quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

TRUMP E MARIANN – OU – A DITADURA E AS RELIGIÕES: A PRAGA DE TODOS OS TEMPOS !!!

                                                                                  


A intermitência voraz dos acontecimentos e a amplificação ensurdecedora que lhe dão os media – guerras militares, guerras territoriais, guerras comerciais – retiram-nos a capacidade de nos fixarmos no essencial e acabamos por deixar fugir  entre a corrente o que de mais precioso tem o ser humano: o poder de análise, a visibilidade crítica, a direcção certa na acção.

          Não assim o estatuto deste Senso&Consenso. Por isso, não largamos ao vento a cerimónia da tomada de posse de Donald Trump, mais concretamente o discurso de Mariann Budde, a hierarca da Igreja Episcopal de St. John, de que fizemos eco no anterior blog.

          Que eloquência de pensamento e que coragem evangélica de Mulher!  Deixa a léguas a cobardia híbrida de certos homens hierarcas da Igreja Católica, ao contrariar, ali mesmo e face a face, o omnipotente Trump e o seu programa político, pomposamente anunciado na véspera!

          Falta analisar a atitude comportamental do novo-velho eleito presidente. Após a aparente displicência e o  mal disfarçado azedume durante toda a cerimónia religiosa, Trump traduz toda a acrimónia interior em três rounds, cá fora diante da sua corte: 1º - Aquele discurso não foi nada emocionante, pois não. 2º - Ela devia ter feito coisa melhor, ela é pouco inteligente e foi muito desagradável.  3º - A pseudo-bispa  e a sua Igreja Episcopal devem um pedido público  de desculpa aos americanos por aquilo que disse !

          É a reacção directa dos ditadores, auto-considerados intocáveis, habituados a que as igrejas e as religiões lhes estendam passadeiras vermelhas e fumeguem nuvens de incenso à sua passagem. E os eclesiásticos, a começar pelas eminências patriarcais, castrados física e mentalmente, rendem-se-lhes como tapetes de cozinha, parceiros do mesmo poder incestuoso – repugnante e nauseabunda opção que deu razão ao grande luminar, génio do Cristianismo, Santo Agostinho de Hipona, ao definir a Igreja, já  no longínquo século V, com esta degradante nomenclatura: Ecclesia Casta Meretrix.

Desconheço o sistema de vasos comunicantes entre política e religião nos EUA, mas as recentes retaliações de Trump no seio do aparelho administrativo e judiciário levam-nos a temer o clima de repressão que o regime trumpista  é capaz de desencadear contra Mariann Budde e a sua Igreja. É o que tentarei acompanhar.

Para nós, portugueses da Madeira e do Continente, não é matéria nova. Quer no tempo da ditadura salazarista, que vitimou, entre outros,  o bispo do Porto, António ferreira Gomes, o de Nampula, Manuel Vieira Pinto, o pároco dos Jerónimos, padre José Felicidade Alves – quer na musculatura da chamada Autonomia madeirense que fez da Igreja, padres e bispos, autênticas marionetes a baixo-custo e perseguiu, humilhou, diabolizou quem, dentro do clero, esboçasse o mínimo gesto ante a pró-ditadura vigente. Pena faz e mais que pena, vergonha, quando uma entidade dotada de superioridade ética e espiritual, na linha  da sua  matriz original, se deixa manipular e desventrar às mãos de poderes encharcados de peçonha e insaciável sofreguidão.

Onde pretendo chegar com este olhar sobre o primeiro dia do novo--velho regime americano?

Só a isto:

Se em todas as escolas, universidades, assembleias locais ou regionais e se em todas as igrejas houvesse uma Mariann Budde e aí se  proclamasse a sua mensagem, nunca teria  ousado Donald Trump vazar tamanhas enormidades e tão ferozes ameaças na bandeira de um país maior da democracia mundial! Na bandeira, no povo e em todo o mundo civilizado.

Porque mais forte que as armas e o dinheiro é o pensamento. O discurso do líder, seja ele político, pregador ou comediante, reflecte a mentalidade do seu público. Daí, o axioma: Cada povo tem o governo que merece. Por isso, são os pedagogos, os honestos e esclarecidos formadores das mentalidades – numa cátedra ou no mais humilde lugarejo, pela voz ou pela escrita ou pela net – são eles, os que ensinam o povo a pensar, os verdadeiros construtores e  vencedores da história.

