segunda-feira, 1 de abril de 2019

AS CHARADAS DO PRIMEIRO DE ABRIL


                                                    


Em dia de mentir, não há outro remédio senão fazer greve à palavra.
Melhor ainda será cruzar o rasto das palavras ditas, palavras vistas, palavras encriptadas – via imprensa, rádio, ou televisão – pois que este é o dia de expor ao sol a originalidade de “fintar” os seus crédulos consumidores.
Só amanhã sabê-lo-emos. Enquanto isso, resta pôr à prova a capacidade interpretativa desses fiéis clientes  e a cada um deles formular a ‘pergunta da ordem’:
Quantas mentiras  (vulgo dictu pêtas) te enfiaram no dia delas os diários, os microfones, os televisores?
É um exercício charadístico de longo alcance, como demonstrarei amanhã, depois de passar a ponte quebrada sobre os rios que separam a verdade da mentira. Até lá.
01.Abr.19
Martins Júnior    

domingo, 31 de março de 2019

DE 31 DE MARÇO PARA 1 DE ABRIL


                                                        

Bastou o segundo imutável e severo para erguer-se a ponte que me leva do dia da verdade à noite da mentira. Ponte  sobre os rios invisíveis que apartam a luz das trevas. Mais te valera, ó ponte, que arquitecto algum te houvesse concebido!
Sabendo que o outro lado é escuro e que movediça como o lodo é a mentira, onde assentará o pilar sustentáculo da ponte? Talvez que ela, afinal, nem exista sequer. Talvez que seja eu a mesma ponte e o seu transeunte… Quem sabe se não serão todos os dias essa ponte que, de tão íntima e discreta, nem damos por ela?!
Amanhã, “primeiro de Abril”  de cada ano, verei eu e veremos nós de que palavras nossas e nossos passos é feita a estranha passadeira que nos leva, todos os dias, da claridade ao negrume, da transparência à opacidade, enfim, da verdade à mentira.

31.Mar.19
Martins Júnior
  



sexta-feira, 29 de março de 2019

600 ANOS NAS MÃOS DE UM POVO!


                                                       

Machico neste dia traz as boas novas. E trá-las pelas mãos genuínas dos herdeiros de Zargo e Tristão. Herdeiros, digo bem, porque hoje todos somos Machico, todos somos Madeira. Os mestres, os historiadores – de dentro ou de fora – hoje sentem as raízes ancestrais da Primeira Capitania da Madeira. Vieram ensinar os caminhos de outrora, por onde viajaram, lutaram, moirejaram os cabouqueiros desta nau itinerante  de nome Madeira..
Isto acontece sempre que os autênticos pioneiros do processo criativo e reprodutivo toma conta dos acontecimentos e transmite-os ainda quentes de emoção e verdade. Sem alarde publicitário e  sem o proteccionismo das chamadas cúpulas, Machico sulcou as vagas do oceano e foi até aos confins do Achamento/Povoamento da Ilha, para voltar de novo, carregado do ouro da sabedoria para no-lo oferecer com a pujança e o afecto de quem ama esta terra.
                                                          

Dia grande para as gentes de toda a Madeira, mais directamente para Machico e Funchal, os “Lugares Pioneiros” da nossa história insular.
De tudo quanto foi dito e visto, agigantou-se a beleza imperativa do dia 8 de Maio de 1440, data da Carta da Doação da Capitania de Machico a Tristão Vaz Teixeira. A do Funchal viria mais tarde, em 1450. Daí, a feliz e necessária decisão de, nesta magna efeméride hexa-secular, colocar o Dia do Concelho no seu berço original, 8 de Maio, fazendo dele o trono hereditário deste Povo e desta terra, oriente inicial,  onde o sol nasce primeiro.
Bem hajam os seus promotores. Bem Haja o Povo que os recebeu.

29.Mar.19

quarta-feira, 27 de março de 2019

A DIVA E O MONSTRO ANÃO – A NOVELA DA “NOSSA” VERGONHA


                                                      

