sexta-feira, 9 de setembro de 2022

FESTEJAR É VIVER!... “A FESTA QUE O POVO É” !!!

                                                                            


Quando me preparava para descrever o Dia Patriótico do Brasil – essa comemoração intensa do “7 de Setembro” em Olinda e Recife, ano 1972 – eis que a ‘rosa dos ventos’  fortuitos, veio virar o capelo aos planeamentos mais estratégicos, com a morte da Rainha Elisabeth II e, de certo modo, Dona do Mundo. É grosseiramente sábio e eficaz o organigrama (ou ordenamento jurídico da monarquia) para ‘eleger’ o  novo Rei. Ele já está feito, há 73 anos|. Por isso os canhões que protestam a morte da Rainha são os mesmos que ribombam de encantamento pelo novo rei. Inefáveis Ironias…

          Do “7 de Setembro”, não posso deixar de recortar a proclamação-síntese do Grande Herói da verdadeira soberania da Brasil no século XX, Hélder da Câmara, arcebispo de Olinda e Recife: “Dizem os militares da ditadura que eu sou anti-brasileiro e não quero o progresso da nossa nação, mas enganam-se  porque o progresso que eu quero para o Brasil tem de ser feito com os brasileiros, pelos brasileiros e para os brasileiros”.

         A população do lugar – bairro, freguesia, concelho, região ou nação – sempre na centralidade dos movimentos ou projectos do lugar! E não há outro caminho de sucesso.

         É por isso que, sem subalternizar o peso dos grandes eventos que ora decorrem à nossa volta, vou apenas situar o pensamento de Hélder da Câmara no recôndito vale da Ribeira Seca no grande vale de Machico. É que há festa, sábado e domingo. E é também nas festas que se revela  a personalidade de um povo, a sua identidade, o seu espírito criador, a sua fidelidade às raízes.

         É o povo deste modesto rincão que se organiza, que ornamenta de verde puro o seu logradouro, a sua sala de visita, o seu adro. É o povo que “conta a sua dor nos versos que hoje canta”. A presença em palco – o palco que as pessoas construíram – afirmará de novo que a FESTA É DO POVO – do povo que reside e de todos quantos queiram vir por bem. Passarão em desfile coreográfico episódios marcantes da história deste lugar, a sua luta, as suas aspirações legítimas, as suas reivindicações mais dramáticas, algumas delas, e sobretudo os seus processos de intervenção, sempre através da música e da arte. É a história de um povo traduzida em verso e canto e dança e interpretada por adultos, jovens e crianças do lugar. Registo para Memória Futura!

Vem de longe, desde 1692, aquando da construção da velha capelinha do Amparo, centralidade primitiva que deu origem à nova e ampla centralidade da Ribeira Seca. É expressivo o título do Orago desta comunidade: a Senhora Mãe do Amparo, designação transparente que nos remete para uma verdadeira saga de acontecimentos que projectaram estas gentes a um patamar de dignidade, coerência e dinamismo.

    FESTEJAR É VIVER !

 

         09.Set.22

         Martins Júnior

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

ENTRE OS 150 E OS 200 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL. UM HOMEM JUSTO CONTRA A DITADURA MILITAR. O DESCONCERTO DO MUNDO…

                                                                         


7 de Setembro de 1972. Olinda e Recife. Um Homem, um Justo, um Santo na fogueira da inquisição militar. Eu estava lá.

         Não passa nem um “7 de Setembro”  que não regresse àquele terreiro largo onde está implantado o Paço Episcopal da diocese. Um palácio imponente, ao melhor estilo colonial, mas com uma diferença abissal: o bispo não mora lá. Foi habitar uma casa rasteira numa das ruas da capital e cedeu a monumental construção às associações vivas da diocese, crianças, jovens, adultos e veteranos.

         E se permanece sempre audível o eco emotivo dessa memória anual, hoje - volvidos outros 50 anos sobre os 150 da independência – com mais intenso clangor bate comigo o “7 de Setembro de 1972”.

