sábado, 19 de março de 2016

PAIS – PATENTES – PATERNIDADES


               Não há Dia do Homem, mas há-o da Mulher. Porque o Homem é o tal, o maior, o auto-suficiente. A Mulher é a qual, serva, subalterna e carente. Esta a mentalidade que se enroscou na raiz e no tronco das sociedades, mesmo as ditas civilizadas. Talvez por isso, hoje, invertem-se os termos: o Dia do Pai subalterniza-se face  ao seguro e alçado Dia da Mãe. Apertado e esmorecido é o Dia do Pai.
         Mas não deveria ser assim. Porque a paternidade não se confina aos convencionais limites da procriação biológica. Vai muito mais além e abarca o início e o fim do processo criativo de toda a produção humana ou de toda a transformação da natura.. Inscrevo, pois, à cabeça desta incursão o dado adquirido de que se todos os dias são-no da Mãe, pela mesma razão, todos são Dia do Pai. Seja maior ou menor, homem ou mulher, seja planta, flor, animal ou mineral, a paternidade cria patente, descoberta, semeadura.
          É nesta grande angular, de amplitude cósmica, que vejo  o magno estatuto da paternidade. Há que pedir contas ou, pela positiva, tecer palmas e hossanas nas aras onde se cultua a patente paterna. Aos  helénicos  Pais da Filosofia, Platão e Aristóteles; ao Pai do sobre-dotado Povo Hebreu, Abraão; ao Pai da Europa, S. Bento: ao Pai da Nação Portuguesa, Afonso Henriques: ao Pai do Teatro em Portugal, Gil Vicente; ao Pai precursor da navegação aérea, Bartolomeu de Gusmão; Ao Pai da Relatividade, Albert Einstein;  ao Pai do Serviço Nacional de Saúde, António Arnaud. E num mesmo feixe, a todos os Homens e Mulheres da Ciência, da Pedagogia, da Música, do Cinema, arautos de um ,mundo novo, vai hoje todo o aplauso do Universo:
         Mas àqueles que “semearam sombras e quebrantos”, desde o genocídio mais primitivo até à malvadez do nazismo, das ditaduras, do jihadismo, a esses há que pedir contas severas, bem como aos satânicos mensageiros do obscurantismo religioso. Pais cegos que fazem filhos cegos, monstros que procriam outros monstros, pais assassinos que só trazem filhos no ventre para matá-los à nascença.. Quem os leva à barra do Tribunal da Humanidade?... Quem os amarra às grades dos fornos crematórios para contemplarem os antros da crueldade onde destruíram vidas inocentes? … Quem os pendura nos muros da vergonha ou nas muralhas de arame farpado para verem onde morrem, exangues, as vítimas das guerras, das fomes que eles próprios armadilharam com as mãos peçonhentas?...
         Eu sei e peso a violência dos anátemas que acabo de escrever. Mas infinitamente mais violentos foram e continuam a ser os traumas, as crateras, os abismos de horrores que sadicamente abriram no coração da História e nos corações das gentes. Para que, ao menos, os filhos e herdeiros arrepiem caminho e reparem com equidade os danos que tais pais infligiram.
         Dia, hoje, em que é posta no livro das horas e no filme dos dias a nossa patente criadora, a nossa paternidade interventiva. Cada palavra, cada gesto, cada linha que se escreve, tudo o que é fruto do nosso respiro  assume-se como um filho saído do mais íntimo que temos e somos. Sejas mulher ou homem, sejas jovem ou ancião, estás colocando no calendário da História a marca do Dia do Criador, o Dia do Pai. Tal como o fizeram Pierre e Marie Curie, os Pais do novo elemento rádio, ganhando o Prémio Nobel da Física, em 1903, pela excepcional descoberta  que abriu caminho para promissoras e decisivas conquistas da ciência em prol da humanidade.

19.Mar.16
Martins Júnior