quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A ESCOLTA EM PESO DO PAI NATAL


Ridendo castigo mores --- dizia o velho filósofo da antiga Grécia, aquele que fazia do riso uma arma certeira contra os abusos dos seus conterrâneos, sobretudo dos condutores das quadrigas do seu país. Para ele a ironia era uma escola de vida e de virtudes, mote inspirador dos seus concidadãos.
Em termos actuais, lá vai um desses motes em farpela do século XXI para o vasto vulgo, a que todos pertencemos, poder dar-lhe os adequados desenvolvimentos.
Era uma vez…  a casa-mór da aldeia, palacete herdado de aristocratas falidos, mas que fazia o valimento de todos os fregueses que lhe batiam à porta. De quando em vez (doze a catorze  vezes ao ano, pelo menos) ali passavam benfeitores de perto e de longe, carregados de dádivas, uns traziam víveres, outros medicamentos e ainda outros abriam livros às crianças enquanto abriam os olhos aos pobres aldeões. Nunca “ninguém” lhes reconheceu prestígio, nem mesmo lhes deu a mínima atenção.  Por “ninguém”  entenda-se o clã daqueles “tais” oficiais que  falavam, discorriam, escreviam, numa mão a pena, na outra o badalo, estalavam os tímpanos das gentes, à força de escoar  banalidades, bonecos de feira, rodas manhosas, barracas de arraial.  Mas àquela casa, aos fregueses e respectivos benfeitores nem sombra de poiso. Eram carta fora do baralho na feira das vaidades dos “tais”.
Até que um dia…uma manhã deixou  a cidade em alvoroço.  A notícia espalhou-se:  o Pai Natal vai ao velho palacete da aldeia. Anafado, voz avinhada da noite, chega, descansa o cabaz dos presentes. Já à entrada, os olheiros da velha quinta aprestaram-se a estender uma esfarrapada  passadeira azul, onde uns pingos de leite branco deixavam a marca das ovelhas acabadas de ordenhar. Escusado será dizer que  “os tais”, megafones em traje de gente,  abalaram  em rajada  da  mornaça da cidade e teimavam em enfiar microfones e gravadores pelas goelas do Pai Natal, exausto do repasto da véspera. Os holofotes ofuscavam desabridamente sobre o saco do velho, até que o abriram sem pedir licença. Então o “São Nicolau”, que fizera a longa viagem desde as longínquas  terras nórdicas, começou a distender sobre a mesa da sala grande os sumptuosos brindes: uns pares de tripas, vinhos dourados e, sobretudo uma enorme bola de trapos, daquelas que a miudagem usa para  jogar futebol na esquina da rua. E foi uma festa. A festa da Festa. Abraços e beijos, juras de entrega mútua,  o velho fazia que chorava de contentamento, mas quem chorava mesmo lágrimas de ternura inaudita eram os feitores, os olheiros do palacete, ao mesmo tempo que “os tais”  --- feirantes comunicantes --- zarpavam para a cidade onde tinham a postos os quartéis e o armamento da propaganda.
Um fenómeno! Mais um extra-terrestre! O Pai Natal dignou-se descer à aldeia, antes esquecida e desprezada! Durante uma semana, o foguetório abalroou  as  praças públicas da urbe.
Mas quanto aos pobres aldeões, os caseiros da quinta, nada de novo: nem benesses, nem novas nem mandadas. Tudo como dantes. Os mais velhos, sábios da terra, meneavam a cabeça e olhavam com desdém o falso Pai Natal, à saída da quinta. E comentavam entre dentes e sarcasmos:  esta gente  não aprende nada. Tantos benfeitores por aqui passam, tanto nos ensinam e desenvolvem, mas “os tais” pouco ou nada ligaram, afogueados que andam sempre atrás das pegadas do Pai Natal das tripas. Quando é que isto acaba?... Acabou a cena, mas foi o Pai Natal que levou o saco cheio para casa.
         Por qui fica a laracha, que tanto faz rir como faz zurzir. Quem tem ouvidos de entender, enfim, que entenda. E dê largas ao mote  aqui deixado, na sequela do velho filósofo grego: Ridendo castigo mores!
03.Dez.15
Martins Júnior