segunda-feira, 3 de setembro de 2018

NEM “AQUI D’EL REI” NEM AQUI D’EL PAPA”… SÓ AQUI D’EL POVO!!!


                                                             
Ondas tão gigantes que não dão para surfar e tão alterosas que só fazem naufragar! Está assim o mundo e sempre esteve e sempre se soube. O que não se sabia – e, por isso, durante muito tempo estava  oculto ao mundo – era o furacão adamastor que ameaça soçobrar a “Barca de Pedro” no mar que é nosso.
Como acontece em todos os vendavais, a devastação estremece tudo à sua volta, mas por estranho paradoxo tudo purifica e faz de novo. Está assim actualmente a Igreja, a nossa. Francisco Papa, quando Giorgio Bergollio, nunca pensou que havia de encontrar tão temeroso “Cabo das Tormentas”: ter de carregar aos ombros a ignomínia de tantos e tantos que se passavam por inacessíveis, intocáveis, impolutos.  Bem pode o Papa gritar aos quatro ventos, a propósito da “corte” que o rodeia: “Com amigos destes não preciso de inimigos”. Até a vaticaníssima repórter portuguesa junto da Santa Sé julgou-se juiza soberana para censurar o Papa, considerando “infelizes” as recentes afirmações em Roma!
Dias tumultuosos atravessa a Igreja Católica. No meio da tormenta ou se afoga ou se renova. Crises maiores viveu em séculos passados. Com uma diferença: é que hoje tem na proa e no porão Alguém que incarna a transparência do Cristo. ”Pai, afasta de mim este cálice”, quantas vezes terá despejado de dentro de si o amargurado soluço do  Horto das Oliveiras!
 Ele sabe que a sua tarefa de regressar às fontes cristalinas de Belém jamais terá fim. Serão precisos mais dois milénios para a a Igreja voltar a ser a Igreja de Jesus. Neste “nó de víboras” em que se tornou o Vaticano, ninguém acode ao Papa. Nem reis, nem principados de anjos e arcanjos, nem purpurados bispos, arcebispos, cardeais e embaixadores-núncios, abusivamente, escandalosamente ditos “apostólicos”. Os mesmos que queimaram Joana d’Arc na fogueira, aí estão assando na grelha, com gáudio e cinismo, o vidente octogenário que “veio do fim do mundo”.
Só o Povo poderá salvar o seu líder, só a grande “companha” dos cristãos terá força bastante para segurar ao leme o seu timoneiro. Mais do que nunca, é preciso que o Povo levante a voz e a bandeira da liberdade evangélica que Francisco Papa lhe restituiu. Nunca hei-de cansar-me de proclamar: Esta é a hora dos verdadeiros seguidores de Jesus.
É a nossa Hora!

03.Set.18                                                                                        
Martins Júnior  

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

QUEM OS VIU E QUEM OS VÊ?... QUEM NOS VÊ E QUEM NOS VERÁ?...



