segunda-feira, 25 de maio de 2015

“NÃO HÁ PALAVRAS”…

Uma certa radiografia das emoções

Será pura diversão o meu escrito de hoje, será uma despromoção do veículo mais precioso da condição humana, o verbo comunicador, será porventura uma crítica aos valores ou desvalores que comandam as nossas  mais primárias reacções. Cada qual optará pela interpretação com que melhor se identificar.
         Tocou-me ontem mais de perto a vulcânica explosão de festa, quer a  dos fãs no Funchal quer a  dos madeirenses presentes  no campo de Marvila, quando souberam que o velho  “Uniãozinho da bola” tinha recuperado o patamar soberano do futebol português, a ascensão à I Liga. É sempre digno de ver-se, do sofá,  e divertir-se com a torrente gestual dos trejeitos faciais e os esgares de garganta, quais petardos de júbilo desarvorado. E, em contraste, os mais sensíveis, alguns até às lágrimas, meneando a cabeça de comoção e balbuciando como um bebé-chorão: “Não há palavras!” E mais não disseram. O mesmo ritual pegava-se às gentes de Tondela, ora em gritaria, ora no mesmo silêncio intraduzível: “Não há palavras”. E no Benfica-Bi, muito mais.
         Lembrei-me, então, de tantos outros cenários em que o som esmorece e apenas reaparece no “Não há palavras”, por exemplo, no desgosto de um acidente mortal, numa decepção de amores frustrados, nos cemitérios mediterrânicos que afogam crianças e adultos foragidos à guerra e à fome, no sucesso de uma licenciatura ganha a pulso, enfim e em resumo, naquela mortandade que devorou vidas inocentes em fevereiro de 2010 --- “não há palavras” --- e na “salvação” de uma imagem de gesso que ficou intacta após a destruição da sua casa-capela, “não há palavras”, repetiam os crédulos em uníssono com os hierarcas cá do burgo.
            Que abismo semântico é este em que se balançam e, paradoxalmente, se repelem três indescritíveis fonemas?! Ocorre-me logo Eugénio de Andrade, naquele seu intemporal poema “Gastámos as palavras, meu amor”. Palavra-pau de toda a obra, palavra-senha  do seu contrário, palavra-farrapo de qualquer tapete puído. Nesta babilónia de interesses conflituantes em que somos obrigados a viver, as palavras  começam e acabam por enfastiar-nos, ludibriar-nos até à exaustão, ao ponto de não lhes darmos crédito no câmbio das relações humanas. Se para aquilo que nos é mais autêntico e mais íntimo “não há palavras”, então a conclusão não poderá ser outra: no normal quotidiano as palavras não servem para nada. Só para enganarmo-nos uns aos outros. E com isso nos cansarmos. Venha “Ricardo Reis”, o estóico pensador reincarnado em Fernando Pessoa, e explique o  tédio desconcertante a que nos leva esta fadiga da palavra batida, triturada, mil vezes ruminada, seja ela escrita ou falada.
         Por outro lado, não deixa de ser verdade a máxima atribuída ao sumo e eloquente Lacordaire: “Quando a dor humana é grande, grita. Mas quando é muito grande, a dor cala-se”. E o que se diz do sofrimento pode também dizer-se da alegria ou do sucesso.
         Admitamos, com a especulativa  dose de optimismo, que a linguagem é o dicionário de sinónimos do que sentimos e  somos. Então aqui é que poderá entrar um outro aforismo: Diz-me quais as palavras tuas e eu dir-te-ei quem és. Ou, noutro registo: Mostra-me quando é que achas e quando é que perdes as palavras e eu saber-te-ei de cor, os pensamentos, as emoções. Pela boca tanto respira  e vive como por ela se agarra e morre o peixe, já o sabemos.
Momento oportuno este breve instantâneo captado no rectângulo de futebol e que nos faz interpelar: o que é que te faz correr, o que te faz gritar ou ficar sem palavras?...  O que te dói ou te galvaniza?... O que te emociona?... Por quem vives ou por quem morres?... E é aqui que vais pôr a “cruzinha”  da tua opção: se nos verdadeiros valores e emoções, se o vazio efémero daquilo que não merece nem uma só pulsação do teu corpo!
Recorro ao pensador mais pragmático e mais profundo do nosso tempo: “Mal vai a tecnologia da informação quando dá mais importância às oscilações da bolsa que a um sem-abrigo que morre na valeta do caminho”.(Francisco, Papa).
         Pura diversão,  pessimismo de circunstância ou espelho de alma?
Fica na tua. “Não há palavras”-

25.Maio.2015
Martins Júnior