sábado, 1 de abril de 2023

EM JERUSALÉM – SÉCULO I : “O POVO É QUEM MAIS ORDENA” !!!

                                                                                  


Esta é a semana do Processo – na sua tramitação mais aguda e decisiva. Porque, analisados os factos, o Processo arrasta-se por meses, anos, décadas e, por extensão, atravessa séculos de história.

O “Processo de Jesus de Nazaré” conheceu a primeira tentativa de assassinato quando Herodes mandou matar “todas as crianças do país, de dois anos para baixo”, o que motivou a condição da família (pai, mãe e filho) como  refugiados em terras do Egipto. Mais tarde, a condenação como ‘agitador público que sublevava as multidões’ fazia do Nazareno um indivíduo a abater às mãos do “statu quo”  dominante, sobretudo das estruturas hierárquicas do Templo de Jerusalém.

         A tensão entre os Sumos-Sacerdotes, aliados aos fariseus, escribas e doutores da Lei contra o Líder natural dos judeus e palestinianos foi ganhando notoriedade indisfarçável e Ele pressentia as maquinações secretas dos seus inimigos figadais prestes a ‘caçá-lo’ na próxima emboscada.

Aí, o Mestre inverteu a sua estratégia pacifista e decidiu desafiar os poderes públicos e os magnatas que faziam tremer toda a cidade. Ele, que sempre recusara as repetidas pretensões populares de aclamá-lo Rei, Ele próprio decidiu medir forças com a ditadura vigente: mobiliza o pequeno círculo dos seus colaboradores directos          que, como rastilho fumegante, passam a mensagem aos subúrbios da cidade e às povoações, desde as vicinais às mais longínquas, até que no dia aprazado estava pronta a manifestação espontânea, avassaladora, frente aos arcos romanos talhados nas enormes muralhas circundantes. Ironia das ironias, o desarmado carpinteiro de Nazaré manda buscar, por empréstimo,   o ‘carro triunfal’ – um jumentinho, cria do mais deprimido animal de carga - que o transportaria ao centro de Jerusalém rodeado da multidão, qual escudo impenetrável à cavalaria imperial da colónia de Tibério César.

         Ei-lo que avança, sereno no semblante, mas fogoso no seu íntimo, olhando em volta as estreitas ruas comerciais, de portas fechadas, precatadas de eventuais distúrbios pelo aperto dos eufóricos transeuntes. Aproximando-se da zona nobre, dos palácios, do Templo de Salomão, onde se tinham ‘refugiado’ os poderosos, ouviu de longe o recado dos emissários de Anás e Caifás, protestando contra a profanação da Cidade Santa: “Manda calar essa gente, que vergonha,  não estragues o legado do nosso Pai Abraão, do nosso Rei David”. Jesus fixou-os e, com um tom severo de uma voz agressiva e segura: “Se os mandarem calar, levantar-se-ão  as próprias pedras da calçada e clamarão ainda mais alto, Bendito o que vem em nome do Senhor.” (Lucas, 19, 28 sgs.).  

         Permitam-me este respiro d’alma: estou convencido que as sucessivas encadernações pias, revestidas de uma religiosidade suplementar envolvente, retiram a visibilidade histórica, pura e dura – direi pura, autêntica e digna de registo – que os textos bíblicos transmitem. Daí, considero o Domingo de Ramos um marco indiscutível da força colectiva do Povo, a afirmação da personalidade decisiva das massas populares, quando motivadas por ideais de Justiça e de Verdade. O episódio de Domingo de Ramos, sancionado, mais precisamente provocado, pelo “Doce Nazareno”,  atesta sem sombra de dúvida  a soberania efectiva da Nação versus dominação do Estado, em termos eclesiais diríamos hoje o poder da sinodalidade na Igreja versus primado da instituição hierárquica, sobretudo se tivermos em linha de conta o momento crítico da segurança física do próprio Jesus, indefeso perante a prepotência judaico-romana, mas confiante no apoio da multidão que sempre o acompanhara.

         A frescura primaveril daquela manhã inundou corpos e almas, numa demonstração desinibida dos gestos incontidos em lançar mão daquilo que os seus campos produziam, ramos de palmeira, oliveira, porventura alecrim e alfazema, enfim, a mensagem verde dos arbustos que exalavam o perfume de uma liberdade até então reprimida, expressão de cidadania plena outorgada em palavras e obras do seu Líder. Tão diferente dos cortejos enfáticos, das roupagens vistosas, da paramentaria ouro-escarlate, dos graciosos palmitos engrinaldados como tranças louras ao ombro dos pontífices máximos e mínimos!

