sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

VELHO PREGADOR JOVEM REVOLUCIONÁRIO DE 400 ANOS HOJE MAIS PERTO DE NÓS!


A cada dia e a cada hora, em cada esquina na viragem da vida, encontramos, se quisermos, amigos do peito, companheiros da estrada que ali estão à nossa espera para dar-nos a mão e ajudar-nos a transpor as passadas do rio. Anteontem, foi o dia "ímpar" de José Afonso na "sua casa" em Lisboa, onde estivemos a apresentar o Cancioneiro e CD, "A Igreja é do Povo e o Povo é de Deus", a história do povo da Ribeira Seca, cantada e coreografada.
Ontem foi a vez de encontrar um outro"colega" de quatro séculos, na Aula Magna da reitoria da Cidade Universitária, também em Lisboa, a convite da Organização da Edição Monumental, em 30 volumes, de toda a obra do Padre António Vieira,  pelo "Círculo de Leitores"
Foi chão sagrado e fumegante aquele anfiteatro, Pressentia-se no ar o cheiro amazónico da palavra de António Vieira, seu vulto pairava sobre as nossas cabeças e enchia o nosso olhar longínquo, a que  os acordes da orquestra sinfónica da Universidade de Lisboa deram definição e espaço maior.
Dos oradores intervenientes, Eduardo Lourenço, Carlos Reis e Vasco Soromenho Marques --- qual deles o mais distinto ---  recolheu-se um monumento breve mas bem cinzelado do "Imperador da Língua Portuguesa", como o chamou Fernando Pessoa. Particularmente da parte de Soromenho Marques sobressaíram a coerência e o desassombro do missionário nordestino António  Vieira, com dobrado acento naquela que foi a denúncia da corrupção, na defesa dos marginalizados, na dignidade, oficialmente denegada e ofendida, dos índios e  judeus, além das invectivas veementes contra o colonialismo vigente, quer na Índia, na África ou no Brasil.
Um "Bem Haja, a toda essa pléiade de investigadores portugueses e brasileiros que, sob a direcção de Pedro Calafate e do nosso conterrâneo José Eduardo Franco, produziu durante dois esforçados anos um caudal de conhecimentos, sem paralelo, que vai inundar os dois países irmãos e todos aqueles que se debruçarem sobre o génio do escritor, político, diplomata, orador e missionário --- personagem excelsa que, em tão remotos tempos, ganhou, por direito próprio, o estatuto da dupla nacionalidade: português de nascimento. brasileiro de alma inteira.
Conhecer António Vieira enche a nossa condição humana e, mais do que isso, liberta-nos da moleza e da pusilanimidade com que a sociedade nos constrange. Faz-nos descobrir que a nossa curta passagem tem de deixar um rasto luminoso para todos os amanhãs.
Para completar estas duas horas e meia de contemplação activa, tivemos a palavra de António Vieira pela voz de um reputado ator do nosso teatro que disse perante o auditório o famoso "Sermão do bom ladrão", proferido em 1655 perante o Rei D.João IV e toda a sua corte, na Igreja da Misericórdia de  Lisboa, mas, como expressamente afirmou Vieira neste mesmo sermão, deveria ser pregado não ali, mas na Capela Real.

Já vai longa esta nossa conversação, Entretanto, ficaria tudo sem sabor se não reproduzisse, para si especialmente, este eloquente extracto do "Sermão do bom ladrão"
Ei-lo;
..."O que vemos praticar em todos os reinos do mundo é. em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao paraíso, são os ladrões que levam consigo os reis ao inferno...
... O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao inferno. Os que só não vão mas levam são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam exércitos e legiões ou os governos provinciais ou a administração das cidades, os quais, já com manha, já com força, roubam e despojam os povos... Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo de seu risco, estes sem temor nem perigo.Os outros, se furtam, são enforcados, mas estes furtam e enforcam..."

Isto, há 359 anos!  Diante do Rei, dos ministros, dos juízes e conselheiros!

Vem de novo, velho pregador, jovem revolucionário.
É  DESSA  REVOLUÇÃO QUE O MUNDO PRECISA!

3.Dez.14
Martins Júnior