         Era o tempo da ditadura militar (1964-1985), das rusgas nocturnas, do Esquadrão da Morte, dos julgamentos políticos na trágica “Rua Brigadeiro António” (onde atrevidamente assisti a um desses julgamentos), era o tempo da condenação de padres-pastores na Prisão da Praia Grande de Santos, era também o tempo de perseguir os bispos verdadeiramente cristãos, como o bispo de Volta Redonda, a quem o governo já tinha instaurado três processos judiciais. E era, acima de tudo,  a fogueira onde o poder militar pretendia fazer desaparecer o “bispo vermelho”, “o bispo comunista” (assim era a matéria de acusação gratuita) contra  o ‘Apóstolo das Gentes’ do século XX, o arcebispo Hélder da Câmara,

         Aqui faço um obrigatório ponto de paragem. Ia eu a descrever o cenário intimista, cativante e solidário dessa noite, quando alguém me chama para ver e ouvir uma multidão ululante diante de um recandidato à Presidência do Brasil, em olhar disperso e faiscante de alucinado político, apelar à população que espumava de ódio, ameaças, gritos tribais atingindo o clímax selvagem nestes termos: “Golpe Militar”!!!

         Nem queria acreditar. Aberração inominada essa de transformar o dia patriótico da Independência num despudorado comício eleitoralista! Com toda a consideração pelos grandes vultos brasileiros em vários quadrantes da civilização, apete-me também gritar: “Que povo é este, que povo?!”. E mais humilhado fiquei, ao ver ali, entalado e franzino, como um junco o nosso Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa.

         Para completar o cavername repugnante daquela Praça de Brasília, a jóia primorosa de Óscar Niemeyer, foi de bradar aos céus a blasfémia colectiva de terminar tudo com uma oração. Não se sabe a que deus dos infernos!

         Que mundo é este, que futuro!!!

         Pedir aos deuses o tenebroso e assassino regresso da ditadura militar !

Cinquenta anos depois de 1972. Duzentos anos após a Independência e Liberdade do Povo Brasileiro.

E falecem-me as forças para continuar…   

         07.Set.22

         Martins Júnior

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

FESTIVAIS INFORMES, CONFORMES E DISFORMES

                                                                          


Terra quente, terra fértil a deste verão seco e solarengo, de onde brotam aos borbotões feixes irresistíveis, quase explosivos, de eventos, festas, concertos, arraiais, por tudo quanto mexe à face da terra e, sem medida, na mão pequena da Ilha.

Pululam, excitantes, escaldantes, as manifestações de índole religiosa, cujos programas batem recordes de audiências presenciais com laivos de paganismo fanático em que os estalos pirotécnicos se misturam  às envergonhadas vítimas carnais condenadas a entrar na fogueira do tempo das cavernas. A ajudar à festa entram os comunicadores do povo, munidos da arma fatal chamada microfone. Achei tão delicioso quanto maquiavélico um desses ‘embaixadores da fala’ referir-se à Festa do Senhor Bom Jesus da Ponta Delgada, definindo a sua magnitude nestes termos: “Este ano o “Bom Jesus” teve 20 vacas, Mas já houve tempo que eram 50”.

Em Roma, o Papa Francisco também entrou na onda e, já noutro registo – solene e grave – procedeu à beatificação de um seu antecessor, João Paulo I, cujo pontificado não durou mais que um mês e meio. Recuso-me a admitir que terá sido feita esta promoção eclesiástica propositadamente  em tempo de silly season, para deixar passar em claro o enigma (crime e assassinato, há quem o prove) da morte misteriosa do “Papa do Sorriso”. O semblante carregado e sombrio do Papa Francisco na hora da beatificação não augura bons indícios sobre o caso, que ainda não foi suficientemente esclarecido pelo Vaticano, tantas são as discrepâncias da narrativa e as reticências até agora escondidas.

Na paisagem polícroma (e quantas vezes contraditória) deste surto festivo, ao qual não sou alheio, também entro, embora sem deixar-me diluir no tropel ruidoso dos foguetes, dos pavios de cera (protegidos por copos de cerveja regional), das procissões teatrais. Entro e o chão que piso está naquela Carta que Paulo escreveu a Filémon, sobre a qual me debrucei no dia de ontem. O Apóstolo das Gentes teria de tomar uma decisão sobre Onésimo escravo, ao serviço de Filémon. Podia fazê-lo de forma unilateral e autocrática, mas não o fez. Pediu o parecer ao próprio Filémon, em termos tais que mais parecia um abraço de paz do que uma consulta formal.

