quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O DIA EM QUE A NOSSA MEMÓRIA É A FACULDADE DE ESQUECER


Pertence à literatura paralela, sobejamente conhecida, o axioma supra-citado. Achei adequado trazê-lo hoje ao nosso convívio, para dele extrairmos ilações úteis, coladas a nós próprios sem que disso tomemos inteira consciência. Dotada de incontáveis e misteriosos megabytes, a banda larga da nossa memória chega a um dado tempo crono-psicológico em que os neurónios são obrigados a “descarregar” informação acumulada para dar espaço a novas mensagens que, por sua vez, conhecerão o adequado “cl”. É o normal processo neurológico em marcha. Hoje, porém, 21 de Setembro, a comunidade científica e nós, seus utentes, nos confrontamos com um outro processo – este, degenerativo e destruidor da personalidade – chamado síndrome de Alzheimer, cada vez mais disseminado nesta era de inimagináveis conquistas tecno-científicas. Ironia das ironias: quanto mais se avança na grande escalada do elixir mágico que cura e transcende os vírus malignos, mais se degrada e apodrece a potência criadora da mente humana! Caso para recordar com Luís Vaz de Camões: “Vejam agora  os  sábios na Escritura/ Que segredos são estes da Natura”…(Lus. V,22).
 Uma palavra de respeito e profundo apreço por aqueles que, no decurso de anos e anos de luta e sofrimento, esgotaram-se, ao ponto de não  se reconhecerem, nem a si, nem aos outros. Na mesma linha e com redobrada homenagem a todos quantos dedicam todas as suas forças como cuidadores incondicionais dos seus pais e avós.  O diário El País, na sua edição de hoje conclui que “em 94% dos casos, os parentes tomam a seu cargo o cuidado da pessoa que sofre dessa enfermidade” e constata a extraordinária entrega de Juan Pedro Garcia, de 41 anos de idade, que desde 2009 deixou tudo para cuidar da sua mãe Antonina Hernandez, de 82 anos, afectada pela fatídica doença. E outros casos haverá entre nós.
Mas o Alzheimer  - ainda  um outro! -  que me persegue todos os dias, cai-me hoje diante dos olhos e arrebata-me os nervos. Ao contrário do Alzheimer fisicamente visível, estoutro, em vez de fazer-me esquecer, desperta e aguça-me a memória, faz-me bradar ao silêncio do meu quarto e impele-me a sair à rua, pegar nas armas da consciência humana e denunciar “até que a voz me doa” o Alzheimer auto-provocado, insensível, globalizado. Toma outro nome, eufemisticamente designado por “Indiferença”.  Foi  Francisco Papa quem mais ostensivamente  denunciou a todo o planeta, sobretudo aos dominadores dos povos, a “Globalização da Indiferença”! Com a autoridade moral e factual que lhe assiste, lançou o ataque frontal contra esta espécie maligna do Alzheimer pré-elaborado, assumido, legislado.
Para  os  amigos que me acompanham dia-a-dia à mesa deste convívio vespertino, nem é preciso especificar. Tanto quanto eu, vêem e sentem o maquiavélico tropel dos que fecham os olhos, tapam os ouvidos e anestesiam o espírito diante do que se passa à porta de casa. Poderia lembrar todo esse estendal de Congressos, Cimeiras, Protocolos, Acordos de cessar-fogo – assinados hoje e  insolentemente varridos amanhã da memória e dos actos! Os magnatas da finança metidos no bunker dos  offshores e dos bancos que devoram as poupanças  dos lesados;  e estes, por sua vez, que querem sangrar o povo, exigindo-lhe devoluções que não lhe dizem respeito.
Na esteira do Papa Francisco, aqui entram os “sacerdotes e levitas” que vêm o samaritano moribundo e dele se esquecem passando ao largo. Entram os que, armados de “misericórdia” até à gola,  lêem nos púlpitos o Evangelho  e  deixam-no no congelador das sacristias para voltar a tirá-lo  no dia seguinte, mecanicamente, sem memória nem coração, num ritual de contrabandistas refinados, contumazes, o que nos  provoca mais raiva que tédio. O seu silêncio cúmplice, na palavra e na acção, fazem deles narcotizados profissionais do Alzheimer global.
E nós, também, cada um de nós, no recanto mesmo  longínquo deste mundo doente por opção, decidamos  atacar esse vírus da inércia e do laxismo, para  nos mantermos imunes, sempre  de memórias vivas,  vigilantes e saudavelmente interventivos.

         21.Set.16

         Martins Júnior