Eu sei que daria para Homero reescrever a Odisseia, mas outra – trágica, medonha, suicidária. Eu sei que Dante reformularia a sua “Comédia” – já não “Divina”, mas satânica, infernal. Daria também para Picasso reinventar a monumental “Guernica” – mas a cores e dores esquizofrénicas, descomunais, impossíveis de olhar.
Por isso, se alguém ler o caso e a letra, apague-os do seu ‘écran’, destrua e esqueça. Mas o caso é de todos os dias. E a letra também:
Na mesma arena ou na mesma selva, frente a frente desafiam-se, de um lado a Diva, imperturbável e bela. Do outro, o pigmeu, com armadura de monstro. Diva, Imensa, Inacessível no seu eixo invisível – a Natureza. Pigmeu – o humano batráquio, seu provisório inquilino. Nascido para ser rei soberano, tornou-se monstrozinho do charco. Na marcha silenciosa que lhe foi imposta, a Diva Natura abre caminho, avança, esbraceja e instintivamente arrasa obstáculos para, depois, reanimar tudo à sua volta. O pigmeu também investe e sabe que o faz assumidamente, arremessa-se armado em besta, rivaliza e encarniçadamente põe tudo em cinza morta. A Mãe Diva lamenta e chora o rasto que deixou, mas promete nova vida na próxima primavera. O pigmeu regurgita de raiva e fogo. E promete mais praga e destruição, ufano de outros monstros que deitou do bucho para fora.
Um quadro, uma tragédia de esquecer!
Por outras palavras: os ‘tsunamis’, as erupções vulcânicas, os terra-maremotos, as recentes cheias de Moçambique (acompanhei-as, idênticas ‘in loco’, no ano 2000), trouxe-as inelutavelmente a Natureza no seu movimento sucessório. Mas a destruição no Iraque, as fomes na Venezuela, as ruinas na Síria, os crimes de guerra no Centro-África, enfim, Hiroshima, Nagazaki – isso e muito mais foi o pigmeu, monstro do charco, foi o homem quem o fez. E, nele, fomos nós todos que o fizemos.
Perante o (des)composto humano e para ver estas monstruosidades, talvez tenha razão Antero de Quental quando, ao constatar o desconcerto do mundo, desabafou amargurado: “E sempre o pior mal é ter nascido”. Antes dele, já o Mestre da Galileia dissera para Judas, sentado à mesma mesa: “Melhor fora  que nunca tivesses nascido”. Perdoe-me quem  lê, mas nesta hora não resisto ao pessimismo rasteiro de Shopenhauer: “Quanto mais conheço os homens, mais gosto dos cães”. Esses, os da guerra. Esses, os pigmeus facínoras, donos do mundo.
E concluo no mesmo tom: talvez fosse melhor não ter escrito isto. Mas hoje foi assim. E não apenas hoje. Todos os dias e todas as horas em que vejo o homem-minúsculo a rivalizar, em destruição, com os poderes astrais.
Amanhã será melhor. Se cada um de nós quiser.

27.Mar.19
Martins Júnior
           

segunda-feira, 25 de março de 2019

25 DE MARÇO – O DIA DAS MULHERES-PADRES!


                                                