Deve ter começado aí a vocação primordial da Igreja: a sinodalidade – o caminhar juntos, lado a lado,  hierarquia e povo, líderes e liderados, dirigentes e dirigidos. Assim foi a história da Igreja Católica durante os cinco primeiros séculos, tendo ficado, como princípios reguladores da acção pastoral, estes dois normativos: “O que a muitos diz respeito, por muitos tem de ser resolvido” e, mais incisivo e pragmático: “Podem rejeitar o bispo que o povo não escolheu”. É incontornável consultar a obra do ilustre Padre Yves Congar, O.P., Os Leigos na Igreja.

Depois, os ‘Príncipes Pontifícios’, aniquilando toda a mensagem do Fundador de Nazaré (mas auto-nomeando-se seus representantes) moldaram-se ao Direito Romano, com base no ius utendi et abutendi, (de perseguida passou a perseguidora) usando e abusando de um poder monárquico e absoluto. Um dos efeitos mais dramáticos para o futuro da Instituição Eclesiástica Romana foi a excomunhão papal de Lutero, que deu origem à proliferação de outras centenas de credos e seitas oriundas do Protestantismo. Já antes, em 1054, tinha sucedido o mesmo com a excomunhão do Patriarca Miguel Cerulário, de cujo conflito nasceu a Igreja Ortodoxa, desde então separada de Roma.

A ignorância em que se mantinha o povo e a opulência dos bens da Igreja foram as alavancas do Imperium em que as hierarquias foram ganhando foros imperialistas, absolutistas, inapeláveis. E assim navega neste mar vago da história das instituições. É supinamente ridículo o xadrez sobre o qual, em chegando Junho e Julho, se divertem os mandantes do suposto sagrado – cardeais, núncios apostólicos (que mais não são que embaixadores políticos do Estado Vaticano) enfim, arcebispos, bispos e monsenhores – e agarram as peças do tabuleiro, deliciando-se em empurra-las para cá e para lá, ao toque de um espírito oculto, inexistente, num salão doirado. O povo cristão, o único destinatário das decisões, fica lá fora, desimportado e inerte.

Conforta-me o olhar vigilante do Papa Francisco que abandona o trono monárquico e vai escutar a voz – gemido ou pranto, apoteose ou cântico – que das inóspitas periferias querem fazer-se ouvir. É ele o genuíno intérprete da Igreja nascida das fontes que fertilizaram cinco séculos de Cristianismo.

 

05.Set.22

Martins Júnior       

sábado, 3 de setembro de 2022

SINODALIDADE PERFEITA, HÁ MAIS DE DOIS MIL ANOS!

                                                                      


        Não vou fugir à minha paixão pelo LIVRO em fim de semana. Convido a ler a Carta de Paulo a Filémon, um dos activos mais influentes em todo o território israelita. Por influência de Paulo,  Filémon aderira à mensagem de Jesus de Nazaré.  A Carta que lhe esreveu Paulo é a mais exígua de texto  em toda a Bíblia, mas sem dúvida a mais esclarecedora sobre o movimento solidário fundado pelo Nazareno. Três personagens em cena - Paulo, Onésimo, Filémon e o narrador.

         Onésimo tinha sido escravo ao serviço de Filémon. Tempo depois, Paulo requisitou Onésimo para seu colaborador na prisão. Mais tarde, decide desonerá-lo da condição de escravo e restituir-lhe o estatuto de homem livre, enquanto “irmão muito amado”,   o que de certo modo desagradou à classe dominante, em cujo elenco se integrava Filémon.

         Aí começa o drama de Paulo: remeter o antigo escravo, agora liberto e equiparado a “irmão em Cristo”, para o serviço de Filémon.  Mas como fazê-lo sem o consentimento  do antigo dono?... Não obstante o prestígio de Paulo que lhe conferia poder de impor a sua decisão, escreve-lhe a famosa Carta a Filémon, em termos repassados de acurado sentido democrático e respeito, de cujo conteúdo recorto a seguinte passagem:

         Eu, Paulo, o velho, prisioneiro pela Evangelho de Jesus, peço-te, por amor, pelo meu filho Onésimo que gerei nas minhas prisões, o qual noutro tempo te foi inútil, mas agora a ti e a mim, muito útil, to torno a enviar. E tu torna a recebê-lo como se fossem as minhas próprias entranhas, Eu bem  quisera conservá-lo comigo para que me servisse nas prisões do Evangelho. Mas nada quis fazer sem o teu parecer para que o teu benefício não parecesse forçado, mas inteiramente voluntário. Peço-te, pois, que o recebas não já como escravo mas como irmão amado, particularmente de mim, e quanto mais de ti, assim na carne como no Senhor. Assim, se me tens como companheiro, recebe-o como a mim mesmo. E se te causou algum dano ou  te deve alguma coisa, põe isso na minha conta.