Na transição de cada duodécimo do calendário, vem-nos à memória uma outra frase batida: tal como o clima transitivo, também a vida é, toda ela, transitiva - a vida, o clima, o regime, tudo é transitivo. E somos nós  os criadores, conscientes ou não, da transição
Os regimes transitivos. Têm-me fustigado no mais íntimo as notícias de dois regimes exemplares:  Nicarágua de Daniel Ortega  e  Myamar de Aung Suu Kyi, a líder-de facto do povo birmanês.
Quem se não lembra da sangrenta luta sandinista contra o ditador Somoza? Quem poderá esquecer o povo nicaraguense, a família Ortega, os intelectuais, com especial relevo para a Igreja na oposição, com especial relevo para o escritor e poeta jesuíta Ernesto Cardenal, mais tarde ministro da Educação do seu país. Todos heróis da reconquista da liberdade para o massacrado povo da Nicarágua. No entanto, que atmosfera se respira  em solo nicaraguense?... São recentes as agressões de Daniel Ortega contra os mais elementares direitos humanos. Perseguições, represálias e prisões sucedem-se em série, dizem as crónicas. “39 anos após a revolução, o herói sandinista tornou-se um tirano”.
Myanmar – antiga Birmânia. Uma mulher corajosa anti-regime é presa e assim permanece durante 15 anos. Libertada em 2010, mais  reforça a sua liderança na luta pela paz e contra a descriminação racial. O seu maior troféu foi o Prémio Nobel da Paz, em 1991. Ganhou, por mérito próprio, lugar cimeiro na galeria  dos heróis. Entretanto, agudizam-se as reivindicações dos ‘royingya’, aos quais o governo de Myanmar recusa conceder nacionalidade. É então que o governo intensifica uma tremenda vaga de expulsões daquela pobre etnia, ao ponto de um alto comissário da ONU ter exigido a demissão de Suu Kyi, pelo seu silêncio face aos trágicos acontecimentos e a devolução do prémio recebido em 1991. O êxodo forçado dos ‘royingya’ para o mísero Bangladesh tem sido equiparado a um genocídio humano.
E a pergunta – o pesadelo – é: Como foi possível tamanha contradição? Mais que as alterações climáticas, assusta-me a medonha capacidade do “Bicho-Homem”  em deitar por terra tudo quanto lhe custou a erguer! Que alucinante transição é esta de destruir com tanta indiferença o que gerações construíram com dor e amor ?!
O fenómeno não é novo. Pertence ao ciclo da história. Se rebobinarmos o filme, detectamos que até as grandes instituições – os seus homens e mulheres -  percorreram cegamente os mesmos trilhos. Lembremo-nos de uma Igreja que, de perseguida, passou a perseguidora, de proletária, a milionária, imperialista. Mais recentemente, está à nossa porta essa mesma maldição (dos homens e das mulheres de hoje) que transformaram o Eldorado de uma Venezuela num antro de miséria e abandono.
Neste tempo transitivo, somos nós os responsáveis pelo rodar da carruagem em que viajamos! Quem nos vê hoje e quem nos verá amanhã?
31-Ago-01.Set.18
Martins Júnior

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

QUEM QUER FAZER DA “SENHORA” UMA SEM-ABRIGO NA CIDADE?...




         Nunca se sabe de onde se solta um vespeiro. Tantas e tantas vezes, de onde menos se espera. Aconteceu nestes dias e parece que está para durar a batalha campal no terro nu da extinta e ‘mártir’ Capela das Babosas,  símbolo do idílico remanso da freguesia do Monte.
Confesso que  já tinha dado por findo o tempo-de-antena sobre o caso. No entanto, se fosse possível alinhar as diversas intervenções públicas nos poros de um carvalho antigo, dir-se-ia que um vendaval, semelhável ao tal vespeiro, tomou conta das redes sociais, cá do burgo. Tudo à volta do magno dilema: reconstruir – ou não - a dita ermida. A que se anexa um apêndice não menos saltitante: com ou sem o dinheiro do governo.
