segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O Dia “D” para a Hepatite “C”

         Todos nós já nos demos conta de que em cada continente, em  cada curva de estrada, até debaixo dos nossos dedos ao clicar o  comando  do televisor ou do facebook, apanhamos cada estalo que nos põe o coração a zunir, umas vezes de pavor, outras de explosiva satisfação. Qual de nós terá ficado quieto, insensível no seu sofá quando presenciou aquela cena do homem que, em plena assembleia da Comissão de Saúde, interpelou  o Ministro Paulo Macedo?
         Dos muitos protestos e manifestações que tenho, umas vezes,  vivido, outras  apreciado, nunca vi tamanha dor,  tamanha eloquência  e veemência todas juntas, ao ponto de, se tivessem sensibilidade, fazer tremer as paredes do parlamento nacional!
         É verdade que o senhor pediu desculpa, mas tal pedido outro efeito não teve senão reforçar a lógica do seu protesto, fruto de uma  raiz profunda e não de uma aragem formal que se agita ao saber da multidão.
         De colossal grandeza a coragem deste cidadão que, expondo o peito  na primeira pessoa, sentia-se-lhe o grito de milhares de pacientes, impacientes pela defesa da vida, em contraste com o  cómodo lençol de lamentações e justificações do poder político”!
         O certo é que o estalo abriu-se em cântico de vitória: movimentaram-se os ministérios, apressaram-se as farmacêuticas e a esperança de vida voltou a brilhar no rosto dos “condenados á morte”.
         Já uma vez me referi, nestes encontros vespertinos, à convicção de que não basta um povo votante, ainda que vote bem, é preciso um povo vigilante, “cercano” (gosto muito deste termo galego) dos seus procuradores, cara a cara com eles, um povo pronto a actuar dentro da força que lhe conferem a justiça e a justeza das suas reivindicações. Sempre e muito remexem comigo as enormes e legítimas manifestações diante da Assembleia da República no mesmo dia e na mesma hora em que cá fora o povo vota “não” e os senhores deputados, recostados na sonolência das suas poltronas, votam “sim” a propostas de lei injustas, destruidoras da comunidade. O povo consome-se em caminhadas, clamores, imprecações --- e os senhores lá dentro, bem confortados, porque defendidos cá fora pela polícia, pela tropa, pela GNR. Ai, quantas vezes eu penso que a muitos desses agentes que batem nos manifestantes, o que lhes apetecia  era voltar as bastonadas contra os que estão lá dentro!
         Quem governa tem que se temer do povo. E não ao contrário, como displicente foi a quarentena ditatorial que acaba de finar-se na Madeira. Os governantes têm a autoridade mas o povo é que tem a soberania. É o artigo 1º da Constituição de todas as Repúblicas Democráticas. E se, por impossibilidade física e absoluta,  eles não conseguem resolver os justos anseios do povo, então deixem as passadeiras vermelhas e as macias alcatifas, descalcem-se e venham juntar-se ao povo no chão gelado das suas angústias, da sua fome, da sua doença nas longas filas dos hospitais. E experimentem. E gritem contra a “economia que mata”. Levantem-se  contra os FMI,s, as troikas sanguessugas, os contrabandistas dos offshores. Imitem os “Syrisa” e façam tremer os gigantes, de bolsos opados, mas de pés de barro.
         As vitórias da Justiça e da Paz não nascem de geração espontânea. Nunca são oferecidas e ainda bem, porque o preço demasiado baixo é contraproducente. Foram precisas muitas vítimas para que aparecesse o 25 de Abri, necessárias foram  muitas, prolongadas vigílias para surgir um Stripas. Foi a avalanche anónima de muitos doentes, de mortes até, para que o grito aflitivo daquele homem frente ao Ministro se abrisse em novo sopro de vida para o país.
         Nenhum dos nossos gestos será vão.  Inútil e fatal é sempre a cobardia de alguns, da nossa algumas vezes,  que prenuncia o silêncio dos sepulcros.
         Termino, recordando aquela página do Livro do Êxodo, quando Iaveh disse a Moisés, no final dos quarenta anos de cativeiro do povo hebreu no Egipto: “O clamor do Meu Povo chegou aos meus ouvidos. Vai tu e liberta-o das garras do faraó”.
         Se o clamor do povo chega aos confins inacessíveis do Além, por que não há-de chegar aos ouvidos dos que entram nas nossas casas e levam o pão da nossa mesa, os cêntimos dos nossos bolsos?
         A tua voz, por mais frágil que seja, juntar-se-á qualquer dia, qualquer hora ao coro dos “ofendidos e humilhados” e derrubarão os faraós dos tempos modernos.

9.Fev.2015

Martins Júnior