segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A RELIGIÃO, O PODER E O GRANDE CAPITAL

 
Reconheço e reconhecereis vós que não é de fácil digestão este menu que me propus apresentar durante a Semana do Oitavário para a Unidade das Igrejas Cristãs, entre 18 e 25 de Janeiro de cada ano. São muitas e escaldantes não só as coincidências mas as conclusões deste acto cultural, qual seja o de investigar a fonte, os afluentes, as aluviões que formaram o tão nobre --- assim devia ser, mas não é --- fenómeno das religiões.
Passando da segunda para a terceira coincidência, como anteontem referi, recordo o  enunciado: as religiões, tais como as conhecemos,  mais não são que reféns e suportes, para não dizer, bengalas  do poder e do capital. O barómetro religioso oficial movimenta-se no mesmo sistema de vasos comunicantes do poder e do dinheiro.
Por isso, estamos tão longe do horizonte de J:Cristo
É por isso que todos os credos de notoriedade mundana têm sempre a segurá-los o mesmo cordão umbilical: Foi o que demonstrei, evocando a chacina de Paris, na redacção do Charlie  Hebdo  em 7 de Janeiro de 2015 e a carnificina de São Bartolomeu em 24 de Agosto de 1572.
Sob a bandeira patriótica de uma pseudo-divindade esconde-se um outro satânico patriotismo: o do poder e do dinheiro.  Nesta semana da unidade é estação obrigatória avistar de perto uma das derivas, talvez a mais determinativa no divisionismo das igrejas cristãs, ou seja, o protestantismo, fruto directo do luteranismo. Porque sei que os meus amigos e amigas conhecem ou desejam conhecer as fontes e os desenvolvimentos deste dobrar do Cabo das Tormentas, apenas lanço à mesa as cartas de um jogo labiríntico, nos seus métodos, e sujo, ao mesmo tempo, na sua leitura religiosa.
Tudo começou pela denúncia, por parte de um talentoso monge agostiniano, Lutero, contra o comércio, leia-se venda,  de entidades sagradas, chamadas indulgências: quem mais dinheiro desse para a construção da basílica monumental de Roma menos chicotadas de lume ou menos dias de Purgatório sofreria no outro mundo.  Porque o Papa não quis receber nem ouvir Lutero sobre o assunto, excomungou-o.  Até aqui, nada de trágico, senão a condenação  e a exclusão do monge. Mas --- agora começa a cauda  da serpente exterminadora --- ocorria um conflito insanável entre os principados e ducados alemães contra o domínio de Roma. A nível de poder territorial e de supremacia cultural, ao ponto de, a propósito das competências dos estudos universitários, citar-se o histórico adágio: doctor romanus, asinus germanus (“um doutor romano equivale  a um burro germânico”). A luta férrea pelo domínio dos príncipes e ducados contra o poder imperial conheceu episódios de bradar aos céus e aos mares! Por mais esforços que fizesse o próprio Carlos V, o que mais se conseguiu para estabelecer a paz foi a promulgação deste normativo :Cujus regio ejus religio” (a cada região, a sua religião), o qual ficou conhecido pela Paz de Augsbourg, em 1555. Estava instaurada a Religião de Estado: era o soberano que detinha toda a jurisdição  eclesiástica do seu território, nomeava bispos e padres, confiscava os bens que antes pertenciam ao Papado de Roma e quem não professasse este credo teria de emigrar. Não será caso de espanto, até porque em Portugal, a história do episcopado entre 1498 e 1828 regista que era bispo quem o rei designava, restando apenas ao Papa o “agrément” formal.
Apenas como aperitivo, sublinho que se passou o mesmo em França, a partir de Meaux, através de um grande intelectual, eminente cultor greco-romano, o humanista Lefèbre d’Étaples (1455-1537) cujo sucesso muito ficou  a  dever-se  à princesa Marguerite dÁngoulême, irmã de Francisco I.
O mesmo se verifica com o líder  protestante Calvino que, passando por Genève, conhece a poderosa princesa Renée de Ferrare, protectora das novas ideias, estabelecendo-se por fim em Strasbourg, de onde difundiu largamente o pensamento anti-romano, em cuja profissão de fé figurava o princípio sagrado de que o “Estado é o Vigário de Cristo”, o que levou os analistas a considerar o calvinismo como uma teocracia.
Em conclusão --- e repito que não é fácil digerir e admitir esta híbrida e contra-natura cumplicidade entre um verdadeiro culto religioso e o exibicionismo, quantas vezes contorcionista, do poder e do capital.
Teremos tempo, se tiverdes paciência e curiosidade científica, para separarmos o trigo do joio.

19.Jan.2015
Martins Júnior