         Ao Jesus histórico não chegam nem comovem os cortejos artificiais, porque deles não precisa. O que importa é erguer escudos firmes em defesa dos libertadores da humanidade, impedindo que os ditadores estendam as garras peçonhentas, insensíveis, contra os que habitam as valetas da estrada e aí continuam a lutar pelo direito à vida e ao progresso do planeta.

         Ao lado do Vencedor do Domingo de Ramos, podemos repetir com todo o seu apoio: “O Povo é quem mais ordena”!

O Processo continua.

 

31.Mar-01,Abr.23

Martins Júnior.   ---

quarta-feira, 29 de março de 2023

FECHADO…

                                                                                    


Eles aí andam dependurados pelas esquinas: “Fechado para obras… Fechado para balanço… Fechado para férias… Fechado por insolvência… fechado por motivo de doença”… Eles multiplicam-se consoante os interesses, as circunstâncias, as estações do ano, do mês ou do dia.

         SENSO&CONSENSO também não foge ao estilo: “FECHADO PARA PROCESSO”!... Aqui, o Processo toma todo o peso da nomenclatura judicial e corre o risco de pisar a linha vermelha denominada “Segredo de Justiça”!

         Com o pré-aviso de encerramento quero manifestar aos meus compagnons de route (passe o galicismo) que, durante os próximos quinze dias, este blogue fechar-se-á aos epifenómenos que surgem como cogumelos de todas as cores  nas bancas do mercado publicitário. E tantos que eles são: guerras, orçamentos, ‘ivas’, ‘irs’ e ‘irc’, escândalos, assassinatos, vasos e marinhagens, um fervilhar de ondas que enchem manchetes e ecrãs. Ou se acaso tiverem guarida nestas páginas é porque todos se integram ou subsumem no referido ‘Processo’.

         Mais  que Processo, direi Mega-Processo – paradigma de todos os julgamentos fraudulentos que condenam à morte vítimas inocentes. Refiro-me àquele que deu origem a rios de tinta e a tsunamis de discursos e emoções, titulados da mesma forma – O Processo de Jesus – de que é expressão acabada a dramaturgia do italiano Diego Fabri.

         Atrevo-me a cair sob a alçada penal do “Segredo de Justiça”, porque se há algo que me revolta em toda a tramitação posterior, até aos nossos dias (!) é o espectáculo inebriante, quase estupefaciente, em que se envolve e cultua o hediondo crime, com total prejuízo dos exactos termos do Processo. Quem matou, Por que motivo matou, Como matou?...

 

         29.Mar.23

         Martins Júnior

segunda-feira, 27 de março de 2023

SEMPRE A CRIANÇA NO CENTRO DA HISTÓRIA – “SEM A DEVOLUÇÃO DAS CRIANÇAS UCRANIANAS, NUNCA HAVERÁ PAZ”

 

       


Ficamos aturdidos com os cenários de guerra de Mariupol e os massacres de Butcha, uma paisagem fatídica de escombros onde, há um ano, floresciam celeiros e cidades por toda a Ucrânia. Mas, talvez por isso,  nos passe desapercebido o massacre do futuro de um país, que muitos configuram como um claro genocídio perpetrado pela Federação Russa quando enche comboios e autocarros de milhares de crianças forçadas a separar-se dos pais e encaixotadas em estabelecimentos russos, onde têm de esquecer a própria língua materna e a memória do seu país.

         O jornal Le Monde, na sua edição do último fim-de-semana, chama a atenção de todo o mundo para este maquiavélico processo de russificação das futuras gerações e consequente destruição de uma civilização autóctone.

         Trata-se de uma veemente petição ao Tribunal Penal Internacional, subscrita por seis personalidades, entre as quais o escritor Jonathan Littell, em que são acusados Vladimir Putin e a comissária para os “direitos das crianças”, Maria Lvova-Belova, de organizar, já antes do 24 de Fevereiro/2022, a deportação em massa de menores retidos em instituições do Donbass, dando lugar à “maior operação de expulsões e adopções forçadas desde o fim da segunda guerra mundial”.

