quinta-feira, 7 de maio de 2015

A IGREJA E O 25 DE ABRIL NA MADEIRA


      Concluo hoje, para amigos  e simpatizantes do “Senso&Consenso”, o feixe de nótulas breves sobre uma questão que, sendo de ontem, permanece viva hoje e sempre perdurará, desde que esteja em causa a construção do mundo em que queremos viver: --- a assunção participativa do cidadão ou, retomando o refrão inicial, o Povo na centralidade do universo das leis, decisões e lideranças que o cercam.
         Porque o “25/74” não se esgota em Abril, antes propaga-se no ar que respiramos, assentei a objectiva analítica no clássico tripé --- economia, política, cultura.  --- como já vimos anteriormente, tendo deixado para hoje a intervenção de um poderoso veículo cultural, a Igreja Católica, na construção e desconstrução do Abril em Machico, o que, de resto, veio a verificar-se em toda a ilha.
         Não é surpresa para ninguém a constatação do papel redutor da Igreja em todo e qualquer processo de renovação. Se exceptuarmos os dois extremos históricos --- os primitivos cristãos durante os primeiros 300 anos e os mais recentes activistas da Teologia da Libertação --- a Igreja-Instituição sempre se reforçou nos alicerces de uma matriz extática e estaticista. Quem se lhe opôs, ganhou o  anátema da excomunhão e a cabeça a prémio  sob a tortura da Inquisição, fosse esta assumida ou camuflada.
         Na Madeira, o caso foi “exemplar”. Vou descrevê-lo nos tópicos mais relevantes, deixando para outra altura a sua extensa e especiosa narrativa.
         Depois de dois anos de vacatura da diocese, os indigitados pelo Núncio e pelo Patriarca de Lisboa para a diocese do Funchal sentiram o peso das exigências pastorais de uma carta subscrita por 12 padres madeirenses e, como tal, declinaram o convite. Quem se apresentou prontamente foi o pároco de São Paulo, cais do Sodré,  Pe. Francisco Santana, assistente nacional do “Apostulatus Maris”. Tinha estreitas relações com o Estado Novo e, durante um estágio que fiz no “Stella Maris” de Lisboa, até me revelou, sem pedir segredo, que “tratava os ministros do regime por tu”,  No início dessa década  de 70, estava ele e estava eu  bem longe de imaginar que em Fevereiro de 74, vésperas do 25 de Abril, desembarcaria nesta ilha como Prelado da Diocese.
         O instinto prioritário do novo pastor consistiu em eliminar (e conseguiu) os padres que, desde os anos anteriores ao 25 de Abril, seguindo a linha evangelizadora cimentada no humanismo cultural e na dinâmica do Concílio Vaticano II, continuavam a mensagem libertadora de Paulo VI. A bomba que explodiu na residência comunitária de um grupo desses sacerdotes, na Rua do Pombal, veio completar a atmosfera opressiva que então vivia o clero subscritor da supra-citada carta.
         O  resto não é difícil adivinhar. O Paço Episcopal constituiu-se como o baluarte anti-25 de Abril, uma espécie de sucursal de São Bento, a residência de Salazar,  na Madeira. Dominado o clero, o bispo avança sem pudor na arena política. Três episódios, apenas:
1) Provoca a escandalosa  guerra campal no adro da Sé Catedral, opondo católicos contra católicos. 2) Percorre, uma a uma, as paróquias da Madeira e apresenta aos párocos um jovem, colaboracionista do regime salazarista, como o melhor candidato a presidente do governo regional. 3) Expulsa da direcção do Jornal da Madeira um distinto sacerdote, formado pela Universidade Gregoriana de Roma, o Pe. Dr. Abel Augusto da Silva, e põe no seu lugar o tal rapaz que fez do então jornal da diocese a rampa de lançamento para mais tarde implantar-se na Quinta Vigia durante mais de 38 anos, conseguindo, pelo meio, arrebatar o jornal que, desde aí deixou de ser presença da Igreja para tornar-se  porta-voz do PPD/PSD e seu governo.
         Após o que escrevi e revi, dou-me de contas da exigência inadiável que sobre nós, contemporâneos, impende de registar acontecimentos históricos, abafados nesta Região durante 40 anos pela aliança Governo-Igreja, os quais acontecimentos correm o risco de desaparecer ou, pior, se apaguem capciosamente pela mão-negra da mais vil deturpação, como se viu no Congresso dos 500 anos da Diocese.
         Afinal, vejo que não concluí o que me propus.. Fiquei-me pela introdução. Terminarei no próximo “dia ímpar” a prova de como o Povo de Machico esteve, inteiro e firme, na centralidade cultural de Abril/74, inclusive no que concerne à entidade Igreja Católica.

07. Maio. 2015
Martins Júnior