quarta-feira, 3 de agosto de 2022

ENTRE A “ARMA DO TRIGO” E O “MILHO DA ESPERANÇA” – ASSIM NAVEGA O MUNDO… E A ILHA TAMBÉM!

                                                                                 


Ao partir de Odessa o barco primeiro carregado de milho, António Guterres, Secretário Geral da ONU, teve um invulgar  rasgo de eloquência e duro realismo quando afirmou: “Aquele barco leva dois carregamentos, qual deles o maior: o Milho e a Esperança”.

         Um mês antes, o Courrier International citava o articulista do Washington Post  e estampava na capa da revista, com um expressivo trigal em fundo,  esmagado pelos tanques russos: “L’ arme du blé” – a Arma do trigo.

         Paradoxal e tremenda radiografia da sociedade humana: de um lado, o Trigo, o rei dos cereais, transformado em arma de guerra, retida nos enormes paióis agrícolas. Em vez de pão para a boca dá munições para a morte. Por outro lado, o Milho, o sustento dos famintos e dos animais domésticos, esse é que alimenta uma réstia de Esperança no meio da tormenta.  

A isto chegámos, após séculos de evolução e crescimento. As classes dominantes, detentoras do capital e dos meios de produção, organizam-se em fortalezas de bronze (nos bancos, nas empresas, nos paraísos fiscais) prontas a disparar ao menor sinal de alarme social. Nos antípodas da sociedade,  os pobres, os operários, os refugiados, enfim, o proletariado, mesmo atirado para a vala anónima da plebe, é quem projecta ainda um halo de Esperança nos dias futuros.

         Em tempo de verão relaxante e restaurador de saúde e optimismo, quase se nos repugna debruçar o olhar sobre este charco de batráquios em terra seca. Mas é o que aí está patente, nu e despudorado diante de todos nós. A sanha cega e surda de um homem só contra todos: se não consegue atingi-los com os mísseis supersónicos, então estrangula-os com o garrote da fome!

Não restam dúvidas de que voltámos à barbárie da selva, do “olho por olho e dente por dente”. Do “homem, lobo do outro homem”.  Quem  suporta ver toneladas e toneladas de trigo bom a apodrecer diante de bocas esfomeadas, indefesas,  a gritar pela vida de um naco de pão?!...  Qualquer cidadão do mundo, dotado de um mínimo de bom-senso, outra reacção não teria senão tapar o rosto, cobrir-se de vergonha e fugir, fugir sem rumo certo até encontrar nem que fosse uma nesga de mar e aí afundar-se e afundar toda esta peçonha fedorenta que nos servem à mesa todos os dias…

Mas o trágico da situação é nem assim conseguir-se-ia afundá-la, essa crápula abjecta de um indivíduo, a cuja espécie genética também pertencemos. Um indivíduo e um regime!

Indivíduos e regimes que não são um exclusivo endémico do solo russo. Também por aqui deitam raízes que vêm à superfície, sobem-nos pelas pernas acima, apertam-nos as veias, desestabilizam-nos o coração e a mente – a vida. Todos os dias, mesmo sem nos apercebermos disso. Ai, a corda da fome enrolada ao pescoço de crianças e idosos dependurados ao relento das horas, sem ninguém que lhes valha! Ai, a vingança requintada de governantes – até dentro dos muros da religião - contra quem se lhes opõe  em nome da Justiça e da Verdade!!!

Ainda ecoam aos meus ouvidos e de todos os que tomaram conhecimento de um governante ilhéu – para mim, de sangue mestiçado entre Hitler e Putin – que vociferava em redor da Ilha: “Para Machico, nem um tostão”. E de um outro ‘sócio’ colaboracionista bispo que às Irmãs, freiras do Convento da Caldeira (a única instituição católica que fabricava e vendia  hóstias a todas as paróquias da Madeira) sim, proibiu-lhes de fornecer as hóstias para as missas  na igreja da Ribeira Seca… O garrote financeiro a Machico e o garrote da fome eucarística aos cristãos da Ribeira Seca. É cru e é cruel o que escrevo, mas é a realidade inexorável que se viveu. E que poderá vir a acontecer se os madeirenses não estiverem vigilantes.

Enquanto o “Milho da Esperança”  faz-se às ondas para matar a fome a um povo carente, transformemos a Esperança em Trigo de Certeza de um Mundo Melhor. Pela nossa vigilância e pela nossa intervenção!

