sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

SEXTA-FEIRA, DIA 13

Sexta-feira era o dia  aziago do nosso vale, da pobre elha cega que aí vivia sua triste vida de dores, remorsos e desconfortos…Era na sexta-feira que o frade, o demónio vivo daquela mulher de angústias lhe aparecia, tremendo e espantoso”…


Nesta página das “Viagens na minha terra”, história e romance de um primor inegualável, Almeida Garrett remete-nos para grande parte da sua obra, povoada de lendas,  fadas e  duendes, chamado o reino das superstições. E trago-o hoje à nossa mesa por dois motivos:
Primeiro, porque anteontem penetrámos no maravilhoso mundo sempre novo das ciências: a ciência cheira sempre bem e a ignorância tresanda ao ranço da mais grotesca cegueira. Não é por acaso que Almeida Garrett, tal como Alexandre Herculano,  obedecendo aos códigos do romantismo, vasculha as populares lendas medievais e  incarna a superstição numa mulher “velha e cega”.
Segundo: estamos hoje  numa dessas  “furnas do cavalão” ou furnas do demo, como é tradição dizer-se em Machico: hoje é  sexta-feira e, ainda por cima, enxertada, acoplada com o número aziago do calendário, o dia 13.
Julgo que os mais jovens abandonaram por completo esta hidra de duas cabeças que,  para seus pais e avós,  faziam tremer e alterar os seus hábitos. Até em ambientes mais envernizados, os hotéis, numeravam os quartos,  passando do nº 12 para o nº 14, intercalando-os com o nº 12-A, para evitar o “espírito mau” do nº 13.
Mas quem percorre  os atalhos e veredas que atravessam a psique destes tempos, ditos modernos, acaba por descobrir cobras e lagartos imaginários no subconsciente latente activo de muita gente. Pululam por toda a parte,  como cogumelos roxos,  os bruxos feirantes,  estimuladores de traumas, armados com aquele poder que lhe conferem os temores e  a ignorância dos seus clientes. 
E é em climas religiosos que prolifera o húmus mais fértil e pernicioso da superstição. Em todas as religiões: desde os chamados santos óleos, as águas bentas (toda a água pura está benta, abençoada de nascença) as candeias nas mãos dos moribundos, as cruzinhas compradas em determinados santuários etc.,etc.. tudo rituais da Igreja Católica medieval que ainda vegetam nos subterrâneos de muitos neurónios. Cenas do mais rasca fetichismo já eu contemplei em templos de outras religiões, a do Reino de Deus, por ex., fotocópias europeias dos batuques africanos  comandados pelo feiticeiro da tribo, de que  eu próprio fui testemunha ocular em sanzalas (tembas) moçambicanas. Já Camôes alertava contra “a superstição falsa e profana/ da religiosa água Maometana”.
Mas há ainda uma outra barragem pantanosa,  interessada em derramar o mito, a superstição populista entre o povo fraco, porque ignorante: a política. E quando se juntam, as duas --- religião e política --- então temos o incesto perfeito. Nem de propósito: hoje a Igreja celebra a festa dedicada às “Cinco Chagas de Jesus”. O porquê: a aparição do Crucificado a D.Afonso Henriques, na noite que antecedeu a batalha de Ourique que terminou com a derrota dos mouros. Assim nos ensinaram na escola e na catequese, ao ponto de ainda hoje figurarem os cinco pontinhos em cada escudo da bandeira portuguesa. A mesma lenda já tinha barbas, desde o ano 313 quando o Imperador Constantino Magno disse ter visto no céu uma cruz, sob a qual estava escrito:”In hoc signo vinces” (neste sinal tu vencerás). Sinais, mitos e mistérios, aparições, coisas estranhas, tudo serve aos dois poderes para trazer o povo amarrado à corda bamba  dos seus interesses.
         A superstição é o medo que não conseguimos vencer e pouco fazemos por isso. Conheci, porém, na minha juventude, um amigo que tinha marcado o casamento para a última semana de Julho. Ele era um jovem eufórico, inteligente, desportista. Para afrontar a tripla  superstição ( Agosto era também mau agoiro) esperou pela data “ideal” e dizia entre gargalhadas aos amigos: “Vou-me casar em Agosto… numa sexta feira… dia 13”.  E fê-lo. E a felicidade do casal, mais que as gargalhadas francas do anúncio, foi o estendal das suas vidas.   
      Dias 13 haverá ainda mais dois neste ano, Março e Novembro. Que estes meus devaneios, com alicerce no firme, sirvam para afrontarmos não apenas o dia 13, mas todos as horas do nosso percurso terrestre.
   

    
       A terminar: propositadamente escrevo na ponte movediça que liga ao 14 de Fevereiro, Dia dos Namorados. Só amor vence o medo e a morte. Deixemo-nos contaminar pelo feitiço do amor. O verdadeiro Amor é o baluarte onde o medo e a superstição não conseguem entrar!

14/14.Fev,2015

Martins Júnior