segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

“MANIFESTO DA MADEIRA” – Um anteprojecto constitucional para uma Igreja Cristã

                                                                

         É práxis comum designar pelo nome do Autor ou da cidade que lhes deu origem determinados documentos de relevância capital para a história e para o mundo. Estão neste elenco a Magna Carta (1215) de “João Sem Terra”, as Teses de Wittenberg, (1517) o Tratado de Roma (1957), o de Maastricht (1992) e, mais perto de nós, o de Lisboa (2007). Estes e muitos outros textos significaram uma viragem decisiva não só no cenário em que foram produzidos mas, com maior caudal abrangente, nas gerações futuras, seja na vivência democrática, seja no âmbito estritamente religioso,
         Após a leitura de uma entrevista memorável publicada no “JM”, do Funchal, no dia 9 de Dezembro, não hesito em classificá-la como o Documento por excelência, a que chamarei de “Manifesto da Madeira” (2017). É seu Autor, na qualidade de entrevistado,  o já largamente conhecido, direi familiar aos madeirenses, Professor Doutor Padre Anselmo Borges. Pena é que tamanha dimensão filosófico-teológica e sociológica fique comprimida nos estreitos limites da ilha. Conforta-nos, no entanto, a certeza de que o seu pensamento já ganhou foros de cidadania nacional e internacional, através dos muitos livros, conferências, entrevistas que entraram, por direito próprio, na galeria dos intelectuais contemporâneos.
         Porque esta minha reflexão não tem por escopo final entronizar Anselmo Borges (nem ele precisa) quero tão-só mergulhar na profundidade, na coragem e, sobretudo, na visão cósmica, necessariamente holística, com que aborda as mais vastas questões e, ainda, assinalar a intuição maiêutica de integrar o leitor nesse largo universo que o olhar acutilante da jornalista Carla Ribeiro entendeu perscrutar-lhe.
         Desde a Constituição, dita Dogmática, da Igreja, a investigação histórica das suas estruturas e subsequentes desenvolvimentos, o Direito Canónico, até à evolução gradativa da entidade sociológica do “fenómeno cristão”, focalizado cirurgicamente no Vaticano e no Papa Francisco, tudo vem aberto na entrevista, ali está o inventário completo de tudo quanto sobre Igreja e Religião, Ciência e Fé alguém queira saber, crente ou não crente. E se acaso houver quem fique perturbado pela transparência corajosa (alguns chamarão ‘escandalosa’) com que ele enfrenta os problemas e denuncia os desvios hierárquicos, uma evidência se impõe: O seu programa não tem outro horizonte senão o regresso às origens, às fontes límpidas e suculentas do Evangelho de Cristo. Tal qual como Francisco Papa, a quem define com esta tão linear quanto eloquente identidade: “É um Papa cristãos”!
         Daí, a sua coragem – fruto de uma convicção amadurecida e, por vezes, sofrida.  Olhos nos olhos e palavra liberta, nunca dúbia nunca empastelada – eis Anselmo Borges em tamanho natural. Vi-o e confirmei-o quando, no Festival do Funchal, foi convidado para apresentar o livro “A Vagina”, da escritora americana Naomi Wolf. E com que dignidade, eloquência e superioridade o fez, aplaudido por todo o Teatro!
Por isso, não se esconde por detrás das cortinas sedosas da hierarquia, antes pelo contrário, acentua que a “grande preocupação do Papa é  converter em cristãos os cardeais e os bispos que o não são”. E, com a mesma frontalidade, mas cordialmente, observar esta crua realidade: “Há padres novos que continuam conservadores”. Anselmo Borges sabe do que fala. E sente a sua responsabilidade como Professor e Educador das futuras gerações. Não pode titubear nem resvalar para o “crime dos que silenciam”. É que as religiões assentaram banca e supermercado que terão sempre clientes à porta. Por rituais atávicos, por medos e superstições, por interesses inconfessados. Anselmo Borges tem o  mandato imperativo de sanear as excrescências e restaurar a face íntegra da espiritualidade, da vocação transcendental do Homem. O que Hans Kung e o falecido Cardeal Martini, entre outros grandes teólogos, representam na Europa e no Mundo, Anselmo Borges e, com ele, Bento Domingues incarnam em Portugal.
Perdoar-me-á o facto de ter chamado à sua entrevista “Manifesto”, que bem merecia ser publicado em volume autónomo.  Mas outro sinónimo não acho para classificar essa  profética mensagem, em formato jornalístico – Manifesto da Madeira - a qual considero um seguro Anteprojecto para uma verdadeira Constituição da Igreja de Cristo. Na esteira de João Baptista, o Precursor! Em uníssono com Francisco Papa!

  11.Dez.17
Martins Júnior