terça-feira, 5 de maio de 2015

O POVO NA CENTRALIDADE CULTURAL DO 25 DE ABRIL


Escrever sobre a areia é o estilo corrente das redes sociais: vem a onda e leva a escrita por mais primorosa que se apresente. No pequeno visor da nossa mesa ou do nosso “tablet” preferimos a foto do dia, a notícia fresca, o comentário em cima da hora, enfim, o transitório dos dias, esperando avidamente  a onda da hora seguinte  para embalar-nos nos braços do efémero, do inédito, do fortuito. Mas não é isso o que mais me move, ao picar as teclas do mensageiro computador.
Vem esta introdução para justificar a sequência que me propus nos cinco dias que antecederam as comemorações do 25 de Abril: provar que nenhuma metamorfose (chame-se revolução, plebiscito, golpe de estado) conhecerá êxito se o Povo não estiver lá dentro, na sua génese, o mesmo que dizer, na centralidade da acção. Tomando por paradigma o sucedido em Machico, tentei abrir os canhenhos  das memórias e provar sucintamente que, na realidade, foi a população que ocupou a centralidade dos acontecimentos, sob o ponto de vista económico e sócio-político. (CFR. 19,23,29/4), deixando para hoje uma outra vertente, essa a mais determinativa, ou seja, a emancipação cultural.
Não se trata de puxar galões e fictícias comendas se disser que Machico marcou presença assinalável no panorama cultural madeirense. Remontando ao passado mais longínquo, a tradição romântica dos saraus e torneios artísticos desde o tempo do “Tristão das Damas”,  reergueu-se com o talento do poeta-filósofo Francisco Álvares de Nóbrega, (“Camões Pequeno”, Séc. XVIII) produzindo incontestável caudal de criadores literários e musicais, escritores, poetas, jornalistas até aos dias de hoje. 
As datas da Descoberta, 2 de Julho, eram festejadas, ao lado da efeméride de Álvares de Nóbrega, peças de teatro (“O Infante de Sagres”, de Jaime Cortesão) tudo numa afirmação patriótica das terras de Tristão Vaz. Nóbrega chamava a Machico “A Pátria do Autor”.  Já antes do 25 de Abril, enquanto as remotas escolas primárias funcionavam em velhos pardieiros, já nessa altura, numa zona marcada pela mais isolacionista ruralidade, nas instalações da igreja da  Ribeira Seca, voluntários dedicados ministravam aulas dos 1º, 2º e 3º ciclos, donde saíram futuros  universitários para as Faculdades de Direito, Medicina, Engenharia. Exposições várias e novos saraus movimentavam os lugares históricos de Machico, como documenta a foto inicial. As populações, mesmo na sua rudeza ancestral, estavam ansiosas por saber a evolução política do país, ficando memorável a participação de mais de uma centena de camponeses que vieram ao centro da vila participar numa sessão-comício levada a efeito pela Oposição, em 1969, no alpendre fechado de um restaurante local. A prisão de alguns machiquenses no forte de Elvas, por  ocasião da “Revolução do leite”, em 1936 e já antes, em 31, na  “Revolução da farinha” ou,  Revolta da Madeira contra o salazarismo, eram narrativas orais contadas a filhos e netos, caldeando mentalidades para a sementeira de Abril.
Mais expressamente, na vertente musical, ficaram marcadas até hoje as reivindicações populares contra os governantes do concelho que deixavam à sua sorte  as camadas rurais, sem estrada, sem água e sem luz, através de canções e bailados tradicionais das festas religiosas, de que damos esta pequena amostra:  “Santíssimo Sacramento/ Batemos à vossa porta/ Valei à nossa miséria/ Já que a Câmara não se importa”. Escusado será dizer que isto valeu a ira do presidente de então que chegou ao cúmulo de mandar dois elementos da PIDE fiscalizar o espectáculo no próprio local, o adro da igreja.
Logo, logo nos alvores de Abril, convidámos a actuar em Machico cantores de intervenção, Tino Flores, Vitorino e Janita Salomé, Fausto e, mais adiante, Sérgio Godinho,  Fanhais,  Júlio Pereira, os “Trovante”. Para sempre ficará escrito nos anais da cidade a actuação de Zeca Afonso, em 1976, (já aqui recordada) aquando da candidatura de Otelo à República, negra noite em que o brigadeiro Azeredo encheu a vila de “unimogs”  carregados de tropa, mandou apagar a iluminação pública, vendo-se o povo obrigado a romper às escuras por aqui e por acolá,  enquanto os militares desancavam em cima de quem agarravam à sua frente.
Basta, julgo eu, esta breve notícia que vem de longe, para compreender-se o porquê e o como Machico assimilou a Revolução dos Cravos e fez, ele mesmo, frutificá-la na sua terra.  “Natura non facit saltus”  E a história, também,  não se faz aos saltos, diz o velho princípio. Ela é um filão que sai de uma nascente, conhece  altos e baixos, geme ao sufoco de pesadas montanhas, mas depois reaparece pujante em cânticos de luta e de vitória.
No próximo “dia ímpar”, abordarei (para que os homens não esqueçam) a relação cultural da população com um incontornável veículo de mentalidades, a Igreja Católica, na construção (ou na destruição) da genuína alvorada de Abril em Machico. E não só. Na Madeira.

05.Maio.2015
Martins Júnior