Denuncia a petição a “destruição psicológica” da identidade d.

e um povo, até com recurso à alteração de passaportes e à queima de livros.  .Quanto aos atentados criminosos – roubos, violações, câmaras de tortura, fossas funéreas, cortes de água e alimentos, electricidade e comunicações – são comparados ao “genocídio orquestrado por Stalin em 1932 e 1933, em que morreram quatro milhões de ucranianos e a que se seguiram deportações massivas”. Sublinha o texto dirigido ao TPI que estamos perante uma “política deliberada de destruição biológica e psicológica, destinada a desumanizar as vítimas e espalhar o terror em toda a população”.

O mandado de prisão a Putin e a Belova constitui a expressão genuína e consistente de quase um milhão de europeus que subscreveram tão justíssima pretensão, advertindo os restantes Estados a que façam  da deportação de crianças a inultrapassável “linha vermelha”, ao mesmo nível do respeito das fronteiras da Ucrânia.

         Na reportagem de Le Monde, ganha força global a palavra do Prémio Nobel da Paz, Aleksandra Matviichuk:

É nossa obrigação colocar os criminosos frente às suas responsabilidades e levar à justiça todos estes crimes de guerra. Os direitos humanos devem ser a base de todas as decisões políticas.

Mas o grande grito de alerta, a mais poderosa palavra de ordem para a reconquista da Paz é a que foi reproduzida no Conselho da Europa, em Reykjavik, e que ultrapassa os sinuosos tratados de cessar-fogo ou os invertebrados, porque interesseiros, planos de paz de Pequim. É pelos  alicerces do futuro que se vislumbra o mundo novo. Pelas crianças. Inscrevam já na Praça Vermelha o aviso do citado Conselho Europeu:

Jamais poderá desenhar-se qualquer perspectiva de Paz enquanto não regressarem à sua pátria todas as crianças deportadas em território russo.

A Criança – sempre a Criança – no centro da história !!!  

 

27.Mar,23

Martins Júnior

sábado, 25 de março de 2023

ABRIREI OS VOSSOS TÚMULOS!

                                                                


        Tremendo e exaltante o enigma profético que nos traz o LIVRO para este fim-de-semana!... Exerce-o o coveiro com a fria indiferença de quem soma uma unidade mais na contabilidade efémera dos dias. Dirige-o e supervisiona-o o médico legista nas labirínticas catacumbas das mortes problemáticas. Porventura, ainda, virão os familiares profanar os sete palmos de terra do ‘campo santo’ na macabra sofreguidão de achar hipotéticos pecúlios no bolso do defunto. Tremendo ofício o  de abrir sepulturas!

          Exaltante, porém, a mão gloriosa e benfazeja que traz no sigilo dos dedos a chave mágica de abrir os túmulos e deles fazer sair pujantes, redivivas, as ossadas jacentes nos subterrâneos irremovíveis do não-ser! Excelsa metamorfose de transformar a morte em esplendorosa manhã da Vida! Manhã de Páscoa!

         É este o clarim tumultuante e belo que, da longínqua vetustez da história, nos sobressalta o grito de Ezequiel Profeta em nome de Ihaveh:

         Abrirei os vossos túmulos. Far-vos-ei sair das sepulturas para regressardes felizes à Terra Prometida, `a vossa terra natal !!! (Ezeq. 17, 13-14).

         Séculos depois, será o próprio Nazareno a focalizar num só homem o grito extensivo a todos os mortais e a todas as eras dos tempos vindouros:

         Lázaro, sai desse túmulo para fora  (Jo.11, 1-41).

         Rodaram séculos e milénios, mas nem Ihaveh, nem Ezequiel, nem o proletário Taumaturgo de Nazaré voltaram (nem voltarão) a encher a amplidão do mundo com a trombeta invencível do mandato de outrora: “Sai daí para fora”! No entanto, outra sina não têm o planeta e os seus habitantes senão a mesma que de longe vem: Cair e Reerguer-se, Entardecer e Reamanhecer, Sepultar-se e Reviver, Morrer e ressuscitar! Porque Ihaveh, Ezequiel e Jesus já não vêm, mas entregaram aos humanos o empoderamento de abrirem as suas próprias sepulturas e delas saírem viçosos, prenhes da força genesíaca do primeiro exemplar saído das mãos do Supremo Arquitecto do Universo.    

         É por isso que às civilizações que morrem, outras se levantam. Por isso é também que aos antros do esclavagismo se erguem os braços inquebráveis dos libertadores que a história regista e arrastam consigo as primícias de um mundo novo!

         Acordem os estados e as nações e abram as valas comuns de todas as Ucrânias que há no mundo e, no corpo e na alma dos filhos,  façam voltar à Vida os milhares, milhões de vítimas inocentes.

