sábado, 7 de maio de 2016

“PADRE MADEIRENSE DETIDO EM COIMBRA ‘POR CAUSA’ DO PAPA JOÃO PAULO II”

                                                           

                                                  O local do “crime”

 Hoje vamos desopilar um pouco. Faz bem no intervalo destes jogos de “fortuna e azar” – mais de azar que de fortuna – com que nos confrontamos nos noticiários da cada hora. Faz bem ainda porque, já é toque antigo, o arco sempre tenso perde a elasticidade. Então lá vai.  E podia começar como começam todas as estórias, sobretudo as do anedotário quotidiano; “Era uma vez”…
Sim, era uma vez… um ilhéu, quarentão, curioso do saber, que foi preso no Largo da Universidade de Coimbra, aí pelos idos de 82 do século passado, “por causa” do Papa. Qual o crime? – é a pergunta que salta logo da boca e dos olhos do leitor.
Vou contá-la em termos que desejaria tão breves quanto não vou conseguir. Para satisfazer o apetite de quem pergunta, direi de imediato que esse homem ilhéu é o subscritor destas linhas. Deslocara-me a Coimbra para fazer o exame de uma das cadeiras, de Direito Internacional Público, suponho. Ao aproximar-me da “Porta Férrea” (quem lá estudou pode recordá-la) deparei-me com toda uma azáfama na construção de um enorme palco sob a velha torre: Intrigou-me a circunstância anómala de avistar oficiais de Exército, talvez engenheiros coronéis, a dirigir a delicada operação. Os galões dourados nos ombros dos ditos, faiscavam à luz daquele meio-dia de maio solarengo. O palco, parcialmente alcatifado de um vermelho quase arrogante,  destinava-se à recepção do então Papa João Paulo II, marcada para dia 14, na sequência da sua visita a Portugal. Puxei de uma máquina fotográfica, daquelas de descartar, e piquei uma meia-dúzia de vezes. Achei graça ver o altar pontifício, arquitectado e dirigido sob a égide dos oficiais militares.
Passemos ao II Acto da peça “herói-cómica”. Ao dobrar a “Porta Férrea” rumo a um restaurante próximo, vejo um VWagen branco, de um ovo perfeito. “Está detido para averiguações, acompanhe-nos à Esquadra”. Os dois homens, à civil, exibiram a credencial da PSP. Podia replicar com o meu cartão de deputado regional. Mas como nunca o usava, que remédio, lá tive de entrar na clara do ovo rolante, enquanto o Bedel da Faculdade e outros elementos da secretaria, de passagem para o almoço, tentavam explicar aos dois agentes quem eu era. Em vão. Fiquei toda a tarde na Esquadra da cidade. Após as  declarações da ordem, apercebi-me do embaraço dos inquiridores, novas perguntas, telefonemas do gabinete para a Madeira, mormente Assembleia Regional, mais tempo de espera, até que fizeram a gentileza de me “mandar em liberdade”.
No dia seguinte, a comunicação social do continente  escorria, em largas parangonas, títulos como este: “Padre madeirense detido por tentar assassinar o Papa”… Na diocese do Funchal, os oficiantes e os oficiosos    espojavam-se com o meu nome aos trambolhões. O PSD/Machico completou a “gesta” publicitária em termos inenarráveis. E lá fiquei eu com mais este “medalhão de guerra” no meu currículo público.
Mas, perguntareis, havia proibição alguma de fotografar? Não. E então?… Então, eu desvendo:
Na solene celebração de Fátima, do dia 12 para dia 13, em pleno pontifical, um sacerdote espanhol, o Padre Juan Fernandez Krohn, da congregação ulta-conservadora liderada pelo Arcebispo Lefèbre, aproximou-se do Papa João Paulo II, empunhou afrontosamente um punhal que trazia escondido sob a batina e apontou-o à figura do Pontífice, sem que o pudesse atingir. Foi o pânico total. O caso abalou o país e o estrangeiro.
Dito isto, por aqui fica desfeito o enigma: de carambola com o eventual padre assassino, na forma tentada, lá foi este curioso e incauto eclesiástico madeirense atirado às feras da maledicência de rua, após uma detenção que tem tanto de patético como de caricato.
O porquê desta comédia a-talho-de-foice tem a ver com uma notícia fresca desta semana, largamente difundida em Portugal e no estrangeiro: “Um diplomata português foi detido em Bruxelas por estar a fotografar no seu tablet o edifício da Comissão Europeia”. Ali até se compreende a actuação da rigorosa vigilância pública, dado o ambiente de desconfiança recentemente criado pelos bombistas suicidas.
Mas a principal conclusão – esta, mais séria – tem a ver com os muitos conteúdos veiculados pela comunicação social dos nossos dias, apresentando como verdade aquilo que não passa de falácia e embuste vil. O boato e a charlatanice grosseira de certos jornais e centros de difusão áudio-visual só merecem o desprezo, quando não o implacável anátema condenatório por parte do público consumidor.
Acabou-se o filme. Só não acabou a reminiscência que até hoje me diverte, todas vezes que passo pelo “local do crime” no Largo da Faculdade Direito, sob a sombra tutelar da velha torre da Academia.   

 07.Mai.16
Martins Júnior