sexta-feira, 29 de maio de 2015

BANDEIRAS MONÁRQUICAS SOB AS INSÍGNIAS DO ESPÍRITO SANTO


Dizem os nutricionistas e recomendam os dietistas que se deve preferencialmente  consumir fruta da estação. E no extenso mercado global dos lavradores estendem-se nesta altura aos nossos olhos vastos cabazes de frutas, umas endémicas, outras exóticas e, e entre estas, muitas invasoras e infestantes. Desde  as laranjas furta-cores da política aos mamões amadurecidos, quase podres, do futebol, há muito por onde escolher.
Hoje deito a mão ao cesto do “Espírito Santo”. Ele vem de longe, já foi pintado, enfeitado, outras vezes proibido e ostracizado, sem contar com os remendos e contrafacções que lhe têm caído em cima. Refiro-me aos rituais popularizados, especialmente na Madeira, em “honra do Divino”, como afectuosamente e mais supersticiosamente lhe chamam os devotos. É um assunto sério este que os usos e costumes nos trazem embrulhados no manto das bandeiras da pombinha. Ater-me-ei às origens históricas e duvido que tenha espaço para  debruçar-me sobre os seus  desenvolvimentos até aos nossos dias. 
Não quero escandalizar ninguém, mas os factos são factos e contra eles falecem todos os argumentos e piedosas elucubrações. Por isso, a histórica devoção ao Espírito Santo tem de tudo, menos do que é espiritual. As insígnias vermelhas, a coroa real, o ceptro imperial, os “pagens” (assim ordenava a tradição do cortejo processional no Porto Santo quando lá estive como pároco há 50 anos) todo esse cerimonial possuía, em termos miniaturais, a magnificência e o poder da monarquia. Procurei as raízes e encontrei  nos quatro grossos volumes de Fortunato de Almeida --- “HISTÓRIA DA IGREJA EM POPRTUGAL (1930)  --- o início da devoção ao “Divino”:  Foi El-Rei D. Dinis que, a pedido da esposa Rainha Santa Isabel, mandou construir em Alenquer um templo dedicado ao Espírito Santo. Tal como o “milagre das rosas”, a devoção pegou e, a partir das cúpulas do reino, a Hierarquia regulamentou meticulosamente a tramitação das faustosas cerimónias públicas. Eis o relato do insuspeito historiador:
No Domingo de Páscoa entrava na convento aquele que fora nomeado para Imperador. De tarde saía da igreja do Espírito Santo o Imperador acompanhado de muitas festas, trombetas e grande multidão de povo com canas verdes nas mãos. E adiante iam dois pajens, um com a coroa e o outro com o estoque e tornando ao convento era novamente coroado. Acompanhando o Imperador seguiam duas donzelas honestas que dançavam no préstito e eram damas do Imperador e por isso se lhes dava dote para casamento. Voltava o Imperador para a igreja do Espírito Santo onde oferecia a coroa num altar e de novo a recebia das mãos de um sacerdote. Depois assentava-se num trono com o seu dossel e diante dele havia folias, bailes dos nobres e do povo. Todos os domingos se faziam estas festas atá ao anterior ao do Espírito Santo que se chamava dos fogaréus, porque como as festas se prolongavam pela noite dentro acendiam-se luzes no arraial”. (pág.556).
Fortunato de Almeida classifica de “extravagâncias” estas devoções, que se foram desenvolvendo ao gosto popular e , com abusos tais, que chegaram a ser interditas pela Igreja. Citando:
O Imperador passou a ser um menino para representar o bispo inocente que vestiam com as vestes e insígnias episcopais, governava o clero até ao dia seguinte, visitava as paróquias como se fosse prelado da diocese, deitava bênção, etc.. Era uma folia, de que o povo ria, e que afinal foi proibida por diversos concílios”  (pág.557).
No decurso dos séculos, a tradição obedeceu ao velho ditado “cada terra com seu uso e cada roca com seu fuso”, de tal forma que as autoridades eclesiásticas viram-se confrontadas com a fértil exuberância da imaginação popular, que misturava a devoção ao “Divino” com práticas marginais, senão mesmo contraditórias, reminiscência das antigas festas pagãs. Uma característica, no entanto, ficou sempre indelével: a configuração do poder imperial adaptada a cada região, sob o signo do Espírito Santo.
Na Madeira, outro tanto aconteceu. Os colonizadores da ilha, capitães donatários e sucessores, detentores do poder senhorial, foram os grandes pioneiros da devoção. É o caso de João Gonsalves Zargo que erigiu em Câmara de Lobos a primeira capela ao Divino Espírito Santo. Obedecendo aos mesmos cânones senhoriais, o fidalgo João Esmeraldo mandou construir a então sumptuosa igreja do Espírito Santo na Lombada da Ponta do Sol. Da minha parte, sou levado a crer que a  (afectivamente “minha” porque la estive dois anos consecutivos) capela do Espírito Santo, no Porto Santo, terá sido obra da velha tradição régia de Portugal colonizador.
         E como bem calculei eu no início destas notas, fastidiosas ou apreciáveis conforme os gostos, hoje não dá para concluir a  mensagem. Ficará para a próxima semana.
29.Maio.2015

Martins Júnior