Do debate, deveras animado, apenas me interessa aferir o barómetro ideo-pragmático dos intervenientes, as motivações, as fés, os impulsos de quantos escreveram o seu parecer, enfim, uma enciclopédia de mil títulos contraditórios expostos na feira das liberdades. A todas as opiniões é devido aquele inalienável direito que a todos os seres assiste: o direito de existir. Seguramente, o estendal de sentenças pendurado no fio da ‘net’ daria um excelente study case  para psicólogos, sociólogos, bruxos, economistas e, sobretudo, teólogos especialistas em exorcismos e quejandos.
Porque empenhar qualquer esforço apologético (pró ou contra) neste ‘peditório’, acho-o tão inútil como as escaramuças medievais sobre o sexo dos anjos, limitar-me-ei hoje e apenas a observar duas das falanges defensoras da reconstrução, dotadas do mesmo ardor patriótico-religioso com que os cruzados foram guardar (?) os Lugares Santos em Jerusalém.
Na primeira falange estão os devotos, a diocese, os reverendos, os vendedores de velas, os feirantes. Entre eles, recortei uma voz misticamente bem timbrada: “Dêem um tecto a Nossa Senhora da Conceição”, à qual respondeu o respectivo eco: “Não há paz no Monte sem a Senhora voltar para sua casa”. Acaso, quem proferiu tal e enorme sentença saberá de quem está a falar? De que Senhora?... Ai, uma Senhora-Virgem na rua, ao rigor do tempo, quem na acode? Ai, que já temos mais um “sem-abrigo” na cidade do Funchal. E é uma jovem refugiada, de gesso ou de pau, sem eira nem beira…Quero sublinhar que o ridículo e a eventual  ‘blasfémia’ desta interpretação estão só na boca de quem pediu um “tecto para Nossa Senhora”! Os povos primitivos, os pagãos e os idólatras não pediriam melhor…
No outro pelotão do exército pró-Babosas estão os que, extravasando os limites do debate – a citada Capela – alegam a necessidade de construir igrejas e templos, onde reunir-se a assembleia dos cristãos. Inteiramente de acordo. O espaço físico é condição determinativa para agregar os correligionários e simpatizantes do mesmo credo. Não é este o caso das capelas. Estas (segundo rezam as crónicas) são normalmente feudos exclusivistas, pois os grandes senhorios e fidalgos de outrora faziam garbo em possuir uma capela privativa dentro do seu palacete, a qual, por especial condescendência do morgado, era aberta ao povo (caseiro e escravo) em certas datas do ano. Noutras circunstâncias, as capelas não constituíam o fórum da comunidade, antes tinham (e ainda hoje têm) origem em devocionismos locais ou regionais, hipotéticas aparições à mistura com medos e superstições.
E para quem tanto se preocupa em “arranjar um tecto para Nª Senhora”, aconselha-se uma volta à ilha e registe quantas casas, santuários, estalagens, nichos, oratórios, capelas e  capelinhas tem a Senhora da Conceição para recolher-se e deixar de ser mais um “sem-abrigo” na “Singapura do Atlântico”. Aqui, poder-se-ia lavrar em letra de lei: ”Não ofendam mais Nossa Senhora, que já está muito ofendida”. Tenho para mim que, assim como o Vaticano é o muro da vergonha que não nos deixe ver a verdadeira face do Cristo, assim também as milhentas capelas e títulos-alcunhas que, ingenuamente, dedicam a Maria só servem para encobrir, também ingenuamente, a beleza, a coragem e a persistência da verdadeira, da histórica Mãe de Jesus.
Para concluir e não mais voltar a estas manobras de diversão (a Madeira, a Igreja e o Povo  não terão problemas mais importantes e decisivos que a Capela das Babosas?...) acrescentarei que as igrejas-edifício material têm de inscrever nos seus códigos uma função eminentemente social. Elas são também “casas-do-povo”, pertença da comunidade e, como tais, deveriam estar abertas à cultura, a sessões e concertos, como felizmente já vem acontecendo nesta ilha. Igrejas e capelas, apenas como monumentos, são sarcófagos anunciados.
Já o disse o Papa Francisco: “A Igreja tem de sair para a rua”. Tem de abrir-se ao Povo!    