         Sem mais comentários, comparemos a atitude de  Paulo com certos comportamentos autocráticos das diferentes hierarquias da Igreja que se autointitula representante e continuadora do Mestre da Galileia, de Paulo e da tradição apostólica. O respeito, a solidariedade e, sobretudo, a atitude sinodal – de colegialidade e de consulta aos fiéis – sobre os rumos que as Igrejas terão de seguir no futuro. Os exemplos, bons e maus, estão ao alcance de todos. O mais eloquente e incisivo é o do Papa Francisco, ao instaurar a Magna Assembleia no Vaticano sob o signo da Sinodalidade, isto é, a arte e o método de caminharmos juntos. Porque “ninguém se salva sozinho e ninguém se condena sozinho”.

 

         03.Set.22

         Martins Júnior

 

 

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

TRIÂNGULO SOLIDÁRIO NO CORAÇÃO ATLÂNTICO

                                                                                 


Quis o calendário gregoriano que em cada ano da graça sete vezes os Dias Ímpares se abraçassem entre o 1º e o 31º ou, cronologicamente, entre o último e o primeiro de cada mês. Este é o quinto encontro solidário e pleno do ano de 2022 – 31 de Agosto e 01 de Setembro.

         Nesta geminação dos Dias Ímpares, apraz-me deambular por outras e tantas geminações de ilhas e gentes que, como jangadas de basalto, acham um porto de abrigo e uma baía de abraços –  encontro este projectado e lavrado pela mão de quem estando longe sente bater mais perto o coração.

         Trago a notícia, na decorrência da já propalada visita da “TCM-Tuna de Câmara de Machico”, (extensão do CCCS-RS, Centro Cívico-Cultural e Social da Ribeira Seca) à ilha do Pico, mais precisamente ao Município das Lajes. Razão e oportunidade do evento: a geminação do concelho de Machico com o concelho das Lajes, em 1989.

         Mas não só nessa ilha os dois Municípios se irmanaram. Em 1996, foi em São Miguel que novamente Machico rumou ao concelho da Povoação, onde se rubricou a nascença de dois novos irmãos gémeos. Bem me recordo: a gentileza do presidente daquele concelho micaelense, o Dr. Carlos Ávila, e o signatário destas linhas, então presidente da autarquia que antes fora a primeira capitania da Madeira. De toda a substantiva afinidade entre as duas autarquias e o seu povo, retenho as permutas sócio-culturais então realizadas e, com agudo pesar, não me sai da memória a tragédia ocorrida na ‘Ribeira Quente’, aquando do desabamento da falésia sobre o aglomerado populacional e as vítimas mortais, os funerais que acompanhei presencialmente.

         São vários e distintos os genes histórico-laborais que nos unem. Lajes e Povoação assinalam os primeiros locais onde os descobridores (ou achadores) aportaram, respectivamente, ao Pico e a São Miguel. Daí o topónimo ‘Povoação’. Ora, Machico pode ostentar igualmente os pergaminhos de ter sido a baía onde chegaram pela primeira vez à Ilha os marinheiros do Senhor Infante. A actividade piscatória e, particularmente, a faina atuneira e a extinta indústria baleeira tornaram próximos e gémeos os dois concelhos. Visitar o Museu do Baleeiro ou a antiga Fábrica da Baleia, nas Lajes, é como atravessar uma gostosa ponte inter-ilhas.

         Mas o mais surpreendente foi saber pela boca da própria presidente lajense: “As Lajes do Pico também estão geminadas com o concelho da Povoação”. Aí ficámos com a nítida sensação de termos desenhado um perfeito Triângulo no coração do Atlântico.

         A Tríade poética, romântica, quase mítica:

MACHICO-POVOAÇÃO-LAJES DO PICO !