Stop, Louk and Listen – o melhor antídoto contra o vírus estonteante dos malabaristas ditadores. Parar para pensat,  ouvir para entender, olhar para decidir e marcar o rumo!  

  

 03-05.Jan.25

Martins Júnior

         

sábado, 1 de fevereiro de 2025

TRUMP NO TRONO E MARIANN NO ALTAR. MAS A MULHER FOI A MAIOR !!!

                                                                    


Ver por dentro e não contentar-se ou entreter-se apenas com as aparências. Prometido ontem, cumprido hoje. Na tomada de posse do 47º presidente dos EUA. Na catedral episcopal de St. John. Mais precisamente, no discurso que, do púlpito do histórico templo, dirigiu a Trump  a presidente da diocese de Washington, D.C., Mariann Budde.

          O que o mundo viu em grande plano?  A sacralização da emproada entronização do não menos emproado Donald Trump, num espectáculo psico-pirotécnico de opulência e dominação, que começou na catedral e espojou-se até ao Capitólio.

          O que poucos viram e ouviram? O discurso da celebrante Mariann.

          Na fila primeira, o volumoso descendente de emigrantes  alemães, pesado, amuralhado, ameaçador. No altar, uma figura franzina de mulher, 65 anos, semblante afável e voz suave.

          Oiçamos, em síntese, as palavras que, do púlpito de St. John, dirigiu a Trump e a toda a assembleia presidencial:

          Só com Unidade - não a unidade de alguns, mas de todos – é que será verdadeiramente grande a nossa América… Quais são os alicerces  da Unidade?... Três os alicerces, sem os quais a Unidade ficará assente na areia e não na rocha firme, como falava Jesus.

 1º - : Dignidade Humana, conforme a Nossa Declaração da Independência, em que a Igualdade e a Dignidade são direitos inatos a toda a pessoa que nasce. E por nascermos, somos todos filhos do mesmo Deus…

2º - Honestidade, tanto na vida pública como na vida privada. Sem Honestidade não há Unidade. Pedir a Deus a Unidade numa cerimónia solene, como esta, é fácil. Mas praticá-la no dia-a-dia é que é  difícil, porque aí as nossas acções vão contra as nossas orações.

3º - Humildade, porque todos erramos. Evitarmos o culto do desprezo que está a tornar-se normalizado no nosso país. Ninguém tem a verdade inteira. É preciso  olharmos a verdade dos outros sem  escarnecermos, desconsiderarmos ou diabolizarmos… Porque os primeiros prejudicados e perigosos para nós mesmos, somos nós quando nos convencemos que temos a verdade toda.

          (Trump, na primeira fila, o trono dos fariseus no tempo de Jesus, ora fazia-se distraído, ora displicente, ora constrangido, sobretudo quando a celebrante se lhe dirigiu directamente.)

Senhor Presidente:

O Senhor disse ontem que a mão providencial de um  Deus amoroso livrou-o da morte, de uma bala assassina. Pois, em nome desse nosso Deus, tenha misericórdia de milhões de americanos que o escolheram e que vivem agora debaixo do medo… Tenha misericórdia de tantos filhos que agora estão assustados se os seus pais forem expulsos deste território, que eles procuraram fugindo à fome e às perseguições nos seus países de origem…

São imigrantes, mas também todos nós fomos emigrantes nesta terra… São eles que limpam e preparam os nossos escritórios, que cuidam dos campos agrícolas, dos aviários e dos matadouros, que lavam a loiça depois de jantarmos nos restaurantes, que passam as noites trabalhando nos hospitais: podem não ser todos cidadãos, podem não ter documentos, mas na maior parte não são criminosos… Eles são trabalhadores, são bons vizinhos e estão presentes nas nossas igrejas, nas mesquitas, nas sinagogas.

Crianças, gays, lésbicas, transgénero, Sr. Presidente, há-os entre famílias de  democratas, republicanos ou independentes. E alguns agora vivem debaixo do medo. ..

Que grandeza de espírito! Que coragem evangélica! Que fidelidade intrépida a Jesus de Nazaré, diante de um todo-poderoso, ali à sua frente, cujo programa aponta em sentido visceralmente oposto!