         Redobrem da força anímica que lhes vem do coração as mulheres afegãs, iranianas, de todo o mundo, da mesma fibra de Joana d?Arc e Malala, e saiam à rua vitoriosas em nome e gratidão para com todas as mulheres barbaramente amortalhadas.  

         Juntem-se-se os humilhados e ofendidos do mundo inteiro até derrubar os tridentes do poder, do capital e da corrupção, arregimentados nos offshores dos impérios-sombra que nos esmagam.

         Se, como parasitas dos charcos, se multiplicam os coveiros da justiça e da alegria, cerremos fileiras, ergamos fronteiras para não  deixá-los passar. Ainda que nos custe um vaso capilar, um pé, uma mão, até um sopro de vida. Quem ressuscitou Lázaro deixou-nos o pré-aviso personificado em si mesmo: Se o grão de trigo caído na terra não se sepultar, ficará ele sozinho sem nunca dar fruto algum…  jamais ressuscitará. (Jo.12,24 ). Paradoxal, tremendo, mas exaltante!

           Quem sabe se, perto de nós, pisamos chão anónimo onde gemem vozes lancinantes numa angústia abafada sob os ossos passos indiferentes: “Levanta-me daqui, dá-me a tua mão”?!... Algum Lázaro talvez espere pela operacionalidade factual da nossa  voz: “Sai daí para fora”…

         E quem sabe se o mais profundo de ti, de mim mesmo, não estará a gritar para o frágil aparência do que somos  aquele silêncio insistente, perturbador: “Sai daí, desse fosso, dessa depressão, desse egoísmo, dessa letal indiferença. Regressar à vida está na tua mão”!  

         Se um só lázaro, passante mortal, ressuscita, é todo o mundo que com ele volta à Vida!

 

         25.Mar.23

         Martins Júnior

quinta-feira, 23 de março de 2023

QUANDO DIPLOMACIA É SIMULACRO DE HIPOCRISIA – UM ANTI-“PLANO DE PAZ”

                                                                                


Vem de longe a arte da prestidigitação, quer no teatro do palco, quer no anfiteatro da vida. No primeiro, o gesto farto, espectacular de uma das mãos esconde a falácia da outra, onde se aljava o truque, o tiro, a queda. No segundo, a mão dá lugar à palavra, ao sorriso mefistofélico e aos tratados oficiais. E tudo serve – puxemos atrás até encontrar o ardiloso “Cavalo de Tróia” – para iludir o interlocutor, seja o indivíduo, o clã e a classe, a tribo ou a nação.

         Supérfluo assinalar que é na política que a velha arte nunca envelhece. Quando não se estampa no rosto, lobriga-se-a no olhar e quando o discurso engana, os factos

denunciam, por acção ou omissão.

         Sem mais prolegómenos, quero trazer aqui a ‘arte fina’ do dragão chinês na visita à vizinha raposa russa, aquele enigmático e astuto – e, por isso, vencedor – esta primária e pós-czarina – perdida a aristocracia dos czares e ressabiada do ultrapassado império soviético. Do encontro, o que menos se sabe é aquilo, o mais importante, que se passou nos dourados, sumptuosos salões do Kremlin ente Putin e Xi Jimping. Do que transpira para o exterior – trocas comerciais, transportes, acordos vários – retomo o propagandeado “Plano de Paz” entre Rússia e Ucrânia, a expressão refinada da hipocrisia embalsamada na mais exímia diplomacia, como se demonstra pelo simples exercício silogístico:

         Nas premissas, proclama Xi  o princípio sagrado da “soberania do território”. Na conclusão do silogismo, o que resultou? O silêncio absoluto, nem foi tratado nos três dias do grande simpósio inter-imperial. Porquê? Porque a China tem no seu seio uma Ucrânia escondida: Taiwan! A ponto de já correr na gíria e na análise geopolítica internacional a exacta definição: “Taiwan é a Ucrânia chinesa”. A máscara de Xi – imperturbável como uma múmia e fulminante como a de um tigre – caíu por terra. Ao defender, supostamente, a soberania da Ucrânia, estará implicitamente a outorgar o estatuto independentista requisitado por Taiwan e que conta com a apoio expresso dos EUA, caso a China intervenha militarmente.

         Não é com gosto que abordo esta temática. Muito pelo contrário, cansa-me e revolta-me este mundo concêntrico em que nós, cidadãos comuns, ficamos reféns dos magnatas do capital, do armamento, da mais repugnante hipocrisia, em que quem nos aperta a mão prepara-se para afogar-nos o pescoço.