 

03.Ago.22

Martins Júnior  

domingo, 31 de julho de 2022

SINALÉTICA LOCAL PARA UMA HISTÓRIA GLOBAL

                                                                              


A euforia estival não impede o curso normal dos dias que fazem a história do mundo. E na ampla história do quotidiano das gentes perpassa aquele princípio da filosofia que nos faz partir do particular para o universal, ou seja, detectar num episódio local horizontes virtuais que se traduzem em teses e conclusões de âmbito global ou, como classificam os sociólogos, um fenómeno de “glocolização”.

         Foi o que me foi dado observar e ‘viver’ neste início da semana. Sintetizo-o em três tópicos – tão distintos e tão iguais nos seus contrastes – que passo a partilhar com quem me acompanha regularmente neste passeio familiar.

1.     Algo de invulgar, direi mesmo estranho, aconteceu nas páginas do decano dos matutinos regionais: um estudo muito sério, assinado pelo jornalista Élvio Passos, sobre um eclesiástico, pároco do Faial, que em 1936, aquando da encarniçada luta, denominada “Revolução do Leite”, contra os monopólios dos lacticínios n Madeira, assumiu por inteiro a defesa do seu povo, os camponeses criadores de gado bovino. Era o tempo da pesada e persecutória ditadura salazarista. O Padre Teixeira da Fonte, forçosamente envolvido nessa refrega perigosíssima para a sua própria segurança pessoal, entendeu que não podia voltar as costas ao seu povo, valendo-lhe a prisão para o Forte de Elvas. Conheci homens e mulheres da Ribeira Seca (hoje, já falecidos) que me relataram a rudeza implacável com que o Padre e os restantes presos foram tratados nessa altura. Mesmo na prisão, ele era o arrimo psicológico e moral de pais, mães e filhos, levados nesse fatídico transe.

          

No cancioneiro da Ribeira Seca, lá está a evocação, em verso, música e coreografia, da “Revolução do Leite”:

                                      Até o Padre do Faial

                                      Padre Teixeira da Fonte

                                      Por defender o seu povo

                                      Também foi levado a monte

 

         A diocese abandonou-o. Saído da prisão, cursou Direito e foi advogado em Lisboa de muitos presos, vítimas da ditadura salazarista. Grande Sacerdote que teve por trono uma cadeia e por altar o sacrifício da verdadeira Eucaristia: dar a vida pelo seu povo! Nunca me há-de sarar a ferida de não o ter conhecido em vida!

2.     Participei hoje na “Missa Nova” de um neo-sacerdote, meu conterrâneo. Em toda a cerimónia, revestida de imponência e sumptuosidade litúrgicas, só via diante de mim um Padre humilde e sofrido – o Padre Teixeira da Fonte - que cumpriu o mandato evangélico: servir o Povo de Deus, mais que servir e aninhar-se na Instituição.

 

3.     Na mensagem do LIVRO para este domingo, o Mestre Nazareno põe de sobreaviso os Doze, acautelando-os contra as vaidades mundanas, a ostentação e o dinheiro, as quais podem camuflar-se sob as roupagens do clericalismo triunfalista.

 

Ao compulsar o testemunho de Lucas 12, 13-21, tocou-me até ao mais íntimo de mim mesmo a contradição gritante entre o ritual apoteótico da ordenação de um jovem clérigo e a degradante  prisão do Padre Teixeira da Fonte.  Sinais dos tempos, que dimanam desta minúscula parcela de território, mas atingem toda a história da Instituição!

.

                   31Jul -01.Ago.22

                   Martins Júnior

sexta-feira, 29 de julho de 2022

SILLY NIGHT MADE IN MADEIRA

                                                                              


(Mini-GPS nocturno para um sábado sem rumo)

 

Primeiro, sais do apertão de gente na baixa de Machico, enquanto os Zargos e os Tristões abrem as dezenas de barracas gastronómicas de comes-bebes-e-pagas. Apanhas logo a ‘Nau São Lourenço’ ou um tuc-tuc ad-hoc e zarpas até Santana (e São Joaquim, os abuelos) e aí tens à pega o compadre ‘Jodé’ mais o títere da TVerão que vão entrevistar-te para TVeremos. Espetada, vinho, poncha e bolo-caco a rodos.

Depois, se te arranhar os tornozelos a filarmónica da ‘terra tabaqueira’, sãroqueira, saltas logo para as ‘Feiteiras’ vicentinas e aí apanhas no palco o padre da festa ajudando o padre do ‘aperta-com-ela’ numa cega-rega que te põe a zunir e a dançar com as moçoilas do bardo.

