sábado, 15 de outubro de 2016

MAR AGITADO NA “BARCA DE PEDRO”


Nada melhor que um provisório agitar de ondas numa manhã aberta de luz oblíqua. Porque aí  vêem-se  os contornos das falésias, aí  separam-se  as águas e aparta-se a promiscuidade estagnada. Provisório – disse – no sentido de metódico e didáctico, tal com a dúvida cartesiana que nos descobre a verdade.
Estamos a viver, na hora presente, essa manhã da descoberta. Ela surge ciclicamente em cada pico da história. Mas  esta é a nossa hora. Na ciência, na tecnologia, na medicina, até na atribuição dos Prémios Nobel, como  nos demonstrou a Academia sueca no segmento da literatura. É na agitação das ideias e das opções que se forjam os rumos do futuro.
Hoje, no redemoinho turbulento da maré vejo a milenar  “barca de Pedro”, a Igreja Católica. E vejo-a através de um vídeo que o sempre actualizado Padre José Luís Rodrigues teve a gentileza de partilhar: Aconselho-o a todo o homem, cristão ou não, que quer encontrar a verdade separada da mentira, o trigo limpo expurgado do joio. É o colóquio – não lhe chamo sermão, porque é muito mais que um discurso anémico – dirigido a eclesiásticos e crentes no dia da Senhora da Aparecida. Que tratado de clarividência, que bravura de carácter, que coerência evangélica a do bispo Angélico Sândalo Bernardino. Palavras de Anjo libertador, sabendo ao sândalo rude e aromático da Verdade, denunciando o charco social da sociedade brasileira, inclusive a de certa prática religiosa, em que o “regime capitalista em que vivemos mata a dignidade da pessoa humana”. O convite a um jovem padre, de etnia negra, ali presente, para junto de si, abraçando-o efusivamente e apontando para a imagem: “A Senhora da Aparecida também é preta e Ela não suporta a segregação, seja  qual for”! Perante tanta coragem, só me aparecia na retina o falecido Hélder da Câmara, o chamado “bispo vermelho”, quando o ouvi falar em Olinda e Recife, em 7 de Setembro de 1972, dia da Independência do Brasil. É assim a hierarquia brasileira, com bispos da estirpe de Duarte Calheiros, António Fragoso e muitos outros que bateram pé nos tempos da ditadura militar (1964-1985) e que sofreram os garrotes do poder autocrático de então.
O comentário do Padre JLR, corroborado por muitos seguidores, terminava com esta ousada incógnita: “Quando é que em Fátima ouviremos um bispo, um cardeal, com uma mensagem tão clara e  coerente com o Evangelho”?!
         Nem de propósito, abro  o  Le Monde , que traz em grande manchete o seguinte título “Le cri d’alarme des évêques de France” -  O grito de alarme dos bispos franceses – referindo-se ao documento que o presidente da Conferência Episcopal Francesa, Georges Pontier, arcebispo de Marseille,  apresentou publicamente em 13 de Outubro. Raridade num jornal agnóstico, são dedicadas duas páginas inteiras e um editorial. Do texto integral, que merece uma leitura atenta, recorto  duas citações: “Num mundo que está em mudança, é preciso reencontrar o sentido das política”. E ainda: “O contrato social tem de ser redefinido”.
         Volto ao comentário de JLR e convido quem me lê: façam o paralelo entre o vigoroso texto do episcopado francês e a pomposa encenação, no mesmo 13 de Outubro em Fátima, que a nossa comunicação social titulava assim: “A peregrinação  é presidida pelo Secretário de Estado do Vaticano”.  Semelhante contra-senso seria capaz de fazer desabar o tecto da nova basílica. Mas o que é isto? A mensagem de Maria, Mãe de Jesus, escoltada, presidida por um Secretário de Estado?!... E de que Estado?... Alguma vez, Pedro, o pobre pescador da Galileia, e o seu Mestre sonharam  ter embaixadores, os “núncios apostólicos” , e secretários de Estado, os cardiais?... É caso para  orar à Senhora  que repita hoje  o pedido que fez aos  três humildes  pastorinhos: “Digam às pessoas que não ofendam mais  Nosso Senhor, porque ele já está muito ofendido”.
         Neste agitar de águas contraditórias,  agradeço a aparição de homens, como o bispo Angélico Sândalo Bernardino  e como os bispos franceses que nos ajudam a separar o trigo do joio. Confio ainda que o nosso J: Cristo reincarnado, parcialmente, na vida e na acção deste  Francisco Papa, quando vier a Fátima em 13 de Maio de 2017, nos ajude a dissipar as trevas, meta sangue novo na hierarquia e nos cristãos e purifique o nosso olhar para descobrirmos a manhã luminosa da Verdade.

         15.Out.16
         Martins Júnior