Naquele corpo frágil de mulher, vi a estatura, a eloquência e o realismo frontal do nosso Imperador da Língua Portuguesa, o monumental Padre António Vieira, do século XVII. E dentro de mim, soltou-se uma pergunta: "Actualmente, neste nosso país e nesta região, onde encontrar um padre católico, um bispo, um cardeal, dotado da coragem e da transparência humana e teológica desta Mariann Budde, Bispa de Washington C.D.?!". Comparável, talvez, o Papa Francisco, nas suas homilias.

Deveria a comunicação social portuguesa, (como fez a imprensa internacional)  sobretudo a Igreja com os meios que tem ao seu dispor, dar em grande plano e repetir a mensagem proferida em solo americano e numa hora decisiva para o futuro da humanidade. Saúdo, pois, calorosamente a crónica do Padre Prof. Dr. Anselmo Borges na sua coluna do ‘Diário de Notícias’ de Lisboa. O teólogo e filósofo português de maior talento e clarividência na actualidade provou que “o Espírito sopra em toda a parte”. Ele que tem pautado a vida, a cátedra e a escrita pela descoberta da Verdade. Bem haja!

 

29.Jan-01.Fev.25

Martins Júnior

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

A MISSA E OS MÍSSEIS DE TRUMP, AUTO- -PROCLAMADO “O ENVIADO DE DEUS”

                                                                                  


Ver o invisível, escutar os silêncios, ler as entrelinhas, três títulos de uma única atitude necessária para saber interpretar os acontecimentos. Só descobre a verdade inteira quem não se deixa enredar nas malhas da aparência. No mundo de hoje, agitado por uma informação frenética e sensacionalista, ansiosa por “quem dá primeiro”,  é indispensável  munirmo-nos deste GPS condutor para não cairmos em charcos interpretativos, senão mesmo em abismos de falaciosas contradições.

          Vamos aos factos.

          Foi notória  a missa da tomada de posse do presidente Donald Trump, celebrada na igreja de Saint John, em Washington D.C., uma cerimónia oligárquica, mundialmente publicitada. Ao crente médio, outro sentimento não acode senão o da fé de um presidente extremamente religioso, agradecido a Deus pela vitória. Assim fazem todos os candidatos ganhadores.

          Mas ao ver uma tão proemonente Excelência adiposa (cidadão americano, descendente de emigrantes alemães) na primeira fila do histórico templo, apeteceria perguntar: “A  que deus reza e agradece Donald Trump?...

Ao deus comandante-em-chefe das Forças Armadas de Israel, o ‘Senhor Deus dos Exércitos’ do reino judaico e do furor israelita de Netanyahou?... ao deus ‘ALÁ”, o da guerra santa, dos yadhistas, sunitas, xiistas do império muçulmano ?...  ao deus de Auschwitz, o dos infernos, lume nazi e água benta eclesiástica?... ao deus ‘Ortodoxo’ moscovita do império bizantino, transposto para os altares da federação russa, com os mísseis de Putin abençoados pelo patriarca Kirilos?... ou ao bíblico deus ‘Mammona’, o do dinheiro, irmão gémeo do deus pagão ‘Pluto’, do ouro rico, adoptados pelo império capitalista americano?”...

          Não arriscaríamos errar se adivinhássemos o pensamento de Trump naquele ritual litúrgico: Não vim cá agradecer a Deus, vim  mostrar ao mundo que Deus é que me agradece por ter aceitado o seu pedido para ser seu Enviado. Sim, já vo-lo disse e repito: Eu sou o Enviado de Deus para salvar e tornar grande a nossa América.

Não é novo este manual sacro-profano. Repete-se com todos os candidatos a ditadores, desde os imperadores coroadoss pelos Papas, até Adolf Hitler, saudado por Pio XII e o português Salazar, idolatrado  como Salvador da Pátria, associado e concelebrado pelo cardeal Cerejeira. Repete-se também, a outros níveis, nos meios urbanos e rurais, com os governantes e aprendizes da ditadura nos primeiros assentos, padre e bispos em aplausos comovedores.