Mais um pulo e vis cair num mar de cerveja naqueles baixios das piscinas naturais do Porto Moniz. Ui, cuidado que ainda te afogas, nos batentes dos Xutos e nas cotoveladas de gente a mais para uma muralha tão pequena.

 

O melhor é pirares-te para o Montado do Pereiro e aí, na lagoa do chão  de todas as ressacas, entras à boleia de uma tenda e esperas sentado o ‘climax’ do ribombar sexy das bombas ralli-feras que comem alcatrão e põem a Madeira Autónoma no mapa-mundi!

 

Então, até o sol raiar, o cesto-riquexó cá da ilha burguesa leva-te nos braços ao convés do cruzeiro henriquino que a marca Sagres gravou no casco. Ela lá está à tua espera para atirar-te fora da barra, como o grande almirante de uma nau-sem-rumo…

Que noite, toda a noite, toda a noite, Saturday,  made in Madeira!

         29.Jul.22

         Martins Júnior

  

quarta-feira, 27 de julho de 2022

O ÚNICO SOBERANO COLONIZADOR QUE PEDE PERDÃO AOS COLONIZADOS…

                                                                       


Pela primeira vez relevo a nomenclatura híbrida do Papa de Roma, situando-o no trono que Benito Mussolini lhe outorgou, pelo Tratado De Latrão, de 11 de Fevereiro de 1929: o de monarca de um país, minúsculo embora, mas a todos os títulos dotado de soberania autónoma. Discordando terminantemente desta estranha e explosiva simbiose – entidade bicéfala saída do mesmo tronco e na mesma pessoa – apraz-me vê-lo assim, sobretudo nesta viagem ao Canadá, porque o que está em primeiro e último plano é o pedido de desculpa ao Povo Indígena pelas “atrocidades e pelas graves injustiças perpetradas pelo colonialismo contra a cultura e a sobrevivência desse Povo”.

         Não adianta dourar a pílula, porque no acto de contrição do Papa Francisco está bem patente a Igreja, como parceira conivente, identificada com a fatídica realidade denunciada pelo Papa: o colonialismo. Tive o cuidado de, em epígrafe, cognominar eufemisticamente  o Representante Máximo da Igreja Católica como “Soberano colonizador”, em vez de “Super-monarca colonialista”, porque, bem vistas as coisas e os efeitos delas, a Igreja aliando-se ao poder temporal dos reis na colonização dos territórios ocupados foi ela mesma ainda mais além: colonizou as mentes, as culturas, direi mesmo, as próprias almas. Daí que é maior e mais estrénua a sua responsabilidade, razões redobradas para a sobre-humana atitude pontifícia em pedir perdão às gerações canadienses de ontem e de hoje. Em termos teológicos, diríamos que “onde abundou o pecado, superabundou a Graça”.

         Não será difícil descortinar nas palavras do Papa Francisco o eco do incontornável sociólogo, Josué de Castro, no seu corajoso e inquietante livro Sete Palmos de terra e um caixão (1965, Ed. ‘Seara Nova), um ensaio sobre o Nordeste Brasileiro: “As coisas devem ser mostradas como elas são, na sua dura e crua realidade, sempre as duas faces da medalha: a face boa e a face má. A que nos enche de orgulho e a que nos mata de vergonha. É preciso evitar que aconteça com o Nordeste o que costuma a acontecer em seguida às grandes descobertas: a tendência à disseminação pelos quatro cantos da Terra de um mundo de lendas, em lugar de factos, servindo à formação de uma falsa imagem das terras e dos povos colonizados. Isto é tanto mais perigoso quando vivemos numa era de ‘slogans’, dos ‘slogans jornalísticos’…

          É esta atitude eminentemente científica, pastoralmente pedagógica, que tem pautado toda a vida deste “Homem que veio do fim do mundo”, como ele próprio se identificou. Tem sido sobejamente divulgada a matéria de vergonhosos factos imputáveis à Instituição Eclesiástica no Canadá, na América Latina, nas Áfricas, em todos os cantos do mundo onde chegou o colonialismo europeu. O de Portugal também. O super-soberano colonizador, sediado em Roma, carrega nos ombros frágeis as culpas de crimes que ele nunca ousaria praticar contra vítimas que, ainda hoje, sofrem na pele e no espírito as feridas dos tempos de criança, exploradas e empurradas para as chamadas ‘escolas residenciais’, de malfadada memória. Por muito que nos estremeça, Putin obriga actualmente milhares de refugiados a seguirem para a Rússia…

         Ao lado, porém, desta noite negra, há lampejos de verdadeira cultura autóctone que muitos missionários acenderam nesses longínquos territórios. E isso aí é de erguer bem alto como a bandeira do compromisso de distintos e sacrificados membros da Igreja em prol do Indigenato de todos os continentes, entre os quais o nosso Padre António Vieira, precisamente no Nordeste Brasileiro.

