sábado, 23 de abril de 2016

Este é o segundo retábulo de todos os “Abris”: “DURANTE” AS REVOLUÇÕES


           

Abril já mexe e fervilha no concelho extremo-leste da ilha. SENSO&CONSENSO junta-se a este palpitar da terra, que desce do alto da montanha até ao mar e, depois de ter apresentado  o “ANTES” –  as causas estruturais e as circunstâncias conjunturais oferece, hoje, o segundo retábulo do tríptico dos muitos “abris” que se viveram em Portugal, isto é, as metamorfoses que daí advieram para o país e que eu designo pelo advérbio “DURANTE”.
Para quem leu a crónica anterior,  retomo como ponto de partida a revolução de 1383-1385. Com as lutas  sangrentas  entre os partidários do rei português, D. Fernando, e os nobres serventuários da rainha pró-castelhana, D. Leonor Teles (lembremo-nos que o povo amotinado atirou o bispo D. Martinho desde o alto da torre até cair morto no Terreiro da Sé de Lisboa) seguiu-se depois uma paz benfazeja, prodigiosamente criativa, liderada pela “Ínclita Geração, Altos Infantes” (entre os quais o “Navegador Infante de Sagres”) que depois de aportar a Machico e passar a Madeira - "Que do muito arvoredo assim se chama" -  levaram Portugal até às Áfricas e às Índias,  trazendo de lá tesouros exóticos, riquezas sem conto, as quais fizeram do porto de Lisboa o maior entreposto comercial da Europa  na época Quinhentista. A segura governação política  da chamada “Segunda Dinastia” abriu “novos mundos ao mundo”, avolumou a economia do país, dinamizou a cultura  e fez desabrochar uma plêiade gloriosa de escritores e poetas, citando por todos o maior Génio Português, Luís Vaz de Camões. É caso para dizer que valeu a pena a luta do Mestre de Avis e de Nuno Álvares Pereira, mesmo que o Mar Salgado viesse a transformar-se no sorvedoiro das “lágrimas de Portugal”!
Da mesma forma, valeu a pena a revolta do “1º de Dezembro de 1640”, descontando aí o furor dos portugueses que atiraram pela janela do palácio real o traidor Miguel das Vasconcelos ao serviço do regime filipino, porque dessa luta porfiada restituiu-se a independência a Portugal e novo fulgor brilhou no horizonte lusíada com D. João IV, “O Restaurador”. A saga da descoberta do Brasil e o faustoso esplendor da época “joanina” do “Magnânimo D. João V” granjearam a Portugal prestígio universal através da majestosa embaixada enviada ao Papa, considerado na altura o árbitro da política internacional, destacando-se então os sucessos diplomáticos do “Príncipe da Língua Portuguesa”, como chamou  Fernando Pessoa ao eloquente e genial Padre António Vieira. As influência culturais do estrangeiro fizeram caminho em Portugal, magnificamente expressas na literatura e  em monumentais obras de arquitectura barroca, umas faraónicas, como o Convento de Mafra, outras  de inegável interesse público, como o Aqueduto das Águas Livres. Não fora o patriotismo e o arrojo dos homens de 1640, Portugal continuaria mais uma periférica colónia de Espanha. Bem hajam!
Chegados à Monarquia Constitucional de 1822, para cujo êxito foi necessária a luta fratricida entre dois irmãos, D. Pedro e D. Miguel, os portugueses chegaram aos alvores da República de 1910. Aí, as convulsões político-partidárias despedaçaram o país: governos houve que não chegaram a  durar mais que trinta dias”… É uma fase tumultuosa e explosiva a construção da I República, que só veio a conhecer acalmia nos finais da década de 20 do século passado. Foi então que Portugal voltou a recuperar a dignidade perdida perante a cena internacional. O factor mais enobrecido destas lutas consistiu na abolição dos privilégios das hereditárias famílias monárquicas, passando os representantes do Povo a determinar os líderes da Nação, não em razão da automática sucessão do “sangue azul”, mas pelo veredicto das classes eleitoras. Apesar de todas as vicissitudes, que não cabem, nem de longe, neste apontamento, valeu a pena derrubar um poder mítico, soberanamente altaneiro, em alguns casos alheio às condições em que viviam os seus súbditos. Abriu-se um caminho novo em que o Povo passou a constituir-se soberano da “coisa pública”, que é o que etimologicamente significa República ou Res Pública. A Monarquia Constitucional teve como inflorescência a Constituição Republicana. “Viva a República” – assim gritaram os revolucionários do alto da varanda da Câmara de Lisboa, em 5 de Outubro de 1910.
Por tudo o significam na História do Povo Português nunca deverão extinguir-se o “1º de Dezembro” e o “5 de Outubro”!
Uma conclusão e uma pergunta:
A conclusão é que todas estas datas mais não são que outras tantas faces do “25 de Abril”, cada uma na sua época. E são inevitáveis. Mais, são necessárias. Constituem fenómenos tão naturais como o botão que se abre em flor, como a flor que desentranha o fruto, como a crisálida que se rompe para deixar voar a borboleta e, por fim, como uma mãe que sofre as dores do parto para dar ao mundo a promessa de um filho anunciado!
A pergunta: Então, por qual razão foi preciso, de tempos a tempos, repetir a Revolução?... É o que veremos em crónica futura quando os meus amigos e amigas abrirem a porta à visita do SENSO&CONSENSO, onde explanarei o terceiro retábulo do tríptico que terá por título o “DEPOIS”.

23.Abr,16
Martins Júnior