29.Ago.18
Martins Júnior         


segunda-feira, 27 de agosto de 2018

IGREJAS E CAPELAS: QUEM AS FAZ E MANDA NELAS?


                                                      

Foi deveras acalorado o debate que no areópago da net provocou a hipotética reconstrução da Capela das Babosas, engolida pelo furacão de 2010. Maior fricção se eriçou entre os participantes quando veio à tona essa peregrina decisão de reerguer a ermida a expensas do governo.
Peço autorização para entrar na liça, levado não pela emoção de momento, mas pela análise fria da história. Depressa chegaremos à conclusão de que a construção de santuários, basílicas, templos, capelas e capelinhas estão para os governos como a banana para os macacos. Nenhuma instituição está tão interessada em levantar igrejas e catedrais como    o poder político. É uma irresistível atracção dos governantes para assentar arraiais no campanário da aldeia como no carrilhão das catedrais. Aliás, o próprio termo ‘basílica’ significa  ‘mansão do rei’, Santuário Real. Aliás, foi este o argumento com que o Sumo-Sacerdote impediu o profeta Amós de proclamar os oráculos divinos no templo de Betel, pois “este - avisou o Pontífice – este é o Santuário do Rei” (Amós, 7,13).
Não menos sintomática é a coincidência entre a construção das mais sumptuosas basílicas e a motivação que lhes deu origem. Quase sempre tem por inspiração e ocasião uma guerra ou um feito arrasador perpetrados pelos construtores do sagrado monumento. Começando  na primeira basílica construída em Roma pelo Imperador Constantino (Basílica de São João de Latrão, actual sede oficial dos bispos de Roma, os Papas) em agradecimento pela vitória alcançada contra o rival Maxêncio, em 312,  até ao especioso Mosteiro da Batalha ou de Nossa Senhora da Vitória, Portugal, mandada erigir por D.João I (1387-1388) para assinalar a vitória  contra os castelhanos, em Aljubarrota – há sempre um engenhoso móbil, estranho à fé e à pura espiritualidade.
Citei apenas dois exemplos, iniludivelmente comprovativos das motivações sobre as quais assenta o grande volume das construções eclesiásticas: a passada de leão, disfarçada de pomba branca da religiosidade popular. Fala-se, então, da fé do povo só para cobrir de um manto diáfano instintos obscuros. A ostentação de formas, mais evidenciada no barroco, demonstra bem a preocupação do poder absoluto distribuído e mutuamente segurado pela Coroa e pela Mitra. Mau presságio para os crentes: quando é o governo o maior interessado em construir igrejas e casas paroquiais: estamos perante mais um embuste dos açambarcadores de feira Aqui assenta como luva na mão o velho axioma: Time Danaos, etiam dona oferentes – “Cuidado com os gregos, mesmo quando te oferecem presentes”. Neste contexto, os madeirenses já tiveram treino e espectáculo que cheguem.
Antes, no meio e depois deste passeio breve pela história, forçoso é voltar às fontes. Definiu bem o Mestre a essência de todos os templos e santuários, quando um dia exacerbou os pontífices do judaísmo: “Podeis destruir este templo, porque em três dias  sou capaz de reconstruí-lo”. E logo a seguir o texto esclarece: “O templo a que Jesus se referia era o seu próprio corpo”. (Jo.2, 19-21).  Sublime e peremptória definição, porque um corpo indefeso e doente merece mais atenção do que as quatro paredes de um santuário.
Quanto à extrema necessidade de um templo para a fé, o Mestre é lapidar, eloquente, quando falou à Samaritana: “Mulher, podes crer que nem neste monte  nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vai chegar a hora – e é esta mesma – em que os verdadeiros adoradores do meu Pai adorá-lo-ão em espírito e verdade” (Jo.4, 21-13).
Que dirá a história e que dirá Jesus diante do apetite de algum povo e diante de uns restos de parede que um governo pretensamente quer levantar do chão?  
Não posso sair deste “templo” reflexivo, sem reescrever dentro de mim o que proclamou o Padre António Vieira, há mais de quatrocentos anos, na super-aristocrática Igreja da Misericórdia em São Luis do Maranhão, nordeste brasileiro, onde o povo não tinha hospital, nem sequer enfermaria:
“Melhor fora que houvesse hospital e não houvesse igreja. Mas se outra forma não houver, converta-se esta igreja em hospital, que Deus ficará mui contente disso”!!!

27.Ago.18
Martins Júnior
  
          

sábado, 25 de agosto de 2018

“BABOSAS” DO MONTE EM DEBATE: SIM OU NÃO ?


                                                      

Mais uma vez o debate. É dele que se faz a luz e dele é que nasce o dia. Debater é viver.  Porque ele vem do alto. Da montanha ou  da cidade.
E hoje ele aí está em Carta Aberta. Das muitas encruzilhadas que trazia comigo para debate em fim de semana, abandonei-as todas quando me caiu nas mãos essa eloquente Carta Aberta aos governantes ilhéus. Ela vem dos altos da cidade, do extenso “São Roque” e traz a marca do arauto mais corajoso desta ilha, Padre José Luís Rodrigues.
Leiam-na - com a mesma frontalidade com que foi escrita. Está aberto o debate. É a Capelas das Babosas, no Monte, sob o título de Capela da Senhora da Conceição. Reconstruí-la… ou não? Para cúmulo, reconstruí-la com o dinheiro do governo, que é dinheiro do povo?...
Também quero entrar na mesa, mas prefiro saborear a clareza e a segurança do texto referido. Ao mesmo tempo, ressoam-me aos ouvidos fervorosas sentenças  difundidas na rua, nos templos, nas reportagens tais como esta: “O Monte nunca mais terá sossego enquanto a imagem da Senhora não voltar para a sua Capela nas Babosas”!
Enquanto fico à escuta de mais interpretações neste debate, limitar-me-ei a reproduzir o diálogo em  que fui interveniente com o bispo Duarte Calheiros, em sua humilde casa de Volta Redonda, na periferia da grande cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1972. Do século passado.
O bispo acabara de chegar no seu Volkswagen oval, conduzido pelo próprio. E foi esta a minha pergunta:
- Senhor Bispo, andei toda a manhã pelas ruas da  cidade e não vi a Sé da sua diocese. Onde fica, porque quero visitá-la.
O bispo, um robusto homem dos seus 60 anos de idade, sorriu, pegou-me pelo braço. Levou-me à varanda que dava sobre a cidade. E, sem mais delongas, atira-me com esta capciosa provocação:
- Padre português, você vê acolá aquele pavilhão de zinco cinzento?... É uma grande oficina, onde laboram três dezenas de metalúrgicos? … Essa é a minha Sé. A sede da diocese. E mais à esquerda, você repara naquela fábrica. Para ela trabalham mais de 100 operários. Essa também é a minha catedral. E mais lá ao fundo, quantas vê você, padre jovem português?... Todas esses telheiros são os altares da minha diocese. Entendeu agora onde fica a minha Sé Catedral?!
Entendi. E de tal forma que jamais esqueci. O templo, a igreja, o altar estão onde estão as pessoas. Na vida real, no trabalho, na luta, na acção.
Por hoje, aqui me quedo. Está aberto o debate. Saia Luz!