          A isto sujeitam-se hipocritamente as igrejas…

Já desde o século XVII, nos avisava o poeta Voltaire, citado na última edição do semanário francês Le 1:

                    Ces monstres furieux de carnage altérés,

Excités par la voix des prêtes sanguinaires

                        Invoquaient le Seigneur en égorgeant leurs frères;

                        Et, le bras tout souillé du sang des innocents,

                        Osaient offrir à Dieucet execrable encens”

  

          Traduzindo:

                    Estes monstros tresloucados furiosos de carnadura

                    Excitados pela voz de padres sanguinários

                    Invocavam o Senhor enquanto  esganavam seus irmãos

                    E com o braço manchado do sangue dos inocentes

                    Ousavam oferecer a Deus  execrável incenso

 

           Sangue e incenso horrorosa e fétida  mistura em cima do altar. E as igrejas aceitam isto. E por isto louvam a Deus e exaltam os assassinos. Deviam, primeiro, envergonhar-se deste mísero papel de curvar-se e cair de joelhos , em coro uníssono, diante dos donos do mundo.

Para sintetizar tudo quanto acabo de escrever, nada mais explícito que o pensamento, atribuído ao bispo Santo Agostinho, o maior génio do Cristianismo, há mais de 1.500 anos: “Ecclesia Casta Meretrix, “A Igreja é uma Prostituta Casta, Virgem”. Portanto, serventuária dos mais poderosos, dos  mais fortes, dos mais ricos.

Ora, a identidade evangélica da Igreja de Jesus de Nazaré, cuja estatura moral e libertadora  está acima dos impérios mundanos, nunca deveria rebaixar-se ao nível de colaboracionista e aduladora dos titulares desses impérios.

 A esta breve leitura das entrelinhas da missa protocolar na igreja episcopaliana de St. John, Washingto D.C., dedicada ao vencedor eleitoral Donald Trump – uma leitura nada optimista porque mui diversa das aparências – devo juntar o seu reverso: Primeiro, o  80º aniversário da destruição do Campo dos Horrores nazi, em 27 de Janeiro,  um feito épico que mereceria um solene Te--Deum  em todas as igrejas do mundo! Segundo, o mais positivo e esclarecedor, a mensagem da celebrante do referido acto litúrgico, a Rev.ma Mariann Budde, que apresentarei mo próximo escrito.  

 

23-25.Jan.25

Martins Júnior

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

O TRIÂNGULO VICIOSO

                                                           


CONDENADOS E ARGUIDOS AO PODER

          Não era minha intenção convidar um triângulo vicioso a entrar, mesmo na cave, da oficina deste Senso&Consenso, porque nos alvores de um Ano Novo entendo que só cabem as boas-novas, portadoras de optimismo e positiva construtividade do indivíduo e da sociedade. Mas ao ler na na capa da Revista Figaro o histriónico título Les Cow-Boys au Pouvoir, não resisti a pôr em público aquilo que guardava só no meu foro privado.

          Cow-Boys, no texto de Alexandre Devecchio,  são Donald Trump, à cabeça, Javier Milei, presidente da Argentina e Nayib Bukele, presidente de Salvador, os quais, na vulgar nomenclatura cinematográfica, levam o leitor ao mundo de aventuras do mítico Texas americano, para entretenimento  de sofá.

                                                               


Não assim com Os  Condenados e Arguidos ao Poder. Aqui, o caso muda de tom, de volume e de consequência. O Triângulo Vicioso comprime a civilização, abala as consciências, destrói toda a esperança de viver entre humanos. À sua passagem, tremem os alicerces do mundo,    e a própria Justiça,  o único esteio de segurança, fica esmagada sob os buldozzers do crime impune.

Enquanto não nos secam os sentimentos e não nos cegam os olhos, impõe-se-nos uma pergunta irresistível:

Quem há quem, neste mundo, capaz de suportar no poder soberano indivíduos condenados na barra dos tribunais, que usam o posto para fugirem à cadeia, pois logo que saiam do poder o seu trono será atrás das grades?! Por corrupção, abuso do poder, escândalos públicos. Outros há, cujo julgamento e condenação estavam já em processo, caso não fossem eleitos. Ainda nas malhas da Justiça estão aqueles que, alapados no alçapão da imunidade, subtraem-se como privilegiados arguidos.

Aí estão três exemplares, cada qual formatado ao tamanho do território dominado, Trump e Netanyahu, aliados na criminalidade pública e ambos resguardados nos biombos dourados do poder, a que se junta o nosso  arguido-mór que anda de terra em terra, de empresa em empresa, de beco em beco, a antecipar campanha eleitoral para garantir as ameias do castelo Quinta Vigia.

