sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

VAMPES, VAMPARROS, VAMPIROS E VAMPÕES

                                                     

Todo o dia esperei que  “A VOZ”  enchesse as ondas hertzianas do espaço português e, através dos centros emissores, descesse ao fundo dos vales que ele andou, subisse à fímbria das ‘altas fragas’ que ele cantou e voltasse a abrir clareiras de esperança no coração do Povo que ele amou. Ele, ZECA AFONSO!
Esperei, mas em vão. A barafunda que diverte o vulgo e esvazia os miolos da multidão foi servida a eito pelos personalizados altifalantes oficiais.
No entanto, precisamos dele. Ficaremos carentes de siso, órfãos de luz, seremos o “cadáver adiado que procria”.  se nos faltar  “A VOZ“.  Por mais que a mordaça dos gorilas do regime a sufocasse, ZECA AFONSO erguê-la-ia, vigorosa e sadia, unida à de Galileu Galilei, o condenado à fogueira por descobrir o movimento de rotação da Terra: “E, no entanto, ela move-se”!
E, no entanto, ele canta. E, quando canta, luta. Luta pelos meninos dos bairros negros, pelas ceifeiras e pelos cavadores de todos os alentejos, pelos andarilhos da utopia, pelas cantigas do Maio maduro e moço, pelo homem novo que veio da mata,  pela fome de justiça, pelos “Padres Alípios de Freitas, homens de grande firmeza, ao lado dos explorados no combate à repressão”. Ele canta e luta por tudo aquilo que faz falta para que todas as cidades  e aldeias sejam “Grândola, Vila morena”.
O mundo há-de precisar sempre de quem  arme a trombeta convocatória e solte A VOZ contra os vampes  ‘meninos nazis de cruz gamada, corrente e matraca’, contra os vamparros  abarrotados do dinheiro-suor roubado a quem trabalha, contra os vampiros juizes ‘mandadores sem lei’, contra o ‘carnaval da capela e a igreja do privilégio que matou Cristo a galope’, contra os vampões ‘bichos da treva e da opulência’.
Chego a pensar que não é outra a sina de todos os ZECA AFONSO senão deixar os ossos na terra chã e projectar, viva e altissonante, “A VOZ” que nunca morre. Ler, ouvir, mergulhar na profundeza da sua obra é ver a radiografia de toda a história humana, para reerguê-la e transfigurá-la.  
Por isso, neste aniversário do último adeus ao Cantor da Liberdade, (23/Fev/87), permitam-me reproduzir, como se fosse para cada um de nós,  o final da saudação que lhe dediquei em 2017, na campa nº 1606  do Campo Santo onde repousa:
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Não me tragam mais troféus
Nem me lembrem mais os pides e as prisões
Nem palmas nem medalhões

Porque eu ando por aí
Em tudo o que canta
Em tudo o clama
Em tudo que se alevanta
E olhando o sol sorri

Eu não morri
Porque vivo em ti
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23.Fev.18

Martins Júnior