sábado, 9 de maio de 2015

O POVO NA CENTRALIDADE DO REGIONAL-CATOLICISMO

“Fita com olhar esfíngico, fatal
O Ocidente, futuro do passado.
E o rosto com que fita é Portugal.”

Coloco no alçado frontal deste dia a saudação de Fernando Pessoa à Europa. Faço dela  a evocação de  Jean Monet e de todos os pioneiros da construção europeia, fruto doloroso da II guerra mundial contra a barbárie do social-nacionalismo nazi  que dilacerou povos e nações. Um “Bem Haja” à Europa, neste dia que é seu. Que é nosso. Pessoa sonhou Portugal como o rosto da Europa, deixando em claro que são os homens que tornam sol ou “nevoeiro” o território que habitam. Cada um de nós é também Europa em construção. De cada um de nós depende que ela seja manhã de primavera ou noite de invernia. Preciso é que o Povo esteja na centralidade dos focos de decisão.
O tema de hoje é, em miniatura, modesto contributo para entender-se que deveriam ser os europeus a interferir e a mudar o norte aos magnatas sediados em Bruxelas. Basta que o Povo não se contente com migalhas, mas queira resistentemente o pão repartido por todos.


         Conforme o prometido, hoje é para concluir tudo quanto ficou dito sobre o papel que a população de Machico desempenhou na construção de Abril, enfrentando as hostes adversas na economia, na política, na cultura. Neste último item, situa-se a influência da Igreja Católica. Os factos mostram à evidência que foi essa instituição entre nós a maior força de bloqueio à prossecução dos ideais democráticos então em marcha.
         Distingo dois extractos da dita instituição: as bases e as cúpulas. Por bases entendo os crentes e também alguns sacerdotes conscientes do mandato evangélico. As cúpulas já ficaram identificadas sumariamente no escrito anterior.
         Quando “o pastor cheira às ovelhas que apascenta” (Francisco Papa) sente-lhe as carências, as extorsões de que são vítimas e abre-lhes os ferrolhos da prisão. Aconteceu assim em Machico. O Padre Manuel Severino de Andrade, pároco da extensa sede do concelho durante mais de 50 anos, apercebeu-se da chegada dos ventos libertadores, com palavras poucas e gestos muitos e sábios. Conhecedor da avalanche de reclamações que as populações nos traziam contra os abusos perpetrados pelos detentores do poder fascista,  ( presidentes, senhorios e congéneres) acedeu ao nosso pedido --- precisávamos de um espaço físico para atender os queixosos --- e franqueou-nos as instalações da JAC (Juventude Agrária Católica)  em pleno centro de Machico. Está ainda por escrever  a acção decisiva do CIP (Centro de Informação Popular) no apoio às justas reivindicações, recalcadas até então no subconsciente de pais, filhos e netos. Aguardamos ansiosamente a publicação da tese de curso que alguém já está a preparar. Era um rodopio constante naquela casa, onde um grupo de voluntários canalizava para quem de direito o objecto das denúncias e agravos dos usurpadores salazaristas locais. Não havia mãos a medir. E a alegria com que os jovens se desempenhavam das tarefas coadjuvantes! E a simpatia com que os via a população!
         Já se imagina que tamanha onda chegou às cúpulas, neste caso, o bispo e, daí, ao já  referido governador civil e militar, que  numa noite de triste memória mandou um pelotão inteiro e, à força das armas, rebentar com portas e janelas e saquear todo o  recheio que lá havia. Hoje quem por ali passa  vê, contíguo ao Solar do Ribeirinho, o prédio em ruínas, símbolo da degradação e do desmazelo de quem tem dirigido a diocese, desde essa altura.
         O prelado diocesano incarnando a epiderme religiosa de uma visceral militância política anti-25 de Abril assestou  a sua ira contra o povo mais  sacrificado e, ao mesmo tempo, mais lutador pela sua emancipação cívica, cultural e social, a Ribeira Seca, onde por missão tinha sido eu colocado após dois anos de capelania militar em Moçambique.  Para retirar-me a jurisdição paroquial acusou-me textualmente: ”Tu estás inscrito no Partido Comunista Português”. À minha estupefacção face a uma mentira tão gratuita e até ridícula,, levanta a voz na sala de audiências  e avança, decidido: “Até sei o teu número!” Aí, convenci-me que a “pide” da mitra sabia mais que o comité central… Sem comentários.
         A pertinácia do bispo provocou sérios protestos da população no portão do  Paço, tendo as Forças Armadas do brigadeiro Azeredo dado os primeiros tiros na Madeira pós-25 de Abril. Mais tarde, o mesmo bispo F. Santana (sendo lisboeta tornou-se logo regionalista, acérrimo bandeirante da autonomia pró-independência da Madeira) armou na igreja matriz de Machico o mais sacrílego tribunal popular de que há memória, instigando contra mim todo o templo que regurgitava de gente para a cerimónia dos Crismas. Eram três as exigências do bispo nessa hora: que eu não concelebrasse, que eu não fosse o padrinho de um crismando e, por fim, que eu me retirasse da igreja imediatamente, condição “sine qua non” para dar início à cerimónia. Mas a população de Machico não lhe obedeceu.  E não houve crismas. Três horas depois deste “combate” (que tem pormenores pavorosos, os quais ficarão para publicação mais amplas), o Prelado saíu da igreja para o Funchal, escoltado pela Polícia de choque. No dia seguinte aparece na imprensa local o decreto da minha suspensão “a divinis”.
         O antístite que lhe sucedeu, Teodoro Faria, madeirense de nascença e por tal fidelíssimo ao regional-catolicismo, levou mais alto a fasquia e, em 27 de  Fevereiro de 1985, aliou-se ao governo que ordenou  ao comandante da PSP, Homem Costa, a ocupação do templo da Ribeira Seca, durante 18 dias e 18 noites.. Maldição sobre maldição: foi este mesmo prelado que ao seu secretário particular, o famigerado padre Frederico, pederasta condenado a 17 anos de cadeia,  comparou-o, em nota pastoral no Jornal da Madeira, “a Jesus Cristo mártir, crucificado na cruz”. O governo não fez por menos.
         Por último, o actual pontífice diocesano, vindo do Algarve, atingiu o requinte de não deixar que a Imagem Peregrina de Fátima entrasse na igreja, nem sequer no adro, da Ribeira Seca, em maio de 2010, já vão cinco anos. Além disto, reentregou carta branca  ao governo regional para sentar-me no banco dos réus, em processo judicial que só ao foro religioso dizia respeito, ou seja, a suspensão de padre. Mas, de novo, perdeu a aliança regional-catolicista.
         Finalmente, é de pasmar o comportamento dos três últimos bispos  contra uma comunidade cristã, pois que há 41 anos todos se têm recusado a levar o sacramento do crisma à igreja da Ribeira Seca.
         Mas estamos vivos e felizes. Tal como o nacional-socialismo de Hitler foi derrotado em 1945, também o foi o provinciano regional-catolicismo, não pelas armas de guerra  mas pela força centrípeta das mentalidades. Porque, em síntese, o Povo colocou-se na centralidade dos acontecimentos. 
         Seria importante que, da mesma feita e em grande angular, os povos europeus e seus titulares interviessem assumidamente  nas decisões da macrocefalia  auteritária de Bruxelas.

9.Maio.2015

Martins Júnior