Mutatis mutandis e comparadas as diversas circunstâncias, voltámos ao reino da barbárie, à lei da selva, a razão da força em vez da força da razão. Pelo dinheiro, pelas armas, pelos media, são outros e muitos os Cow-Boys, os condenados e arguidos assaltantes da poderosa pirâmide que os protege e defende.

Não são eles, porém, os únicos comparsas desta trágica urdidura que torna inabitável o planeta. Nós também entramos em cena. Nós, o povo, os eleitores. Todos os que, pela pesadíssima leveza do voto, transportaram aos ombros  os monstros condenados e arguidos até à cátedra do reino, do município, da freguesia, todos somos colaboracionistas e co--autores desta degradante enormidade.

Ao vermos saírem da prisão os facínoras que atacaram o Capitólio em 6 de Janeiro de 2021, indultados agora por aquele que deveria estar na cadeia, pensemos que os criminosos geram outros criminosos, do tamanho do lugar onde se instalam.

Seja o Triângulo Vicioso o semáforo vermelho que devemos evitar a todo o custo!  

   

21.Jan.25

Martins Júnior

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

“O CANTO DO MELRO” NOUTRAS VIAGENS

 

                                      


À vol d’oiseau…

Permita-se-me recorrer ao conhecido galicismo para exprimir o júbilo do Canto do Melro que, neste fim-de-semana, voou da Ilha para  Beira-Tejo, no Seixal continental e, daí, para o Oeste luso da Marinha Grande, distrito de Leiria.

Mais que um mero reporte de viagem, trata-se neste escrito de render a minha gratidão à Profª. Drª. Raquel Varela e à Editora Bertrand pelo generoso afã com que têm divulgado retalhos de vida e lampejos cirúrgicos de uma mensagem que recebo do círculo envolvente em que navego e, como retorno necessário, procuro devolvê-la em crescendo evolutivo ao rio por onde perpassam pessoas e sonhos à minha volta, predestinados  companheiros do roteiro existencial.

                                         


Foi assim, sábado, 18, no Seixal da outra margem, numa franca confraternização que tanto poderia chamar-se tertúlia académica como, sobretudo, Agapè emotiva, espiritualista, de tão largo e belo foi o desenrolar do encontro, com poemas e canções libertadoras, evocativas de Zeca Afonso, Carlos do Carmo, José Mário Branco, Ary dos Santos,  na voz de Victor Sarmento. Coincidência ou não,, o nome do local, Restaurante O Bispo,  ajudou ao ambiente da festa-convívio, em que o pico de relevo foi iluminado por duas personalidades portadoras da história de um almejado Portugal Novo, nascido no coração da Revolução de Abril: o lutador indefectível Major Mário Tomé e o corajoso causídico patrocinador das causas nobres e justas, o Dr. Garcia Pereira, ambos sintonizados com a estimulante partitura do Canto do Melro, de Raquel Varela, historiadora e novel romancista.

                                             


Domingo, 19, o Melro, de Guerra Junqueiro (que deu o mote para o Canto) sobrevoou o litoral poente até São Pedro de Moel e, daí, à Marinha Grande, onde o esperava uma numerosa e prestigiada assembleia de leitores, reunidos no inspirador auditório da Casa-Museu do escultor Joaquim Correia. Não faltarei à verdade dos factos se disser que a apresentação do livro ficou a cargo de uma qualificada galeria honoris causa, a que chamarei Os Cinco Magníficos: o presidente do Município, dr. Aurélio Ferreira; o representante da Bertrand, dr. Jorge Garcia  ; a escritora Raquel Varela; a drª Adelaide Franco Mendes, docente de Literatura;  e o super-jubilado do Direito, da Justiça, da Literatura e do Humanismo, dr. Álvaro Laborinho Lúcio, tendo estes dois últimos oradores galvanizado o público com a acurada análise, a um tempo científica e poética, do Canto do Melro.

                                                   


 Nota singular que tornou original e vívida esta apresentação foi a participação directa da assembleia, repercutindo como em dramatização cénica diversas passagens do livro, bem como a enternecedora actuação de dois clarinetes infantis e o virtuosismo da guitarra acústica de um jovem e talentoso artista local.

A todos os generosos intervenientes, quer no Seixal, quer na Marinha Grande, particularmente ao dinâmico Luís Manuel  Silvestre, incansável empreendedor do evento na cidade vidreira – símbolo histórico da  resiliência e do verdadeiro patriotismo telúrico - a minha mais rendida gratidão.