25.Ago.18
Martins Júnior

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

CAMPA RASA OU PANTEÃO: QUEM TEM RAZÃO?


                                                                    

                Nesta estação ligeira, embora acalorada pelo sol e pela floresta indefesa, paira nos ares a sombra inquietante de um quase-fantasma: o debate. Ele aí está ao virar da esquina, ao dobrar a folha do jornal. Pode, pois, arvorar-se em tarja larga o axioma: Debater é Viver.
         E o debate faz bem. É saudável. Não precisa ser apaixonado, gárrulo, maniqueísta. Debate, exige-se-o dialogante, ponte pênsil entre duas certezas opostas. Porque, ao fim da refrega suspensa, chegamos sempre à síntese final: a razão está dos dois lados. Por outras palavras: no debate sério e transparente, o pêndulo da verdade balanceia-se entre um extremo e outro, há parcelas de luz divididas entre as penumbras em litígio. Daí, a serenidade e  a objectividade, como pilares fundamentantes do verdadeiro debate.
         Sem esquecer o facto inicial que deu o mote a estes dias – o debate – chega-nos imprevistamente , mas muito oportunamente, a questão difundida nas redes e na comunicação social: ZECA AFONSO NO PANTEÃO NACIONAL! Sim ou não?
         A Sociedade Portuguesa de Autores, promotora da iniciativa, levanta um mausoléu, um trono, um altar e aí cita Luís Vaz de Camões, exaltando o Cantor de Abril “entre os barões assinalados… os que da lei da morte se vão libertando”.  Porque ele merece. Porque todos os portugueses são-lhe devedores da Liberdade que ele cantou, sofreu e ajudou a implantar em Portugal.  E continua o clamor apoteótico: “Ditosa Pátria que tal filho teve”!
         Mas do outro lado do rio da História, está alguém que não cita Camões nem Pessoa, mas que em silêncio vai curtindo uma saudade irmanada com o pensamento do Zeca: “Ele recusou sempre os louros do regime, voltou as costas aos medalhões decorativos da hipocrisia oficial. Até deixou marcado em caracteres de dor macerada mas reconfortante o seu último desejo: sepultar-se em campa rasa… Como, pois, renegar a última vontade do seu autor?... Seria uma traição ao pensamento e à coerência existencial de Zeca Afonso”!
         Este o argumentário sentido do outro lado da ponte do debate.
         Então, em que ficamos? Quem tem razão – a SPA ou a família do precursor de Abril? E quem se atreverá a dirimir a questão? Em boa verdade, ninguém. Porque ambas as partes têm razão. “É o drama deste mundo – escreveu Gilbert Cesbron – todos têm razão”. Porque tudo depende da cor dos olhos que vêm a paisagem, o rio, o debate.
         E que farão as “hostes” em confronto? Gritar, terçar armas, guerrear por causa de Zeca Afonso? Mas como, se ambos os redutos pretendem o mesmo objectivo – estar com Zeca Afonso?!...
         Eis aqui o paradigma de todos os debates. Há sempre parcelas de luz nas duas frentes em litígio. Daí, os dois pressupostos estruturantes de qualquer debate: Serenidade e objectividade.
         Pela minha parte, confesso a minha tímida oscilação entre os dois pilares da ponte pênsil e o meu coração balança entre os dois. Entretanto, ao recordar essa tarde memorável em que me juntei à multidão-povo genuíno, cantando pelas ruas da cidade todas as “Grândola’s” do mundo,  antes de vê-lo romper a terra-campa rasa onde quis  ficar, deixo aqui expresso o meu voto, num breve excerto, transcrito nos “Poemas Iguais aos Dias Desiguais”,  por ocasião do 30º aniversário da sua morte:

