terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

ANO 33 - PARA QUE OS HOMENS NÃO ESQUEÇAM!

                                             

Manhã de 27 de Fevereiro/1985 – Manhã de Fevereiro/2018!
As duas, lado a lado:  tão diferentes e tão iguais! Na de hoje, a fúria do vendaval levanta telhados, estremece portas e persianas, derruba árvores, esmaga acessos e carros, estoura com o mar em alvoroço. A de ontem, há 33 anos, branda e macia, veio saudar o novo dia, abrindo o lençol da neblina nocturna para deixar passar o sol. E nisso são diferentes as duas manhãs!
Mas nisto são tão iguais: ambas trazem o desassossego e a guerra, que de conluio semeiam a tormenta. Só mudam os autores: numa, é a natureza informe e bruta que as solta, Na outra, foi o homo sapiens quem as fez.
Todos os anos, entro em retiro aberto durante 18 dias e 18 noites. Porque, neste caso, recordar é mais, muito mais que viver a fruição da memória, vou partilhar convosco a visão diacrónica dos factos, começando pelo 1º dia, 27.
Era a manhã calma e fria. Descia eu as escadas da casa sobranceira ao templo para celebrar a habitual eucaristia das 7 horas, quando uma mulher sexagenária já me esperava no primeiro degrau. “Senhor Padre, pelo amor de Deus lhe peço: saia já daqui, vá-se embora”. Intrigado, perguntei-lhe o porquê desta ordem inesperada. “O meu filho que trabalha na vila veio à minha casa avisar que viu 10 carrinhas da polícia para virem à Ribeira Seca prender o padre na hora da missa”. Observei à senhora que não fugiria e até gostaria de ver o jeito da polícia nessa tarefa. Mas ela insistiu: “Esta gente aqui diz a mesma coisa:  Hoje não há missa. Vá ficar na casa da sua mãe na Banda d’Álém, que o povo vai tomar conta disto. E depois, o povo vai lá baixo buscá-lo outra vez”.
Embora contrafeito. tive de cumprir ordens. Alguém deu-me boleia e recolhi-me na casa paterna. Sem saber o que se passava, em vão esperei  notícias até ao fim da tarde. Ainda guardo o bater do coração desse dia. O caso já era falado na vila: Que a polícia fechou a igreja com barrotes e quando o povo chegou,  já as portas estavam cerradas. Que, às 9 h da manhã, o pároco da igreja da vila e o presidente da Câmara acompanharam o subchefe, subiram as escadas da casa, rebentaram com as portas dos quartos (ainda lá estão as marcas) levaram objectos, livros de registos paroquiais, uma aparelhagem sonora, amplificadores, microfones, colunas, que eu comprara dias antes. 
Soube-se também que o subchefe policial deu instruções aos 70 agentes para correrem com as pessoa que entretanto se aproximavam. Nem o próprio carteiro de serviço permitiam que atravessasse o adro no cumprimento do seu ofício.
Constou que houve ameaças, empurrões por parte dos agentes e gritos e resistência da parte do povo. E que houve gente  disposta a ficar toda a noite no campo de jogos que dá para o adro para impedir que saqueassem a igreja. E foi o primeiro dia, 27 de Fevereiro/1985.
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Hoje, 27 de 2018, não obstante a chuva e o vento implacáveis, reunimo-nos em eucaristia vespertina e homenageámos aqueles homens e aquelas mulheres que já nos deixaram mas continuam vivas connosco, pois que foram as sentinelas vigilantes da sua casa-mãe, a igreja construída pelas gentes da Ribeira Seca.

27.Fev.18
Martins Júnior