         Numa tentativa de balanço, perguntar-se-á qual o efeito prático e útil para as respectivas populações. Logicamente, não serão visíveis e palpáveis as projeções imediatas das geminações, mas o seu significado, o de sabermos que não estamos sós, que não somos apenas ilhas separadas pelo mar, cria na sensibilidade insular uma interpretação tangente de vivermos todos na mesma aldeia global ou, como diz Francisco Papa, na mesma Casa Comum. Além de que estabelecem-se liames afectivos e laborais entre madeirenses que vivem nos Açores e açorianos que fazem da Madeira a sua segunda pátria natal.  Confirmámo-lo nós próprios por conhecimento directo.     

           Daqui a milhas de distância, fazemos do Triângulo Inter-Ilhas um navio carregado de hortênsias e buganvílias sulcando o mar atlântico ao encontro dos irmãos gémeos em todos os Dias Ímpares !

 

         31.Ago-01.Set.22

         Martins Júnior

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

MISSÃO CUMPRIDA

                                                                                   


Sem qualquer outro acento enfático, mas com toda a simplicidade gozosa – de um gozo espiritual indescritível – acabámos de regressar à Ilha, a nossa, e abraçarmo-nos efusivamente dizendo, mais com emoção do que com palavras: CUMPRIMOS !!!

Elas e eles, mais precisamente. Um punhado de jovens sentiu-se plenamente investido da missão de representar o Concelho de Machico na Ilha do Pico, Açores,  em virtude da geminação (com mais de 30 anos) entre o nosso Município e o Município das Lajes do Pico.

Na hora do regresso e enquanto co-responsável pelo cumprimento desse mandato entregue à juventude da Tuna de Câmara, (extensão do Centro Cívico da Ribeira Seca) cabe-me neste item fazer a avaliação do serviço prestado e registar em três momentos assinaláveis o desempenho dessa missão, deixando para o CCCS~RS (a colectividade organizadora) os devidos protocolos de gratidão às entidades competentes.

Em primeiro plano, releva-se o concerto que a “TCM” proporcionou à imensa multidão que aguardava junto ao palco monumental o programa dos jovens de Machico. Era a maior festa da ilha, a Festa dos Baleeiros. Porque ninguém é juiz em causa própria, não serei eu a tecer elogios, mas todos quantos assistiram ao espectáculo. Devo esclarecer que nas Lajes do Pico, como de resto em todas as ilhas açorianas, a cultura musical atinge níveis muito acima da média comum no Portugal Continental e Insular, o que fica justamente demonstrado na profusão das bandas filarmónicas que povoam o arquipélago. Por isso, a prestação da Tuna, diante de um público selecionado, ganha maior ênfase e reconhecimento do mérito.


Outro ponto alto tem mesmo a ver com a altitude maior de Portugal, a subida ao famoso Pico que deu nome à Ilha. Para os valorosos caminheiros desse percurso, que tem tanto de desafiante quanto de apaixonante, ficará para sempre nos pés doloridos e na mente libertada o inolvidável prazer de atingir a coroa-cratera desse Pico gigante. O robusto investimento físico ficou largamente compensado pelo pódio dos vencedores, a alegria de ter conseguido aquilo que outros não conseguem. E mais: o prestígio daquele pelotão de bandeirantes que ostentaram, como um padrão simbólico, o estandarte de Machico nas alturas do Pico.      


O terceiro “grito do Ipiranga” aconteceu quando fomos surpreendidos pela inscrição rodoviária de um nome constitutivo da nossa identidade: RIBEIRA SECA!... E foi aí que os ânimos se soltaram espontaneamente, cantando a plenos pulmões o hino que nos define: “Ribeira Seca…Tens para todos o calor de um coração”! E não foi apenas uma Ribeira Seca, foram três, foram quatro: em São Jorge, no Pico e duas em São Miguel.

Nesse preciso instante uma nova aventura surgiu no horizonte: Por que não fazer um encontro amistoso entre as Ribeiras Secas – dos Açores e da Madeira?!... E, porventura, de algum idêntico topónimo existente no continente português. Afinal, “Homem algum é uma ilha”… E Ribeira Seca também. Não estamos sós!  

 Mas isso são ‘contas de outro rosário’. Por hoje, o júbilo do trabalho concluído com êxito e a vontade redobrada da juventude em abrir clareiras de sonho e arte nos dias de amanhã!