Não é uma tese nem sombra dela o que me proponho apresentar. Aliás, é assunto que estava longe de abordar, porque para fazê-lo cabalmente teria de desenterrar arquétipos, mitos e concepções desde que o ser humano pôs pé neste planeta. Permitam-me ajuntar mais um outro empecilho, este colhido no piropo de um amigo meu que costuma dizer: “Há quatro coisas que eu não discuto com ninguém -  Futebol, Política, Religião e… Mulheres”.
E vejam a rifa que hoje me saiu: Religião e Mulheres. E porquê?... Pela estranha (ou pouco conhecida) efeméride que  neste dia, 25 de Março, dá pelo pomposo nome: “Dia de orar pela Ordenação de Mulheres na Igreja Católica”. Por outras palavras: orar, pedir para que as mulheres possam exercer as funções de padres, chamando-se, elas-mesmas, sacerdotes ou, mais propriamente, sacerdotisas.
Devo confessar abertamente que não acho uma tão contraditória, ridícula e falaciosa proposta como essa: orar, pedir para que a Mulher receba o sacramento da Ordem Sacerdotal.
Orar, pedir… a quem? E quem é que nos manda pedir?... Mais: quem é o correio ou estafeta do nosso pedido para que ele chegue ao seu destinatário?... Naturalmente ora-se, pede-se a Deus, Todo Poderoso  Quem nos aconselha a fazer o pedido será, também naturalmente, a religião, a Igreja. O correio ou o portador do pedido é, naturalissimamente, a mesma entidade, ou seja, a religião, neste caso, o trono-altar em que se senta o Vaticano.
Oh insensatos, originariamente dotados de senso, que somos nós! Fernando Pessoa equaciona a lógica poética quando diz: “Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce”!  Mas no caso vertente, perverte-se toda a  razão lógica, porque:  Deus quer, o Vaticano proíbe,  a Obra morre. Em vez do consenso, aborta tudo no contra-senso: a Igreja que aconselha a pedir e o Vaticano-caixa-de-correio gritam, em uníssono e a mil guelras, desde o fundo dos séculos: “Vade retro, Sátanas”! Desapareça o satanás que avance com tal requerimento! Nesta arena ou neste conflito de competências, o Vaticano manda mais do que Deus. Paradoxo insanável: Deus fica a perder, sempre. Então digam-me agora se não será o “25 de Março” a tal farsa – contraditória, falaciosa e. no todo, ridícula?
Eu disse que hoje não vinha elaborar tese. Entretanto, só duas ou três notas:
Como convencer a Igreja da bondade e da razoabilidade da proposta, quando desde as primeiras páginas do “Livro”, a Mulher foi sempre inferiorizada, diabolizada, culpada de tudo, até da maldição de toda a humanidade, só porque provou um naco da maçã proibida?!... No século quando uma jovem francesa de 19 anos liderou a luta pela defesa do seu povo contra o invasor estrangeiro, a sentença dos bispos reunidos foi “exemplar”: queimar publicamente na fogueira Joana d’Arc.  
No âmbito dogmático-sacramental, o carácter nuclear do Sacerdócio e o seu conteúdo funcional específico está no momento da “Trans-substanciação operada pela Consagração do Pão e do Vinho na Eucaristia”. E, com o direito que assiste a qualquer ser pensante, pergunto: a Trans-substanciação terá sexo?... Respondam-me os teólogos, os biblistas, os liturgistas. E não esqueçam os antropólogos, os hermeneutas e afins.
 O recurso à analogia histórica (mas não tão sólida como a fazem) de que Cristo só escolheu homens para seus apóstolos ou colaboradores mais próximos, esfarela-se com uma linear constatação: se nos dias que correm ainda subsiste o estigma de que “onde está a cabeça (o homem) os pés (as mulheres)  não mandam”, quanto mais há dois mil anos, numa sociedade visceralmente patriarcal e machista, como eram a idiossincrasia e a religião judaicas!... É preciso ser-se muito anacrónico e retardatário para não ver a realidade factual de cada civilização e respectiva evolução. Muito vantajosa será, neste item, uma releitura dos Evangelhos, dos Actos e das Cartas Apostólicas.
Retomando as considerações exaradas no escrito anterior (23.03.19) a solução não está no exclusivo acto de orar ou pedir, mas antes no agir. Valorizem-se, por si próprias, as mulheres. Promovam-se a pulso e com brio, sem esperar a “esmola” das quotas. Já agora, com que suspensão ou excomunhão seria punido quem propusesse ao Vaticano um regime de quotas para as mulheres, a nível de ordenações, paróquias ou dicastérios romanos?!
 Quase finalmente, atrevo-me a dizer que reduzir a altíssima dimensão da espiritualidade e o plano libertador de Cristo ao simples tracejado da condição sexual é, no mínimo, defraudador, senão mesmo sacrílego. Nesse código, em vez de teologia estudar-se-ia sexologia…
Agora, mesmo finalmente, ouso terminar, não com uma cereja em cima do bolo, mas com um pingo de vinagre corrosivo e, ao mesmo tempo, estruturalmente construtivo, que resumo nestes termos:  Para alistar-se num regimento religioso como aquele que por aí prolifera e vegeta, à base de devocionismos pietistas, procissões populistas e similares – não vale a pena, distintas senhoras, orar pela vossa ordenação. Mereceis muito mais! E a Religião também!

25.Mar.19
Martins Júnior

sábado, 23 de março de 2019

UM DEUS DE DUAS CARAS


                                                        