FALA DO ZECA NA LOUSA 1606
Nem mausoléu nem flores
Nem mesmo campa rasa
Nem tubas nem tambores
Não me tragam rosas bem-me-queres
Porque eu não estou aqui
Nunca foi esta a minha casa

Vagueio errante mas não errado
E estou sempre onde estiveres
--------------------------------
Eu estou em ti
Tu és o meu país
Que desbravo e cavo
Para encontrar
Vermelho como um cravo
O corpo morto do meu povo cativo
------------------------------
Eu não morri
Porque vivo em ti

23.Ago.18
Martins Júnior

terça-feira, 21 de agosto de 2018

NOVO MILAGRE DO DEBATE




Todo o debate é útil. Seja qual o seu desfecho. Umas vezes, levará a mudar de rumo, a erradicar todo um passado. Outras vezes, obrigará a voltar ao porto de partida para reiniciar a viagem que, entretanto, perdera a bússola. Outras, ainda, ficará na estação de serviço, aparentemente hibernando, ou em hospital de campanha em gestação prolongada até que chegue o dia, o ano, a década e até o século para ver o sol nascente. Sempre é útil o debate. O pior -  porque inútil e putrefacto – é o seu contrário, o silêncio cadavérico do molusco orgulhosamente, hermeticamente gradeado na sua concha.
Serve a introdução para todo o processo histórico, seja ele entre as quatro paredes do apartamento ou entre instituições, pátrias e continentes. Hoje, decidi ultrapassar (mas sem nunca esquecer) a efervescência de tantas crises que todos os dias nos caem nas mãos e onde o debate está ao rubro, parece que “sem terra à vista”: são as ameaças de guerra, são os êxodos de migrantes forçados, batidos na sua pátria e chutados da pátria alheia. São ainda os debates ideológicos que não requerem pressa nem esgares de alma.
Ultrapasso, portanto, todo esse mar revolto e trago à ribalta do dia o milagre do abraço que o debate de 65 longos anos realizou entre famílias forçosamente desavindas, separadas, mutuamente hostilizadas. Refiro-me ao memorável encontro na estação  turística de Qumgang, Coreia do Norte, entre irmãos que desde 1953 jamais se tinham visto. Muitos já terão partido sem ver a luz que as trevas da ira lhes roubaram. Mas o feito aí está. Tão grande e proclamatório como a queda do Muro de Berlim, em 1989!
A fúria cega entre dois homens originou a Guerra das Coreias e a mais horrenda separação de pais e filhos, a fuga desesperadas entre irmãos da mesma casa. Seis décadas transcorridas, outros dois homens realizaram o maior milagre, qual é o de voltar a unir braços e corações. O mago taumaturgo deste feito: o debate! Tivessem continuado os dois regimes – irredutíveis fratricidas – de costas voltadas, enclausurados cada qual no seu cavername sectário e nunca o Sol do Amor teria retomado a sua marcha de outrora na asiática paisagem. Se foi dolorosamente comovedora a separação, não menos emocionante, positivamente comovente foi o reencontro.
Eis a decisiva fecundidade do debate. Sem esquecer o último tema deste blog – o debate sobre o Celibato na Igreja, oportunamente proposto pelo pensamento consistente, coerente e transparente do Padre José Luís Rodrigues – seja-me permitido aditar que a questão em apreço é inimiga da pressa e do preconceito, por mais fervorosos e piedosos se apresentem. Daqui a 50 ou 100 anos, ainda haverá debate sobre a mesma praxis. Porque há mais de 50 e 100 anos já o caso era tema de prós e contras.
E se, para unir as duas Coreias foram precisos 65 anos, quanta décadas não levará o debate sobre um facto consumado há mais de 1000 anos?...
 O debate sério e consciente nunca perde o seu condão, semelhantemente na linguagem bíblica: “A Minha Palavra é como a água das chuvas: não volta às nuvens sem produzir o seu efeito”. (Isaías, 50, 10-11).
21.Ago.18
Martins Júnior