. Aqui descobri, tal como  o velho Diógenes da Antiga Grécia, que não há diferença alguma entre a ‘caveira’ do meu pai pescador e a ‘caveira’ do  armador, patrão, ditador, papa ou rei. Nenhuma, além desta: o operário, mesmo pobre, sorri sob o lençol com que a mãe-terra o abafou, enquanto o agiota, avarento e sôfrego, geme sob o peso das barras de ouro que deixou  no rez-do-chão da  sua mansão.
Não acabarei esta carta breve – mais breve que a própria vida – sem confidenciar-vos mais uma descoberta. É que, agora vejo, tudo quanto foi meu enquanto por aí andei teve apenas uma função: o valor instrumental. Talvez que ainda não tivésseis dado por isso. Casa, carro, livros, euros, lati-ou-minifúndio, poder, galões, comendas – tudo, tudo não passou de um instrumento funcional, uma ferramenta emprestada. Queiramos quer não, o instrumento passará para outras mãos, a ferramenta será dada a outro utilizador. Também provisório, a prazo, sem saber se é longo ou curto. Nada foi meu e tudo será de outros.
Falta-me ainda dizer, sem ser preciso adivinhar, que se alguns ficaram tristes com a participação da agência funerária, outros terão sentido um gozo libidinoso com a notícia. Mal sabem – saberão quando aqui chegarem – quanto me divirto com tudo isso. Cá os espero.
À moda de testamento (não me deram tempo de fazê-lo) juro que teria dispensado anúncios e participações, romeiros oficiais e oficiantes, espectáculos, turíbulos de incenso, lânguidas ladainhas  policopiadas. Aqui, o Justo Juiz deste Super-Supremo declarou-me que não aceita cunhas nem advogados nem alegações finais. Sou eu que trago tudo isso comigo. Mais ninguém!
De Profundis, Valsa Lenta -  estou contigo, irmão Cardoso Pires. E como tu, eu vou subir os degraus desta cidade submersa. E voltarei, como tu, transportando nas minhas mãos o Código das Profundezas onde me deitaram. Reger-me-ei pelos seus sábios normativos, para implantar na minúscula  nesga do meu território o inalcançável Reino da Igualdade onde crescerão as violetas de uma  transitória Felicidade".
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E voltei, pessoal. Ainda não fui desta. Porque o “José Martins Júnior” da participação-supra não sou eu, mas um meu homónimo, que até hoje eu próprio desconhecia. Paz à sua alma. Agradeço-lhe a oportunidade que me deu de acompanhá-lo, assim, tão de perto, nesta sua viagem que um dia será minha. E nossa, amigos.
Viva a Vida!
25.Ago.17

Martins Júnior  

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

QUEM PERGUNTA?... QUEM RESPONDE?...

Não é mais que um desabafo, quase sem palavras, o que hoje vos trago. E é este: 
Desde o 15 de Agosto ainda não saí do Largo da Fonte. E ninguém de lá me tira tão cedo. Por onde quer que eu vá, estala-se-me todo dentro de mim aquele tronco secular.  No ‘Campo Santo’ de São Martinho, Monte ou São Gonçalo,  no cume das montanhas a arder, nos terramotos ou nas aluviões devoradoras de vidas e haveres, em tudo vejo o fantasma daquele Monte esmagador, intransponível. Quero ouvir-lhe a voz – depressão, prece, gemido ou grito – o que tem a dizer-me, a interpelar-me,  a responder-me.
Porque ele anda sempre a perseguir-me para exigir-me uma resposta. A mim e a todos aqueles que não se deixam submergir no desespero nem consentem embotar  o delicado tecido da sua sensibilidade. Mexe com todos nós, seres pensantes.
O que se tem visto publicamente não passa de uma arena de interesses marcados pelo mais cínico mercantilismo em que o que mais conta é o vocação de solteira, atribuída à culpa. Baixo, insensível, mesquinho e desrespeitador dos mortos!  Podem morrer cinco pais, mães ou crianças, dez, doze, treze: o importante é que a culpa não morra…solteira. Recuso-me a entrar por esse exclusivo pântano político, de um atroz oportunismo. A Justiça ditará. Inexoravelmente!
As perguntas e respostas que eu procuro são as que irrompem do chão onde se consumou a tragédia. Um chão sagrado, iluminado pelas sacrossantas velas das “promessas”, um encendrado voto de divino amor à “Santa Milagrosa”.  E a grande incógnita que me bate na mente e no coração é esta: Onde está Deus no meio de tudo isto?... Que estatuto ou que função desempenhou ali a “Sua Mãe”, Senhora do Monte?...
Interessam-me estas perguntas e dou tudo de mim a quem mas responda. Porque são de todos os tempos e lugares. Porque, sobretudo, ouviu-se a tremenda informação do Pontífice oficiante na tribuna do sacro altar da nossa catedral: ”Deus chamou a si esses nossos irmãos”!!!... Então, Deus estava lá!?... Para chamar treze vítimas inocentes!?… Mas, para isso, primeiro teve de chamar o velho carvalho adormecido nos jardins do esconderijo… Quem poderá suportar semelhante paradoxo?
Deixem-me dormir descansado esta noite. Vou parar, por agora. Mas sei que o que não vai parar  amanhã é esta luta interior. Porque, após quase oito décadas de educação religiosa acumulada, não quero morrer sem encontrar resposta  a esta pergunta: O que é que tem a ver a Religião com tudo isto? Estará a Religião casada com esta e outras tragédias… ou viverá eternamente solteira e protectora?...
Ajudem-me a encontrar um lampejo de luz serena e inteligível.  Porque vou continuar a escavar o sempre inacabado túnel da Vida e da Morte.
Que os que tombaram no ‘chão sagrado’ iluminem a obscura e breve estrada dos vivos. É a maior homenagem que lhes podemos prestar.