“Porque hoje é Sábado”…
Comecemos com Vinicius de Morais para abrir o Livro que em cada fim de semana nos é proposto, com sabor a narrativa bíblica de longo alcance didáctico. Juntemos a esta rampa introdutória a tendência inata no psiquismo humano de transmutar a realidade em diversos cambiantes conforme o ambiente e a circunstância, tendência esta mais notória na interpretação dos mitos e na estratégia das religiões, de que é caso paradigmático a mitologia greco-romana quando, por exemplo, representa o deus Jano com duas caras (e, nalgumas versões, com quatro) por ser ele mesmo a divindade das mudanças ocorridas no mundo.
Mas não de Jano que me ocupo. É de algo mais difuso e confuso, como seja a dupla crença em que navegam, arrastam-se, vegetam ou hibernam os povos. Tomemos os textos de hoje:
No Livro do Êxodo e em toda a literatura judaica, o Autor formal e material de toda a história do povo hebreu tem um nome – Iahveh, Deus. Ele é que comanda as tropas, Ele é que abre estradas no mar, ele é que põe e depõe os líderes, os reis, faz e desfaz as instituições e as leis. O homem, “saído das Suas mãos” fica inelutavelmente prisioneiro autómato nas mesmas mãos. Faça sol ou chuva, haja sucesso ou prejuízo na agricultura, na economia, na saúde, “isso é tudo com Ele, Todo Poderoso”.
E assim se desensinou um povo, assim se alienaram gerações futuras, assim ficou a história manietada, inamovível, sob o bastão inflexível de Iahveh. Até hoje.
Mas não é assim que está escrito em Êxodo (3,1-8). Bem ao contrário! Na sua visão patriótica e angustiante (a escravatura a que o seu povo estava condenado durante 40 anos), ouviu Iahveh partilhar da mesma angústia e da mesma indignação. Mas não foi Iahveh quem liderou a oposição radical contra o Faraó. Mandou Moisés no seu lugar. A guia de marcha foi peremptória, inapelável: “Vai tu, Moisés”! E assim aconteceu.
Neste mesmo alinhamento de textos,  o Livro de Lucas (Luc. 13, 1-9) não deixa margem para dúvidas ou pias interpretações. A palavra de ordem é agir, produzir. A inércia e o quietismo, mesmo que disfarçados de pietismo confessional, ali não têm lugar. No texto citado,  o nosso Líder, o  Mestre, o Nazareno “agricultor” consulta a figueira que plantou com tanto carinho no seu campo. Consultou-a, dialogou, deu-lhe todas as liberalidades e nutrientes para poder alimentar-se e produzir em tempo oportuno. Tudo em vão. Fez nova tentativa. Sem sucesso, outra vez.. Resultado: cortá-la pela raiz.
Aqui ficam, em síntese, as duas caras com que os homens pintam o rosto invisível da sua crença e que deixam marcas decisivas na mentalidade e na conduta das sociedades. Como nos mais remotos lugarejos, também em certos ambientes de cidade, ainda persiste o vírus hipócrita dos ”deseducadores” do povo crente, anestesiando-o com devoções vazias, cortejos processionais de nítidos contornos populistas, afim de travar qualquer tentativa mínima de alterar o “status quo” paralisante, não só na esfera dita religiosa mas em todo o tecido sócio-económico e político.
Não é esse, porém, o pensamento dos genuínos cultores da espiritualidade que fazem da ideia a matriz da sua acção dinâmica e consequente. Assim os construtores da história, com Cristo-Líder na vanguarda. Não peçam ao Senhor Deus a paz – peçam-na aos imperadores do mundo. Não rezem a Deus por justiça – exijam-na aos legisladores, aos juízes e  aos “donos-disto-tudo”. Não acendam velas estéreis contra a violência doméstica – ensinem as famílias, proporcionem condições dignas,, curem as neuroses, punam os criminosos.  
Enfim, não arranjemos mais deuses nem máscaras para eles. Basta-nos o olhar vigoroso e terno do Mestre que hoje nos fala em Lucas (13,1-9) aquele Nazareno “de um só rosto e de uma só fé/ De antes quebrar que torcer”! (Sá de Miranda).

23.Mar.19
Martins Júnior

quinta-feira, 21 de março de 2019

AO LARGO DO ILHÉU-MAR DA PONTA DE SÃO LOURENÇO: FALA DE TRISTÃO E ZARGO


                              


Será monstro ou mostrengo
Promontório ou tenebroso cabo
O que os meus olhos tocam lá onde
Assomam esconsos do diabo
Para engolir as frágeis naus em que navega
A Cruz de Avis, de Sagres, de Jerusalém?

“Oh São Lourenço, chega”!
Que tanto maior que o medo que do monstro vem
Será o velame
Desta bandeira-gente lusa que se fez ao largo.
Ou não me chame
Tristão ou não me chame Zargo!

De ti rochedo informe
Farei o milagre do pão
Em jardim terreal
Pão enorme
Do açúcar do vinho tântrico do perfume oriental

Que todos te amem, jamais ninguém te tema
Estância universal em Dia do Poema

Adeus  mar bravio, sangue amargo
Das fragas em cachão
Ou eu me não chame Zargo
Ou não me chame Tristão!
  ,
21.Mar.19
Martins Júnior