sexta-feira, 1 de maio de 2015

NO DIA DO TRABALHADOR - O FAMIGERADO “TRIBUNAL POPULAR”

        
        Escrevo esta declaração de princípios precisamente no Dia do Trabalhador: só um Povo vigilante consegue assegurar a defesa do seu país. Não há guarda nem polícia nem GNR que aguentem se não for cada cidadão o guarda de si mesmo. A isto chamam Justiça Popular os sisudos dominadores da sociedade, os que sadicamente sangram o mais fraco, protegidos pelos biombos negros das leis que eles próprios fabricaram, tal como os padres da Inquisição que se paramentavam de preto para rezar os ofícios pela vítima que eles mesmos amarraram às chamas da fogueira. Não é da “justiça de Fafe” nem do vingar pelas próprias mãos que  venho falar. Nem daquela que o presidente do governo cessante apregoou num comício em Câmara de Lobos contra aqueles que se lhe opunham: “Quando esses indivíduos aparecerem não chamem a polícia nem o presidente da câmara, resolvam o caso por vós mesmos”.
         É de outra justiça que trato hoje, Dia do Trabalhador, a qual tem a sua tradução prática no conceito de “vigilância”. Estar vigilante é estar acordado para a realidade, atento aos sinais dos tempos, interventor na hora oportuna. A arma dos poderosos é a sonolência dos povos e a força deles é a anestesia dos fracos.
         Na sequência da posição central que o Povo de Machico tomou aquando do 25 de Abril/74, vou referir-me ao papel determinativo dos trabalhadores na defesa da sua terra e dos valores da democracia nascente. Para entender cabalmente este capítulo é indispensável ter em mente o anterior, ou seja, o plano destruidor da organização terrorista “flama” (não merece maiúsculas) que amotinou, até à morte, as nossas duas ilhas, sob a passividade, se não mesmo cumplicidade, da autoridade absoluta do arquipélago, o governador civil e militar Carlos Azeredo. Em Machico comentava-se às claras: “Tanta bomba a rebentar por essa ilha fora e nem o governador nem o tribunal descobrem os criminosos?...Aqui não vai ser assim… Se chegarem cá, vamos  saber quem são ”…
         E foi o que se passou.
       Naquela manhã de Agosto, subo eu  para o meu gabinete, quando o subchefe da PSP me apresenta seis rapazes que os   trabalhadores vigilantes nocturnos da “Matur”  apanharam a pintar as paredes daquele complexo turístico com as conhecidas palavras de ordem “flamistas”, tendo-os denunciado imediatamente à polícia. Nessa época, o presidente do município era o superior hierárquico da PSP. Surpreendido com o facto, cumprimentei-os e, devido à sobrecarregada agenda dessa manhã, disse-lhes que fossem almoçar ao referido complexo turístico onde estavam hospedados. Entretanto, expus o caso, via telefone, ao dito governador que peremptoriamente me ordenou “metê-los no calabouço”, após respectiva identificação. Voltaram à tarde os jovens ao posto policial, instalado no edifício municipal, foram identificados pelo subchefe, mas não os prendi, primeiro por não haver necessidade e, também, porque um deles tinha 16 anos. Os outros eram maiores. Por enquanto não revelo aqui os seus nomes nem a sua proveniência, apenas refiro que dois deles, filhos de um conhecido independentista açoriano pertencente à “FLA”, tinham chegado nessa mesma noite à Madeira e já estavam em acção.
         A carrinha da PSP, enviada pelo governador, permanecia à porta da câmara municipal, aguardando os rapazes para transportá-los ao Funchal. E foi nesse preciso momento, 18 horas, quando os mandei tomar a carrinha, que tudo se complicou. A viatura  avariou-se. Comunicado o incidente, o governador prometeu mandar um “unimog” do exército.  Na altura, já Machico sabia do caso e os trabalhadores da construção civil em serviço nas obras da Matur, após a hora de trabalho, aglomeram-se na Praça do Município. Eram centenas e exigiam conhecer e “saber a quem pedir contas se alguma bomba rebentasse em Machico”. Aliás, toda a gente  sabia que, após as inscrições murais,  o bombismo tinha campo aberto.
         Apresentei os rapazes pacificamente, os quais falaram sem receio à multidão e até me recordo bem de um deles ter justificado a independência da ilha, dizendo claramente: ”É para o dinheiro da Madeira ficar aqui para os madeirenses”, ao que alguns dos trabalhadores presentes responderam “P’rao teu pai ficar com tudo e a gente sem nada”.
         Como a viatura militar tardasse, resguardei os jovens de imprevisíveis excessos da multidão e convidei-os a esperar no gabinete. Houve momentos que me causaram susto e séria apreensão, sobretudo quando um grupo mais enervado quis forçar a entrada da câmara. Sabendo que o piquete de polícias que blindava a porta era impotente perante a multidão, vim eu pessoalmente cá fora e pedi serenidade e controlo, para evitar problemas maiores, tendo-se então acalmado à minha palavra. Finalmente, pelas 11h da noite chegaram várias viaturas militares carregadas de tropas que desataram à coronhada e “bombadas de fumo” contra a multidão, enquanto os rapazes tomavam os seus assentos, rumo ao Funchal.
         Eis em termos fidedignos o que os “flamistas” terroristas e o governador chamou de “Tribunal Popular”. Nem um toque, nem um empurrão, nem uma agressão. Tratou-se tão só de uma acção preventiva contra eventuais apetites bombistas sobre Machico. A perturbação instalou-se apenas quando surgiu um dos  parentes dos rapazes, insistindo para entrar nos Paços do Concelho e eu, contra a vontade da multidão, acedi.
         De todo este relato, cinco item’s  a reter:
         1º -  Um louvor aos trabalhadores que, durante o seu horário de  trabalho, portaram-se como verdadeiros vigilantes e defensores do Povo.
              2º -  Gostaria de mostrar ao público imagens dos factos, mas só poderá fazê-lo quem os gravou na sua máquina fotográfica: um jovem recém-formado e grande impulsionador dos acontecimentos, que mais tarde chegaria a Secretário Regional, engenheiro Santos Costa.  
              3º -  Até essa altura, Machico não soube o que foi atentado bombista. Só daí a um mês estouraram com o carro de um familiar meu. O que nos levou a concluir que o objectivo do governador Carlos Azeredo era que a população não conhecesse os eventuais bombistas, configurando-se como seu proteccionista. Espalhou-se em Machico a canção de um amigo meu que dizia: “O Azeredo/O flamista/Foi o traidor/De toda a nossa conquista”.
       4º -    Foi logo a seguir aos acontecimentos narrados que o mesmo  plenipotenciário governador conseguiu o que queria: destituir-me da presidência da Câmara.
              5º -    Guardo, mas por agora não revelo, o abraço que, anos mais tarde, me deu um emigrante, nessa altura de férias, num inesperado encontro no Funchal e desabafou:” Sr. padre, eu fui um daqueles rapazes daquele dia em Machico. Agradeço ter-me tratado bem e aos meus companheiros e nos ter mandado almoçar a casa, na Matur”.
         Esta é a versão autêntica dos acontecimentos, tão distorcida e vilipendiada que ela foi por toda a comunicação social madeirense, que nunca me deu oportunidade de esclarecer. Espero ter tempo  para, um dia, mais expressamente descrever os desenvolvimentos e as consequências dos factos narrados.
         Por fim, cumpre-me reiterar o voto de congratulação aos trabalhadores que têm hoje o seu Dia, evocando o seu papel de centralidade na defesa da sua terra e na construção da história.

1.Maio.2015
      Martins Júnior