19.Jan.25

Martins Júnior     

 

sábado, 18 de janeiro de 2025

ENQUANTO NOS PALÁCIOS ASSINAM O CESSAR FOGO A FALA DE QUEM AGONIZA SOB OS ESCOMBROS DE GAZA

 


Caíu-me em cima o betão armado

De todas as lajes de todos os tempos

Do Egipto à Babilónia

Do Pretório ao Gólgota

Das fogueiras do Santo Ofício

Aos fornos de Auschwitz

 

Por cada manhã de páscoa

Noites de gerações em choro e luto

Por um só dia no éden de um pai hebreu

O deus dos exércitos abateu

Em cima de mim

Milénios de exílios em campa rasa

 

Sob os escombros de Gaza

Ainda estou aqui refém

Gemendo toda a dor que a minha pátria tem

 

Será desta a hora

De me afastarem a laje que me sufoca e devora?

 

Creio mas não espero


Eu sei

Que há sempre um Ramsés, Nabucodonosor ou Nero

Para abater-me nu

Ao atravessar a primeira rua

 

Porque Tu

Meu irmão nazareno ainda não ressuscitaste

Nesta nossa terra que foi tua  

 

17.Jan.25

Martins Júnior

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

A MAIS AMPLA E BRILHANTE MENSAGEM DE ANO NOVO !!!

                                                              


Aconteceu Ano Novo na RTP/M!

Quando digo Ano Novo, quero dizer mais que novo ano, novo calendário, fogos fátuos, balonas e estrelas cadentes que saem do chão e mais depressa ao chão regressam. Aconteceu Ano Novo – verdadeiramente  Novo! - na grande paisagem da Ideia,  da Acção, da Saúde física e mental, da Crença, enfim, da Vida.

Quem no-lo trouxe foi o Padre José Luís Rodrigues, secundado pela excelente condução do jornalista Paulo Santos que soube interpelar com mestria o  distinto entrevistado, abrangendo uma polícroma diversidade de temas e problemas do mundo actual, desde as questões sociais às ideológicas e religiosas, com tal realismo e sensibilidade que parecia responder a todos e a cada um dos telespectadores que tiveram o privilégio de ver e ouvir a histórica entrevista do Pároco de São José, no Funchal.

Bem andou a RTP/M em abrir novos horizontes a crentes e não crentes, através da palavra lúcida, segura e transparente do padre romancista, poeta, contista e ensaísta, orador e blogger de merecido reconhecimento público. Ele identifica a metamorfose necessária à Igreja na Madeira, onde o imobilismo intelectual e o exibicionismo processional enfermam a religião católica nesta ilha, desde a hierarquia ao presbitério e aos fiéis em geral.

Corajoso e polémico para alguns, mergulhados que estão no obscurantismo oportunista, gerador de resquícios de poder  anti--evangélico, o Padre José Luís Rodrigues nos dias que correm incarna a personalidade – também corajosa e polémica – do Papa Francisco, cujo lema pastoral é o de “UMA IGREJA EM SAÍDA” ao encontro da Humanidade, no seu sentido holístico, esteja onde estiver o ser humano.

          Estamos perante um discurso intelectual e um programa comportamental idênticos ao de Jesus de Nazaré que, sem prejuízo da verticalidade da fé, pautou os seus actos  pela horizontalidade humanista, tal como o saudoso Padre Mário Oliveira definiu quando titulou o texto eminentemente clarificador no seu livro “Do Cristão ao Humano”.

          Ao mesmo tempo que nos congratulamos com a luminosidade esperançosa que o Padre José Luís Rodrigues jorrou jubilosamente na alvorada do 2025, fica-nos – a todos nós que queremos um mundo novo – fica-nos, sim, a mágoa e a desilusão de ver a hierarquia e a sua casta de mini-satélites subalternizarem, senão mesmo proscreverem, os lídimos valores representativos da genuína espiritualidade humana e cristã.

          Força, Padre José Luís, deste amigo e veterano das mesmas causas, cientes que estamos de não poder salvar o planeta – nem o próprio Jesus o conseguiu – mas activos e conscientes de que, por nós, o mundo não andou para trás!

 

          15.Jan.25

          Martins Júnior