segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

POR QUAL INTIMAÇÃO AMPUTARAM O 1º DE DEZEMBRO?


Passei as horas com a intermitência do 1º de Dezembro nas encruzilhadas do meu pensamento diário.
Digo intermitência, querendo dizer uma certa tensão ideológica interior entre o dever comemorar ou não essa data. Explico porquê.
"In illo tempore" (como diria Trindade Coelho") isto é, na minha juventude, estas datas --- 1º de Dezembro, 10 de Junho, 5 de Outubro ---  deitavam  um mofo incómodo, por, de um lado, representarem o império salazarisa e, de outro, a edificante  (para o zé-povinho) e escandalosa (para nós) promiscuidade entre o poder da Igreja e o poder do Estado, visto que a imponente cerimónia tinha duas caras de "feijão-frade": uma, em frente da Sé Catedral, com todas as forças em parada, Exército, Marinha, Polícia, Mocidade Portuguesa (a que ironicamente nas latadas da Queima em Coimbra apelidavam de Mocidade Perdida), depois os escuteiros, enfim, "a força do público e o público à força" (literatura também da Queima). Cá fora, nesse ano de 1962, foi (era quase sempre) orador o consagrado escritor madeirense Horácio Bento de Gouveia, que exaltava com abundante gesticulação os pergaminhos da Pátria.  Dentro da Sé, o solene Te-Deum pontifical, com grande instrumental, Bispo a presidir, Cónegos ostentando nos cadeirais  vistosas meias vermelhas. governador civil e governador militar na proa do altar-mor e, claro, na primeira fila, os graduados e condecorados do regime. A mim, ainda padre-caloiro, convidou-me o distinto professor do Liceu,dr.Emanuel Paulo Ramos, presidente da delegação na Madeira da Sociedade Portuguesa de Geografia, encarregada do magno evento, convidou-me, dizia, a proferir a Oração de Sapiência, ou seja, o solene sermão de homenagem ao 1º de Dezembro que, como da praxe, devia ter por fundo o amor pátrio secundado ou, mesmo identificado, com o fervor religioso. O texto, dei-o ao dr. Paulo Ramos que mo pediu para publicar no Boletim da Sociedade. Até hoje! Só me lembro que, em virtude das afirmações ditas do alto do púlpito, recebi "guia-de-marcha" para a ilha do Porto Santo que, à época, era mais "colónia penal" do que "estância turística".Entretanto, enganaram-se porque os paroquianos porto-santenses transformaram-me o deserto em paraíso.

Até aqui, o lado pitoresco e, ao mesmo tempo enfadonho que nos (e a mim principalmente) causavam as celebrações patrióticas das referidas datas oficiais.

No entanto, hoje penso de outra forma. E penso-o, no cenário da actual globalização em que vivemos, mais particularmente na esfera da europeização do nosso país dentro da CE. Os sociólogos e filósofos contemporâneos mais conceituados na área da modernidade e pós-modernidade são unânimes em considerar que a "globalidade significa o desmanche da unidade do Estado e da sociedade nacional, novos conflitos e incompatibilidades entre actores e unidade do Estado nacional" (Ulrich Beck, in "A Sociedade do Risco",1986). Por sua vez, Zygmunt Baum, na sua eloquente "Modernidade Líquida", (2001)  insiste em que "a modernidade não é mais que a extensão totalitária da lógica dos mercados a todos os aspectos da vida...Os mercados financeiros globais impõem as suas leis e preceitos ao planeta...À globalização interessam Estados fracos mas "independentes" ...Todos têm interesses adquiridos nos Estados fracos".

Perguntar-me-ão o que é que tudo isto tem a ver com o feriado, amputado, do 1º de Dezembro.
Pois tem. E muito! Quando um Estado politicamente independente se entrega ao regime tendencialmente totalitário, o europeu inclusive, começa a perder a sua soberania. Portugal continua marionette apetecida da centralidade europeia. E quanto mais se abaixa, mais se degrada. Agora, depois de ter visto as sucessivas subserviências do governo português ao consulado de Merkel, nada me  custa a crer que a amputação do 1º de Dezembro, ícon da nossa independência, tenha sido decretada nos directórios europeus, como sinal e até escárneo da perda da nossa soberania.
Bem haja António Costa que promete repôr o feriado nacional como apelo ao povo português para que não curve alegremente a cerviz à nova "Castela" sediada em Bruxelas.

                          1,Dez.14
                          Martins Júnior