segunda-feira, 21 de março de 2016

1 – 5 – 100: CHUVA DE PRIMAVERAS!


Abracei a árvore da Primavera. E logo dos seus ramos seculares caíram cem estrelas, uma a uma luzindo nos meus braços.
Poderia começar assim o poema que ontem, domingo, na transição do equinócio solar, aconteceu no seio desta comunidade da Ribeira Seca. Diante dos nossos olhos – e foram muitos, muitos – desfilou o mistério da Vida: desde o cordão umbilical preso à terra-mãe até aos nimbos que se evolam na longínqua estratosfera. Vimos todos passar a Primavera viajante ao longo das cem estações do Tempo. E que beleza, com sabor a nostalgia e renascença, que profundidade no olhar de quantos contemplaram a latitude e a longitude plenas da existência humana!
Não me apetecia descer deste voo espacial que nos proporcionou aquela hora de encantamento. Mas é preciso  decifrar e transmitir o simbolismo deste dia estruturalmente ímpar, para multiplicar o êxtase e a poesia entre todos os que se juntam ao redor desta mesa em que, dia-sim-dia-não, nos encontramos.  
Estou descrevendo a emoção que me envolveu no templo da Ribeira Seca durante a comemoração de três efemérides entrelaçadas num só tronco  -  a Primavera da Vida:
Foi a celebração do centenário da nossa vizinha e paroquiana Dona Guilhermina de Olim. Depois, o baptismo do Marcy, de cinco anos de idade. Trinta minutos após, novo baptismo, a Mariana, de um ano apenas.

Quem seria capaz de ver este “filme” gradativo  sem sentir-se transportado mais alto e mais além?! Ter ali, na nossa mão e no nosso olhar, os pontos cardeais da condição humana!... Adivinhar e tocar a eloquência daquelas rugas que, há cem anos, exalavam a candura matinal de uma vida em botão ! ... E, à mesma luz, prognosticar os passos futuros de quem agora vê diante de si as pegadas que outros já pisaram na vida!... Até quando? Cinquenta?... noventa?... até aos cem e talvez mais?... Misterioso o GPS de cada existência, mas tão igual nos seus princípios e fins! Aqui apetece evocar Fernando Pessoa: “Para escrever a minha biografia bastam duas datas, a do meu nascimento e a do meu fim, tudo o resto é meu”. De quem fez cem anos, já sabemos o que foi “seu”. E qual será o  de quem balbucia as primeiras boas-vindas de um incógnito amanhã,  aberto  à sua frente?
Exaltante e enternecedor abraçar os polos dos dois hemisférios existenciais! Concluir que, afinal, somos todos atletas olímpicos  correndo num mesmo estádio, em que os que vão entregam aos que vêm o facho luminoso da História. Afinal, “nenhum de nós é uma ilha”, repetindo Thomas Merton. Pelo contrário, somos todos UM SÓ, no incomensurável cortejo do Tempo, umas vezes subterrâneo amargo, outras vezes solarengo e triunfal  “como em Dia de Domingo”!
E foi no Domingo das Palmas esta ditosa chuva de Primaveras. Domingo evocativo da entrada em Jerusalém, onde a força de um Povo Unido suplantou os carros de guerra, as coortes  romanas e os arsenais de ouro e prata com que os poderosos maquinavam assassinar o Profeta da Libertação e da Vida.
Celebrar no mesmo abraço um ano, cinco anos, cem  anos,  é também erguer a vitória de um Povo, fruto da sua vitalidade primaveril, sempre antiga e sempre nova!
Parabéns à Vida!

21.Mar.16

Martins Júnior