domingo, 23 de novembro de 2014

ACIMA A DEMOCRACIA ABAIXO A "MONARQUIA" ROMANA


Neste fim de tarde da grande gala da velha instituição monárquica da Igreja Católica  --- a Festa de Cristo-Rei --- prometi passar à segunda parte  do filme: a que estirpe pertence este rei-Cristo? Pois, quanto à primeira parte,  já ficou razoavelmente descrita a megalomania do Papado Romano, usurpador dos dois poderes, o temporal e o espiritual, que, por via da ignorância e submissão dos crentes (e a que se  associou a aliança perversa entre Roma e os imperadores de então) chegou ao extremo do Tratado de Tordesilhas, em 1494, em que o Papa, “delegado de Cristo e seu Vigário na terra” dividiu as colónias descobertas e a descobrir entre Portugal e Espanha. A tanto chegou a entronização de uma absurdo, “em nome Cristo, senhorio dos céus e da terra”. É caso para confirmar-se que a realidade ultrapassou a ficção.
Qualquer observador, minimamente isento, ao compulsar os textos hoje lidos na liturgia, depressa verificará a falsificação, a meu ver criminosa, da documentação original, compulsivamente merecedora de uma séria condenação judicial. E porquê?
Desde logo, pela declaração formal de J:Cristo diante do Procurador Pôncio Pilatos: “Sou rei, mas o meu reino não é deste mundo”.  Como justificam  e com que paz interior ocupam bispos e cardeais sumptuosos palacetes? Que o façam em nome pessoal ou de  heranças familiares, tudo muito bem.;mas em nome J:Cristo?  “As raposas têm as suas tocas e as aves os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Bem andou  Hélder da Câmara que, em Olinda e Recife, entregou o Paço arquiepiscopal para obras de alcance social (jovens, idosos, crianças) e foi viver para uma casa rasteira numa das ruas da cidade. O mesmo fez Jorge Bergoglio em Buenos Aires.
Seria um extenso relatório enumerar a contradição entre o autêntico rei-Cristo e o abuso despudorado com que se apresentam os eclesiásticos, sobretudo os ambiciosos das sedes episcopais, como seus intrusos representantes, porque  sem legítima procuração para tal.
O texto de hoje identifica o passaporte do exacto procurador do rei-Cristo: Aquele que acompanha os pobres, os famintos, os doentes, os sem-abrigo e até os presos. Mas --- ninguém se iluda --- não é pelo gosto mórbido da permanecer nos “ghetos” da miséria, mas para tirá-los de lá, despregá-los da cruz, matar-lhes a fome e a sede, restituir-lhes a saúde e, acima de tudo, transfigurar a sua condição em promoção da vida e da alegria que lhes foram amputadas pelos poderosos, aliados aos auto-proclamados gurus espirituais.
Na mesma medida, seria imenso o cortejo de tantos homens e mulheres que põem convictamente os seus pés nas pegadas deste rei-Cristo. Mas esses são os que a Instituição monárquica atira para a valeta do caminho.
Permitam-me trazer ao nosso convívio o ex-militar, investigador do mundo oriental, padre Charles de Foucauld, assassinado no Saará por muçulmanos tuaregues em 1916.  Porque me conforta recordar momentos decisivos no meu itinerário existencial, rendo homenagem ao Prof. Dr. Henri Hoestlandt, da Universidade de Lille, quando o acompanhei nas pesquisas científicas dos isópodes na Madeira, já lá vão quse  sessenta anos. Ofereceu-me a biografia de Foucauld, escrita por René Voillume, que mais tarde fundou a associação “Les Petits  Frères de Jesus”. A dedicatória marcou-me:”Pour une découverture du Christ” (Para uma descoberta de Cristo). Impressionou-me vivamente o ideário do ex-oficial do exército francês e ainda mais o programa da mencionada associação, maravilhosamente descrita pelo historiador Daniel Rops: “A fraternidade dos Pequenos Irmãos de Jesus vê  nele, não tanto o taumaturgo milagreiro, nem a Segunda Pessoa da SS. Trindade, nem Aquele que virá julgar os vivos e os mortos, mas o companheiro humilde,  Aquele que é mais um entre a multidão, operário no meio dos operários…”
Cada vez mais me convenço que não é pela micro-interpretação da religião ou de uma casuística pontual que se chega à verdade da realeza do nosso J:Cristo, mas sim pela visão-macro, multímoda e holística da sua personalidade  e do programa “escandalosamente” inovador, ao ponto de identificar a Divindade nos humilhados e ofendidos da história.
É um percurso, por vezes espinhoso, mas de uma luminosa conquista libertadora!

23.Nov.14
Martins Júnior