quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

“VIRGEM DO PARTO, OH MARIA”! Este planeta --- uma imensa maternidade


Em toda esta nação de Santa Maria não há povo tão  madrugador como o do arquipélago da Madeira!
É o que certamente dirá qualquer visitante, venha ele do continente português ou fora dele. E tem razão. Quem percorre, de agora  até ao Natal, as cidades e aldeias das nossas ilhas há-de avistar-se com  romarias e cantares, aqui, acolá, mais além, ininterruptamente, tal como sucede a quem faz uma viagem intercontinental e vê lá do alto o sol nascente, surgindo à compita na crista de cada fuso horário percorrido.
A nossa gente ama o mágico, o secreto sortilégio da aurora que vai nascer. Faz mesmo lembrar as luminárias de outrora, os ritos inebriantes das eras pagãs, sobretudo o dies natalis solis invicti --- “O dia do nascimento do sol invicto”, alusivo ao solstício de inverno e que terá sido absorvido pelo Natal do Menino. É bonito de se ver o povo na sua estatura sacro-profana, dando largas à alegria que o liberta de traumas e medos do quotidiano onde tantas vezes resignadamente vegeta. Já não direi o mesmo quando  à  “Missa do Parto”, que virou moda, se atrelam instituições  estranhas à comunidade,  perdendo-se aí a típica    espontaneidade popular. É saudável e reconfortante ver  a comunidade intacta e unida no seu respiro matinal.
Mas seria uma grande pena se os animadores-figurantes do folclore mariano ficassem  por aí, no arraial ligeiro de chocalhos e machetes. Porque a devoção à Senhora do Parto condensa, desde tempos imemoriais, a intuição e a sensibilidade telúrica de um povo que ama a vida incarnada num novo “pequeno-grande ser” que nasce sobre a terra. Interpreto como um poema, quase-epopeia, a saga de quem rasga o ventre materno para pegar no facho da vida e iluminar a noite escura do planeta. Sem parto não há mundo nem há vida.

No humilde templo onde também se festeja a Senhora, chamada do Amparo, é esta a palavra-passe que vai abrir o computador das nossas mentes durante estas madrugadas. O Parto ! --- início e meio ecológico onde cada um de nós faz ressurgir e crescer “a ânsia de subir e a cobiça de transpor”, como triunfalmente cantou  Goethe,  no seu “Fausto”.
Vamos reflectir e descobrir que este Planeta é uma imensa e colossal Maternidade onde todos nós somos parturientes do futuro, criadores do amanhã: somos todos e simultaneamente dadores e beneficiários, progenitores e herdeiros. A terra inteira está grávida de sonhos e tesouros que esperam por nós para ver a luz do dia!
         É a nossa essencial  homenagem à Senhora e o que Ela de nós mais espera.  E depois, cá fora, o povo espontaneamente confirmará, com euforia e substância, a alegria natural de co-participar no renascimento da Vida!

17.Dez.15
Martins Júnior