         Embora não apague “o rasto viscoso e sujo” de outras eras, a atitude do Papa Francisco ergue-se como “o arco de uma nova ponte” para novos dias ou, como ele próprio disse, um verdadeiro “recomeço”.

         Quantos governantes terão a coragem de ir bater à porta-lugar do crime e aí pedir perdão das atrocidades colonialistas cometidas contra gentes lá longe, mas com a mesma dignidade dos de perto?!...

Quantos hierarcas – bispos, presbíteros e afins – serão capazes de seguir as pegadas do Papa Francisco e penitenciar-se diante das vítimas  dos abusos de poder praticados sob a bênção da cruz peitoral ?!...

 

27.Jul.22

Martins Júnior

     

segunda-feira, 25 de julho de 2022

RESPIGANDO SOBRE A “ACÇÃO CATÓLICA” NA MADEIRA – APOTEOSE E MORTE…

                                                                            


Porque o arco sempre tenso perde a sua elasticidade, aí está a silly season para nos deixar respirar sem esforço e alongar a vista sobre a paisagem dos dias – os de agora e os de outrora. Veio, pois, mesmo a calhar a sugestão de um amigo meu, activista dos anos 50-60 do século XX,  convictamente empenhado na divulgação dos valores humanos e cristãos, através de um dos mais dinâmicos  vectores da Igreja, a denominada “Acção Católica”, um movimento que deixou marcas indeléveis, na altura vanguardistas, e que ainda hoje perduram internacionalmente e no território nacional, menos na Madeira.

Recomendada pelo Papa Pio XI, em 1933, à hierarquia da Igreja em Portugal, presidida pelo Cardeal Cerejeira, a Acção Católica tinha por objectivo penetrar em todas as camadas sócio-económicas e culturais do país. Tal como os partidos políticos, a sua estratégia englobava militantes de vários níveis etários, por um lado, os mais novos – catalogados por J, Juventude – e, por outro, os adultos – sob a designação de L, Liga. Servindo-se das cinco vogais do alfabeto, os programadores oficiais da Igreja estabeleceram cinco variantes, coincidentes com as cinco vogais: JAC, JEC, JIC, JOC, JUC, que significavam, respectivamente, os jovens agrários, os jovens estudantes, os jovens independentes, os jovens operários e os jovens universitários.

Deixo aqui, porque assim me foi solicitado, o meu testemunho sobre a JAC em Machico. Daquilo que vi e vivi de muito perto, posso seguramente afirmar que a JAC constituiu uma epifania renovadora, não só a nível religioso, mas também no quadrante social da zona leste da Madeira. Numa época em que era evidente o deserto de instituições jovens organizadas (tenha-se em conta o regime castrador do Estado Novo) os jovens agrários, sob a tutela da JAC, davam nas vistas e abriam novos rumos no panorama imobilista de então.

Refira-se, desde logo, que os corifeus do Estado Novo não perderam tempo em assediar o movimento nascente na Igreja Portuguesa, puxando para a sua área política os principais militantes e dirigentes e, com eles, toda a massa associativa. Durante muitas décadas, a Acção Católica foi uma das frentes protegidas e, paradoxalmente, protectoras do regime. Tudo dependia dos padres assistentes. Em Machico, por exemplo, a JAC conheceu dois neo- sacerdotes, o Padre Maurílio de Gouveia (mais tarde, Arcebispo de Évora, já falecido)  e, sobretudo, o Padre Jardim Gonçalves, hoje com 90 anos de idade, residente em Lisboa.

É historicamente assinalável a presença deste jovem padre, como coadjutor em Machico, pelo esforço de aculturação e visão social da Igreja, até então fechada sobre si mesma. Conseguiu abrir mentalidades pioneiras  em jovens e adultos, através do contacto mais directo com a sociedade local. Muitos deles singraram na vida, graças ao espírito integrador e ‘empreendedor’  que, já então, cultivavam, sob influência do grande pedagogo e seu assistente Jardim Gonçalves. Recordo-me de uma emocionante peça de teatro , “O Filho Pródigo”, representada na sede da JAC, à Rua do Ribeirinho, que ele próprio encenou e, no papel de ‘Pai’, contracenou com os restantes ‘actores’, jovens rurais.

