quinta-feira, 27 de novembro de 2014

MEMÓRIA QUE É UM APELO! FRANCISCO ÁLVARES DE NÓBREGA

                  “Porém, não consintais que se lastime
                   Na mesma estância,  e em confusão se esmague
                   A singela inocência a par do crime”

 
 
         Porque passam, domingo próximo, 241 anos sobre o seu nascimento, ponho na mesa do nosso convívio de hoje o último terceto da carta que, em forma de soneto, foi entregue ao “Sereníssimo Senhor D.João VI, Príncipe de Portugal”. O remetente foi um jovem, acorrentado nas masmorras do Limoeiro, às mãos da Santíssima Inquisição: Francisco Álvares de Nóbrega, conhecido entre os seus como o “Nosso Camões” e também por “Camões Pequeno”. Para quem traça estas linhas e para todos os que têm no coração a ilha da Madeira e, com maior emoção, o nome de Machico, lembrar Álvares de Nóbrega é como sentir um rio que corre nas nossas veias, sangue sempre novo a jorrar do terro e do rochedo que habitaram os nossos antanhos. É que ele nasceu aqui, ano 1773, olhou o mesmo sol que nos aquece, subiu os mesmos socalcos que nos vestem de verde, pisou o mesmo chão que nos aguenta.
         Por isso, quando chega Francisco, o “Nosso”, seca-nos a tinta na pena e trava-se-nos a força nos dedos: só dá para ver o ecrã do seu percurso num silêncio ofegante, ao seguir-lhe os passos para trabalhar no Funchal e ao transpor os umbrais do Seminário, já com vinte anos, por sugestão do Mestre de Retórica Francisco Lopes da Rocha, deão da Sé Catedral. Depois, é vê-lo enrolado no turbilhão das lutas político-ideológicas dentro da própria organização diocesana: de um lado, o bispo ultra-conservador José da Costa Torres e, do outro, os “pedreiros-livres”, os maçons, entre os quais o número dois da Diocese (o citado deão da Catedral) e muitos padres e forças vivas, não só da cidade do Funchal, mas de várias zonas rurais. Prevaleceu, embora temporariamente, a razão da força e o “Nosso“ Francisco, acusado caluniosamente de blasfémias contra a religião, foi levado, barra fora, para os cárceres da Inquisição, onde se  encontrou na mesma cela com essoutra “alma gémea” Manuel Maria Barbosa du Bocage, que fez do seu estro poético uma arma fulminante contra a ditadura vigente. Aos trinta e três anos, doente, quase leproso em casa de um amigo e benfeitor na rua S.João Nepomuceno, à Estrela,  despediu-se da vida, rodeado dos seus escritos. Até hoje, desconhece-se o cemitério onde foi sepulto. Só a data:: 1806.
         Maltratado em vida, esquecido na morte! Votado ao ostracismo, o regime queimou-lhe os livros e apagou-o da memória dos vivos. Só a partir de 1954, a Câmara Municipal mandou esculpir  no Miradouro de seu nome o soneto dedicado “À Pátria do Autor”, assim chamava o próprio  ao seu Machico. Mais tarde, Alberto Figueira Gomes editou as “Rimas” que ainda sobrevieram e João França dedicou-lhe o drama em Um Acto “Camões Pequeno”. Desde 1960  e, com maior empenho e liberdade, após Abril de 74 do século XX, passou-se a levantar bem alto a Mensagem de Álvares de Nóbrega  ininterruptamente em 30 de Novembro de casa ano (e muito me conforta o ter contribuido para tal), culminando todo este dever patriótico com a criação, em 2005, da associação cultural denominada “EFAN-Estudos Nobricenses”, a qual deu à estampa as “Actas do Bicentenário, 2006”, (uma colectânea de valiosos trabalhos apresentados por investigadores da Madeira e do Continente) e o “Processo da Inquisição nº 15.764”, da historiadora dra. Ivone Correia Alves.  Mais recente,  em publicação autónoma,  o estudo do dr.João Luís Freire e  a estátua de Francisco Álvares de Nóbrega, do escultor Luís Paixão, no Solar do Ribeirinho, completam este feixe luminoso na ara do nosso conterrâneo.
         Domingo próximo, 30 de Novembro, 17 horas , a Junta de Freguesia de Machico comemorará o 241º aniversário do nascimento do nosso poeta-filósofo e, conjuntamente, a “EFAN-Estudos Nobricenses” editará a aludida  peça dramática  “Camões Pequeno” (até agora inédita) do falecido polígrafo madeirense João França.
Ler e conhecer Francisco Álvares de Nóbrega  é mais importante que homenageá-lo. Tenho-o dito e redito: Os homens verdadeiramente grandes não esperam nem  precisam das nossas homenagens, nós é que  precisamos trazê-los para junto de nós, bem à nossa frente, para que o seu brilho nos arraste para aqueles horizontes que, no seu tempo, vislumbraram e ardentemente desejaram para nós, os vindouros.
Fazer da nossa vida uma luta, da nossa luta um dever, do nosso dever um prazer para tornar mais respirável a atmosfera e mais habitável o planeta --- seja pelo estudo, pelo trabalho braçal, pela poesia, pela música, por toda a  arte, pelo ensino, pela terra e pelo mar --- eis a grande Mensagem, a Única Homenagem ao cognominado, embora, de “Pequeno”, será sempre o “Nosso Camões”.

27.Nov.14

Martins Júnior