quarta-feira, 5 de outubro de 2016

ESTÁTUAS MUDAS E FRIAS NO CONGELADOR DO PASSADO - Anatomia breve a todos os “5 de Outubro”


Múmias – em vez de estátuas – era o que pediam as teclas do computador, visto ter sido condenado o “5 de Outubro” à vala comum, de onde saíu agora, após três anos de hibernação, igual aos outros 365 sem rosto. Preferi chamar-lhes “estátuas” a todas as  datas sebastianistas que dão pelo desejado nome de feriados nacionais.  No entanto, apus-lhe os qualificativos “mudas e frias”. Porque é   assim que elas ficam quase sempre  no subconsciente das tradições, sem que a grande porção dos utentes se interesse minimamente  em perscrutar-lhes a raiz e os frutos. Por isso, aí ficam embalsamadas no “congelador do passado”.  Até que toquem as sinetas oficiais para saírem à rua em palanques vistosos e elas, não menos vistosas, vestidas de lantejoulas verbais que saem dos discursos de encomenda.
O Povo – a turbamulta dos beneficiários – esse dispersa-se pela praia soalheira, como a de hoje em todo o território nacional, ou pelos trilhos das montanhas ou,  a grande mole, pelo formigueiro dos  corredores dos centros comerciais.        Mas, que lugar ocupa então o “5 de Outubro”  no “animus” dos portugueses neste dia que é seu, “somente seu” e de nenhum outro país?... Que lhes sobe ao pensamento quando o despertador adormece e se esquece de acordá-los, como no ano transacto, chamando-os ao trabalho?...E o fim de um dia de mais saúde física e psicológica, quem ousa perguntar a quem devem esta folga?... Ao governo da coligação, não, porque já ultrapassou os cem anos a sua longevidade. Do céu também não desceu. Do acaso, muito menos.
Tantas palavras para chegar a uma conclusão, tão clara e única como esta: Alguém, gente como nós, arrancou do calendário a folha esquálida e disforme em que os portugueses, mirrados de abandono, apodreciam – e em seu lugar plantou o verde de uma árvore, regada com o sangue anónimo de toda população sofrida. Mais forte e vermelho foi o daqueles que tudo arriscaram para que o Povo Português deixasse de ser manta esfarrapada sob os pés de uma só família - o Monarca - e se tornasse bandeira verde-rubra flutuando sobre todo o azul do Mar Português, como expressão da Liberdade, Igualdade e Fraternidade comum aos países civilizados da Europa e do Mundo.
Necessário e útil será a pedagogia das escolas assinalar aos jovens os nomes, as passadas espinhosas, sangrentas até, de quantos fizeram a transição entre a Monarquia e a República, para nos identificarmos e saborearmos este dia memorável.
E a nós, adultos, compete-nos segurar o “5 de Outubro”. Porque sempre houve e sempre haverá um “5 de Outubro” –  quer no “1º de Dezembro” de 1640, quer no “25 de Abril” de 1974. E em qualquer esquina da história futura. Porque os genes da repressão e da ditadura, ínsitos num esconso labirinto do crânio humano, estão sempre em potência à espera da sua oportunidade. E ela surge quando nós adormecemos e acomodamo-nos.
Ser patriota é estar vigilante. Não o bajulado lamber da bandeira como a raposa à espera do bago de prata que cai dos anéis dos governantes. Deles falou e caricaturou  Eça de Queirós, quando os remeteu para o caixote dos “patriotaças, patrioteiros e patriotarrecas”.  Mas daquele amor pátrio que se traduz na vigilância inteligente aos rumos do nosso país, do nosso concelho, da nossa freguesia, do nosso sítio. Na escola, na oficina, no campo, na fábrica, no escritório, na rua.
Por outras palavras, foi essa mensagem do Prof. Rebelo de Sousa, Presidente da República no seu discurso, conciso e incisivo, deste “5 de Outubro”. Para que não seja mais uma estátua muda e fria, mas se alevante como o corpo vivo da alma de Portugal!

05.Out.16
Martins Júnior