Mais tarde, por mais incrível que agora me pareça, nas antigas instalações do ‘Engenho de Machico’, mais precisamente no largo onde os agricultores descarregavam a cana sacarina, consegui pôr em palco, sob a égide da JAC,  a peça clássica de Sófocles, “Èdipo-Rei”, a mesma que, meses antes, havia sido representada por nós, seminaristas no Seminário do Funchal. O imprevisível (e por onde se atesta a vitalidade cultural da JAC) é que os actores amadores eram todos jovens, uns do perímetro urbano da Vila, outros oriundos da ruralidade profunda.

Ao descrever que a Acção Católica foi uma forte ‘assessora’ do Estado Novo, não posso deixar de, com o mesmo respeito pela verdade histórica, testemunhar que das fileiras desse movimento católico, sobretudo da JOC, Juventude Operária, emergiram quadros militantes das causas sociais e, embora clandestinamente, opositores políticos ao regime, de certo modo precursores do “25 de Abril” de 1974.

A este propósito, ocorre-me à memória um episódio inesquecível, revelador do que acabo de referir. Decorria uma dessas reuniões da LAC, Liga Agrária Católica, a dos adultos, numa das salas da ‘Quinta Santana’, a escola dirigida pelas freiras da Congregação das Missionárias Franciscanas de Maria, da Irmã Mary Wilson.   Eis senão quando, estando a assembleia em oração, irrompem dois agentes da ‘Pide’, a tenebrosa polícia política de Salazar, deixando todos os presentes em alvoroço, transidos de medo.  .Escusado será dizer que nunca mais se realizaram essas reuniões periódicas.

A Acção Católica na Madeira finou-se às portas do “25 de Abril de 1974”.  Dito assim, poderá pensar-se que foi decisão anti-clerical do MFA, Movimento das Forças Armadas, ou similares. Mas não. Manda a verdade dizer que quem matou e enterrou a Acção Católica Madeirense, sobretudo as suas organizações juvenis, foi um bispo, aliado confesso do regime deposto – o bispo Francisco Antunes Santana -  após a sua entrada  como bispo do Funchal, em 18 de Março de 1974. Sem mais comentários.

Não obstante todos os percalços e oscilações, a JAC – ramo juvenil da Acção Católica Portuguesa – foi na Madeira e, decisivamente, em Machico, um grande passo na evolução sócio-cultural e religiosa dos jovens deste concelho, cujo tributo nunca será suficientemente reconhecido, particularmente ao seu grande e valoroso Assistente, Padre Agostinho Jardim Gonçalves, mais tarde Assistente Internacional da JOC, Juventude Operária Católica.

Ao amigo e empenhado activista dos valores humano-cristãos,, José Fagundes, os meus parabéns pelo seu esforço de investigação e divulgação da génese e dos feitos da Acção Católica, da qual foi um autêntico ‘apóstolo paulino’ no panorama católico da Madeira. E a todos quantos ainda persistem em restaurar, se não em corpo, ao menos  no seu espírito e essência, a raiz e o tronco da Acção Católica, o meu apoio e elevada consideração!  

25.Jul.22

Martins Júnior

 

sábado, 23 de julho de 2022

A FESTA BIOLÓGICA HABITADA POR DEUS E PELO POVO !

                                                                             


 

De Festa foi toda a semana que agora chega ao fim, mesmo no turbilhão dissonante do planeta que nos comprime. Porque somos aquilo que somos mais a circunstância que nos é dada. É assim que Ortega y Gasset   fazia o relatório dos lugares, desde os altos himalaias das urbes aos inóspitos tugúrios da Amazónia.

         A nós, coube-nos o ‘jogo da glória’ e nele uma festa – para nós, a Festa – que reúne terra, água, pão e vinho, a chamada Festa do Senhor. Direi que é uma Festa Biológica, pois que o Nazareno assim optou naquela Quinta-Feira, véspera da sua morte.

             Cedo-me, curvo-me e assimilo-me no corpo e no espírito que este povo deu ao seu dia histórico-tradicional da sua Festa. Quem aqui passar, naturalmente concluirá que esta não é uma festa de plástico nem de cheques passados em branco. É a entronização do verde em todo o perímetro do acto. Cada passo, cada pegada, cada centímetro do que ali está tem a marca, o dedo, a mão, numa palavra, o corpo e o talento criativo da população local.