 

29.08.22

Martins Júnior

sábado, 27 de agosto de 2022

O LIVRO IMPERECÍVEL!...

 

O Guião dos Dias Ímpares seguiu a onda contínua e cheia que os sinos do carrilhão de Ponta Delgada lançaram, via marítima, às nove ilhas do arquipélago açoriano, em 23 e 25 de Agosto, em memória e gratidão a um Homem Bom, bispo António Braga, assinalando respectivamente, a sua morte em Lisboa e a sua  sepultura em terro insular onde foi nado e criado, a ilha de Santa Maria.

Destas terras vestidas de azul e verde poderia encher toda a noite com aquele brilho de um pôr-do-sol inebriante, ex-libris desta estância gémea da nossa. Da mesma  forma, poderia debruçar-me sobre o LIVRO, como sempre faço neste entroncamento entre uma semana e outra.

Mas não! Hoje vou, sem conter a emoção, no rasto de um outro Livro que se fechou definitivamente. Com maior  mágoa o digo: um Livro que nunca se abriu ao mundo. Talvez porque o mundo, que o tinha nas mãos,  não quis ou não soube abri-lo.

É de um amigo e colega que hoje quero encher esta página. Breve e discreta, como lhe agrada e como sempre foi seu apanágio. Indiferente aos louros da publicidade e de uma pacífica transparência aos remoques do vulgo, ele criou desde a juventude um mundo interior característico que tanto se assemelhava a um tronco robusto como a um rústico portal, onde todos, grandes ou pequenos, podiam entrar sem risco de serem corridos.

Era assim o Padre José Vieira Pereira!

Mútuos confidentes que nós éramos, já nos bancos do Seminário do Funchal, admirava-lhe a capacidade de assumir reflexos originais, fruto de um pensamento próprio, inspirado na pujança biológica  da Natureza. Tudo discretamente, diria quase clandestinamente, sem agredir o status quo de quem se acomodava aos usos e costumes do mais gratuito laissez faire, laissez passer.

A construção de um consistente acervo filosófico-teológico, plenamente interiorizado, desabrochou, explodiu neste desabafo que um dia bateu à minha porta na Ribeira Seca, era ele pároco do Caniçal:

Martins, tenho de publicar este livro. Já sei que me vão boicotar em Portugal. Mas eu vou a Paris e publico. Tu ajudas-me a traduzir.

Fiquei atónito e, ao mesmo tempo, entusiasmado. Abrimos o volume, ainda em folhas soltas. Era um Tratado de Teologia Sacramental, uma nova visão dos sete sacramentos  da Liturgia Católica. Uma irresistível revolução dos paradigmas tradicionais, fechados sobre si mesmos!...  A Transcendência na Imanência da Matéria. Baptismo, Confirmação, Eucaristia e todos os outros rituais teriam de ser transformados em manifestações concretas da vida, do alimento, da saúde holística do composto humano: água, cultura, ginásio, pão, serviço. Os sacramentos, porque são sinais reprodutivos, e a sua recepção nunca deveriam ficar confinados às quatro paredes do templo. É fora do templo que eles se actualizam.

Passaram-se os anos e o Livro foi-se desvanecendo. Circunstâncias várias – O homem é aquilo que é, mais a sua circunstância – talvez preocupações e acontecimentos ainda por explicar ditaram o esquecimento. Terá sido, julgo, uma das suas maiores mágoas ao despedir-se de nós. É por isso que, aceitando o ocaso da vida (somos ambos do mesmo ano) ainda procuro o Livro !...

Conforta-me, no entanto,  saber que o verdadeiro Livro  é ele próprio, o Padre Pereira. E esse ninguém - nem a terra, onde já dorme definitivamente – pode comê-lo ou destruí-lo. Para os amigos e para quem o conheceu na sua riqueza bio-espiritualista, o Padre José Vieira Pereira ficará sempre vivo, no seu pensamento perene e galvanizador.

Por impossibilidade física e absoluta, não o acompanhei até à sepultura. Acompanhamo-nos todos dias, como nos tempos de outrora.

Com esta mágoa e este apelo: o pior mal não é morrer. O pior mal é não ter vivido.

Viva a Vida !!!

 

Em Lajes do Pico, Açores

27.Ago.22

Martins Júnior