23.Ago.17

Martins Júnior     

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

NO DIA DA CIDADE: ERGUER CORAÇÕES MAIS VALE QUE LEVANTAR CATEDRAIS



Cidades são como pessoas. Corpos de gente como nós.
Tens uma célula dolorida e todo o teu corpo sofre e geme. Tocam-te a pupila dos olhos e, todo inteiro, vagueias entre sombras, tacteando labirintos nocturnos  em pleno sol do meio dia.
Para cantar 509 anos de nascença, o nosso Funchal não teve bolo nem velas. Só a cereja do velho tronco em cima de mãos e crânios aniversariantes, preparados para a boda. Toda a cidade emudeceu sob o cruzeiro de mil braços, caído na praça.  Os que ficaram de fora, como e onde encontrariam voz para cantar e ouvidos para escutar maviosas canções?!...
Mas é forçoso renascer em dia de aniversário, mesmo entre crepes encharcados de lágrimas. Como aquela mulher que os meus olhos viram,  a única sobrevivente da tríade familiar, os braços engessados, em cadeira de rodas, mas de face erguida, imóvel e serena como a estátua da dor, seguindo o rasto cruel do esposo e do filho-bebé na descida à sepultura! Aquela serenidade quase impassível e sempre impossível que só os grandes gritos de alma sabem guardar!
Levanta-te de novo, Cidade pentassecular! Assenta os pilares de outrora no basalto dos teus alicerces, como em 1803, como em 2010. Mais duro foi o golpe de 2017. Não em 3 de Outubro nem em 20 de Fevereiro, mas no portal de Agosto, na mesa do teus 509 anos!
Outras cidades sofreram iguais tormentos. Na velha Roma, ardia a ‘cidade eterna’ e o tresloucado Nero tocava harpa nos jardins do Capitólio. Não quero crer que haja um só cérebro paranóico que pegue um instrumento – harpa, piano ou tuba – e solte cínicas loas nas labaredas das serras ou no ‘Largo da Fonte’!
Na ínclita Atenas, capital da antiga Grécia de Sófocles, fustigada por sucessivas devastações, o Coro ululante dos Anciãos exigia a morte de Édipo-Rei  para que os deuses não fizessem  desabar toda a sua ira sobre o povo ateniense. Espero que Maria de Nazaré não prossiga a iracunda sentença dos velhos deuses pagãos, ameaçando mais castigos sobre o Monte e a Cidade, enquanto não lhe fizerem mais um apartamento na ‘Capela das Babosas’… E não há quem tape a pia boca bacoca que vomita tamanhas heresias!
 Um 21 de Agosto que, segundo os Anais da Cidade, nunca antes se vira! Inelutável e soturno. Porque não foram muros ou telhados, palácios, monumentos ou catedrais. Foram  Pessoas – Corpos e Almas – que têm dentro valores mais altos que a mais alta arquitectura. Para cavar mais fundo, foi a fatídica tragédia plantada num chão alagado da mais terna espiritualidade…
Aos familiares das vítimas, aos  construtores da Cidade, o Povo, e aos seus representantes, quero entregar este voto, como um patriótico  grito auroreal: : “Levantai agora, de novo, o Esplendor do Funchal” !
21.Ago.17
Martins Júnior