         Por isso é que, hoje e amanhã, haja o que houver, Festa é Festa!

         Recorro ao LIVRO  (Marcos 2, 18 e sgs.) numa época em que os puristas da tradição judaica interpelaram o Mestre porque os Doze não observavam o jejum e os sacrifícios impostos pela ortodoxia do Templo. Era uma questão de lesa-sacralidade, cominada com penas severas. Mas o Mestre não perdeu tempo com eloquentes teses teológicas, tão gosto dos fariseus opositores: carregou no acelerador festivo e respondeu-lhes com nova provocação: “Então achais bem que, numa festa de casamento, os convidados se auto-flagelem com jejuns e sacrifícios na presença dos noivos?”. Ninguém contestou. E mais: Ele, o “noivo” da alegoria provocatória, ainda jovem, põe em confronto a natural antinomia juventude-festa e velhice-decrepitude, através das metáforas remendo novo em tecido velho ou vinho novo em barris velhos, estragados. É desconcertante, sublime, o Galileu sem Fronteiras. Há até exegetas de renome que definem a vida pública de Jesus como uma sucessão de festas, banquetes com fariseus, refeições com os publicanos, convívios com os pecadores e pescadores. Era aí que Ele transmitia o melhor das suas mensagens.

        

Depende de nós que a vida seja uma Festa Verde ou uma mísera tragédia.

Por isso, acreditamos que o Deus cósmico perpassa e diverte-se na Sua e nossa Festa Biológica. Viva !!!

 

23.Jul.22

Martins Júnior

quinta-feira, 21 de julho de 2022

DOPAMINA NA FESTA: SAÚDE, FORÇA, VITALIDADE!

                                                                   


Festa é Festa – poderia titular assim e alongar a anterior comunicação que fiz aos meus amigos através desta tribuna ubíqua dos dias ímpares. E é o que faço, hoje mesmo, na esteira de um ensaio publicado na revista Psychologies, sob a epígrafe “Un noveau sens da la Fête”  e onde se define a Festa  como uma “pulsão social da relação, uma pulsação da vida”.

Analisando o fenómeno festivo, Emmanuel Lallement interpreta-o na linha de uma “necessidade social” que cumpre uma função central, durante longo  tempo levada muito a sério pelo sector religioso. E lança o pré-aviso: “Não há, hoje em dia,  razão nenhuma para deixar de tomá-la a sério, a Festa, ”porque em encruzilhadas de incerteza, de pandemia continuada, de desastres ecológicos e de futuras guerras,  ela consegue reatar as suas origens sagradas de experiência existencial e de catarse – seja num desfile de carnaval, numa rave party, ou de qualquer outro ajuntamento, onde corpos desconhecidos, invadidos pela música,  transfiguram-se como se fossem um só  e único ser”.

Por outro lado, Marie Charlotte Dapoigny dá conta de estudos americanos que provam o carácter vital do ajuntamento humano para os animais sociais que nós somos. Confirma também que o isolamento afecta não só a nossa mente, mas também a nossa saúde: o agravamento da  tensão, o aumento da taxa de cortisol, diminuição de um sono reparador. Há uma exigência animal, arcaica (i.é, ancestral) de unir, aproximar, de tocar e ser tocado para termos a sensação de existir”.

A propósito do factor ‘Música’, associada à Festa, Pierre Lemarquis  acentua as suas virtudes terapêuticas, entre as quais  a secreção da dopamina, responsável pelo movimento, o élan vital e a alegria de viver.

Em louvor das Festas, sejam elas folclóricas, desportivas, académicas, religiosas – o mesmo não direi dos exibicionismos político-partidários – importa viver e reter o pensamento de Marie-Claude Treglia:

“Tempo de suspensão sagrada onde, como em todo as expressões meditativas, cada qual aproveita para fazer uma provisão de novas forças, de alegria e de vitalidade”.

Oxalá fossem assim todas as festas!

Assim será a “Nossa” - a Festa do Senhor, na Ribeira Seca, sábado e domingo próximos, com o Povo, alma-corpo-comunidade, em estreita união de crenças, danças e cantares originais, enchendo o vale de Machico.

Festa é Festa|

21.Jul.22

Martins Júnior

 (Na gravura, Sérgio Godinho no palco de Ribeira Seca, em 1982)