sábado, 5 de dezembro de 2015

CANTEM-ME UMA CANÇÃO DE NATAL, MESMO DISTANTE!


“Porque  hoje é sábado, amanhã domingo” --- diria com Vinícius de Morais --- a leitura é breve e, com ela, breve será a escrita. E também porque há um quase-tédio deslizante nestes dias em que oficialmente só se fala de contas, cifras, deficits, tratados orçamentais. Sinto-me, pois, metalizado, cifrado, taxado. Em parlamentos e gabinetes executivos, só se ouve falar em Programas, Orçamentos e “almofadas” financeiras, mesmo fugazes ou inexistentes. Não sei se o mesmo se passa com o comum dos cidadãos, mas o facto é que chega a provocar carradas de tédio e descrédito o ruído sem tréguas que nos massacra  os ouvidos e a mente nestes que são os últimos dos trezentos e sessenta e cinco dias de 2015.
E se sairmos dos corredores  governamentais para a praça pública, o rumor dos  metais sonantes barra-nos o caminho para onde quer que vamos. São as IPSS, são as Misericórdias, são os Bancos, são as Empresas.  As tarifas,  os transportes,  as alcavalas à-última-hora sobre contratos já escriturados. Sempre o garrote dourado do lucro a passar-nos a laçada pelo pescoço!
É verdade que tudo isso é pão nosso de cada dia, sem o qual a vida não marcha.  No entanto, por favor, parem um pouco. Dêem-nos uma luz ao fundo do túnel. Soltem-nos desta prisão que tem tanto de prata como de imundície e corrupção. Cantem-nos, ao menos,  uma melodia dos natais longínquos…  Mas, que digo eu?!  Outra vez tropeço. No Natal, Porque o Natal, também ele, está inquinado de  polvilhos mercantis, trocas e baldrocas, fitas desencarnadas, meros formalismos comerciais. Aliás, o Papa Francisco foi quem, um dia destes, falou dos desperdícios supérfluos, fogos fátuos, em que se transformou o Natal.
E lá aparece  a religião ou as religiões a acompanhar a banda. Vem de longe este instinto da economia financeira apoiada em princípios religiosos. Recordo o “espírito do capitalismo” ou a “ética protestante” de que nos fala Max Weber, citando Benjamin Franklin: “O dinheiro pode produzir dinheiro que, por sua vez, produzirá mais dinheiro, e assim sucessivamente…. Um homem não pode negligenciar que as mais pequenas acções têm influência sobre o seu crédito financeiro”, a cujas máximas Kumberger acrescentou: “Do bezerro faz-se sebo, das pessoas faz-se dinheiro”.
Não pretendo ir tão longe nesta incursão sobre o “capacete” metalizado que governantes e especuladores nos envolvem e, se possível, nos querem sufocar. Apetece repetir a  velha máxima: “Nem só de pão vive o homem”. Vive de ideais, de sensibilidade, de amor, de  poesia. Enfim, alimenta-se de sonho e utopia. Mesmo que a turba ignara lhe chame “loucura”.  Faz falta ouvir um  outro canto novo, que nos traga nesgas de esperança não na barriga opulenta  ou no maço de notas avaras, mas no espírito que toca mais além, que “vê o invisível” e faz descobrir dentro de nós e no abraço universal um sentido maior de aqui estar. Sob pena de nos destruirmos, sem nunca alcançar o trono para que fomos feitos.
Já que falei em “utopia”,  ninguém como Fernando Pessoa poderá informar-nos:
          Minha loucura, outros que me a tomem
         Com o que nela ia.
         Sem a loucura, que é o homem
         Mais que a besta sadia,
         Cadáver adiado que procria?
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05.Dez.15

Martins Júnior