sábado, 1 de outubro de 2016

ÀS PORTAS DO SILÊNCIO, O TRINAR DAS GUITARRAS – No dia novo do novo mês


À janela de Outubro, abro lentamente a cortina e leio o som escrito sem partitura na “Música Aquática” de  Haendel, sinto o verso branco sem linhas  lavrado no “Livro em Branco”  das horas felizes. Porque hoje escrevo sem corpo, tão forte  e possessiva é alma que me toma.
Música, Água, Idade longa! É essa  a alma que veste o corpo deste dia, numa tríade mágica que transforma tudo em páscoa renovada. Até das próprias cinzas nascem manhãs de primavera. Falo assim porque não me saem nem jamais sairão de dentro de mim os acordes de uma guitarra esvoaçando no terreiro da morte. Isso mesmo. Ontem, quando a urna da saudosa octogenária Professora D. Ivone preparava a entrada diante das portas do silêncio sem retorno, em vez de rezas perdidas ou ladainhas de prantos, soltam-se as cordas das guitarras sustentando a voz de Amália: Foi por vontade de Deus… Coração independente … Pára, deixa de bater… Eu não te acompanho mais…
Mais intensa e avassaladora que qualquer outra oração do ritual seco, inerte, dos funerais! Lembrei-me do Desfado que o amigo Paquete Oliveira escolheu para abrir a sua e nossa marcha comum, na Basílica da Estrela, rumo ao éden de Olivais Sul, a mansão adequada à sua identidade onomástica. Mais impressivo, ainda, o desejo expresso daquela mãe que pediu aos filhos, ainda adolescentes, nas vésperas do último suspiro: Quando o meu caixão sair da igreja da Ribeira Seca, digam ao senhor padre que ponha a tocar a nossa canção “Festa/ Festa do Povo/ O Povo que trabalha/ E faz o mundo novo”. E justificava: “É essa canção que me tem  aliviado as terríveis dores com que  vou morrer”. Que sereno estoicismo – mais que estoicismo – energia vital! E assim se cumpriu a última vontade.   
Enquanto, em 1 de Outubro, o último terço do ano aponta a porta de saída de 2016,  “os que da lei da morte se vão libertando” entregam-nos numa bandeja de prata  o testamento da vida, o respiro do optimismo e a força de saltar as barreiras desta pista onde todos corremos. É por isso que escrevo  mais com as asas da alma do que com os dedos do corpo. Das cinzas da  morte renascem centelhas da Vida!
É o que vi – todo o mundo viu e, julgo, muitos  nem queriam acreditar  –  no funeral de mais um obreiro da Paz, Shimon Peres, quando os dois inimigos figadais, Benjamin Nathanael e Mahmoud Abbas – apertaram as mão e balbuciaram, num fio de voz pacífico, inspirador – este  novo “grito do Ipiranga” entre a irredutível Israel e a massacrada Palestina: “Há quanto tempo… Há quanto tempo”…  Este  desabafo de saudade de dois povos irmãos, há tanto tempo desavindos, talvez seja a primeira página do testamento de Paz que lhes deixou Shimon Peres.
Para quem continue céptico diante deste gesto promissor relembro o aperto de mão – tão mal interpretado por muitos analistas – entre Barack Obama e Raul Castro, no dia do funeral do enorme génio do Consenso entre Povos desiguais, Nelson Mandela. Afinal foi esse o prenúncio do “inconcebível” Acordo de Paz assumido mais tarde entre Cuba e os EUA. Quem diria?...
É por isso que continuo a escrever nas estrelas e não nos epitáfios da morada dos mortos. É por isso que não nos deixa parados esta canção batida, à beira da tumba: “Festa do Povo que trabalha e faz o mundo novo”.  Na transição de 1 para 2 de Outubro, oxalá que o referendo do povo colombiano confirme o abraço, recentemente selado e proclamado, entre o “Timochenko” das FARC e o presidente da Colômbia, José Manuel dos  Santos.
E Oxalá – agora para nós – que o fio das lágrimas dê lugar às cordas de uma guitarra, como no dia claro do adeus à Prof. D. Ivone!

01.Out.16
Martins Júnior