sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

“INDEPENDÊNCIA OU MORTE”: UM DIREITO CARREGADO DE DEVERES - Na evocação do 1º de Dezembro

                                                          

Quer se lhe chame Independência. Autonomia, Emancipação ou Autodeterminação, o seu gosto e o seu cheiro mexem connosco, galvanizam as baterias constitutivas do nosso sistema neuro-vegetativo e mobilizam visceralmente todo o nosso psiquismo. Aliás, é todo o ser vivo que participa desta energia oculta e renovadora, desde a crisálida que se abre para dar voo à borboleta até ao fruto que se liberta da flor que lhe serviu de berço. No composto humano, a metamorfose é a linha recta que define a inaudita epopeia do crescimento, com as consequências e erupções, tantas vezes dramáticas e preocupantes, sobretudo  ao chegar à puberdade e, daí, à idade adulta. Autonomizar-se, emancipar-se é um direito irrenunciável, porque inscrito no mais íntimo do nosso ser.
Não admira, pois, que o mesmo processo evolutivo transborde para o “Homem-em-Situação”, isto é, para a vida societária, seja a mais  pequena comunidade, seja o mais extenso território. Mas é precisamente aqui, nesta encruzilhada bio-psico-sociológica que confluem e se debatem antonomias e paradoxos indissociáveis: de um lado, a tendência genética da auto-condução (Independência ou Autonomia) e, do outro, a indeclinável necessidade de pertencer a um corpo comum,  um agregado estável e seguro que nos transmita confiança e mútua produtividade, condição indispensável à sobrevivência individual e colectiva.
E surge a grande questão – quando, como e porquê romper com a raiz da árvore a que pertencemos para fazer germinar, por conta própria, o ramo verde que nós somos?... É a pergunta que se impõe a quem se decide executar ou, mesmo, analisar todo e qualquer movimento revolucionário, chamado Independência, Autonomia ou Secessão. Suponho e mantenho que é da resposta a esta questão que se podem classificar de justas ou injustas, consequentes ou contraditórias, verdadeiras ou populistas e demagógicas as revoluções independentistas. Na história, não são assim tão raros os episódios em que rebeliões aparentemente heróicas estatelaram-se num logro irreparável para os povos que tudo deram para a causa.
Justas as lutas contra os regimes totalitários, esclavagistas. Consequentes as oposições aos sistemas ideologicamente  dogmáticos e opressivos. Nobres e produtivas as reivindicações sindicais contra a exploração do capital sobre o trabalho, desde que os seus líderes não sejam robots de centralismos partidários, manipuladores de massas.
Não há lugar hoje  para passar no crivo da lógica humanizante os diversos embates político-sociais conducentes à emancipação dos povos, ao longo da história, nem mesmo os do tempo presente. E não serão precisos demorados estudos de análise para concluirmos que, à sombra e a pretexto de campanudas autonomias, o resultado foi a instauração de outras formas de controle e ditadura, iguais ou piores que aquelas combatidas por oportunistas prestidigitadores disfarçados de autonomistas e campeões do independentismo. Eles são tantos, aos molhos. Aqui mesmo, entre nós. Sempre afirmei que os auto-cognominados conquistadores da Autonomia da Madeira, “pós-25 de Abril”, outros instintos não tiveram senão instaurar, primeiro capciosamente e depois despudoradamente, a ditadura do “24 de Abril”, da qual foram oriundos e beneficiários privilegiados. Similarmente, em certos países africanos – e até na Europa do segundo quartel do século XX – os corifeus de certos clãs e  tribos demonstraram a olho nu que o seu ardor “patriótico e revolucionário” era o de substituir-se no trono aos anteriores dominadores, usurpando poderes e ultrapassando-os nas pilhagens dos recursos existentes.
Saúdo os valorosos homens que protagonizaram a luta do povo português explorado por um soberano estrangeiro. É sintomático constatar que, em 1640, foi a Catalunha que, em guerra contra o centralismo imperialista de Espanha, contribuiu indirectamente  para a vitória da Restauração de Portugal.
No entanto, fica o repto: Não é independentista quem quer. Aos fautores e líderes dos movimentos autonomistas exige-se uma entrega total e  isenta, cuja missão só termina quando vir o seu Povo autonomamente libertado. Só esses é que têm direito a proclamar “Independência ou Morte”!.
Em síntese, para os esforços quotidianos em que cada um de nós luta pela sua justa afirmação de personalidade  emancipada, deverá ficar escrita no portão do campo de batalha esta memorável palavra-de-campanha: “A minha independência acaba quando começa a independência do outro”.

01.Dez.17
Martins Júnior