Xi Jimping’s e Putin’s andam por aí, talvez à nossa beira. Livrar-nos deles é a palavra de ordem!

 

         23.Mar.23

         Martins Júnior

terça-feira, 21 de março de 2023

“AS ÁRVORES MORREM DE PÉ” – UM EMBONDEIRO, ENXERTO DE CAFEZEIRO

 

             


Memorável Dia da Árvore, que se entrelaça com a Poesia!

         Entronizada no pódio da civilização, saudamo-la, a Árvore, conjuntamente a floresta, o bosque, o arbusto, a raiz, ramo, folhas, flores e frutos, todo o universo botânico que faz a terra mais verde e a vida mais bela

         À hora em que escrevo, uma Árvore gigante ficará definitivamente transplantada no Campo Santo de Campo Maior. Sublinho ‘transplantada’ - porque Rui Nabeiro, já no chão dos viventes, sempre foi aquela Árvore firme e frondosa, sempre agarrada à terra, em cujo redor todos, do maior ao mais pequeno, respiravam saúde física e mental, mais o verde da esperança.

         Os media encheram o país dos merecidos encómios expressos, quer pelas mais altas patentes do Estado, quer  pelo povo anónimo\campomaiorense. Daqui de longe, recolho o tríplice legado que nos deixa:

Primeiro:: O homem, o lugar, a condição. É o homem que eleva (ou rebaixa) o lugar e a condição em que nasceu. De uma terreola raiana do Alentejo profundo, ele fez a capital de um grande império e da sua condição proletária ergueu-se, a pulso, atingindo o galarim internacional  da riqueza e da fama. Daí, a minha ousadia de defini-lo como o embondeiro enxertado na humilde espécie da planta-cafezeiro. “Foi o café que me levou a  todo o mundo” – disse-o o próprio em recente entrevista.

         Segundo: A concepção do lucro. Enquanto para o grosso dos investidores só há lucro no volume do papel venável, nos depósitos bancários ou na opulência imobiliária, ele ultrapassou a metálica fasquia financeira e descobriu um outro estádio lucrativo: o da cultura,  do humanismo solidário e da felicidade global. Atesta-o, entre outras, a criação do   Centro Educativo ‘Alice Nabeiro’ para os filhos dos trabalhadores. O escritor José Luís Peixoto, no revelador romance Almoço de Domingo, inspirado em Rui Nabeiro, exprime-o claramente: “Destacaria nele o optimismo e a crença na possibilidade de construirmos alguma coisa melhor não só nas nossas condições pessoais e imediatas, mas no sentido de deixar um mundo melhor do que aquele que recebemos”. É este um lucro maior!

         Terceiro: A complementaridade entre Capital e Trabalho. A antinomia radical entre estes dois vectores indissociáveis da economia e que estão na génese de conflitos intermináveis, porque aparentemente inconciliáveis, ele resolveu-a na base do pensamento (conhecendo-o ou não) de Leão XIII através da Encíclica Rerum Novarum, publicada em 15 de Maio de 1891, há mais de um século, e que se formula no seguinte normativo: “A função social do capital e da propriedade privada”. Foi o que ele realizou, substituindo a clássica pirâmide burocrática da empresa, de Max Weber, pelo associativismo integrante entre patrão-operário, fazendo de cada trabalhador um co-produtor identificado com a empresa à qual vende a força do seu braço de trabalho, porque ambos, proporcionalmente, partilham dos lucros. Ele demonstrou factualmente que se pode ganhar riqueza distribuindo riqueza. Um projecto imbatível para os detentores do capital dos tempos actuais, onde impera a exploração desenfreada, sem escrúpulos! Lição oportuna  para aqueles que, no caso vertente em Portugal, se opõem à proposta “Mais Habitação” que faz das casas devolutas uma hipótese viável para as graves carências no sector!

         Rui Nabeiro deu nome e rumo à sua empresa – DELTA – designação que nos transporta ao livro do poeta Egito Gonçalves, O Amor Desagua em Delta, cuja mensagem aponta para a abertura altruísta - individual e social - em contraste com  o egoísmo hermético das classes dominantes. Ao empresário campomaiorense pode estender-se o primeiro parágrafo do Sermão da Montanha, quando se refere aos “pobres em espírito”. Ele, sendo rico, não reteve para si o que para outros é o bem maior: o dinheiro.

         Foi com um travo de emoção que revi, na RTP, o Dr. Mário Soares (de braço fracturado ao peito) entregar a Comenda do Mérito a Rui Nabeiro em 10 de Junho de 1995, no Pavilhão Rosa Mota, no Porto, a mesma cerimónia em que me foi atribuída idêntica distinção, num outro registo, pelo mesmo Presidente da República. Nos cumprimentos que então trocámos, sensibilizou-me a transparência do olhar e o sorriso sem mácula.

         O chamado “Pai de Campo Maior” partiu no Dia do Pai e sepulta-se hoje, Dia da Árvore e Dia da Primavera, prenúncio de que os valores que nos legou frutificarão em todas as estações da vida de quantos continuam a rota da existência.

E porque a Poesia tem hoje a sua morada cronológica, só me resta atribuir à memória de Rui Nabeiro aquele galardão que só às almas grandes está reservada: AS ÁRVORES MORREM DE PÉ!!!

 

         21.Mar.23

         Martins Júnior

domingo, 19 de março de 2023

A PIDE DO SÉCULO XX E A INQUISIÇÃO DO SÉCULO XVII NUM JULGAMENTO DE HÁ DOIS MIL ANOS

                                                                            


          Normativos do Código Penal oficial:

         Art.: 1º - A sentença já está lavrada: O Réu sai sempre condenado.

         Art.: 2º - As testemunhas discordantes são excluídas e/ou punidas..

         Art..: 3º - O Réu não tem direito a contraditório nem a recurso.

         Art.:  4º -  Nos casos omissos, remete-se para o Art.: 1ª.

 

         É a moldura processual de todos os códigos da ditadura. Desde tempos imemoriais, em todas civilizações e regimes onde a prepotência define o poder, aí ‘os dados estão lançados, sem apelo nem agravo e a justiça não passa de uma farsa travestida de togas negras ou paramentos vermelhos.

Se nos amedrontamos ainda hoje com as condenações sumárias da Pide salazarista e se nos queimam o cérebro as chamas da fogueira que os bispos franceses atearam ao corpo da jovem Jeanne d’Arc, proponho então a leitura do LIVRO (é fim-de-semana), capítulo 9, 1-41, narrado por João, Apóstolo e  Evangelista.

Personagens: um cego de nascença, protagonista do caso, curado pelo Nazareno, está intimado a negar, primeiro, o benefício alcançado e, mais importante, proibido de anunciar publicamente quem foi o seu autor. Na insistência positiva do ‘cego’, os juízes convocam os pais que, timidamente e sob a ameaça do poder do Templo, decidem-se pela abstenção, alegando que o filho é maior e tem direito a opinar sobre o caso. Chamam de novo o ‘milagrado’ que reitera o testemunho inicial. Por fim, é insultado, condenado e expulso da comunidade judaica.

É o ´clássico´ dos julgamentos subservientes ao poder ditatorial. Vale a pena reler o texto bíblico e nele detectar o cinismo capcioso dos Sumos-Sacerdotes que subrepticiamente delegam nos comparsas fariseus  a urdidura e o términus do processo inquisitorial.

Quando a tramitação do processo fica sob a alçada do poder religioso, então  o refinamento da práxis jurídico-canónjca atinge foros de um absolutismo inenarrável. Até chegar ao cúmulo de condenar um súbdito ou uma comunidade sem processo formado! Sei do que falo e a história confirma, sobretudo quando estão incestuosamente conectados o poder político e poder religioso.

Mais uma vez, nihil sub sole novi…

Por coincidência cronológica - e, para nós, simbólica, quase profética – a mensagem do LIVRO, lida e meditada em todo o orbe católico, evoca o atentado da aliança político-religiosa regional contra a igreja e povo da Ribeira Seca, em 1985, quando 70 efectivos policiais logo na madrugada de 27 de Fevereiro e sem mandado judicial devassaram adro, templo e residência paroquial. Volvidos, porém, 18 dias e 18 noites de ocupação ilegal – ocupação selvagem,  pode dizer-se -  abandonaram o local (também de madrugada!) no memorável 18 de Março de 1985. Fez ontem precisamente 38 anos!

Solidarizando-me com o ‘Cego Vitorioso’ do texto joanino e saudando na mesma data o glorioso “Dia do Pai”, não posso deixar de enviar as mais emotivas congratulações à valorosa comunidade da Ribeira Seca por mais este aniversário de uma luta digna da personalidade resiliente das suas gentes!

 

19.Mar.23

Martins Júnior